Advento das Três Calamidades

Capítulo 611

Advento das Três Calamidades

—...Faz tempo que não nos vemos — murmurei, olhando pela janela do carruagem enquanto encarava a paisagem familiar do lado de fora.

Apesar de ter dito isso, não fazia realmente tanto tempo assim desde a última vez que vi a Academia. Na verdade, tinha sido apenas uma semana.

Mas parecia que tinha se passado uma eternidade.

— Lembre-se, tente o máximo possível não revelar nada sobre sua identidade. Seu objetivo aqui é entrar na fenda e acessar a dimensão espelho.

— Eu sei.

Não precisava que Noel me lembrasse. Na verdade, ele vinha me alertando sobre isso várias vezes.

Será que ele não confiava em mim?

— Não, na verdade, é mais como se ele fosse extremamente paranoico.

De fato, ele não queria passar por tudo aquilo de novo. Eu entendia — e, por isso, sem dizer uma palavra, fechei os olhos enquanto a carruagem avançava.

Embora tivesse me esforçado para manter a calma, era difícil permanecer assim, pois meus pensamentos continuavam a vagar até a Academia. O que aconteceria se eu a encontrasse? E eles? Será que me reconheceriam?

De modo realista, isso não deveria ser possível — Noel tinha tomado medidas pessoais para esconder meu rosto. Mas será que ele realmente conseguiria mantê-lo escondido deles?

Talvez no passado, mas o Noel de agora...

— Chegamos.

A carruagem parou suavemente, e a porta Rangeu ao se abrir. Noel saiu primeiro, permitindo que a luz do sol entrasse.

Depois, virou-se e olhou para mim.

— Está pronta?

— ...Estou.

Assenti silenciosamente enquanto também saía, permitindo que o brilho do sol me envolvesse completamente.

Então, ao virar a cabeça, vi os portões da Academia, tão familiares.

Senti meu peito apertar ao vê-los, enquanto seguia 'Aldric' por trás, com vários acompanhantes acompanhando.

E, em pouco tempo, ao chegar diante dos portões da Academia, uma figura apareceu.

Quando ela surgiu, foi como se o ar tivesse sido sugado dos meus pulmões, deixando-me sem fôlego. Com seus cabelos pretos e suaves dançando ao vento, ela chegou na nossa direção, sua aparência deslumbrante chamando a atenção dos poucos que estavam por perto.

Minha mente ficou vazia diante da visão dela.

...Mas, ao mesmo tempo, meu coração dói.

— Obrigada por terem vindo.

Ela cumprimentou Aldric primeiro, quase sem nos olhar. Seus olhos cruzaram com os meus por um breve instante antes de seguir adiante, lançando uma olhada rápida aos outros.

— Então ela não percebeu a disfarce.

Parte de mim ficou feliz com isso, mas, ao mesmo tempo, me sentia perdida.

Ao observá-la, absorvendo aquela expressão fria tão familiar, uma ideia surgiu na minha cabeça — por que ela ainda parece a mesma?

Ela não parecia ter mudado nada.

Era quase como se minha 'morte' não a tivesse afetado em absoluto.

Eu sabia que, provavelmente, isso não era verdade, mas e se fosse? E se ela realmente não se importasse?

Revisando como ela tinha me encarado antes, meus lábios tremiam levemente.

— ... Talvez seja mesmo assim.

Então fechei os olhos e respirei fundo. A dor no meu peito intensificou-se ao pensar nisso, e naquele momento, não tive escolha senão fazer o que tinha que fazer.

Desliguei todas as minhas emoções.

Desapareci.

Essa dor...

Eu não aguentava mais.


*Puff*

Uma fumaça se espalhava dentro de uma grande sala comum. Com os olhos distraidamente fixos na fumaça, Kiera levantou a mão e torceu o pó de fumaça ao redor de seu dedo.

Ela ficou lá, com os olhos perdidos em um espécie de névoa, até que uma voz quebrou seu devaneio.

— Kiera?

As sobrancelhas de Kiera se franziram levemente.

Era aquela voz irritante...

— Kiera...?

— Ouvi da primeira vez.

Kiera desviou o olhar da fumaça e fixou-o em Aoife. À primeira vista, ela parecia normal, mas as pequenas marcas de olheiras sob os olhos eram difíceis de ignorar.

As notícias da morte de Julien tinham sido mantidas em segredo para a maioria, mas eles já sabiam.

...Aoife foi a primeira a revelar isso para todos.

Como princesa do Império, ela foi naturalmente informada. Tiveram instruções para guardar o segredo, mas Aoife, fiel à sua personalidade barulhenta, compartilhou com os demais, insistindo para que ninguém dissesse nada.

Obviamente, a notícia chocou a todos.

Porém, o choque durou apenas alguns segundos, e todos simplesmente ignoraram a informação. Não era a primeira vez que Julien sumia ou morria.

Porém...

— Desta vez, ele não sumiu. Encontraram seu corpo sem batimentos ou respiração.

Ainda assim, isso não foi suficiente para convencerem. Julien era uma barata. Ele não era do tipo que morria tão de repente e de forma aleatória.

Ele não podia morrer assim.

Porém então...

Todos viraram-se para Leon.

O único que nunca tinha demonstrado emoções estava, finalmente, mostrando sinais de fraqueza, de seu rosto exausto até o olhar vazio e distante.

E foi quando eles perceberam de verdade.

Julien.

...Ele realmente estava morto.

— As aulas vão começar em breve. Você vai faltar?

— Provavelmente...

Kiera respondeu distraidamente, seu olhar voltando para a fumaça que se formava no ar. Honestamente, o semestre quase acabara, e as provas finais já estavam na esquina. A essa altura, as aulas pareciam inúteis.

Mais sessões de revisão do que realmente aulas.

Além disso, ela aprendeu a estudar sozinha agora. Aprendeu com...

*Puff*

Kiera deu mais uma tragada no cigarro enquanto Aoife a observava com cara de preocupação. Ela ia dizer algo quando uma presença atrás dela a fez parar.

— O que vocês dois estão fazendo?

Era Evelyn.

Ao olhar para ela, vendo seu rosto pálido, Aoife soube que, na verdade, o motivo era Leon. Ele ainda não tinha saído do quarto após a notícia da morte de Julien.

Ele mal tinha comido também.

Aoife respirou fundo e deu uma breve explicação da situação.

— Eu só estava perguntando se a Kiera quer ir para a aula. Ela não quer.

— Ah, entendi.

Evelyn pareceu compreender enquanto abaixava os olhos.

Embora não fosse próximo de Julien devido à sua aversão a ele no passado, ela tinham se entendido melhor recentemente. A notícia da morte dele a chocou, mas ainda não tinha caído de fato para ela.

Porém, quem tinha sido mais impactado era o Leon.

Ele havia se fechando completamente, preso em um ciclo de autoinculpa, murmurando coisas como: 'Foi minha culpa... causei isso. Se eu fosse melhor...' repetidamente.

Independente do que ela dissesse, ele não escutava, mergulhado mais fundo nesse ciclo de culpa.

Ele foi, sem dúvida, quem sofreu mais com a morte de Julien.

...E, surpreendentemente, também Kaelion e Caius. Os dois pareciam também ter sido afetados.

Isso pegou todos de surpresa. Principalmente considerando como seus laços eram no começo.

Desde quando eles ficaram tão próximos?

Um silêncio estranho tomou conta enquanto as três garotas perdiam-se em pensamentos.

Até que,

— Bem...

Aoife quebrou o silêncio, deixando seus livros e anotações na mesa próxima e se acomodando.

— Como ninguém vai para a aula, acho que vou estudar aqui mesmo.

— Que se dane isso.

Kiera jogou o cigarro de lado.

— Prefiro estudar sozinha. Uma das razões de não ir para a aula é porque assim eu não precisaria ver seu rosto. Então, ficaria feliz se você, sabe...

Kiera fez um gesto de dispensa com a mão.

Aoife ficou com a expressão contrária.

— Você sabe que essa é uma sala comum, né?

— Sei sim.

— Então—

— Não muda nada o que eu sinto.

Kiera interrompeu novamente Aoife, sentando-se e passando a roupa. Ela pisou na ponta do cigarro, esmagando-o, e então se aproximou de Aoife com uma expressão claramente carrancuda.

— Se você fizer um único barulho, eu te mato.

— ...Que diabos...

Aoife olhou para Kiera com uma expressão de aborrecimento, murmurando algo como: 'Cadê o respeito? Sou uma princesa. Por que está falando comigo assim?'

Ao ouvir seu murmúrio, Kiera parou e a boca de Aoife se fechou rapidamente.

Então, ela sorriu de canto.

— Covarde.

Depois, ela se acomodou em frente a ela.

Observando a interação, Evelyn piscou lentamente os olhos. Não fazia muito tempo desde a morte de Julien. Ela esperava que as duas estivessem mais abaladas, mas, além de alguns momentos de silêncio, pareciam estar se saindo bem.

Ao perceber a expressão estranha no rosto dela, Kiera virou-se para olhá-la.

— O que foi?

— Não, é que...

— ... Você acha que estou muito normal após a notícia?

— Err...

A boca de Evelyn se contraiu, formando um 'X'. Ela foi pega de surpresa.

Kiera riu ao ver aquilo e, então, pegou um livro próximo antes de abri-lo.

— Sabe o que ele me disse antes?

Kiera murmurou, os olhos se movendo para as páginas do livro.

Ambas Aoife e Evelyn olharam enquanto ela fechava os olhos e se lembrava de uma conversa passada.

— A vida não para por nós.

— Ela segue adiante, implacavelmente.

— Assim como devemos.

— É sobre honrar o que foi, enquanto fazemos espaço para o que pode ser. É assim que alguém cresce.

As duas ficaram em silêncio, observando Kiera continuar.

— No começo, eu não entendia bem essas palavras, mas agora sim.

Kiera mais uma vez buscou explicar com os lábios cerrados.

— Há tempo e lugar para tudo, mas a vida não espera por mim, nem por ninguém. Não posso ficar parada no mesmo lugar, presa ao passado. Acabei de dar meu primeiro passo fora da linha de partida... e não posso voltar ao que era antes.

Ela tinha ficado tempo demais naquela linha.

Foi só recentemente que conseguiu passar dela. E tudo graças a ele.

E também por isso ela não voltou a ficar onde estava antes.

Porque ela cresceu além daquele ponto.

Ela—

Bang!

Um estrondo repentino assustou todos, e todos levantaram os olhares em direção às escadas, onde uma figura cambaleava escada abaixo.

— Leon!?

Evelyn e os demais imediatamente ficaram surpresos ao vê-lo quase segurando na barra de apoio.

Assim que iam se aproximar, viram-no levantar a cabeça, com os olhos vermelhos e sangue nos olhos.

— Eu...

Seus lábios tremeram, os instintos falando mais alto.

— Não posso estar errado.

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