
Capítulo 568
Advento das Três Calamidades
— O que... você quer matá-las? Você está louco? Está doido...!?
A reação de Kiera não foi surpresa — era a resposta natural de qualquer pessoa que ainda mantivesse a sanidade intacta. E isso até que era surpreendente, considerando tudo o que tinha acontecido recentemente com Kiera.
— Espera, você entende que elas são mais fortes do que a gente?
— Eu entendo.
— Ah, você entende.
Kiera suspirou aliviada, dando um tapinha no meu ombro com um sorriso.
Porém, aquele sorriso dela durou apenas alguns segundos antes de desaparecer, e ela agarrou meu ombro. Na verdade, não doía muito.
— Desgraçado, isso aqui não é um campeonato de pênis!
— O que isso—
— É o que estou dizendo: você não deve perder a cabeça só porque elas te ignoraram o tempo todo!
— Ah.
— Mesmo que a gente vá lá, o que poderíamos fazer? Dar uma cócega na bola deles?
Eu realmente não sabia bem como interpretar as palavras de Kiera ao ouvi-las.
Fora o fato de serem bem vulgares, elas... não faziam sentido nenhum. Mas, pelo menos, mostrava que ela tinha se acalmado um pouco.
Isso era bom.
— Digamos que a gente chegue perto delas. Não seria mais um peso pra ela...? Ela—
— Isso aqui não é exatamente uma questão de termos escolha.
De repente, interrompi Kiera.
Olhei para o horizonte, onde várias manchas piscavam entre as chamas, e apertei os lábios com força.
— Peso ou não, sua tia não consegue matá-las. O máximo que ela pode fazer é escapar, e até isso parece difícil. Não importa o que aconteça com ela, não dá pra fugir delas. Elas são mais rápidas e fortes do que a gente.
— Então...!
— Temos que matá-las.
Removi a mão de Kiera de meu ombro e abri os lábios para falar. Mas, ao olhar nos olhos dela, as palavras ficaram presas na garganta.
— ...Sabe de uma coisa? Esquece.
— Hã?
— Fica aí. Eu dou conta das coisas.
— Espera, o quê?!
Kiera tentou me puxar de volta, mas consegui evitar sua mão sem dificuldades.
Eu tinha planejado trabalhar junto com ela no começo, mas, ao pensar melhor, percebi que não era necessário.
Eu já dava conta sozinho.
Essa não era a primeira vez que passava por algo assim.
'De qualquer forma, ela só vai ser um peso.'
Essa era a dura verdade.
Kiera era forte, mas, ao mesmo tempo, não exatamente. Ela era forte para a idade, mas isso era tudo.
O máximo que conseguiria fazer agora era ajudar a me proteger do fogo, o que era desnecessário. Eu podia fazer isso sozinho.
'...Por que pensei em trabalhar com ela?'
Isso...
Dei uma última olhada em Kiera, que falava coisas como "O que você quer dizer com que vai cuidar das coisas? Para onde vai? Está louco?".
Silenciosamente, balancei a cabeça ao ver aquilo e me virei.
— Espera, você fala sério?
— Você está maluco!
— Volta aqui—!
Estava prestes a ir embora quando parei e olhei para trás. Ao ver a expressão de Kiera, pausei por um momento, lembrando de alguma coisa.
— Você decidiu ficar pra trás? Isso é—
— Aqui.
Uma agenda azul apareceu na minha mão.
— O quê? Mas o que é isso—
— É uma agenda que encontrei na sua casa. É da sua mãe.
— ....
A boca de Kiera travou abruptamente ao me olhar.
Forcei um sorriso.
— Caso algo aconteça comigo, vou te entregar. Assim, você consegue ver. Acho que... vale a pena dar uma olhada. Ainda que seja por cima, para o que tiver que valer.
Eu só dei uma olhada rápida nela, então não sabia o conteúdo, mas tinha certeza de que ia valer algo para Kiera.
...Pelo menos, ia distraí-la bastante para não me incomodar.
Ao vê-la tão concentrada na capa da agenda, soube que tinha feito a escolha certa. Entregando o livro para ela, virei as costas e entrei direto nas chamas.
Elas estavam quentinhas.
Crackle~
Kiera assistia o retroceder de Julien até desaparecer na chama.
Ele estava ali, na sua frente, há poucos momentos, quando de repente seu corpo desapareceu da visão dela.
Ele era louco.
Tentando lutar contra Tier 7 e Tier 8.
Era uma missão suicida, e Kiera sabia disso.
Talvez pudesse combatê-los usando sua magia emotiva, mas ela não era como ele. Não conseguia preencher a enorme lacuna entre ela e os altos escalões. Seria só... um peso.
Ela tinha consciência de quanto era um peso.
Por isso, preferiu ficar longe.
Pra não virar mais um fardo.
— ...
Kiera permaneceu ali, imóvel, encarando a agenda azul na mão. As chamas crepitavam ao redor, sua luz tremeluzindo em seu rosto enquanto ela ficava ali, sozinha com o diário.
Desde o momento em que seus dedos tocaram a capa, ela não conseguiu desviar o olhar.
A capa era de couro azul luxuoso, com uma corda dourada saindo das fendas das páginas gastas. Ela não conhecia o livro, mas também sentia que tinha algo familiar.
'Isso é da minha mãe.'
Sua mão tremia.
Por alguma razão, ela sentia medo.
Medo do que iria descobrir dentro dele.
Kiera não era ingênua. Depois de tudo que tinha acontecido, percebeu que a história do passado que aprendera não era a verdade.
Que sua mãe, aparentemente perfeita e acolhedora, não era tão perfeita quanto pensava.
E isso a assustava.
De verdade, a assustava mesmo.
Crackle~
No meio das chamas crepitantes, Kiera permaneceu imóvel, sua mente entrando em um estranho estado de névoa. Foi nesse momento que uma conversa antiga resurgiu na sua memória.
'Força não vem de fingir que a dor não existe. Ela existe, e ignorá-la significa ignorar todos os seus problemas. Quanto mais dói, maior o problema.'
Era uma conversa bem embaraçosa.
Uma que Kiera tentou esquecer com todas as forças.
Mas, ao mesmo tempo, era difícil esquecê-la.
Porque ela sabia que ele tinha razão.
'Força... vem do momento em que você percebe que a dor existe e que não pode ignorá-la.'
— Droga.
Kiera cerrava os dentes.
'A vida não pausa por nós.'
Eu sei.
'Ela segue em frente, implacavelmente.'
Você não precisa me lembrar disso.
'...Assim como deveríamos fazer.'
E eu estou tentando!
'É sobre honrar o que foi e abrir espaço para o que pode ser.'
Eu... sei.
'É assim que alguém realmente cresce.'
Crackle~
“.....”
No silêncio, Kiera permaneceu ali, cercada pelo crepitar do fogo, até finalmente pegar a agenda e abrir na primeira página.
[Nada melhor que a primavera]
[É doce e delicada.]
[...Mas também dolorida.]
[Porque me lembra a liberdade que nunca poderei ter.]
[Minha filha.]
[Eu odeio ela.]
— ...A-aah.
Aquele momento.
Kiera começou a queimar.
Ukh!
Rose sentiu seu corpo levantar do chão, sendo jogada vários metros para trás. Quando parou de escorregar, levantou a cabeça para ver uma sombra se mover à sua frente, fazendo seu corpo inteiro ficar tenso. Ficou especialmente apreensiva ao ver o enorme martelo que cortava o ar e assobiava na direção dela.
— Droga!
Uma pequena barreira surgiu na sua frente enquanto cruzava os braços, preparando-se.
BANG—!
Sofreu um golpe devastador que quebrou seu escudo, fazendo-a voar para trás e bater em várias árvores. Enquanto as chamas rugiam ao seu redor, outra figura surgiu atrás dela.
Antes que Rose pudesse reagir, sangue jorrou ao ar enquanto vários espinhos de gelo gigantes a perfuraram, atingindo vários pontos do corpo.
— .....!
O ataque foi tão repentino e inesperado que ela nem teve tempo de reagir antes de ser atingida.
Thump!
Rose caiu de joelhos na hora, seu corpo vacilando enquanto as chamas ao redor começavam a diminuir.
Foi justo quando ela levantou a cabeça numa tentativa de contra-atacar que percebeu algo...
— Ah.
Ela estava cercada por todos os lados.
Isso...
— Pare com essa luta inútil. Você pod poderia causar problemas se estivesse lutando contra a gente um de cada vez, mas não está.
A que falava era ninguém mais do que a Líder do Esquadrão Crimson.
Ela não parecia mais tão calma e relaxada como antes. Não por se sentir ameaçada por Rose, mas por causa de algo completamente diferente.
— Você não sente a presença da garotinha de jeito nenhum?
— ...Não sinto.
De fato, era sobre Kiera.
Rose tinha feito a escolha certa ao confiar nela. Apesar de saber que Julien fazia parte da mesma organização, ela também sentia que ele era mais parecido com Dawn — indiferente a todas as questões internas.
Ela percebia que, por alguma razão, ele não queria que Kiera fosse morta. Ela viu isso na expressão dele antes mesmo de qualquer coisa acontecer.
Isso a motivou a libertá-lo também.
Por ora, parecia a decisão certa, especialmente porque elas não conseguiam detectar a presença dos dois.
'Assim, sinto que cumpri meu papel.'
Rose olhou silenciosamente na direção do Esquadrão Crimson, até que seus olhos se fixaram numa figura distante, encostada relaxedamente em uma árvore, observando ela.
Sorriu de lado antes de falar,
'Você está satisfeita com o resultado?
'Estou.'
'... Mas você vai morrer.'
'E daí?'
'Dizer que morrer é ruim, eu sei pelo que já passei.'
'Então por que morreu?
.....
'Não vai responder? Haa... Por que mesmo achei que você iria?'
Rose sorriu de brincadeira. Sua expressão foi suficiente para chamar a atenção do Esquadrão Crimson, especialmente da Líder, que olhou para trás.
Desde o começo, ela tinha percebido que Rose estava distraída.
Não era a primeira vez que tinha visto ela desviar o olhar durante a luta.
Ela havia verificado várias vezes por alguma outra presença, mas não sentia nada. Ainda assim, ao encarar o sorriso zombeteiro no rosto de Rose, a Líder do Esquadrão Crimson começou a sentir uma paranoia crescente.
Foi por isso que ela decidiu terminar tudo ali e então.
Ergueu a mão, preparada para cortar sua jugular com um golpe, matando-a na hora.
E foi exatamente nesse instante que...
Plack!
Uma tonalidade esverdeada-púrpura apareceu, e ela interrompeu o movimento da mão. Observando a mão esverdeada surgir do chão, ela a encarou de forma indiferente antes de ela se despedaçar em pedaços.
Foi aí que o espaço atrás delas tremeu, e uma figura surgiu.
Virando-se, a Líder do Esquadrão Crimson levantou as sobrancelhas.
— É você?
— ... Sou eu.
Julien respondeu, com um tom e uma voz extremamente distantes.
Virando sua atenção para Rose, ele falou,
— Preciso que você a poupe. Há algo que eu preciso dela.