Advento das Três Calamidades

Capítulo 555

Advento das Três Calamidades

"Não foi ruim, você conseguiu ficar em primeiro nas provas. Esperava nada diferente de você."

Ela...

"Seu futuro é promissor. Tenho muito orgulho de você."

...Tão diferente da Kiera.

Olhando pelas memórias de Rose, a mãe de Kiera se destacava bastante. Parecia impecável em quase tudo — desde suas notas até a maneira como se comportava.

Era um contraste evidente com a Kiera que eu conhecia.

Na verdade, se alguém fosse parecer mais com a Kiera, seria sua tia.

"Rose, você deveria ser mais como sua irmã. Por que não é?"

Não era só eu que tinha percebido isso.

Status dos pais dela também sabiam bem daquilo, criticando-a o tempo todo por isso. Mas, fiel ao estilo de Kiera, ela simplesmente ignorava e ia para seu quarto fazer o que bem entendesse.

No fim das contas, essa era toda a crítica que recebia.

Parece que eles tinham desistido dela.

E ela parecia estar perfeitamente bem com isso. Era uma alma livre.

"Vou só acompanhar minha irmã, kek."

Deitada na cama, ela sorria satisfeita. Em uma vida sem a pressão da perfeição, podia fazer o que quisesse.

Afinal, sua irmã era tão boa que ela era dispensável.

'Será que é por isso que ela fica assim...?'

Observando tudo de fora, comecei a juntar os pedaços do que poderia ter acontecido e por que Rose acabou do jeito que está.

Já tinha visto tantas histórias assim antes.

'Ciúmes.'

Provavelmente, ela estava contente com como as coisas estavam se desenrolando no momento, mas no futuro, ela seria cada vez mais comparada à sua irmã perfeita. Essa comparação constante só alimentaria seu ciúme, até levá-la a se juntar à Inverted Sky.

Quanto mais pensava assim, mais parecia que tudo tinha acabado assim mesmo.

'... É um clichê, mas faria tanto sentido.'

Enquanto meus ombros relaxavam, esperando que as coisas se desenrolassem como eu previa, a porta do quarto de Rose rangeu ao abrir, e uma figura entrou silenciosamente.

Rose piscou e olhou na direção da porta onde sua irmã apareceu.

Ela ia falar, mas de repente sua irmã falou.

"Porra de chatos."

"....."

Ela de repente ficou quieta, e eu também.

"Quero que possam simplesmente apodrecer no inferno. Não suporto eles. Porra... Oh."

Como se de repente tivesse percebido Rose, que a fitava com olhos arregalados, a mãe de Kiera parou.

Ela olhou ao redor e assentiu, entendendo.

"Acho que entrei na sala errada."

"...Não, ah..."

Rose parecia sem palavras, totalmente atônita.

As duas se encararam em silêncio, sem saber o que dizer.

Até que...

"Ei."

A mãe de Kiera colocou o dedo na boca enquanto olhava para ela. Então, com um sorriso suave, abriu a porta e saiu do quarto silenciosamente.

"Você não viu nada."

Clang—

Foi a primeira vez.

...A primeira vez que eu vi o outro lado da mãe da Kiera.

*

Achava que as coisas mudariam desde aquele incidente, mas nada realmente mudou. As duas continuaram agindo do mesmo jeito, ignorando totalmente o que tinha acontecido.

Rose parecia até mais satisfeita assim.

Apesar de tudo, mesmo quando entraram na Haven, elas nunca tiveram uma interação de verdade. Rose sempre sozinha, enquanto a mãe de Kiera estava cercada de gente.

Ela era o centro das atenções, a estudante exemplar.

'De certa forma, ela é o que a Aoife está tentando tanto ser.'

Além da aparência, as duas irmãs eram tão diferentes.

Mesmo quando se cruzavam nos corredores, elas nunca se reconheciam. Era como se vivessem em mundos próprios, completamente separados.

Pelo menos, até o dia em que Rose foi abordada de repente.

"Você está feliz com sua vida?"

"...O quê?"

Foi uma pergunta que pareceu surgir do nada, deixando tanto Rose quanto eu, que observava de lado, desconcertados.

"Sozinha, sem amigos, sem expectativas. Você gosta disso?"

Pensei por um momento que ela tinha se aproximado com a intenção de brigar.

Rose também parecia pensar assim, mostrando os dentes.

"Tá querendo brigar?"

"....Talvez."

"O quê?"

De repente, Rose fez uma cara de irritação, a expressão no rosto toda contorcida. Parecia que ela ia dar um soco na irmã, mas se segurou no último instante.

"Kh....!"

'Kh?'

Quando os ombros da irmã começaram a tremer de repente, Rose ficou paralisada, piscando os olhos e transferindo o olhar para ela, que, quase por impulso, virou a cabeça para o lado.

E então...

"Pfttt—!"

Rose viu sua irmã começar a rir repentinamente.

"Que porra? Do que você tá rindo?"

"Kuahk! Hahaha....!"

Não foi uma risada forçada ou fingida. Era sincera, sua risada clara ecoando forte dentro das paredes do quarto.

"Ah, desculpa."

Rapidamente, Kiera se corrigiu, tampando a boca com a mão, tentando segurar o riso. Mas seus ombros trêmulos entregaram ela, deixando Rose completamente confusa, com a cabeça cheia de interrogações.

'Quem sou eu? Onde estou? O que está acontecendo, e o que aconteceu com minha irmã?'

Assim parecia sua expressão.

"....Eu não sabia que minha irmã mais nova era tão engraçada. Como é que só agora descobri isso?"

"Huh?"

Ela colocou a mão na cabeça e deu um tapinha em Rose.

"Talvez eu tenha te negligenciado demais. Você não vai me culpar, né?"

"....."

Rose não respondeu. Parecia estar tão chocada que nem conseguiu falar. Mas, mais do que isso, seu rosto ficou vermelho.

'Vermelho...?'

Ela tava corando?

'De jeito nenhum...'

Xiiip—!

Rapidamente, Rose afastou a mão da irmã de sua cabeça e deu um passo atrás.

"Nós nos conhecemos há quinze anos, e você só agora resolveu me dar atenção? Que diabos..."

"Acho que sim."

De repente, a mãe de Kiera sorriu.

Era um sorriso simples.

E, ainda assim... parecia carregado de cansaço.

Porém, aquele sorriso durou poucos segundos antes de se iluminar novamente. Ela puxou os fios do cabelo de Rose com mais força.

"Ei, ei!"

"...Nunca é tarde demais, né?"

"Não, que porra? Por que eu iria querer ficar com você...? Você não tem amigos também?"

"Tenho."

"Então?"

"Mas eles são sem graça."

"Huh?"

Ela inclinou a cabeça para olhar melhor para Rose, e seu sorriso floresceu novamente.

"Acho que você é mais divertida, além de ser minha irmã. Devíamos nos entender."

"Ah, droga."

Rose tentou outra vez afastar a mão, mas, como se tivesse previsto, ela levantou a mão de repente e desviou da tapa.

"Hahaha."

Isso a fez explodir numa nova risada enquanto olhava para Rose, que tinha uma expressão severa.

"Diversão, tão divertido."

Foi aí que tudo começou.

...A partir daquele dia, os dias tranquilos de Rose chegaram ao fim. Ela não podia mais ficar sozinha em seus intervalos.

"Você acha que eu tô bonita?"

Ela não conseguia mais encontrar conforto na silêncio que tanto apreciava.

"O que acha da primavera?"

"Detesto."

"Por quê?"

"Porque é uma droga. Fica barulhenta. Igual agora."

"Haha, você é tão engraçada."

"Mas não tô brincando. Na verdade, cala a boca. Gosto mesmo é de silêncio."

"Sabe... pra mim, o que eu realmente gosto na primavera é a sensação de liberdade que ela traz."'

"Que bobagem?"

"É como se o mundo despertasse do sono prolongado, deixando para trás o peso que o inverno trouxe. Você deixa o passado para trás e segue em frente. Tem aquela sensação de liberdade — como se a alma finalmente se libertasse, permitindo você se transformar na sua verdadeira versão. Não sei... Eu realmente gosto da primavera por isso."

Ela olhou de repente para Rose.

"E aí, o que acha? Consegui te convencer?"

"...Droga."

Rose de repente segurou os ombros, olhando de volta para a irmã. Sua expressão se contraiu ao encarar ela.

"Que coisa vergonhosa... que porra... Sai de perto de mim."

"Hahaha."

Eu observei a cena de longe.

Quanto mais assistia, mais franzi o rosto.

Isso...

'O roteiro está indo bem diferente do que imaginei. Não seriam as duas em conflito? Por que parece que estão se dando tão bem, cada vez mais?'

Algo não se encaixava.

Minha primeira teoria estava errada? Quanto mais olhava para Rose, mais tinha a sensação de que eu poderia estar enganado.

Embora ela mantivesse distância da irmã, dava para perceber, de onde eu estava, que ela na verdade estava se divertindo.

Desde os sorrisos sutis até os blushes tímidos ocasionais.

Ela... realmente admirava a irmã.

Então por que? Por que ela ia acabar matando a própria irmã?

'Ei'

"Ah, certo... olha isso, Rose."

Como se estivesse falando comigo, minha cabeça se virou e olhei para a mãe de Kiera, que de repente pegou algo do nada.

'Aquilo...!'

Minha respiração quase parou diante da visão que me apareceu.

Um espelho, toda a superfície adornada com padrões intrincados prateados que giravam ao redor, apareceu na minha frente — um que eu conhecia muito bem.

Sem perceber, senti meu peito subir e descer, preso num transe enquanto minha atenção fixava no espelho distante.

'Ei!'

Finalmente, consegui enxergar o espelho que vinha procurando desesperadamente. Talvez, se seguisse as memórias, encontrasse mais pistas.

'Sim, talvez assim eu consiga descobrir algo.'

O pensamento me deixou excitado.

Mas, mais do que isso, eu estava curioso pelo passado entre elas. Como duas irmãs que pareciam tão unidas poderiam, de repente, se virar uma contra a outra?

...Seria por causa da Inverted Sky?

'Sim, deve ser isso.'

Engoli em seco e agucei os ouvidos, preparado para o próximo capítulo.

Estava pronto, ansioso para descobrir o que viria a seguir, quando...

"Ei!"

"Huh?"

De repente, me vi em frente à Kiera.

Não, mais precisamente, diante da tia dela, que me encarava com olhos estreitos. Seu olhar era frio, quase cortante.

'Que diabos...'

"Você terminou?"

"O quê? Ah..."

Nesse momento, percebi o que estava fazendo e recuei a mão. Meu rosto permaneceu impassível enquanto balançava a cabeça em silêncio.

"Pra ser honesto, não."

"Huh?"

"...Você sentiria se eu tivesse feito alguma coisa ou não. Está mais calmo?"

"Não? Na verdade, fico mais irritado."

"Como dá pra ver, não funcionou."

"Que porra—"

"Se quiser, podemos tentar de novo. Se eu tentar de novo então..."

"Não, esquece. Tô de boas."

Kiera deu um passo atrás.

Ela olhou de volta para as escadas.

"De qualquer modo, vou voltar ao meu quarto primeiro. Depois te ajudo com aquela coisa do espelho."

"....Certo."

"Hum."

Kiera virou-se e subiu as escadas sem mais delongas.

Fiquei em silêncio, observando suas costas enquanto baixava a cabeça, olhando para o antebraço.

'Ela também é forte demais pra eu conseguir ver todas as memórias de uma vez?'

Sighuei e desviei o olhar.

'... Acho que vou ter que esperar um pouco.'

Por enquanto, precisava entender exatamente o que ela planejava fazer.

Fechei os olhos, ativei [Lament of Lies], e meu corpo começou a desaparecer completamente junto com o ambiente ao redor.

Pouco tempo depois, subi as escadas e a segui de trás, mantendo distância suficiente para que ela não percebesse. Confiante em minhas habilidades, mas sem subestimar sua percepção.

Sei que ainda estou longe de ser perfeito.

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