Advento das Três Calamidades

Capítulo 557

Advento das Três Calamidades

Ela era como uma toxina...

Um veneno sutil, porém letal, que aos poucos consumia uma pessoa por dentro.

É assim que Rose descreveria sua irmã.

Quanto mais se aproximava dela, mais via defeitos. Como uma pessoa podia ser tão dedicada, e ao mesmo tempo tão indiferente?

'...Não, é mais como, como alguém pode não ser como ela quando se encontra na mesma situação.'

Seus pais...

Não eram exatamente os melhores pais.

Eram daquele tipo que só se importava com conquistas e aparência. Quanto melhor alguém se saía, mais considerável era a face que projetava.

...Por causa do destaque da sua irmã, eles não davam muita atenção a ela.

Rose nunca sentiu ciúmes da falta de atenção.

No final, ela via como eram com a irmã dela.

"Conseguiu ficar em primeiro lugar, mas isso não é suficiente. A diferença entre você e o segundo diminuiu. Você não vai jantar hoje."

"Ouvi dizer que saiu pra encontrar os amigos. Não é de surpreender que suas notas tenham caído."

"Vou tirar você do dormitório da Academia. A partir de agora, vou pessoalmente fazer você voltar ao casarão todo fim de semana."

Ela era como uma boneca.

Uma boneca que os pais podiam controlar livremente para parecerem melhores. Mas não é como se não a amassem.

Simplesmente...

Era gananciosos.

Mas o que tornava tudo ainda pior não era a ganância deles.

Não, era o sorriso dela.

Apesar do tratamento severo, ela sempre mantinha aquele sorriso. Seria uma proteção, escondendo suas verdadeiras emoções, ou ela simplesmente era do tipo que sempre sorria, independente das circunstâncias?

Na época, Rose não sabia ao certo.

Depois de tudo, até ela tinha dificuldades para entender o sorriso da irmã. Mesmo assim, ela não se importava. Gostava de passar tempo e se conectar com ela.

Especialmente pelo quanto ria das suas brincadeiras.

Ninguém ria das suas piadas.

Estava tudo bem.

A vida era simples, e Rose desejava que fosse assim até envelhecerem juntas.

Mas a vida adora dar umas rasteiras.

Era primavera.

Puxa, primavera...

"Irmã, vou me casar em breve."

"Hã, o quê?"

"...Ele é o herdeiro aparente da família Mylne. Já o conheci. É um bom rapaz, bonito e tudo mais."

"Espera, o quê? Isso... desde quando? Como assim—"

"Acho que vou me casar com ele."

Ela ainda sorria ao contar a novidade.

Mas algo naquele sorriso parecia diferente.

Seus olhos vermelhos...

Estavam ainda mais cansados do que o normal.

*

Ele apareceu do nada.

"O que realmente aconteceu entre você e sua irmã?"

Rose não conseguiu sentir sua presença de jeito nenhum.

De um momento para o outro, sua língua escorregou, e no seguinte, o rosto dele surgiu do nada.

O olhar dele era frio, quase distante.

...De um jeito, lembrava o olhar da sua irmã.

"Aquele..."

Os lábios dela tremiam, ainda sem entender completamente o que estava acontecendo.

Ela já conhecia ele.

Deixou uma impressão duradoura na última vez que se viram, mas os feitos recentes dele também tinham chegado até ela.

Ele já não era mais o simples rapaz que conhecia antes.

Agora...

"Você realmente não sabe onde está o espelho?"

Ele estava acima dela.

E o pensamento fez seu rosto ficar pálido.

Então?"

Ela só ficou visivelmente nervosa por alguns segundos antes de se recompor. Sacudindo os pensamentos, deu um passo para trás, seus olhos vermelhos cruzando com os olhos avelã dele.

Com os lábios secos, ela finalmente conseguiu falar:

"Quanto tempo você sabe que estou aqui? Minha disfarce deveria estar perfeito. Como você conseguiu perceber? Foi por causa do jeito que eu me comportei? Foi isso que revelou?"

"...."

Julien não respondeu imediatamente.

Ele apenas a encarava.

Mas então, Rose de repente pareceu ter um pensamento e rapidamente olhou para o antebraço.

Seria...?

"O emblema nada tem a ver com isso."

As palavras de Julien vieram rápido, dissipando suas dúvidas, enquanto ele continuava fixo nela.

"Vamos dizer que tenho uma certa habilidade que me permite fazer isso."

"Tem essa habilidade?"

"Sim."

Julien assentiu, e Rose fez beicinho.

Respirando fundo, conseguiu se acalmar um pouco mais e lançou um olhar na direção de Kiera. Ia abrir a boca para falar quando Julien a interrompeu:

"Sobre o espelho, você sabe onde ele está?"

"...Ah?"

De repente, Rose se lembrou das palavras anteriores de Julien e seu rosto mudou.

"Como você acha que eu sei onde está o espelho? Por que eu estaria aqui se soubesse?"

"Mas você disse antes—"

"Isso é uma coisa totalmente diferente."

Ela cortou Julien, sua voz elevando-se sem perceber, enquanto sua sobrancelha se levantava.

"Eu não tenho. Não sei onde está. Se eu soubesse, não estaria tão obcecada por isso!?"

A expressão dele, como se dissesse 'você está vacilando', fez o rosto de Rose torcer. Ela realmente não sabia onde estava o espelho. Já fazia anos que procurava por ele, sem sucesso algum.

Era algo que sua irmã sempre carregava consigo.

...E, de repente, desapareceu.

Ki não parecia saber onde tinha ido, e ela também não. Vasculhou cada canto do casarão, mas não encontrou nada.

Era quase como se, de um dia para o outro, ele tivesse simplesmente sumido da existência.

Sua busca pelo espelho tinha virado uma obsessão. Chegou ao ponto de ela ficar quase louca por causa disso.

E mesmo assim... aqui estava ele, falando com ela como se ela soubesse exatamente onde o espelho estava?

"Aquela vadia...!"

Rose começou a bagunçar o cabelo nervosamente.

"Ela escondeu ele em algum lugar por algum motivo. Mesmo quando sumiu... ela sempre encontra uma maneira de me irritar. Eu a odeio. Odeio ela de verdade!"

Suas palavras saíram roucas, a voz aumentando de volume a cada palavra que escapava.

Ela queria controlar sua tonalidade, mas não conseguia.

Era frustrante.

Ela se sentia tão irritada.

"Ela arruinou minha vida, sabe? Nada disso teria acontecido se não fosse ela. Ela... por que ela teve que arruinar minha vida? ...A dela. E de quem mais estiver envolvido?"

Rose apertou os dentes, olhando fixamente para Kiera. Lentamente, sua expressão tensa afrouxou ao perceber o que havia feito, ficando fraca.

"Eu a odeio."

A voz dela estava tão fraca, quase vulnerável.

"Eu a odeio tanto, sabe? Eu—"

"Você realmente a odeia?"

As palavras suaves de Julien cortaram seu discurso. Quando ela hesitou, olhou para cima e viu ele a encarando de volta.

"Hã...?"

Ele apoiou a mão na bochecha.

"Se você a odeia tanto... por que está chorando?"

"Hã? Não estou. Por que você acha isso..."

Rose rapidamente colocou a mão no rosto, só para sentir uma risca úmida e pequena.

"Ah?"

Isso...

Ela realmente...?

Como se não fosse o suficiente, ao sentir algo estranho, Rose abaixou a cabeça e viu um par de olhos vermelhos familiares encarando de volta. Estavam bem abertos, olhando com uma expressão que podia ser de choque e confusão.

Rose cobriu o rosto com a mão.

"Ah... droga."

***

Ao mesmo tempo, em um dos quartos do casarão.

Após os acontecimentos da manhã, Aoife e Evelyn se dirigiram juntas a um dos seus aposentos. Nenhuma delas tinha certeza de quem era esse quarto.

...Suas mentes estavam mais preocupadas com outras coisas do que com isso.

"E aí, o que acha?"

"Por que você está me perguntando?"

Evelyn franziu a testa, olhando para Aoife, que estava sentada na cama, de braços cruzados, escovando o cabelo vermelho para trás da orelha.

Levando as sobrancelhas, devolveu o olhar para Evelyn.

"Você não é especialista nessas coisas?"

"Sou?"

"Não foi você quem ajudou Julien?"

"Foi, mas..."

"Então?"

"Como eu ia saber?"

Evelyn jogou as mãos para cima, frustrada. Ela não era uma clériga. Ainda que tivesse alguma habilidade em alguns métodos deles, estava longe de ser uma especialista.

Ela, no máximo, era uma clériga de nível médio — e isso, se fizer sentido.

Mas, mesmo assim, não era como se estivesse totalmente no escuro.

"A Kiera definitivamente agiu estranho, mas não acho que esteja possuída."

"Acha que pode ser por causa do estresse? Ela não gosta muito de falar sobre a família, então não sei o que causou essa atitude diferente, mas o clima hoje tava bem diferente do normal. Parecia mais..."

"Forçado?"

"Exatamente, forçado."

Aoife bateu os dedos na perna.

"Sim, exatamente. Era como se uma pessoa completamente diferente, com uma personalidade parecida, estivesse tentando atuar como ela. Ou... algo assim, acho."

"...Também tenho essa impressão."

Evelyn não discordou de Aoife. Na verdade, ela também sentia o mesmo, mas tinha mais a ver com uma intuição do que uma certeza absoluta.

Com a aproximação de Kiera ao longo do último ano, ela conseguia notar facilmente as discrepâncias no comportamento dela. Mas muitos fatores poderiam ter causado essa mudança.

Na opinião dela, seria melhor se as duas fossem cautelosas e observassem Kiera durante o próximo dia, para ver se tinha algo de errado de fato. Assim que confirmassem...

"Sim, por favor, envie alguém para a casa Mylne."

"....!?"

Surpresa, Evelyn virou a cabeça rapidamente na direção de Aoife.

Ela viu a amiga sentada na cama, com o dispositivo de comunicação na mão. Quando falou nele, seus olhares se encontraram.

"Não sei exatamente o quão forte, mas quanto mais forte, melhor. Quanto tempo acha que podem chegar? Uma hora? Sim, dá tempo suficiente pra mim. Acho que dá. Obrigada."

Ela desligou o dispositivo, jogou o aparelho de lado e fez um gesto de satisfação com as mãos.

"Pronto. Assim fica tranquilo."

"...."

Um silêncio estranho se seguiu por alguns segundos, até que Evelyn quebrou o silêncio de repente:

"Você acabou de...?"

"Hum? Ah, esse?"

Como se percebendo a dúvida de Evelyn, Aoife apontou para o dispositivo de comunicação dela.

"Acabei de ligar de volta pra casa e pedi pra mandarem alguns guardas pro casarão."

"Não, eu entendo, mas..."

"Evelyn."

Olhou para Evelyn, Aoife suspirou de repente, levantou-se e deu um tapinha no ombro dela.

"Se tem uma coisa que aprendi nos últimos anos é que, se alguma coisa parecer suspeita, provavelmente é mesmo suspeita."

"Sim, mas..."

Aoife bateu ainda mais forte no ombro de Evelyn.

"Não, mas. Não quero mais passar por aquelas besteiras do passado. Aprendi com elas. Então, se estiver pensando demais, melhor prevenir do que remediar. Sou princesa, pô. Poder não usa com dona de verdade... hahaha."

De repente, Aoife soltou uma risada alta, assustando Evelyn.

Aquela risada...

Será que Kiera era a única de que ela precisava se preocupar?

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