Advento das Três Calamidades

Capítulo 549

Advento das Três Calamidades

Foram uns segundos constrangedores.

Pouco depois de minhas palavras, o ambiente ficou silencioso, ninguém mais falou nada.

Caramba…

Queria me amaldiçoar.

De todas as coisas que poderia ter dito, essas foram as palavras que saíram da minha boca.

Sério?

Queria esmurrar minha cabeça na parede, mas justo na hora em que ia fazer isso, parei e percebi algo.

‘…Será que eu tô até que certo?’

Falando realisticamente, ela era inegavelmente linda—tanto que dava até pra pensar que fosse um tipo de extraterrestre. E a verdade é que ela sabia disso, então, tecnicamente, não havia nada de errado no que eu tinha dito.

‘Certo, ela devia estar acostumada com isso. Provavelmente nem se incomoda com as minhas palavras.’

Eu quase ia insistir mais uma vez quando Delilah falou,

"…Você pode repetir isso?"

"Hã?"

Levantei a cabeça e olhei para ela.

Ela me encarava com seu olhar intenso de sempre. Não… parecia até mais intenso que o normal.

Na verdade, a boca dela parecia estar aberta, os cantos dos lábios puxados em um sorriso estranho, quase assustador.

Era um sorriso…?

Ai, arrepios. Tô sentindo arrepio.

Seja lá o que ela estivesse fazendo, dava calafrios percorrendo meu corpo enquanto, inconscientemente, dei um passo para trás.

"De novo. Fala."

"Você… é bonita."

"…."

Delilah não disse nada, apenas coçou o lado do rosto, olhando levemente para baixo.

O sorriso estranho se alargou, e dei outro passo para trás.

Arrepio doido.

"De novo."

"…Prefiro não."

"Quer morrer?"

"Agora? Não me incomodo."

Por qualquer coisa para me afastar daquela expressão assombrada dela.

Felizmente, minhas palavras foram suficientes para acalmar a estranha expressão dela, e logo ela voltou a ficar sem expressão. Bem… pelo menos parecia assim na superfície. Eu conseguia enxergar os traços de decepção em seu olhar.

Ela me olhou com seu olhar normalmente indiferente e fez um gesto com a mão, dispensando-me.

"Vai lá."

"…Sim."

Não falei mais nada e me preparei para virar as costas e sair.

Cheguei perto da porta, sentindo a frieza do puxador quando, de repente, pausei.

Contraí os lábios, lembrando da leve decepção que percebera no olhar dela, que, de outra forma, era indiferente. Soltei um suspiro.

"Sabe…"

"O quê?"

A voz de Delilah soou um pouco fria.

"…Eu não estava mentindo quando disse que você é bonita."

"Hã?"

"Por um momento... você me deixou hipnotizado."

Não tinha ideia do que tinha me possuído. Talvez fosse a decepção visível no rosto dela há instantes, ou apenas uma vontade idiota minha, mas essas palavras simplesmente saíram da minha boca.

Quando percebi o que tinha dito e para quem tinha dito, já era tarde demais.

Mas, ainda assim, finjei manter minha compostura e consegui sair do cômodo sem mais problemas.

Clang—

Ao fechar a porta atrás de mim, acenei com a mão, descartando as muitas notificações que apareciam no ar.

‘…Que bug chato.’

Embora, no fundo, eu sabia que aquilo não era um bug.

"Que droga de perigosa..."

Para mim.

***

Toque, toque.

O diário de Delilah tinha várias gotículas de tinta enquanto ela, distraidamente, batia a caneta contra as páginas.

Ela tava assim há uma hora, tentando forçar a si mesma a escrever, mas sem conseguir.

Sua mente estava fixa em uma única cena, que ficava se repetindo incessantemente.

'Sabe…'

'O quê?'

'…Eu não estava mentindo quando disse que você é bonita.'

'Por um momento... você me deixou hipnotizada.'

Como um disco riscado, as palavras continuavam girando na cabeça dela. Por mais que tentasse esvaziar a mente, elas não desapareciam.

Delilah abaixou a cabeça para olhar o diário novamente, coçando o lado do rosto.

Ela continuou assim até que, finalmente, parou, franzindo as sobrancelhas ao mover a mão away e observar a própria mão.

"Hã?"

Desde quando ela começou a fazer isso?

Ou, melhor dizendo, isso era coisa do Julien, não?

Ou será que não?

"Hmmm."

Delilah se pegou massageando a testa. Estava cada dia mais estranha ultimamente.

Isso é bom ou ruim?

Toque, toque.

Mais uma vez, tocando no papel, ela olhou para baixo e começou a escrever um novo item na lista.

—Perigosa. Muito perigosa.

Para mim.

***

'Kiera, arrume seu quarto. Tá uma bagunça.'

'…Ai, por que você é tão relapsa? Eu sabia que não devia ter deixado você ficar com sua tia. Quanto mais olho pra você, mais ela parece com ela e herda os modos.'

'Isso é bom ou ruim? Haa... você é minha filha, e ainda assim, se parece mais com ela do que comigo.'

'Ei, Ki, eu adoro a primavera.'

'Realmente, amo a primavera.'

"……"

Com os olhos abertos, Kiera olhava para o teto vazio, familiar. Imagens passavam rapidamente pela cabeça ao acordar, e, vendo ao redor, percebia que estava em seu quarto.

'Que horas são?'

Checando o relógio, viu que ainda era cedo.

Estava quase pronta para se arrumar, mas parou ao perceber que a academia só começaria daqui a alguns dias.

"Ah."

Kiera levantou-se e foi até o balcão, sentindo o ar frio, porém cortante, tocar sua pele.

"…Tá ficando mais quente. Já é primavera?"

Murmurou, olhando para os campos vazios da academia lá embaixo.

Eleu a mão e colocou delicadamente o cabelo atrás da orelha.

"Que sufoco…"

O calor que chegava.

A umidade que se acumulava.

Tudo sobre a primavera.

Ela odiava.

Especialmente porque também foi nessa época que sua vida mudou radicalmente.

"Droga."

Trr—

Nesse momento, o aparelho de comunicação dela soou. Era um mais novo, comprado após ela ter quebrado o antigo recentemente. Baixando a cabeça, Kiera olhou para a mensagem.

Era de Aoife.

"Ugh."

Ao ver o nome dela, ela fez uma careta. Enfrentando sua repulsa, leu a mensagem, logo se arrependendo de tê-la aberto.

—Lembra dos exames que fizemos antes de partir para a Kasha? Os resultados já estão liberados. Podemos ir buscar agora.

Kiera quase jogou o aparelho longe.

A única coisa que a impedia era o bolso. Ela simplesmente não podia gastar dinheiro comprando um novo aparelho.

"Haa."

Soltou um longo suspiro, olhando para o céu azul e fechando os olhos.

Naquele instante, uma brisa suave passou por ela, mais quente que o habitual, lembrando-a de que a primavera estava chegando novamente.

"Que sufoco..."

Tudo sobre a primavera.

Ela odiava.

*

Clang—!

"Ah, vocês três vieram buscar suas notas finais?"

Ao entrar na sala, Kiera, Aoife e Evelyn foram recebidas pela Professora, que estava sentada na mesa, segurando uma pilha de papéis.

Ela ajustou os óculos de aros e puxou o cabelo castanho sedoso atrás das orelhas, oferecendo um sorriso caloroso às três.

"Só finalizei de corrigir suas provas agora. Tava bastante ocupado com tudo o que aconteceu recentemente, então só consegui terminar há pouco."

"…Gostaria que tivesse demorado um pouco mais."

Kiera murmurou baixinho, achando que suas palavras não chegariam aos ouvidos dos outros na sala. Infelizmente para ela, estavam louds o suficiente para todos ouvirem.

"Kiera..."

Aoife foi a primeira a reagir, com os lábios se mexendo levemente. Parecia bastante conflitante. Por um lado, concordava com ela, e por outro...

"Eu também queria que fosse assim, mas trabalho é trabalho."

Acostumada com o jeito de Kiera, a professora apenas sorriu e entregou-lhes os papéis.

"No geral, não estão ruins. Vocês três."

Olhou para Kiera de forma significativa enquanto entregava o papel.

"…Fiquei até surpresa com sua nota. Não esteve mal."

Kiera arqueou as sobrancelhas, surpresa. Pegando o papel, olhou rapidamente a nota e, de repente, seus olhos se arregalaram.

"Não acredito…"

"O quê? Por que essa reação?"

"O que você tirou?"

Percebendo a reação dela, Aoife e Evelyn ficaram curiosas e se aproximaram, ansiosas para ver a nota. Mas antes que pudessem, Kiera rapidamente cobriu e afastou o papel.

"Que droga…"

Ficou um instante, encarando a professora que permanecia em silêncio, e passou os lábios, franzindo o rosto. Depois, empurrou as duas para trás.

"Saiam."

"Não, deixa eu ver."

"Corre!"

"Ei, não!"

Kiera recuou rapidamente, mas Aoife e Evelyn não desistiam, grudando nela como polvos, explorando cada centímetro do seu corpo com as mãos.

"Acho que consegui! Huh, por que será que tá tão macio?"

"Oxente—!"

Kiera se afastou rapidamente, olhando para Aoife.

"Onde acha que tá colocando a mão?!"

"Aquilo…"

Aoife abaixou a cabeça, encarando a própria mão. Espremendo o ar algumas vezes, murmurou:

"Vaca."

"Vou te matar."

"Relaxa."

Evelyn impediu Kiera antes que ela começasse a fazer besteira.

"Espera, vamos lá... Você não pode reagir assim e esperar que a gente não fique curiosa."

Evelyn de repente falou, com o olhar fixo em Aoife.

"Olha só. Ela tá quase explodindo."

Agora, tanto Kiera quanto Evelyn já entendiam bem como era a personalidade de Aoife.

Ela era do tipo que não conseguia segurar a curiosidade.

Uma fofoqueira.

"...Ela tá tremendo."

De fato, tava—mas por outro motivo.

Kiera olhou para o papel dela e depois para Aoife.

Ela parecia tão triste.

Riiiip—!

Então, ela rasgou o próprio papel.

"Ah…"

Viralizou uma pausa, Evelyn parou, e Aoife congelou. Até a professora parecia surpresa, mas, na realidade, ela não se importou. Afinal, ela já tinha feito sua parte.

Kiera continuou rasgando o papel com força, fazendo Evelyn elevar a voz.

"Espera, você perdeu a cabeça?! Eu entendo que não quer mostrar a nota, mas rasgar assim…"

"Se eu te pedisse pra mostrar seus seios, você mostraria?"

"Hã? Que comparação é essa…"

"Percebe?!"

Kiera sorriu orgulhosa para a Aoife pálida, cuja mente desviou do episódio anterior e focou no papel. Nada a irritava mais do que não saber de algo.

Kiera sabia disso, e ela explorou essa fraqueza.

Na verdade, sua nota era bastante boa. Não se incomodaria em mostrar, mas, por causa da personalidade de Aoife, achou melhor fazer assim.

Como esperado, ao ver a situação de Aoife, ela acreditava que tinha tomado a decisão certa.

"Terminamos de uma vez?"

Foi a frase da Professora que quebrou a confusão.

Ela olhou para o seu relógio de bolso.

"Acho que já tá na hora de vocês voltarem. Já causaram o suficiente aqui."

"Pois é."

Kiera não pareceu discordar.

Ela também sentia que não tinha mais nada a fazer aqui. Afinal, ela tinha sido praticamente obrigada a vir buscar o papel—não tinha intenção de estar ali em primeiro lugar.

"Ah, é verdade."

Justo quando ia sair, a professora lembrou de algo.

Com um sorriso suave, olhou para Kiera.

"Parabéns pelo seu novo irmão."

O rosto de Kiera vacilou um pouco.

Virando-se, ela viu Aoife e Evelyn olhando para ela com expressões surpresas.

Ela se esforçou para manter a compostura enquanto olhava de volta.

"Obrigada."

Palavras essas…

Que lhe deram vontade de vomitar.

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