
Capítulo 505
Advento das Três Calamidades
....Tudo parece normal, como se nada estivesse fora do lugar.
Se não fosse pela sala e pelo fato de que ele havia recebido um aviso da coruja, Leon nem sequer teria percebido que caiu numa ilusão.
Isso por si só fez sua espinha gelar.
O que teria acontecido se ele não tivesse sido alertado?
Leon cerrara os lábios com força enquanto avançava rapidamente. Ele não sabia exatamente para onde estava indo, mas tinha certeza de que a coruja sabia o caminho.
Tudo o que precisava fazer era seguir a ave.
Assim, ele percorreu a fazenda em silêncio, sem dizer uma palavra sequer.
Toc, toc—
Na quietude que dominava o ambiente, o único som que podia escutar era o clique suave de seus sapatos e o bater de asas da coruja enquanto esta navegava pelos corredores vazios e pouco iluminados.
“Pra onde ela foi?”
Parando por um momento, Leon olhou ao redor antes de virar à esquerda.
“...Ah, aqui.”
Ele não conhecia bem o local, e com tudo tão escuro, precisava confiar na audição para acompanhar a coruja que se misturava à escuridão.
“Sinto várias presenças aqui dentro.”
Quando Leon já tinha perdido a noção do tempo enquanto atravessava os corredores, a coruja parou, apontando seu bico na direção de uma porta específica.
“Isto é...?”
Leon fez careta para tentar enxergar melhor.
[Salão de Jantar]
Era o que dizia.
Prendendo a respiração, virou-se para encarar a coruja e perguntou: “Quantas presenças você sente aí dentro? E qual o nível de força delas?”
“São quatro.”
Essa foi a única resposta da coruja — seu tom era tão indiferente quanto sempre.
“.....”
Leon apenas aceitou as palavras da ave com naturalidade, antes de apoiar a mão na maçaneta da porta. De repente, seu corpo ficou tenso enquanto sua outra mão se fechava firmemente no cabo da espada.
Como a coruja não especificou a força das presenças dentro, ele ficou um pouco nervoso.
Claro, ele não pensava que não pudesse derrotá-las.
Certamente, a coruja não tentaria matá-lo, não é?
“Hum...?”
As sobrancelhas de Leon franziam.
“Espera... Agora que penso bem, essa coruja é do Julien, né?”
Leon passou a língua pelos lábios que estavam estranhamente secos.
Com certeza não, certo?
Ele virou a cabeça para ver os olhos frios e indiferentes da coruja e engoliu em seco.
Com certeza...*
“Aonde diabos estamos...? Não me diga que estamos perdidos. Além disso, onde estão os professores?”
“...Considerando a força deles, provavelmente foram os primeiros a serem atingidos.”
Nesse momento, ele ouviu uma voz fraca vindo de trás da porta. Seus sobrancelhas ergueram de imediato e ele inclinou a cabeça mais perto para escutar.
“Ah, verdade. Além disso, parece que estamos mesmo perdidos... Tenho certeza que seguimos o caminho certo.”
“Pelo visto, não, sua idiota.”
“O que foi que você acabou de me chamar?”
“Idiota, sua idiota.”
Leon congelou ao ouvir as vozes familiares vindas atrás da porta, mas logo relaxou.
Sua tensão anterior diminuiu e, então, ele empurrou a porta para abrir.
Clank—
“Eu te chamei de idiota. Tá difícil pra você... Ah?”
“Hã?”
Quando a porta se abriu, Aoife e Kiera pararam de falar, e imediatamente voltaram a virar a cabeça na direção de Leon.
“Leon?”
“Parece que você também se perdeu.”
Atrás delas, estava Evelyn, sentada em uma das cadeiras, com a palma da mão na testa. Ela parecia cansada de tudo.
Sua expressão soava como se dissesse: ‘Me mata. Quero morrer. Chega de lidar com as duas. Alguém me ajuda.’
Ela estava tão absorta em seus pensamentos que não percebeu a presença de Leon.
“Leon.”
Ao se aproximar dele com uma expressão carrancuda, Aoife olhou ao redor.
“...Ainda bem que você chegou. Acho que tem algo estranho aqui nesse lugar. A Evelyn percebeu primeiro, por isso conseguimos ficar juntos, mas tenho medo que os outros tenham se perdido.”
Aoife pensou em suas experiências e seu expressão se aprofundou em uma carranca.
“É como se o lugar estivesse mudando o tempo todo. Não consigo saber onde está nada, e toda vez que tento refazer meu caminho, acabo em um lugar totalmente diferente.”
“É isso que está acontecendo?”
Leon não tinha prestado muita atenção nisso.
Ele tinha seguido a coruja o tempo todo, então não precisava se preocupar em recontar seus passos ou ir na direção errada.
Porém, ao pensar com mais calma, parecia mesmo ser essa a situação.
‘Parece que querem nos prender aqui. Quanto mais tempo ficarmos, mais perigoso vai ficar para nós.’
Justo no momento em que Leon ia abrir a boca para compartilhar o que sabia, seu rosto congelou.
‘Um instante...’
As sobrancelhas dele levantaram enquanto olhava ao redor do cômodo.
“Um, dois, três...”
De repente, Leon sentiu um aperto forte no peito ao virar a cabeça rapidamente, varrendo o ambiente com mais cautela.
As mudanças repentinas chamaram a atenção das garotas, que encararam-no com caretas.
“Você está bem?”
“...Aconteceu alguma coisa? Por que está agindo estranho?”
“Leon? Desde quando você—”
“Aquietem-se.”
Leon colocou a mão nos lábios e puxou a espada. Ainda se lembrava claramente das palavras da coruja antes de entrar, e seu coração afundou ao relembrá-las.
‘Quantas presenças você sente aí dentro? E quão fortes são?’
‘São quatro.’
Leon olhou ao redor e fez a contagem.
“Um, dois, três...”
Onde estava o quarto?
Não havia quarto.
“Leon?”
“Está tudo bem? Você está agindo estranho. É—”
Bang!
De repente, o teto desabou, lançando pedaços grandes de concreto que caíram no chão. Os rostos das meninas mudaram rapidamente ao ver uma raiz enorme surgindo do chão acima, apontando em direção a elas.
“Desvia—Hiek!”
Mas já era tarde demais.
Antes que Kiera pudesse reagir, a raiz pairou em direção ao seu pescoço, agarrando-o com força brutal.
Suas ações foram tão rápidas que até Leon teve dificuldade em reagir.
Mas não era só isso.
Bang, bang!
O cômodo inteiro tremeu enquanto as paredes se estilhaçavam e mais raízes brotavam do chão. O rosto de Leon ficou pálido ao ver aquilo e ele rapidamente ergueu a espada para lutar contra a raiz, mas...
Bang—
Ele não era páreo para ela.
Com um chicote, Leon foi jogado para trás, sua coluna batendo contra a parede próxima enquanto cuspia saliva.
“Ukeh.”
Enquanto sua mão trêmula tentava se apoiar no chão, uma coisa fria e viscosa roçou seu tornozelo.
Squelch!
A respiração dele parou ao olhar para baixo, ao ver uma raiz escura deslizando de baixo, pulsando com uma superfície vítrea enquanto se enrolava firmemente ao redor do pé.
Squelch... Squelch...
O som ficava mais alto e agonizante. O pânico tomou conta enquanto mais raízes surgiam das sombras, retorcendo-se como serpentes.
Antes que pudesse reagir, uma delas se enrolou ao redor de seu braço,
“Ah...!”
Leon sentiu o ar sendo sugado de seus pulmões no instante em que a raiz o agarrou.
“Ukh!”
Ele se debateu e contorceu, os músculos queimando enquanto lutava contra as raízes que o prendiam como correntes vivas. Seus dedos desesperadamente arranhavam o ar, procurando algo para agarrar.
“Não... isso não pode estar acontecendo,”* Leon ofegou, com a voz rouca.
Por fim, seus olhos repousaram na coruja e ele estendeu a mão.
“A—ajude...”
Ele tentou chamar a coruja esperando que ela ajudasse, mas tudo que recebeu foi um olhar frio e indiferente.
Uma raiz grossa e retorcida surgiu, enrolando-se ao redor de seu pulso com um som viscoso e nojento.
“Ukh... Não!”
A raiz puxou seu braço com força brutal, colando-o ao chão frio e úmido.
Squelch... squelch...
O som ficava mais alto e incessante, enquanto inúmeras raízes brotavam da terra, entrelaçando-se ao redor de seus membros e tronco. Subiam por suas pernas, apertando seu peito e envolvendo seu pescoço.
O ar ficou mais frio, mais pesado, enquanto suas forças se esvaíam.
O pânico deu lugar a um medo paralisante enquanto as raízes o envolviam completamente...
A escuridão invadiu sua visão enquanto seu corpo ficava imóvel, e os suaves ecos de seus gritos abafados desapareciam junto aos das garotas.
No fim, a força de Leon se esgotou e o silêncio tomou conta do ambiente.
.....
Assistindo tudo em silêncio, os olhos indiferentes do Coruja-Poderoso Fixeolharam diretamente na direção de Leon antes de se virar e partir.
Squelch~
Seu trabalho havia terminado.