
Capítulo 503
Advento das Três Calamidades
Integração com o mundo.
Quando a mente de alguém se integra ao mundo, permitindo que essa pessoa molde a natureza a seu desejo.
...E o momento em que alguém realmente se tornou o Zenite.
"Como sempre, está cinza."
Murmuros baixinho, ele encarava o céu escuro acima.
"Dizem que o céu do Império é azul, mas tenho dificuldades... em acreditar nas histórias. Será que um céu tão azul realmente existe?"
Do que ele sabia, céu azul simbolizava luz.
Significava prosperidade.
E, acima de tudo,
"Liberdade."
Significava liberdade.
Estendendo a mão, tentou pegar o céu com ela.
Infelizmente...
"...Está fora do meu alcance."
Sintia na ponta dos dedos, mas não conseguiu tocá-lo completamente.
Se ao menos pudesse puxá-lo.
....Se ao menos....
"Que pena."
Olhando para suas mãos velhas e enrugadas, abaixou-as novamente.
"Eu realmente queria ver o céu azul."
Poderia se estivesse no Império, mas não queria vê-lo lá.
Ele queria vê-lo em seu lar.
Não só ele, mas o povo também. Queria que todos vissem.
O lendário céu azul.
"Que pena."
A liberdade só existia para quem podia conquistá-la.
Infelizmente, ele não podia.
Colocando a mão no piano, começou a tocar.
Dang~
Foi aí que percebeu algo.
"...Hm?"
A primeira linha de um fio.
*
"O que... você está fazendo?"
Os três ficaram olhando para a velha desculpa de homem idoso.
'Ele parece ainda mais envelhecido, e sua mente parece ter recuado novamente. Ainda está consciente, e isso já é suficiente.'
Nem mesmo tínhamos saído de casa por menos de um dia, e ele já estava à beira de perder-se.
"Estamos aqui para te buscar."
"...Haa..."
Os olhos nublados do velho oscilaram.
"Você... para. Isso—"
"Não, você não entende."
Apontando diretamente para o velho.
"Estamos aqui para te pegar, gênio."
"....."
"....."
Tanto Kaelion quanto Caius olharam para mim.
Assim como o velho.
"O-que? O que vocês...?"
"Eu também fiquei surpreso ao descobrir, mas tudo fez sentido na hora. Como alguém tão poderoso quanto você pode estar sob tal tratamento e não encontrar o culpado, mesmo depois de tantos meses passados."
Não faria sentido.
O velho era forte. Tão forte que comecei a compará-lo a Delilah.
Ela era a pessoa mais forte que eu já tinha conhecido, e pensei que ainda fosse, mesmo depois de conhecê-lo, mas agora... tinha certeza de que não era o caso.
O velho que estava diante de mim.
Ele era realmente a coisa mais próxima do Zenite.
Ou... já foi.
Não tinha mais tanta certeza agora, mas se alguém pudesse submeter alguém tão forte a uma situação como essa, teria que ser alguém no Zenite.
"V... Você é louco."
Apesar de a verdade estar bem na frente dele, ele se recusava a acreditar.
E, já que era assim...
"Acho que não temos escolha senão lutar com você."
"Nós o quê?"
"....Você é louco?"
Kaelion e Caius me olhavam como se eu fosse um lunático.
Eu não era.
"O quê? Ele está preso por todas essas linhas. Do que você tem medo? Do jeito que ele está agora, se trabalharmos juntos, talvez consigamos derrotá-lo."
"Mas ele ainda está..."
"Tudo bem."
Caius foi o primeiro a concordar.
Balbuciando, cerrando e abrindo a mão, murmurou: 'Sempre quis lutar contra esse velho.'
Sua resposta foi suficiente para fazer Kaelion franzir a testa.
"Ele não deveria não sentir emoções?"
"....Provavelmente só quer lutar com ele porque ele é forte."
"Certamente."
"Cough...!"
Depois de tossir, o velho levantou sua cabeça fraca, por um instante.
"Você, perdeu a cabeça."
"Não importa se perdemos. Prepare-se, velho."
"Você... Kh...!"
O rosto do velho mudou pela primeira vez.
Pude ver a raiva surgindo em seu rosto.
'Eu falei para você sair! Por que ainda está aqui!'
'Isso é perigoso! Assim que essas linhas tomarem completamente conta de mim, vou acabar matando vocês!'
'Saiam daqui, idiotas!'
Pude praticamente entender o que ele queria dizer só de olhar sua expressão.
Hoje, já era bom em decifrar rostos, mas...
'Idiotas são idiotas por um motivo.'
Então, sem esperar que o velho dissesse algo, fui o primeiro a agir. Colocando o pé à frente, a gravidade ao redor dele mudou. Comecei a sentir mudanças dentro do meu corpo, com meus músculos se expandindo e uma potência inflando todo o meu ser.
Foi aí que ataquei na direção dele.
Bum—!
Meu punho atingiu seu peito pelado, provocando um gemido de dor.
"....Uekh!"
As linhas acima dele balançaram suavemente enquanto Kaelion seguia logo atrás de mim, dando um golpe ainda mais forte no mesmo lugar onde havia acertado.
Bum!
As linhas balançaram mais, e os olhos do velho se encheram de fúria.
"Seu... crápula!"
Se olhares matassem, ele teria matado várias vezes.
Enquanto levantava a mão, uma pressão poderosa parecia descer sob mim, fazendo com que eu ficara agarrado ao chão.
Por sorte, Caius estava logo atrás de mim, empurrando minha mão de lado e jogando meu corpo para o lado.
Bum!
O chão ruiu enquanto o velho se levantava.
"Huu...! Hu!"
Seu ataque não tinha mana alguma, e mesmo assim o chão se despedaçou.
Ele tentou mirar, mas ao ver que seu ataque falhou, virou-se para Caius, quando Kaelion entrou na jogada chutando a parte de trás da panturrilha do velho.
"!"
O velho virou-se e tentou socar Kaelion.
Swoosh—!
O ar se agitava sob o peso do soco, até algumas das linhas ligadas a ele se rompiam. Notei o movimento.
"Caius...!"
"Sim."
Levando o dedo para o lado, Kaelion foi lançado para o lado, escapando do soco.
'Minha vez?'
Olhei para o lado direito e esquerdo antes de levantar a mão, invocando mãos roxas do chão. Mais de uma dúzia delas marcharam na direção do velho, que tocou o chão e quase as evitou.
Mais linhas se romperam.
"....Venha... aqui!"
Ele ainda estava bravo.
Com olhar furioso, trouxe a mão na minha direção, e senti meu corpo sendo empurrado na sua direção.
Ou pelo menos, foi assim que pareceu.
No momento em que meu corpo chegou perto da mão dele, ela desapareceu de repente, como se fosse mágica.
"Ha...?"
O velho ficou surpreso à primeira, depois gemeu com o tico de língua.
"Truque inútil."
Ele sacudiu a mão e senti meu corpo sendo empurrado contra a parede ao lado.
Bum!
"Uekh!"
Dessa vez, era meu corpo de verdade.
"Isso... doeu."
A dor era real.
"Haha."
O velho parecia achar engraçado meu sofrimento, e começou a rir alto. Sua risada era tão alta quanto seu ronco.
Que incômodo.
Sustentei o nariz e encarei-o com reprovação.
"...Droga, acho que quebrei meu nariz."
Apenas tocá-lo já doía.
Boom—!
Arregalei a cabeça para cima e vi o corpo de Kaelion sendo lançado até o teto. O impacto foi tão forte que ele ficou preso lá por alguns segundos.
"Hehehe."
"...Haha."
Não pude deixar de rir também.
Comecei a entender por que ele estava rindo.
Pelo menos, até o velho fixar novamente seu olhar em mim.
"Aquilo..."
Olhei para Caius.
"Que tal um olá—Eukh!"
Fui jogado para o lado mais uma vez.
Bum!
Doendo ainda mais do que antes.
"Hahaha."
Uma gargalhada estrondosa ecoou pela sala enquanto o velho ria de coração aberto.
Minha dor era tão engraçada para ele?
Para tornar a humilhação ainda maior, ele apontou o dedo na minha direção enquanto ria.
"...Hahaha—Kugh! Huff!"
Sua risada foi interrompida por Kaelion, que apareceu atrás dele e mordeu sua orelha.
O velho rapidamente empurrou Kaelion para longe, mas o dano já tinha sido feito: sangue escorria da orelha dele. Ao tocar a orelha, ele ficou furioso. "Você...!"
"Pu!"
Cuspiu sangue no chão e ergueu as mãos.
"Nem é tão engraçado agora, né..."
De repente, uma força o lançou para cima novamente.
Engoli a saliva ao ver toda aquela cena.
'...Ele nem conseguiu terminar de falar.'
"Huu."
Ao ver o olhar do velho se voltar para mim, meu corpo ficou frio.
'Droga, por que ele só está mirando em nós dois?'
Não, mais importante: onde estava Caius?
Bum!
Naquele instante, o armário voou pelo ar e caiu na cabeça do velho, quebrando pedaços de madeira por toda parte e deixando seu corpo paralisado.
Mas se isso não fosse suficiente...
Swoosh!
A cama também voou na direção dele logo após.
"Não...!"
Com movimentos mais rápidos do que antes, o velho levantou a mão e parou a cama no meio do ar.
Depois olhou para Caius e, com um movimento de braço, a lançou para o lado.
Bum!
Por fim, também foi derrubado contra a parede.
"Huu... Huu..."
A respiração do velho estava difícil.
Sua expressão parecia ainda mais envelhecida, mas...
Um sorriso apareceu em seu rosto.
'Ele está se divertindo.'
Sentia-se mais liberto.
Como se as linhas não pesassem mais tanto sobre ele, como antes.
Estalidos, estalidos!
Vendo-o assim, tentei me levantar, mas rapidamente desisti, apoiando as costas na parede e forçando a boca a se abrir.
"Uma vez tive uma conversa com um velho."
O velho olhou para mim.
"Perguntei a ele, você tem medo? Sabe o que ele me respondeu?"
Ele tinha toda a atenção.
"Disse que tinha. Que tinha medo."
Alguém tão forte tinha medo. O conceito era estranho.
Normalmente, alguém diria que uma pessoa forte nunca sentiria medo.
"Mas ele não tinha medo da morte."
Por outro lado, seus medos eram profundos.
"O que o assustava não era a morte, mas tudo o que ele tinha de perder enquanto vivo."
Tipo, sua inteligência.
"Ele não queria voltar ao garoto ingenuo que era no passado. Não queria ser discriminado, ridicularizado ou esquecido."
Não havia nada mais assustador do que perder a si mesmo enquanto ainda estava vivo.
Eu sabia disso porque tinha visto.
Seus medos.
Sua vulnerabilidade.
...E seu passado.
"Cough, cough."
Segurando o peito, ajudei-me a me levantar e cambaleei em direção à saída da sala.
"...Me siga."
Caius e Kaelion também se levantaram enquanto o velho permanecia de pé, com expressão vazia.
Ele não disse nada, apenas ficou ali.
Sabia que ele nos seguiria.
Depois de tudo, ele ainda estava são. Se não estivesse, já teria nos matado.
Alguns segundos depois, nos acompanhou.
Foi então que meus passos vacilaram.
Vários pares de olhos pararam em nossa direção.
A cor vermelha dominava tudo ao redor.
Segurando grandes tambores, as pessoas olhavam em direção ao centro, onde um noivo e uma noiva surgiam.
Ao lado, havia um grande piano.
Olhei para o velho ao meu lado, com alguns fios ainda ligados a ele.
"Era essa cena que você queria preservar, certo?"
O dia mais feliz.
Para não esquecer, ele queria preservar.
Mesmo quando perdido, queria lembrar.
Assim, chegaram os fios. Eram a manifestação de sua obsessão.
Sua obsessão por não deixar ir.
*
Existiam milagres?
Não existiam.
Não havia nada chamado de remédio milagroso.
"....Eu devia ter percebido."
O velho foi o primeiro a entender isso.
"Qual a data de hoje? ...Para esquecer até uma coisa tão simples."
O velho achava que tinha tempo, mas não tinha.
"Você, qual é o seu nome mesmo?"
De nomes, de lugares, até do próprio nome...
Ele estava lentamente esquecendo de si mesmo, mesmo ainda vivo.
"Hah, isso..."
Às vezes, parecia que ele já tinha desaparecido.
Perdido em um labirinto de memórias de onde não conseguia sair.
Thud thud—!
Enquanto o mundo se tingia de vermelho, tambores retumbavam no ar, enquanto as pessoas riam e dançavam. O velho permaneceu imóvel, gravando a cena em sua mente.
Parecia um casamento.
De quem era esse casamento?
'...Em breve, vou esquecer disso também.'
O velho olhou ao redor mais uma vez, e quanto mais feliz via o povo, mais queria preservar aquela lembrança.
Ele não queria esquecer.
E assim...
Ele fez questão de não esquecer.
Foi quando os fios começaram a cair.
*
"Você talvez nem se lembre de ter feito isso, mas não menti quando disse que você era o cérebro de tudo."
As palavras de Julien ecoaram baixinho na calma enquanto ele ficava na beira do pátio, com o olhar fixo na celebração animada que se desenrolava diante dele.
As festas vibrantes pareciam distantes, como um mundo do qual ele já não fazia mais parte, sua voz permanecia no ar, engolida pelo caos de alegria ao redor.
"Com sua inteligência regredindo, você fez todos repetirem a mesma coisa várias vezes, para que, mesmo que esquecessem, pudessem reviver os momentos novamente."
Os tambores pararam, e TODO barulho cessou.
O velho olhou ao redor, sua expressão lentamente abaixando.
Parecia envergonhado.
Talvez, ele também estivesse ciente da verdade. Ou tinha uma vaga ideia dela. Provavelmente esqueceu tudo. Por isso nos treinou e ajudou a lidar com a situação.
Talvez, quisesse tirar todos daqui antes que fosse tarde demais e ele perdesse completamente a cabeça.
"Eu—"
"Obrigado por tudo."
De repente, uma voz suave cortou o silêncio.
Antes que o velho percebesse, alguém tinha falado. Ele não reconhecia, mas sentiu.
Sintia uma calor no coração.
Ele pode estar perdendo as emoções, mas não a mente.
"...Obrigado por tudo, mestre."
Outro veio logo depois.
"Só estou aqui por sua causa."
"Obrigado."
"Por tudo que fez, muito obrigado."
Um a um, as pessoas começaram a agradecer ao velho.
Todos com sorrisos no rosto. Parecia uma despedida. Uma despedida a um velho que não era tão idoso assim.
E então...
"Velho."
O noivo deu um passo à frente, surgindo bem no centro.
"Você pode não lembrar do Mestre, mas foi você quem me salvou quando eu estava morrendo na rua e me trouxe aqui."
O velho realmente se lembrou.
Ele se lembrou de uma criança que um dia passou fome, magra e à beira da morte. Seria ele?
Olhando para ele agora...
"Se não fosse por você, eu nem estaria vivo."
O garoto sorriu.
Seu sorriso era tão brilhante e cheio de esperança.
"E agora, olha para mim."
Apontando para a noiva, o jovem sorriu.
"Só tenho a agradecer por você. Pode me esquecer, mas eu nunca vou esquecer de você."
"Ah."
O ombro do velho tremeu.
Snap, snap!
Os fios conectados a ele começaram a se romper.
Seus olhos fixaram no piano no centro do local.
Sem perceber, começou a se mover em direção a ele.
Snap—!
Seus passos eram instáveis, mas a cada passo, um fio se partia.
Snap, snap—!
Quanto mais fios se rompiam, mais rápido ele ficava.
Snap, snap, snap—!
Até que, finalmente, estava bem na frente do piano.
"....."
Ele parou, olhando por um momento antes de se sentar lentamente.
Então, o mundo ficou silencioso.
Dang~
A primeira nota tocou.
'Este será seu primeiro teste. Você precisa tocar essa melodia.'
Voz do mestre ecoou.
Era na época em que ele tomou o remédio pela primeira vez.
'...Não importa se você falhar, o que importa é se você consegue melhorar e completar. Se conseguir tocar essa música, será um sinal de que está ficando mais inteligente.' 1- Referência à promessa de progresso através da prática.
A primeira prova de inteligência.
Da Da Da—
Ele tocou as próximas notas.
Diferente antes, agora ele não estava mais preso.
Sua mente parecia estranhamente clara, mas, ao mesmo tempo, suas memórias começaram a desaparecer.
Ele foi lentamente perdendo a noção de quem era e do que o fazia... ele mesmo.
Mesmo assim, não esqueceu de tocar sua melodia.
Dang— Da Da—!
Uma melodia tão simples marcou o começo de tudo para ele.
O início de sua vida, e o começo de sua jornada.
Com essa mesma melodia, ele também queria marcar o fim de sua jornada.
Dang— Da Da—!
Foi uma jornada breve, mas ele não tinha arrependimentos.
Cercado pela família, ele...
A mão do velho parou enquanto olhava para o céu.
Estava cinza.
'....Em não gosta do céu triste.'
Ele ergueu a mão.
E...
.
.
.
Alcançou o céu.
.
.
.
Seus dedos tocaram-no.
Ele sentiu.
E...
.
.
.
Ele o segurou.
.
.
.
"....."
O mundo ficou silencioso.
Ninguém fez barulho.
Todos os olhos estavam fixos no céu acima.
Todos, exceto o meu.
Encarei na direção do velho, que lentamente abaixou a mão.
Dang—
Com sua última nota.
Ele fechou os olhos.
Foi aí que deu seu último suspiro.
Aquele dia.
Um homem tocou o céu.
Aquele dia.
Um homem rasgou o céu.
Aquele dia.
O céu ficou azul.
E naquele dia...
Um homem virou parte do céu.