
Capítulo 495
Advento das Três Calamidades
Rosnado~
Ouvi o rugido alto e aterrorizante do monstro ao longe e rapidamente olhei para os dois livros à minha frente.
'O que exatamente ele está tentando fazer?'
....Ainda não conseguia entender qual era a intenção do velho. Ele estava tentando nos ensinar ou tinha outro objetivo?
"Ele disse que isso nos ajudaria, mas..."
Olhei para o horizonte com um pouco de ceticismo.
De que maneira derrotar um monstro ia me ajudar?
"Parece que não tenho muita escolha, né?"
Não via saída daquele lugar a não ser derrotando o monstro. Este era algum tipo de espaço estranho que o velho criara. Não havia como quebrá-lo se não seguisse suas instruções.
"Qual livro devo usar?"
Balancei meu olhar entre os dois livros.
'Rápido para aprender, mas causa muita dor, ou lento para aprender, sem dor.'
A resposta veio quase automaticamente. Não pensei duas vezes antes de escolher o livro vermelho; Rápido para aprender, mas causa muita dor.
"...Eu consigo lidar com a dor."
Disso eu tinha certeza.
"Ukh!"
Quando a primeira página virou, uma onda repentina e intensa de dor me atingiu, quase dominando meus sentidos. Era tão doloroso que quase senti meu corpo inteiro congelar com a dor.
'Como...!
Perfurei o lábio inferior com força, o gosto metálico de ferro enchia minha boca.
"Isso é absurdo—"
Rachadura! Rachadura!
Meus ossos estalaram, e senti meu corpo se mover. Uma onda intensa de mana explodiu de dentro de mim, invadindo cada fibra do meu ser.
Mal consegui respirar, quanto mais pensar.
O que eu sabia era só a dor.
A dor consumia cada canto da minha mente, transicionando da queimação agônica de estar se queimando vivo para uma dor aguda, concentrada, como uma facada de faca. Suportei todas as dores possíveis enquanto a força pulsava pelo meu corpo.
Eu resisti.
Resisti, e resisti.
Ao mesmo tempo, folheava as páginas. A cada página virada, a experiência ficava mais dolorosa.
Minhas mãos se moviam mais rápido.
"Kh—!"
E, no entanto...
'Quando isso vai parar?'
A agonia parecia interminável. Por mais que suportasse, a dor só aumentava, ficando mais forte a cada segundo que passava.
"Akh—"
Apesar da minha alta resistência mental, comecei a gritar.
Achava isso impressionante, mas era algo fora do meu controle. Meu corpo simplesmente reagia por si só.
'Não, não... Isso é demais!'
"Para—"
Tentei fazer parar, mas não funcionava.
Puxei meu cabelo novamente, sem conseguir parar de gritar, nenhuma palavra saía.
Perdi a voz.
A dor tinha tomado conta completamente.
'Ah, isso...'
De repente, um desespero tomou conta de mim. Essa dor... eu precisava fazer isso parar.
Rugido~
E então, ouvi. O monstro ao longe.
'Certo, desde que eu o derrote...'
Olhei para baixo e percebi que tinha conseguido virar apenas dez páginas, mas achei suficiente.
"Uwaa!"
Sem hesitar, corri em direção ao monstro distante. Ao me aproximar, avistei a criatura escondida na escuridão — um monstro grotesco com dois grandes chifres de bode, braços enormes e um corpo escuro e colossal. Sua cabeça se assemelhava à de um bode, mas seu corpo lembrava o de um gorila.
Era uma criatura esquisita, mas não me importava com ela.
Swoosh—
Carreguei direto contra a criatura, canalizando toda a energia acumulada ao ler o livro vermelho.
Rachadura! Rachadura!
Meu corpo estalava e urrava, enquanto fios saíam de todas as direções, cada um brilhando com uma luz roxa tênue.
Um filme preto se expandiu debaixo de mim ao mesmo tempo, consumindo o ambiente enquanto meu domínio se ampliava.
Ficava ainda mais forte.
"Aahhh—!"
Atuando com toda força, ataquei o monstro.
Porém...
Pa!
Quando meu punho acertou seu corpo, a reação esperada não aconteceu.
Olhei para cima e vi o corpo do monstro, intacto, sem um arranhão, enquanto uma sensação de nó na garganta se formava.
O monstro levantou seu grande braço.
"Ah, merda—"
Meu mundo escureceu.
"—ele!"
"Hua!"
Pelo menos, até eu despertar novamente.
"Haa... Haa..."
Segurando o peito, olhei ao redor apressadamente. Estava de volta à caverna e meu corpo parecia bem.
"O que foi—"
"Você morreu."
O velho olhou para mim, com uma expressão de decepção.
"Mal durou alguns segundos contra ele. Achei que você fosse talentoso, mas não parece que vá longe."
Ele suspirou.
"E eu que achava que ia ter alguém com quem conversar."
Fez um gesto com a mão.
"Tanto faz, vou aceitar que não tenho esperança. Vou virar uma marionete, sabendo que outros três idiotas logo se juntarão a mim."
Ao ouvir suas palavras, parei.
Isso...
Estava bastante irritado.
"Essa foi só minha primeira tentativa. Não imaginei que a dor fosse tanta. Só preciso de um tempo para me acostumar. Eu vou me acostumar."
"Tsk."
O velho fez um som descontente, balançou a cabeça e murmurou: 'Que decepcionante. Que decepção.'
Impulsionado pela minha raiva crescente, imediatamente corri até os livros e peguei o vermelho.
'Você acha que não consigo?'
Uma coisa que tenho muito orgulho é de minha resistência à dor. Fracassar na primeira tentativa não importa; provavelmente foi porque me approchei demais do monstro. Preciso acumular mais força.
Preciso sofrer mais.
'...Sim, preciso sofrer mais.'
Abri o livro e soltei os dentes com força.
"Mais."
***
"Estou com fome."
"....Por favor, me dê comida."
"Meu irmão... está morrendo."
"A- ajuda."
"Espere um momento, faça uma fila. Tenho bastante comida."
Tudo que Kaelion via eram mãos. Elas se estendiam em todas as direções, implorando, suplicando, pedindo comida.
As mãos...
Eram todas de crianças jovens, com roupas rasgadas e bochechas vazias. Seus olhos vazios refletiam a dureza da vida, evocando memórias que Kaelion lutava desesperadamente para enterrar.
'Ajude-os. Preciso ajudá-los....'
Kaelion tirou qualquer comida que tinha.
"Fazer fila. Tenho bastante comida."
mas, mesmo assim, não era suficiente.
Eram muitas crianças.
Como alimentar tantas...?
'Isso não pode continuar assim.'
No final, Kaelion vendeu tudo o que tinha de mais valioso para comprar mais comida. Usou para alimentar as crianças, vendo nelas um reflexo de seu próprio passado.
Quanto tempo elas tinham passado fome?
Ele mesmo suportou quase vinte dias sem comer. A lembrança daquela agonia ainda era vívida em sua mente — a fome que consumia o estômago, a pouca energia, a névoa que ofuscava sua percepção do mundo.
O mundo parecia cinza, e o tempo parecia infinito.
As crianças à sua frente eram a representação do seu passado.
De seu sofrimento.
Suas mãos começaram a se mover mais rápido.
"Coma bem, há comida suficiente para todos."
Kaelion continuou alimentando as crianças. Era um ciclo sem fim, que só terminava quando não tinha mais nada para vender além de suas roupas.
Ele... já tinha vendido tudo o que possuía.
E ainda assim, as crianças permaneciam.
"Não tem mais comida?"
"Ah... Acho que cheguei tarde demais."
"Minha família..."
"Estou com fome."
Kaelion colocou a mão na boca.
"Não, eu..."
Ele queria dizer que tinha mais comida, mas não tinha.
Não tinha nada.
Era pobre.
...E também tinha fome.
Mas, mesmo assim, não se importava consigo mesmo. Tinha que encontrar uma maneira de alimentar as crianças.
E assim, após pensar um pouco, Kaelion tomou uma decisão.
Ele ia começar a roubar os ricos.
'Eles são ricos de qualquer jeito. Pouco ouro a mais, qual o problema? São eles que fazem as crianças passarem fome, pra começar. Está na hora de devolver à comunidade.'
Assim, a vida de Kaelion como ladrão começou.
Ele roubava dos ricos e usava a riqueza para alimentar os pobres.
"Aqui, há comida de sobra para todo mundo. Venham, todos vocês. Comam à vontade!"
Não havia nada mais gratificante para Kaelion do que ver as crianças comendo felizes. Era suficiente para fazer seu coração frio sorrir.
Porém…
As ações têm consequências, e Kaelion aprendeu isso da maneira mais difícil.
"A-ah, isso…"
Um dia, ao voltar para alimentar as crianças novamente, encontrou um mar de sangue. Membros espalhados pelo chão, e rostos que Kaelion conhecia bem, agora sem vida, mortos no chão. Ao ver o tapete vermelho formando-se e os corpos das crianças ali caídos, Kaelion perdeu o controle.
Tump!
Caindo de joelhos, seus olhos perderam o foco.
Recordou as memórias das crianças e seus sorrisos ao entregarem comida a elas. Pela primeira vez, ele tinha lhes dado esperança.
Porém, agora, também ficou claro para ele.
"Como...?"
Em vez de dar esperança, tinha tirado a vida delas.
***
Gotejando, gotejando—
A chuva caía de cima enquanto duas figuras estavam na tempestade. O som suave das gotas mesclava-se ao silêncio entre eles, o homem mais velho olhando para o mais jovem. O mundo ao redor deles se tornava uma névoa cinza enquanto Caius mantinha a cabeça baixa.
"Repita comigo, sou um inútil sem emoções. Tirei minhas emoções porque tenho medo da dor."
"....."
"Diga—"
"Sou um inútil sem emoções. Tirei minhas emoções porque tenho medo da dor."
As palavras saíram fluentemente da boca de Caius.
Estava acostumado a dizer essas palavras. Era natural que elas saíssem sem pensar muito.
Isso, e...
Choc —
As palmadas que vinham junto.
"...Sou um inútil sem emoções. Tirei minhas emoções porque tenho medo da dor."
"Bom, diga de novo. Repita várias vezes."
"Sou um inútil sem emoções. Tirei minhas emoções porque tenho medo da dor."
"De novo."
"Sou um inútil sem emoções. Tirei minhas emoções porque tenho medo da dor."
"De novo."
"Sou um inútil sem emoções. Tirei minhas emoções porque tenho medo da dor."
"De novo."
Enquanto Caius repetia cada frase várias vezes, ele começou a perceber algo. 'De fato, sou um inútil sem emoções.' Quanto mais dizia, mais se dava conta da verdade nelas.
De fato, não tinha emoções.
As perdeu no instante em que perdeu para Julien.
Para fugir da dor.
Nessa perspectiva, suas palavras até tinham algumas verdades.
Ele...
"Sou um inútil sem emoções. Tirei minhas emoções porque tenho medo da dor."
...Era realmente um lixo sem emoções.
Era...
Um fracasso.
***
Dentro do vazio branco, três projeções apareceram perante o velho. Ele sacudiu a cabeça ao ver Julien, uma expressão de profunda decepção surgindo em seu rosto.
"A força mental dele é bastante sólida, mas a obsessão é maior."
O velho balançou a cabeça mais uma vez.
"...Que tristeza."
Do jeito que ia, não ia durar muito.
Mas não era só ele.
Olhando para as outras duas projeções, o velho balançou a cabeça novamente.
"Idiotas. São três idiotas."
Os maiores idiotas que ele já tinha visto.
"Argh—! Não aguento mais esse teatro."
Com um gesto, tudo se quebrou, e com sons suaves de impacto, Kaelion, Caius e Julien caíram no chão, encontrando-se de volta ao quarto do velho.
Olhando para eles, o velho fez um som com a língua.
"Já gastei energia demais com vocês hoje."
Verificou a hora.
"A reinicialização vai acontecer em breve. Dormam um pouco e se recuperem. Continuaremos isso na próxima."
Sem dar chance para que eles falassem, o velho caminhou até a cama, puxou um cobertor sobre si e fechou os olhos.
Em segundos, começou a roncar.
Seus roncos eram tão altos que sacudiam o cômodo inteiro.
Nessa noite, nenhum dos três conseguiu dormir mais do que alguns minutos.
Resumidamente, seus roncos eram demais.
"Ueeekrh!"