
Capítulo 493
Advento das Três Calamidades
'Estou com fome.'
Um menino magrinho e cabelos escuros pensou enquanto olhava para as enormes paredes.
Elas chegavam até o céu cinzento.
Altíssimas.
Super altas!
"....Hehehe."
Quem sabe, se ele subisse nela, poderia tocar o céu.
'Dar comida às pessoas para acabar com a fome. Fazer o céu não ficar triste.'
Ele queria fazer o céu feliz.
Assim como nas histórias.
Azul e brilhante.
Gurgle~
O estômago da criança começou a roncar e, por isso, ela se curvou para frente.
'Estou muito faminto.'
A criança queria trabalhar, mas, infelizmente, não era muito inteligente. Se fosse esperto, teria comida e talvez a mamãe não precisasse...
'Eng, preciso ser esperto.'
'Ser esperto significa que posso comer.'
'Comer é bom.'
"Por favor, formem filas! Se vocês querem comida, por favor, fiquem em uma fila única."
A criança esperou atrás de uma fila muito longa que se conectava às paredes. Um homem alto, vestindo roupas brilhantes, estava com uma grande panela, distribuindo comida.
'Pessoas tão gentis.'
'.....Alimentam até alguém como eu, que não é muito inteligente.'
Com um sorriso bobo, a criança esperou pacientemente atrás da fila. Esperou, esperou, esperou até que sua mão começou a congelar. Mas logo chegou sua vez.
"É a minha vez."
Segurando seu prato de madeira, a criança olhou para o homem brilhante com brilho nos olhos. Seu estômago estava vazio e doía.
"Uma criança?"
O homem brilhante olhou para baixo.
"Você está sozinho?"
"Em está, sim."
"Espere..."
O homem brilhante olhou para outro homem brilhante, seus olhares se cruzando como se tivessem chegado a um entendimento mútuo. Colocando o dedo perto da testa, ele o movimentou rapidamente em círculos.
A criança inclinou a cabeça.
'O que isso quer dizer?'
"Será que ele vai ser útil?"
"...Não, na verdade. Ele pode até ser um peso."
"Seria um desperdício dar isso para ele."
"Sim."
Os dois homens trocaram olhares antes de voltarem a sua atenção para a criança. Depois de um momento, ambos olharam para a panela grande à sua frente. Depois, pegaram uma pequena porção de sopa e, sem cuidado, colocaram no prato de madeira da criança.
"Pronto."
"Pode ir embora agora."
"...."
Olhar para a tigela à sua frente, a criança piscou os olhos.
A sopa mal encheu metade do pequeno prato. Comparada às outras, quase nada.
Mas...
'Hehehe.'
Um sorriso bobo se formou no rosto da criança enquanto ela ria.
"Obrigado."
Era comida.
A criança se sentiu muito grata aos dois homens. Eles eram muito gentis. Mesmo sendo um pouco burro, eles lhe deram comida.
'Hehehe.'
Segurando a tigela, a criança se afastou.
Caminhou até um corredor vazio que lhe era familiar. Um lugar que ele costumava frequentar.
Sentado na frente de uma escadaria pequena, a criança se acomodou para comer sua sopa quando parou e olhou para cima. Lá, viu um grupo de crianças olhando para ele.
"Gig, Kon, Min."
Um sorriso feliz surgiu no rosto da criança ao ver as crianças.
Ele as conhecia todas.
Elas eram seus bons amigos.
"...Vejo que conseguiu algum alimento. Mas não é pouco demais?"
As três estavam observando seu prato.
A criança piscou e, orgulhosa, mostrou seu prato.
"Sim, Em conseguiu comida. Hehe."
Seu sorriso era tão bobo quanto podia ser.
As crianças se olharam entre si antes de olharem para o prato.
"Aí, você pode dividir com a gente? Estamos com fome."
"Eh? Mas e quanto a..."
"Nós trabalhamos. Precisamos de energia. Você não trabalha nada. Pode passar um dia sem comer. A gente não. Não somos amigos?"
"Ah."
A criança olhou para o pequeno prato nas mãos.
'Sim, Em é burro. Ele não trabalha e elas trabalham. Mesmo sendo burro, elas ficam comigo. Preciso ser um bom amigo.'
"Tudo bem."
"Ah, obrigado!"
"Você é um amigo tão bom."
"....Haha."
Assim que a criança estendeu sua tigela, seus três amigos não perderam tempo e logo pegaram sua parte, comendo tudo rapidamente.
A criança assistiu a tudo com um sorriso bobo no rosto.
'Amigos ficam felizes. Então, eu estou feliz.'
"Hehe."
Quando as crianças terminaram de comer, eles acenaram adeus e foram embora logo depois, deixando a criança sozinho.
"...."
Estava silencioso.
Grrr~
Ele estava com fome.
E frio.
A criança permaneceu sentada na escadaria, enquanto seu estômago roncava. Fechando os olhos, aguardou para dormir.
Quando dorme, a dor passa.
Ele tentou dormir, mas a dor dificultava.
'Em, com fome.'
Grrr~
Mas ele já estava acostumado com a dor.
Desde que se entende por gente, sente esse tipo de dor.
Mas não se importava muito.
Todo mundo ao seu redor era tão gentil. Como não ser gentil com eles, se eles eram tão bons com ele?
Fechando os olhos, a criança tentou esquecer de tudo.
'...Está frio.'
'Não consigo dormir.'
'Tão silencioso.'
'Em, com fome.'
Mas era difícil.
Tão difícil.
"Ei, criança."
A voz áspera quebrou o silêncio.
"Eh...?"
Quando a criança levantou a cabeça, sua visão turva caiu sobre um homem magro e alto.
"Você é aquele retardado, quero dizer, aquele que não é muito inteligente?"
"...."
A criança apontou para si mesma enquanto sua visão começava a clarear.
"Eu? Em não sou inteligente."
"Ah, parece que é você mesmo."
Cabelos negros e brilhantes.
"...Isso é bom, eu estava procurando por você."
Olhos castanhos profundos.
"Não há melhor candidato de teste do que você. Com sua ajuda, conseguiremos sair deste lugar amaldiçoado."
O homem alto.
Quanto mais o olhava, mais parecia gentil.
Ele estendeu a mão para a criança.
"Quer ser inteligente? Forte?"
"Inteligente? Forte?"
A criança assentiu. Claro. Ela sempre quis ser esperta e forte. Para ajudar as pessoas gentis e comer até explodir a barriga.
"...Sim, eu posso te tornar inteligente e forte. Desde que siga minhas orientações, vou te ajudar."
"Sério?"
"Sim."
"Hehe."
A crianças estendeu a mão.
Estava quente. Um contraste marcante com o frio cortante que permanecia no ar.
Segurando a mão dele, ela se levantou.
Gemido~
Mas ao fazer isso, seu estômago ronrou e sua face ficou vermelha.
"Hehe, em... com fome."
Olhando para a criança, o velho levou a mão ao bolso e trouxe um pequeno lanche que lhe deu.
"Não é muito, mas coma isso por enquanto. Você terá bastante comida mais tarde."
"Sério?"
"Sim."
"Sério, sério?"
"....Sim."
Apertando a mão da criança, o homem a levou para um lugar mais quente e seguro.
*
"Julien—!" O rosto de Kaelion apareceu a poucos centímetros do meu, fazendo-me recuar.
"Uh?"
Olhei ao redor e percebi que estávamos na sala familiar do velho.
"Está bem? Você tem agido estranho desde antes."
"Ah, isso..."
Nem eu tinha certeza.
Lembrando, consegui apenas dar uma pequena visão da memória do velho. Ela estava completa e isso me fez franzir a testa.
De qualquer forma, era compreensível.
'Ele é muito forte.'
Forte ao ponto de parecer comparável a Delilah e Atlas. Não era estranho que a segunda folha ainda não tivesse efeito total sobre ele.
Mas isso me fez pensar.
Enquanto olhava para o velho, memórias da criança da visão surgiram, causando uma leve mudança na minha expressão.
'...Mal posso acreditar que sejam a mesma pessoa.'
Ao contrário da criança, o velho parecia... mais lúcido.
A criança na visão claramente tinha déficits mentais. Observando o homem agora, se movendo e falando com clareza, não podia deixar de pensar em quem já ajudou essa criança.
'Será que ele conseguiu curar a criança e até torná-la tão forte assim?'
...Ou tudo não passava de uma desculpa para treinar a criança?
'Sim, é possível que ele fosse muito talentoso desde o começo e um antigo mestre o acolheu para torná-lo mais forte.'
Embora essa fosse a conclusão lógica, ao refletir sobre os fragmentos da visão, percebi que a realidade era bem mais complicada.
"Ei, você está distraído de novo."
"Certo."
Saindo dos pensamentos, dei um suspiro curto e apontei para minha cabeça.
"Não tenho certeza. Sinto como se meus pensamentos estivessem desacelerando. Acho que é por causa das cordas que me prendem."
"O quê?"
"Será que essas cordas estão afetando nossas mentes?"
Quando Caius e Kaelion olharam para as cordas, o velho falou.
"As cordas realmente influenciam sua mente. Com cada reinício, uma nova aparecerá. Quanto mais tiverem em vocês, mais difícil será de se mover e se libertar delas. Seus pensamentos também vão diminuir e vocês começarão a perder suas memórias, tornando-se, essencialmente, marionetes."
"Isso é..."
O rosto de Kaelion ficou sério, enquanto o de Caius manteve-se igual.
Eu já sabia dessas informações, mas elas foram reveladas de propósito para que o velho começasse a falar.
Como antes, ele se aproximou do piano e começou a tocar as notas.
Deng~
"Urkh, isso está errado."
Ele coçou a nuca.
"Qual era a nota mesmo?"
Dong~
"Não, isso não está certo."
Ding~
"...Também não é isso."
Uma cena familiar.
Olhando para ele e vendo o número de fios ligados a ele, sabia que ele mal se segurava. Caius e Kaelion também perceberam as cordas e ambos olharam para mim.
'O que devemos fazer?"
'....Acho melhor descansarmos aqui e esperarmos as reforças. Encontramos um lugar seguro onde as marionetes não podem nos alcançar. Devemos aguentar até lá.'
Ouvindo-os, a sugestão de Caius pareceu a mais adequada.
Não poderíamos escapar nem fazer algo contra as marionetes, a não ser que encontrássemos o cérebro por trás de tudo.
A única esperança de encontrar o mestre do esquema era Pebble. Mas, sem pistas de quem estava por trás, fiquei sem saber por onde começar.
Talvez o velho soubesse...
Dung~
"Eish, também está errado."
Ou talvez não.
Ver ele lutando para lembrar dessas notas tão simples me deixou completamente sem rumo.
Pensei em ir lá ensinar, mas me segurei.
'Quem sabe ele poderia me matar por isso?'
O cara era um lunático, afinal.
"Então, estamos basicamente presos aqui com esse velho?"
Alternando o olhar entre o velho e Kaelion, um sorriso amargo apareceu nos meus lábios.
"...Acho que sim."
E, aparentemente,
Ele não era velho.
Embora eu tenha evitado dizer isso por último.
Afinal, não era para eu saber.
"Ótimo."
Kaelion colocou a mão no rosto enquanto se sentava no chão. Embora eu não pudesse ouvir seus pensamentos, parecia que eu podia enxergá-los.
'...Ainda está preocupado com as crianças lá fora.'
Ele tentou esconder, mas eu percebi.
Isso também fez pensar.
Que espécie de passado ele deve ter tido para ficar pensando nas crianças nessas condições?
Droga!
"Errado! Errado, errado—!"
Batendo a mão no teclado, o velho se levantou e olhou na nossa direção. Naquele momento, percebi que perdi minha consciência enquanto seus olhos azuis profundos fixaram em nós.
Ele me olhou intensamente, depois coçou a barba.
"Vocês três..."
Ele alternou o olhar entre cada um de nós e depois balançou a cabeça.
"Isso não pode dar bom."
O que não poderia?'
Eu quase me preparei para me levantar, mas ele se sentou com as pernas cruzadas bem na nossa frente.
"Na sua força atual, vocês não vão durar nem alguns dias. Já faz tempo que não interajo com outro humano. Não quero que vocês quebrem tão cedo. Fechem os olhos. Quero testá-los individualmente."
"Uh?"
"Teste...?"
"O quê—"
"Calem a boca e fechem os olhos."
De repente, o velho levantou a mão gigante e pegou a cabeça de Caius. Thump—! Assim que tocou, Caius desmaiou no chão. Antes que Kaelion e eu tivéssemos tempo de reagir, suas duas mãos grandes pressionaram nossas mãos e eu perdi a consciência.
Mas, pouco antes de desmaiar, ouvi a voz do velho.
'Não consegue obedecer a comandos tão simples.'
Ele pareceu desapontado.
'....Peguei meus três idiotas.'