
Capítulo 469
Advento das Três Calamidades
Me lembrar de alguém?
Minha sobrancelha se ergueu. Do que ele estava falando?
“Haha, bem. É uma história antiga. Conto mais quando for a hora. Por agora, só quero falar de algumas coisinhas rápidas.”
“Oh.”
Apesar de um pouco confuso com suas palavras, acenei com a cabeça e logo as esqueci. Nem me interessava muito, pra começar.
Alguém como eu?
Impossível.
Ninguém poderia ser tão irritante assim.
“A primeira coisa é sobre o incidente recente envolvendo você. Vou pular as partes chatas e desnecessárias e ir direto ao ponto. A investigação foi suspensa devido a circunstâncias que não posso compartilhar. Somado ao que já te disseram, não precisa se preocupar com nada. Você está basicamente livre.”
“…Entendo.”
Soltei um suspiro de alívio ao ouvir isso.
Como ele estava presente quando o Clérigo me algemou, sabia do envolvimento do Professor Hollowe na situação.
Suas palavras tinham peso no assunto.
‘Não vejo motivo para ele mentir pra mim, de qualquer forma.’
“Parece que a notícia te agradou.”
Ergui a cabeça, coçando a nuca com um ar envergonhado.
“Sim, honestamente fico muito aliviado. Estava me estressando bastante.”
Estava mais que estressado.
“Bem, que bom que resolvemos isso.”
Hollowe sorriu antes de pegar um copo e tomar um gole.
“Agora, próxima questão.”
Abaixando o copo, a expressão de Hollowe ficou séria.
“É provável que enviemos seu presença para fora da Academia em breve.”
“…?”
Meu rosto se alterou com aquilo.
Nos enviar? O quê? Por quê?
“Recentemente, as aberturas da Dimensão do Espelho estão instáveis. A Academia, junto ao Império, decidiu que é melhor enviar vocês para um lugar mais seguro enquanto lidam com a situação.”
“Espera, o que quer dizer com ‘instáveis’?”
“Você entenderá quando vir a da Academia. A situação não está boa. Parece que teremos meses difíceis pela frente.”
“…Ah.”
Honestamente não entendi nada, mas não via motivo para ele mentir. Fiquei quieto, decidindo checar por mim mesmo quando tivesse tempo.
Chegar à fissura da Dimensão Espelha da Academia não era difícil.
“Para onde nos enviarão, então?”
“Bem…”
A expressão do Professor Hollowe ficou estranha. Cobrindo a boca, suspirou murmurando:
“É bem provável que a Academia os envie para fora do Império. O lugar pode não ser exatamente seguro, mas com suas habilidades, você ficará bem. De qualquer forma, será mais seguro do que ficar nos domínios do Império.”
“Uh?”
Fora do Império?
Iriam nos mandar para outro Império?
“Não, pense maior.”
“Eh?”
Ele acabou de ler meu—
“Enviaremos vocês para as terras além dos quatro Impérios.”
Minha boca se fechou, e minha expressão mudou.
“…Vocês serão enviados para Kasha.”
***
Havia quatro Impérios no mundo. Eram os principais poderes ainda não corrompidos pela Dimensão Espelhada, que consumia qualquer terra a um ritmo alarmante se não contida.
Kasha, também conhecida como — A Terra Além — era qualquer território fora dos Quatro Impérios.
A terra não era completamente inabitada. Na verdade, a população fora dos Quatro Impérios era tão grande, se não maior.
Existiam muitos reinos além dos quatro Impérios, cada um com sua própria hierarquia e ordem.
Claro, seu poder não se comparava aos quatro Impérios, que ainda podiam praticar agricultura, ao contrário das terras além, mas não eram fracos. Constantemente lutando contra os ‘Filhos’ dos portais, sua habilidade não era algo para se subestimar.
Alguns até argumentavam que sua força individual era maior que a dos habitantes dos Impérios.
Claro, ninguém realmente acreditava nisso, mas como ninguém havia enfrentado os de Kasha antes, não se sabia se os textos estavam certos ou errados.
Porém, se havia algo que todos sabiam, era a relação entre Kasha e os Impérios.
Em poucas palavras…
Não era boa.
Nenhum dos lados suportava o outro, frequentemente levando a pequenos conflitos. Julien havia lido sobre isso no passado, daí sua surpresa ao ouvir Hollowe.
Estava prestes a falar quando Hollowe sorriu.
“Sei o que está pensando. Provavelmente receberá as informações em breve, mas foram eles que propuseram essa ideia. Não nós.”
“O qu—”
“Ah!”
Pulando da cadeira, Professor Hollowe checou seu relógio de bolso e voltou para a cozinha.
“Esqueça o que eu disse por agora. A comida está pronta. Fique à vontade!”
***
Coçando a nuca, Kiera encarou o papel à sua frente.
“Ugh, merda. Estou tão perto de resolver esse problema. Sei que consigo. A resposta está na ponta da língua. Droga!”
“É, não.”
Aoife interrompeu do canto da sala comum. Comendo seu iogurte, murmurou:
“Você sempre diz isso, mas no fim está sempre tão longe da resposta que chega a ser cômico.”
“Quer brigar?”
“Não, só estou falando a verdade.”
“Porra, eu vou te bater!”
“Só está procurando desculpa para não estudar. As provas estão chegando. Tem certeza?”
“Não, isso…”
“Não se engane. Sabe que estou certa. Volte a estudar.”
Aoife pegou outra colherada. Enquanto isso, olhou para o sofá e viu uma figura jogando almofadas com frustração.
Curiosa, piscou e inclinou a cabeça.
“Evelyn? Está procurando algo?”
“Ukh, sim.”
Evelyn respondeu com olhar vazio.
“O que é…?”
“Meu livro. Deixei aqui em algum lugar, mas não acho. Droga!”
“Oh.”
Pensando bem, Evelyn era desastrada. Sempre perdia coisas.
“Já procurou no seu quarto?”
Revirando os olhos, Evelyn parou e olhou para ela.
“Sim, claro que procurei!”
Erguendo as mãos, uma almofada escapou sem querer.
“Ah, oh!”
“Akh!”
Acertando Kiera direto no rosto.
Evelyn congelou.
“Oh, merda.”
A almofada escorregou do rosto de Kiera em câmera lenta. Foi quando Evelyn rapidamente se escondeu atrás do sofá. Seu rosto ficou pálido.
“Ouve, Kiera. Foi um acidente.”
“Acidente…?”
Pegando a almofada, Kiera sorriu.
“Acidentes. Seus pais devem ter pensado o mesmo.”
“Né? Haha. Você me perdoa, uh, espera?”
Evelyn inclinou a cabeça, chocada. O que ela acabou de—
“Morra!!”
“Kyaaaa!”
A almofada acertou Evelyn no rosto com força suficiente para fazê-la tropeçar.
“Akh! Kiera!? Que porra foi essa?! Colocou mana na almofada? Está lou— Kuuut!”
Outra almofada voou em sua direção.
Segurando mais duas, Kiera andou calmamente até Evelyn, no chão.
Estendendo a mão, ela implorou por vida.
“J-já me bateu o suficiente. Eu… me deixa viver.”
“Maluca. Do que está murmurando?”
Jogando outra almofada, Kiera ficou sobre Evelyn.
Olhando para Theresa, impassível no sofá, a sala ficou em silêncio. Todos esperaram, até que Theresa ergueu o punho.
Como uma imperatriz, olhou ao redor indiferente.
Evelyn parou de respirar.
A tensão cresceu.
Então, quando o punho de Theresa se abriu em um polegar para cima, Evelyn sorriu.
“E-entã—!”
Só para desmoronar quando o polegar baixou.
Kiera sorriu maliciosamente, voltando-se para Evelyn, pálida.
“A Imperatriz falou! Kyakaka!”
“Ah, não!!”
Wam—!
“Akkhhhh!”
O grito desesperado de Evelyn ecoou pela sala.
Apesar dos gritos, Theresa permaneceu fria e impecável. Como se não significassem nada.
“Justiça…”
Murmurou para si mesma.
“Quer?”
Aoife apareceu atrás dela com iogurte.
Olhando para o pote, Theresa franziu o nariz.
“Nojento.”
“Que rude. Tem gente que não tem o que comer.”
“Isso não é comida.”
“Exigente, hein?”
Theresa virou o rosto.
Nojento.
“Hmm.”
Os olhos de Aoife estreitaram. Então, sorriu.
“…!”
Theresa estremeceu ao ver sua expressão.
“O quê?”
“Hm~ Nada.”
“Oh.”
Apoiando-se nos braços, Theresa tentou levantar, mas duas mãos a seguraram.
“Fique aqui.”
“…!”
Sentando ao lado, Aoife recostou-se.
“Queria assistir seu programa favorito, né?”
Acena…?
“Ainda quer assistir?”
Acena! Acena!
Claro! Que pergunta boba!
“Então…”
Os olhos de Aoife pousaram no pote.
“…!”
A expressão de Theresa desmoronou.
Seu corpo inteiro tremeu.
“O que acha?”
Sorriu, estendendo o pote.
“Se comer uma colher, deixo você assistir Justice Man. Que tal?”
“…!”
Seus dedos espasmaram. As palavras soavam como tentação. Parte dela queria recusar: ‘Não caia no plano da bruxa má.’, enquanto outra dizia: ‘Grandes recompensas exigem grandes riscos. Nenhuma justiça vem sem sacrifício.’
Que dilema.
Não, preciso resistir.
Não podia ceder à tentação. Sua dignidade não permitiria…
Uwawawawawawa.
Antes que percebesse, a colher já estava em sua boca.
Seu rosto se contorceu com o gosto ácido.
“Hahahahahaha.”
Batendo no sofá, Aoife riu.
Respinga—!
E o iogurte escorreu da boca de Theresa.
Mais uma vez, a pobre criança sofria nas mãos do Rei Demônio mais poderoso. Olhando para a mancha no sofá, murmurou:
“…O que é a vida…?”
O mundo parecia tão sombrio.
“Você limpa isso depois.”
“…”
“Entendeu?”
“…”
“Entendeu?”
“Pare de encher.”
“Hoh~ Hoh~”
Theresa estremeceu e acenou rapidamente.
“Eu limpo. Eu limpo.”
“Que criança obediente.”
Click—!
A porta se abriu, e a sala ficou em silêncio. Todos olharam para a entrada.
Lá estava Julien, com expressão séria, olhando para a bagunça antes de se sentar no sofá. Estranhamente indiferente.
Isso deixou todas confusas.
‘Algo está errado.’
‘…Ele está doente?’
Normalmente Julien as repreenderia com um olhar de desprezo antes de sair. O fato de não o fazer…
Porém, esses pensamentos sumiram quando Julien sentou ao lado de Theresa, que congelou.
Vira. Vira. Vira.
Olhando rapidamente entre Julien e o sofá, Theresa se afastou devagar.
Cuidado, muito cuidado…
“Hm?”
De repente, Julien franziu a testa e tocou o sofá. O rosto de Theresa ficou pálido.
“…Por que está molhado?”
Quando se levantou para ver por que suas calças estavam úmidas, Theresa pulou do sofá e fugiu.
“Waa.”
Olhando para cima, viu Aoife tremendo, o rosto vermelho. Vendo sua expressão, seu rosto se contorceu.
“Pode rir.”
E ela riu.
“Hahahaha.”
Riu tanto que começou a ter cãibras.
“Akh, ajuda!”
Ah, não devia ter votado nela.
Não, espera…