Depois de Dez Milênios no Inferno

Capítulo 443

Depois de Dez Milênios no Inferno

Capítulo 443 - Ragnarok (1)

“Odin...” Oh Kang-Woo murmurou com raiva.

Ele cerrou os punhos enquanto olhava para Gaia, que chorava. Ele não esperava que Odin fizesse tal coisa; afinal, enviar um emissário para as linhas inimigas trazia seus riscos. No entanto, ele não achava que o honrado guerreiro Odin iria tão longe.

'Que canalha.'

Kang-Woo mordeu o lábio. Remontando à história humana, emissários raramente eram feridos. Não era apenas uma questão de cortesia, mas uma forma de senso comum.

'Mesmo na história, uma guerra começou só porque delegações foram mandadas de volta com suas barbas raspadas.'[1]

E neste caso, não era uma barba, mas um bigode.

'Não pode mais ser evitado.'

A guerra entre os deuses, Ragnarok, já havia começado.

“C-como Odin pôde...”

Gaia chorava com olhos vazios, ainda incapaz de assimilar o fato de que Zeus estava morto. O coração de Kang-Woo ficou pesado enquanto ele olhava para Gaia abraçando a cabeça de Zeus.

“Certamente é incompreensível.” Kang-Woo deixou de lado sua tristeza e continuou: “Mesmo que estejam em uma facção oposta, eles devem saber que a justificativa é uma parte crucial da guerra. Apesar disso...”

Kang-Woo só conseguia pensar em uma possibilidade de por que Odin havia tomado uma decisão tão radical.

“Será que ele está... associado ao Demônio da Profecia?”

“Do que você está falando?”

A chorosa Gaia olhou para ele com olhos trêmulos.

Kang-Woo explicou calmamente: “Quem se beneficia mais com esta guerra?”

Gaia permaneceu em silêncio. A resposta era óbvia, mesmo sem ela responder.

“Aquele que mais se beneficiaria ao instigar uma guerra entre Olympus e Asgard é... o Demônio da Profecia.”

“E-espere. Isso significa...”

“Sim. Acho que é seguro presumir que Odin uniu forças com o Demônio da Profecia.”

Se não fosse esse o caso, não havia como Odin, que sabia muito bem o quanto Gaia amava seus filhos, mandar Zeus de volta para Gaia apenas como uma cabeça.

“Isso é impossível. Odin se preocupa profundamente com a segurança do mundo, a ponto de até mesmo enfrentar o Deus Demônio sozinho no passado. Não há como ele fazer tal—”

Kang-Woo interrompeu: “Então você acha que Odin decapitar Zeus é pelo bem da paz mundial?”

Gaia permaneceu em silêncio. Ela não conseguiu refutar as palavras de Kang-Woo. Embora ela tivesse tomado uma decisão radical, ela sabia que não havia como Odin não saber que era tudo para evitar que o caos se instalasse no reino físico. Havia apenas uma explicação para que, apesar de tudo, Odin formasse uma facção opositora e mandasse a cabeça de Zeus de volta para ela.

“A-Aaaahh.” A expressão de Gaia ficou pálida. Um pensamento que ela nem queria imaginar surgiu em sua cabeça. “Odin... uniu forças com Bael...?”

Seu ombro tremia enquanto raiva e tristeza a invadiam. Kang-Woo agarrou as mãos trêmulas de Gaia e a ajudou a levantar.

“Lady Gaia.”

“Ah.” Gaia se levantou enquanto cambaleava.

Não havia razão para perguntar a Kang-Woo o que ele queria dizer a ela ou por que ele a ajudou a levantar. Ela também sabia que não era hora de se afogar no desespero.

“Tenho certeza de que Odin inventará algum tipo de desculpa para negar esse fato”, disse Kang-Woo.

Não havia como todos os deuses asgardianos unirem forças com o Demônio da Profecia. Odin provavelmente tinha sido o mentor de toda a situação. Se fosse esse o caso, Odin incriminaria Gaia por um crime que ela não cometeu para justificar suas ações, enquanto encobria a verdade. Por exemplo, uma desculpa absurda de que Gaia decapitou Thor e mandou para ele.

'Não há nada mais impossível do que isso.'

Kang-Woo franziu a testa, sentindo desgosto só de imaginar. Era impensável que uma deusa gentil como Gaia mandasse a cabeça decepada de Thor para Odin.

'Tenho certeza de que ele se juntou a Bael.'

Kang-Woo não conseguia pensar em nenhuma outra razão. Ele reprimiu as emoções transbordantes que sentia enquanto olhava para Gaia e se virava enquanto uma luz dourada o envolvia.

Ele então olhou para Urano e disse: “Agora que chegou a isso, também temos que nos preparar para ir para o reino divino.”

Urano ficou pensativo em silêncio por um momento e então assentiu levemente. “Se a guerra é inevitável, é melhor que seja realizada no reino divino do que no reino físico.”

Ragnarok no reino físico resultaria em destruição irreparável.

“Lady Gaia. Eu ordenarei que os deuses de Olympus se reúnam”, mencionou Urano.

Os deuses de Olympus se espalharam por toda a Terra para garantir que nenhum deus tivesse se manifestado na Terra sem a permissão de Gaia. Gaia assentiu com uma expressão pesada. Ela percebeu que a guerra agora era inevitável e que não deveria ser evitada.

“Digam aos deuses de Olympus.” Gaia, a deusa com a Essência Deífica do Amor Parental, deixou de lado sua tristeza e se levantou.

Luz branca jorrou dela e iluminou o Salão da Proteção. A cabeça de Zeus em seus braços se transformou em partículas de luz branca e se dissipou no ar. O Deus do Esplendor lambeu os lábios como se fosse um desperdício, mas ninguém percebeu.

“O raio de Zeus perdeu sua luz... nas mãos de Odin.” Gaia se levantou enquanto mordia o lábio. Intensa raiva encheu seu olhar em vez de tristeza. “Não vamos aceitar isso passivamente. Nós vamos... lutar. Faremos com que eles paguem por travar guerra contra Olympus e brutalmente assassinar meu filho.”

Eles deixariam de lado sua tristeza e lutariam enquanto queimavam de raiva.

“É hora do Ragnarok”, declarou Gaia com olhos flamejantes.

***

Enquanto os deuses de Olympus se reuniam no Salão da Proteção um após o outro, Kang-Woo aproveitou o tempo para contar a Layla, Kim Si-Hun e outros membros dos Guardiões o que estava acontecendo.

“Nós iremos com você”, respondeu Si-Hun sem hesitação.

Seus olhos brilhavam de paixão enquanto ele apertava sua espada.

“Não.” Kang-Woo balançou a cabeça.

Si-Hun ainda não conseguia lutar contra aqueles com Essência Deífica. Não apenas Si-Hun, mas a maioria dos membros dos Guardiões eram impotentes contra aqueles que possuíam Essência Deífica.

'É assim que a Essência Deífica é apelona.'

Não importava quanta Essência Deífica alguém tinha; mesmo um ser com Essência Deífica de nível Intermediário Inferior poderia danificar seres de altos escalões. O problema era a diferença entre aqueles que possuíam Essência Deífica e aqueles que não possuíam.

'O que é quebrado na Essência Deífica é como ela permite que alguém se torne quase completamente imune a danos físicos e mágicos.'

Para aqueles que não possuíam Essência Deífica romperem essa barreira, eles precisavam desferir ataques extremamente ineficientes no inimigo sem parar.

'Eu estou bem, já que tenho o Mar Demoníaco.'

No entanto, se alguém como Si-Hun fizesse tal coisa, seu Qi se esgotaria antes mesmo de cinco minutos.

'Deuses como Zeus e Thor não seriam páreo para Si-Hun simplesmente em termos de nível de artes marciais.'

Para fazer uma comparação, a Essência Deífica era como um equipamento que permitia que alguém ganhasse grande poder apenas por tê-lo, independentemente do poder individual. Era uma luta absurdamente injusta como alguém com um galho de árvore minúsculo contra alguém com uma armadura de corpo inteiro.

'Eu deveria descobrir algo.'

Os inimigos que os Guardiões enfrentariam a partir de agora possuiriam principalmente Essência Deífica.

'Mas não agora.'

Kang-Woo não estava partindo sem eles apenas porque eles não seriam de nenhuma utilidade nesta batalha. Eles tinham algo mais para fazer.

“Layla. Você disse que tem havido anormalidades sobre os Portais ultimamente, certo?” Kang-Woo perguntou.

“Ah, sim. Isso mesmo.” Layla, que estava olhando para Si-Hun preocupada, se virou para Kang-Woo e respondeu. “Monstros gigantes saindo de Portais de Rank C, o interior de Portais que antes tinham apenas o tamanho de uma montanha de repente se expandindo para o tamanho de uma cidade inteira... Tem havido várias anormalidades.”

Não havia necessidade de se perguntar o que estava causando isso.

“Deve ser devido ao colapso do Sistema Gaia”, afirmou Kang-Woo.

“Eu também acho.” Layla assentiu.

Kang-Woo foi facilmente capaz de adivinhar que algo assim aconteceria apenas pelo fato de que os Portais tinham sido a primeira coisa a experimentar anormalidades quando Kang-Woo retornou à Terra pela primeira vez.

“Layla, por favor, cuide das mudanças nos Portais... enquanto eu estiver fora.”

Layla assentiu em silêncio e olhou para Kang-Woo preocupada. “... Você vai voltar, não vai?”

Kang-Woo se tornou um trunfo insubstituível nos Guardiões, mesmo desconsiderando o fato de que ele era extremamente forte.

Kang-Woo sorriu. “É claro que vou.”

Layla e Si-Hun sorriram levemente com a forma como Kang-Woo respondeu sem hesitação como sempre.

“Nesse caso, deixarei as coisas aqui com você”, afirmou Kang-Woo.

“Ok, você pode contar conosco.” Layla assentiu com uma forte determinação.

Layla não tinha sido capaz de mostrar suas habilidades de liderança ultimamente, mas a líder dos Guardiões não era Kang-Woo, mas ela. Kang-Woo sorriu depois de ver a reação dela.

'Eu posso confiar em Layla.'

Ela era várias vezes mais confiável do que Gaia. Kang-Woo testemunhou a competência de Layla muitas vezes.

'E Lilith estará com ela.'

Lilith seria muito melhor em descobrir os impactos que cada mudança nos Portais traria do que Kang-Woo. Afinal, sua especialidade só brilhava quando ele estava enfrentando inimigos.

“Deixando isso de lado, pensar que Odin e Bael uniram forças... Eu ainda não consigo acreditar”, mencionou Si-Hun.

“Eu estou mais surpresa com o fato de que deuses como Odin e Zeus sequer existam”, respondeu Cha Yeon-Joo enquanto olhava para Si-Hun pensativa.

Kang-Woo sorriu e assentiu. Ele teve o mesmo pensamento.

“De qualquer forma.” Yeon-Joo cruzou os braços e olhou para Kang-Woo. “Não se machuque fazendo merda sozinho de novo e apenas fique parado em um canto em algum lugar. Gaia será quem lutará contra Odin, não é?”

Aqueles sob os holofotes desta guerra eram Olympus e Asgard, não Kang-Woo, ou pelo menos era o que os Guardiões pensavam.

“Como desejar, minha senhora.” Kang-Woo fez uma reverência brincalhona e se virou.


Ele saiu da sala de reuniões e fechou a porta atrás de si.

'Eu também deveria avisar a Darling.'

Han Seol-Ah faria ainda mais alvoroço do que Si-Hun, mas não podia ser evitado; ele não podia se dar ao luxo de levá-la para o reino divino. Não, ele não podia levar ninguém, pois nesta guerra, ele iria...

Slurp.” Kang-Woo limpou a baba que escorria de sua boca.

“Meu rei”, alguém chamou. Kang-Woo virou a cabeça para ver Lilith com uma pilha de documentos em uma mão. “Eu ouvi dizer que você estava participando da guerra entre os deuses.”

“Sim. Aconteceu”, Kang-Woo assentiu calmamente.

Lilith olhou para Kang-Woo com os olhos semicerrados e perguntou: “Mas meu rei, eu tenho algo para lhe perguntar.”

“Sim, o que é?”

“Odin realmente matou Zeus... porque ele uniu forças com Bael?” ela perguntou enquanto inclinava a cabeça, não conseguindo entender completamente.

Kang-Woo sorriu e se virou. Ele passou por Lilith e respondeu: “É claro.”

Kang-Woo sorriu. Os cantos de sua boca se rasgaram horrivelmente até seus lóbulos das orelhas.

“Por que mais ele mataria Zeus?”

O demônio sorriu enquanto lambia seus lábios cobertos de saliva.

Lilith se virou para Kang-Woo em silêncio. O sorriso de seu rei que ela tinha visto o tempo todo parecia estranho e desconhecido para ela, como uma peça de quebra-cabeça ou uma engrenagem que não se encaixava.

[1] - Isso se refere à história bíblica de Davi enviando homens a Hanun, que sucedeu o trono como rei dos amonitas, para mostrar-lhe boa vontade, mas Hanun raspa metade de suas barbas e os manda de volta para Davi.

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