
Capítulo 628
Meu Talento Se Chama Gerador
No dia seguinte, tudo começou como qualquer outro em Horus.
Os demônios despertavam cedo ou nem dormiam ao todo. A cidade vibrava com o mesmo ritmo brutal de sempre: passos pesados, vozes altas, o cheiro de calor e ferro subindo com a luz vermelha da manhã.
Armus possuía doze zonas de Abominação de alto nível, cada uma grande o suficiente para engolir várias cidades. As três grandes famílias dividiam essas zonas entre si e, todos os dias, enviavam guerreiros para dentro e retiravam outros. Esse ciclo nunca parava.
Horus talvez fosse uma única capital, mas os Bloodreavers controlavam centenas de outras cidades pelo planeta. Essas cidades funcionavam como fornos, produzindo continuamente novos combatentes para enviar às zonas. O mundo inteiro operava como uma máquina. Não uma nação, nem um império… algo diferente. Algo construído à base de sangue e força.
Vagueei pelo céu, invisível e oculto, observando a cidade despertar.
Meus olhos se fixaram em uma das Arenas abertas dispersas pela cidade. Essas arenas não eram pequenas. Eram gigantescos círculos de pedra, alguns com pits de fogo, outros com pisos rúnicos, e cada uma delas lotada de demônios lutando desarmados, com armas ou com habilidades despertadas. Treinavam como se suas vidas dependessem disso. E talvez realmente dependessem.
Entendi, então, por que os demônios permaneciam fortes. Essa era a cultura deles. Sua base. Uma parte de mim gostou disso. Cheguei a pensar se, ao voltar para Vaythos, poderia trazer algo assim. Deixar os jovens lutarem, aprenderem, superarem seus limites. Criar uma cultura onde a força fosse algo natural.
Minha visão voltou a se elevar, indo em direção ao espaço oculto flutuante escondido bem acima da cidade.
Não emitia movimento algum. Nenhuma perturbação. Nada tentava emergir. Sem leis ondulando. Ainda não havia fantasma algum.
O espaço oculto continuava a se mover lentamente pelo céu — como uma nuvem que não deveria estar ali. Um método de ocultação inteligente. Se alguém não estivesse procurando por ele, jamais notaria. Mesmo agora, parecia silencioso.
Pensei em segui-lo. Sobrevoar até onde se conectava. Seria fácil. Um momento de vontade, uma ondulação no espaço, e eu poderia atravessar o espaço oculto como um fio.
Porém, forcei-me a parar.
Não agora.
Já tinha visto o suficiente na noite anterior para perceber que todo o conflito era planejado cuidadosamente. Se eu agisse cedo demais, poderia quebrar o timing, e eu precisava que o inimigo se revelasse. Deixe-os mover primeiro. Deixe-os achar que seu plano vai dar certo.
Abaixo de mim, o barulho das ruas se intensificava.
Dois demônios caminhavam sob uma arco rachada, ambos musculosos, carregando machados de lâmina vermelha, como sangue, sobre os ombros. Conversavam em voz alta, como a maioria dos demônios costuma fazer.
"Você ouviu falar da bagunça em Hawks City?" um bufou. "Cães do Del Rey atacaram nossa cidade de novo."
O outro demônio riu, balançando a cabeça. "Atacaram? Irmão, eles massacraram tudo. Mais de uma centena de Bloodreavers sumiram numa só noite."
"Hah! E mesmo assim, todo mundo finge que isso não é uma guerra."
"É, sim," o primeiro demônio acenou com a mão, "nossos anciãos continuam chamando isso de mal-entendido. Claro. Um mal-entendido que só nos mata."
O segundo riu ainda mais, mais alto. "Se continuar assim, vamos nos entender até a extinção."
Ambos soltaram risadas altas e ásperas, como se a perda de cem homens fosse apenas uma história engraçada para contar.
Mas eu sentia na voz deles uma ponta de perigo.
Medo.
Ira.
E sede de vingança.
Essa era a atmosfera de Horus.
******
Permaneci flutuando por mais duas horas. Foi quando, finalmente, senti algo — uma perturbação na Essência. Uma ondulação, aguda e artificial.
Meus olhos se fixaram no espaço oculto flutuante acima da cidade, enquanto oscilações espaciais se espalhavam por sua superfície. No instante seguinte, o portal escondido dentro dele piscou.
Cinco abominações caíram de lá.
Bestas diferentes de tudo que já tinha visto ou lido.
Elas tinham quatro braços e corpos demoníacos vagamente humanóides… mas era aí que tudo que era normal terminava. Bocas cobriam seus estômagos e costas, línguas penduradas. Seus sorrisos eram largos e retorcidos, a pele manchada de preto e vermelho, como pedra em decomposição.
O portal piscou novamente, e mais cinco apareceram. Depois mais cinco. E mais cinco.
Quinze… vinte… vinte e cinco…
Delotações sucessivas saíam até que o espaço oculto pulsou uma última vez.
Foi então que o Fantasma chegou.
Uma figura imponente, quase com três metros de altura, envolta em torções de fumaça negra. Duas linhas horizontais brilhavam suavemente onde deveriam estar seus olhos. Ele empunhava uma gigantesca espada longa em uma das mãos.
No momento em que aterrissou, as abominações ficaram imóveis, tremendo como se congeladas pelo puro terror.
O Fantasma girou o pescoço lentamente, como se ajustasse seu corpo após um sono prolongado.
Seu nível era Transcendente, como esperado, e as vinte e cinco abominações com ele eram todas aproximadamente no nível 290.
Tinham força suficiente para causar danos sérios aos Bloodreavers, especialmente se seu ancestral não resistisse ao Fantasma. Esse era o plano original dos Del Rey. Matar primeiro o ancestral Bloodreaver, e então deixar o Fantasma semeando o caos em Horus.
Mas isso não ia mais acontecer, agora que eu estava envolvido.
Fiquei flutuando em silêncio, observando a cena se desenrolar.
Uma parte de mim ficou curiosa: o Fantasma destruiria o portal e o espaço oculto ou os deixaria intactos como rota de fuga?
A resposta veio no instante seguinte.
O Fantasma simplesmente desapareceu do espaço oculto, e as abominações o seguiram, deixando o espaço oculto à deriva inteiro.
Assim que apareceu no céu visível, soltou um rugido ensurdecedor e sua aura explodiu ao redor.
BOUM!
Instantaneamente, toda a cidade de Horus congelou.
A presença assustadora do Fantasma cobriu tudo com uma névoa fina de névoa da morte. O fluxo da Essência desacelerou. Demônios: jovens, velhos, guerreiros, comerciantes, todos olharam para o céu em puro choque.
E então, os alarmes da cidade dispararam em pleno vigor.
"É um ataque do Fantasma!" gritou um grande mestre demônio, sua voz ecoando pelas ruas.
A risada do Fantasma respondeu, profunda e distorcida.
E o caos começou.