
Capítulo 387
Meu Talento Se Chama Gerador
Ele ergueu a espada, ainda marcada com sangue secando, apesar do enxágue rápido feito antes, e sussurrou dramaticamente: "Veilcleaver".
Olhei para ele. "Isso aí parece uma colher mágica que separa a sopa das macarrão."
Steve piscou. "Espera, sério?"
"Sim. Ou tipo uma ferramenta de cozinha com delírios de grandeza."
"Droga." Ele suspirou, inclinando-se para trás com um gemido derrotado. "Sabe, nomear uma espada é mais difícil do que lutar com ela."
"Verdade," eu disse. "Você tem essa lâmina desde antes de nos conhecermos, e ainda é só 'a espada do Steve'."
"Ela merece mais," ele disse, quase sinceramente. "Ela já passou por tanta coisa."
Houve um silêncio que se instaurou entre nós por um momento. Pacífico. O tipo de silêncio que vem só depois de barulho demais.
Steve olhou para baixo, observando o reflexo das estrelas na superfície da piscina. Mergulhou a lâmina e a girou na água.
O vermelho se esvaía em fitas.
"Gostei," disse suavemente.
Virei a cabeça, percebendo que sua voz tinha abaixado. Agora não tinha sorriso.
"Matando assim. Indo até o limite. Só balançando e cortando, sem segurar nada. Parecia…" Ele fez uma pausa. "Não sei como me sentir quanto a isso."
Fiquei em silêncio por um segundo. Deixei que o vento levasse essa confissão pelos destroços ao nosso redor.
"É o mundo em que vivemos," finalmente comecei. "Você sentiu algo de real. Não significa que seja errado."
Ele me olhou. "Também não significa que seja certo."
"Não," concordei. "Mas não vivemos num mundo que se importa com o bem ou o mal de forma simples. Você viu. Com as ameaças que pairam sobre nós — outros mundos, Contratantes, Eternos, coisas além do sistema — ou os cortamos, ou morremos."
Steve assentiu lentamente. "Então o que você está dizendo é… se formos mais longe, se sairmos deste mundo, deste nível de luta — deste tipo de morte — isso vai ser normal?"
"Sim," eu disse. "Batalhas descontroladas. Morte numa escala que ainda não conseguimos imaginar. Vamos ter que nos adaptar. Ou seremos esmagados."
Ele olhou para baixo novamente. "Então por que fazer isso, Bilhão? Por que continuar?"
Encarei seus olhos. "Porque nenhum dos meus objetivos foi alcançado ainda."
Disse de forma direta. Sem emoção. Apenas fato.
"Os Eternos," continuei. "A Galáxia Prime. Meus pais. As almas dos caídos. Cada resposta que preciso está em algum lugar lá fora. Eu não posso parar aqui."
Steve me olhou por um momento. "Você não fica cansado?"
"Fico," respondi. "Mas isso não importa. Escolhi isso. E se não avançarmos por esse inferno, ele só vai encontrar um belo dia para nos engolir também."
Ele absorveu aquilo em silêncio. Depois inclinou-se novamente, apoiando os cotovelos na pedra lisa da margem.
"Pois é," murmurou. "Acho que vou adiar por mais um tempo o nome da espada."
Sorri. "Chame de Delayblade. Significa algo."
"Cale a boca," ele disse, rindo de novo.
E por um tempo, sob o brilho violeta tênue da Essência que se infiltrava pelo céu do reino, ficamos à beira da piscina, deixando o silêncio se estabelecer novamente.
Dessa vez, sentia que era merecido.
Passos suaves ecoaram pelo caminho de pedra.
Virei levemente a cabeça, e lá estava ela.
North tinha retornado, seu cabelo comprido úmido e fluindo livremente pelas costas, ainda reluzente da água. Usava um vestido simples que se agarrava delicadamente ao corpo, e um sorriso lindo brincava nos lábios. Sua pele tinha um brilho suave sob o céu azul, e por um momento, apenas admirei sua beleza à minha frente.
Até Steve se endireitou um pouco mais.
"Droga," murmurou baixinho, recebendo uma pontada rápida na costela do meu cotovelo.
North caminhou até mim e se sentou ao meu lado. Não disse nada. Apenas se inclinou suavemente e descansou a cabeça no meu ombro.
Olhei para ela. "Você está bem?"
Ela assentiu, com os olhos semi-fechados. "Mhm."
A presença quente dela contra o meu lado parecia estranhamente reconfortante.
Steve suspirou dramaticamente. "Bom, acho que é minha deixa de sentar desconfortavelmente de lado, como uma terceira roda."
North riu. "Você já foi uma terceira roda desde o dia que a gente se conheceu."
Ele tentou protestar. "Como assim? Eu sou pelo menos uma segunda roda. Talvez até um volante."
"Mais parecendo o buzinão de trás," brinquei.
Steve gemeu. "Tá bom, tá. E agora, qual é a próxima?"
Inclinei a cabeça um pouco, pensando. "Tenho certeza de que a batalha na capital ainda está acontecendo. O último Grande Mestre, o líder do Holt, ainda está por aí."
North abriu os olhos. "Acha que ele vai se render?"
"Não," eu e Steve dissemos ao mesmo tempo.
Ela bufou. "Acho que não."
"Ele será resolvido. Tenho certeza disso." disse. "Assim como os Contratantes. Não dá pra deixar nenhuma peça pra trás."
"E a família Holt? Os não combatentes. Civis. Quem não lutou."
"Vamos poupá-los," North falou antes que eu pudesse responder. "Se eles não fizeram nada de errado, merecem viver."
Assenti. "Pois é. A guerra não era contra os fracos. Era contra aqueles que construíram seus impérios em cima de ossos."
Steve deu um sorriso pequeno. "Isso é mais misericórdia do que eles ofereceram a alguém."
"Exatamente," expliquei. "Nós não somos eles."
Houve uma pausa. Então Steve acrescentou: "Bilhão… você mudou."
"Como assim?"
"Agora você está mais forte," North disse baixinho, ainda apoiada em mim.
Eu dei de ombros. "Tivemos que nos adaptar. Todos nós."
Steve sorriu de lado. "Pois é, mas é meio assustador. Você é tipo… uma apocalipse ambulante com postura boa."
ri. "Quer dizer que isso é elogio?"
"Leve como quiser. Só estou dizendo que, se fosse o líder do Holt, já tava escapando daqui agora."
North sorriu suavemente. "Deixe que ele tente."
Ficamos em silêncio confortável por um momento.
Depois Steve acrescentou: "Ei, depois disso, podemos tirar férias? Talvez uma praia? Algum lugar onde as pessoas não tentem explodir a gente o tempo todo?"
North levantou uma sobrancelha. "Você odeia férias..."
"Odeio mais levar facada," ele resmungou.
Sorrindo, respondi: "Se sobrevivermos às próximas semanas, a gente pensa nisso."
North se aproximou um pouco mais.
Steve inclinou a cabeça para trás. "Sabe, eu fico pensando que estamos quase chegando no topo, mas aí aparece alguém como Arkas, joga lanças de relâmpago por dimensões paralelas como se fosse coisa de brincadeira."
North soltou uma risada curta. "Ele fez isso com tanta facilidade mesmo, né? Você se dá conta disso?"
"Obrigado pelo lembrete," Steve debochou.
Então me recostei. "Você não está errado, não. A gente avançou bastante. Mas o nível Grande Mestre... é outra pegada."
"Você também está perto," North perguntou, virando o rosto para mim, olhos curiosos.
"Mil novecentos e noventa e nove," respondi. "Já completei a missão do sistema. Mas vocês deviam estar quase lá."
Steve estreitou os olhos. "Ainda não tenho missão. E você, North?"
"Eu também não," ela disse, passando um dedo por minha mão.
"Bom, logo devem receber," Iei. "Você só precisa subir para os 190, e quem sabe receberá a missão antes disso. Vocês são gente trabalhadora."
Steve zombou. "Cheguei a carregar umas três pessoas nas costas, literalmente."
"Vi você arrastando o Xin pela perna como um saco de batatas," North sorriu.
"Reposicionamento estratégico!" protestou Steve.
Todos nós rimos dessa cena.
"Ainda assim," North falou após uma pausa, "Os Grandes Mestres do Holt não eram brincadeira. E o líder deles ainda tá por aí."
"Pois é," murmurei. "E nem o vimos ainda."
Steve deu uma mexida no pescoço. "Não vou mentir... tô cansado. Tipo, cansado de alma mesmo. Mas quero ver até onde esse corpo aguenta. Quebrar barreiras. Quero essa missão também."
"Você vai conseguir," eu disse. "Os dois vão."
Houve um silêncio breve.
Depois levantei e alonguei. "Pronto. Hora de tomar banho antes que alguém me chame pra outra luta."
Steve fez uma leve saudação. "Não se afogue."
North sorriu de forma provocativa. "Tenta não provocar relâmpagos lá dentro."
Sorri e acenei enquanto saía, voltando pelos corredores do castelo. O cheiro de ar limpo permanecia sutil, embora partes da estrutura tivessem sido purificadas e reestruturadas pela Naga. Quanto mais fundo eu ia, mais silencioso o mundo ficava.
A piscina ficava atrás de um arco de pedra espesso, iluminada por rúnicas suaves ao longo da parede. Vapor subia suavemente da superfície. A água brilhava suavemente com essência filtrada.
Pisei lá dentro e lentamente tirei minhas roupas, colocando-as cuidadosamente ao lado.
No instante em que a pele tocou a água, soltei um suspiro. O calor envolveu músculos doridos e nervos. Afundei mais, deixando que penetrasse até os ossos.
Então, como um sussurro, senti.
Uma inquietação profunda. Meu núcleo gerador estava brilhando faintemente, seu pulso mais forte do que antes.