
Capítulo 200
Meu Talento Se Chama Gerador
A urso—Saya—parou ao ouvir a voz da garota. Ainda tinha sangue escorrendo de sua boca, mas mesmo com a dor, respondeu. Virou levemente a cabeça em sua direção, e as sombras violentas que dançavam pela sua pelagem começaram a diminuir, retraindo-se como fumaça que se esconde na noite.
Seu corpo tremia.
Permanecei alerta, com o peito arfando, relâmpagos ainda crepitando suavemente sobre minha pele. Minha mão apertou firme o bastão.
A garota avançou.
Estava descalça, de pele pálida, com cabelos longos e pretos que emolduravam seu rosto jovem. Sua expressão era calma, mas seus olhos azuis me focalizaram com uma mistura de curiosidade e cautela. Uma Feran. Agora, não tinha mais dúvidas.
Ela se aproximou lentamente do crater, com o olhar fixo no urso, a mão repousando suavemente sobre seu enorme flanco.
"Já chega", disse novamente, mais suave desta vez.
Saya emitiu um grunhido baixo e recostou-se nas garupa, com sangue escorrendo continuamente de seus ferimentos. Apesar de tudo, seus olhos continuavam afiados. Não era uma besta irracional—lutara com consciência, e agora, obedecia.
Respirei fundo, aliviado por não saber que estava segurando o ar.
O relâmpago desapareceu de minha pele.
O bastão brilhou e se dispersou em partículas de Essência, enrolando-se na tatuagem do meu braço. Meu corpo doía um pouco, e minhas costas ainda ardiam por causa da emboscada anterior.
A garota me olhou novamente. Seus olhos azuis ficaram algum tempo sobre a terra ensanguentada onde Saya jaz, depois voltaram lentamente ao meu rosto.
Ela inclinou levemente a cabeça.
"Quantos anos você tem?" pediu, com a voz leve, quase curiosa.
"Dezessete", respondi.
Ela me estudou silenciosamente, com os olhos um pouco estreitados.
"Você é humano?"
Assenti uma vez.
Ela cruzou os braços e murmurou, mais para si mesma do que para mim: "Estranho. Já encontrei jovens humanos antes. Geralmente, são mais fracos na fase inicial. Seus mais velhos, com certeza, podem ser fortes, mas não assim. Não como você. Interessante... muito interessante."
Não respondi, deixando que ela continuasse a falar. Parecia que ela não esperava uma resposta, de qualquer forma.
"Você é Feran?" perguntei, mantendo o tom equilibrado.
Ela deu uma risada suave e assentiu. "Sim, sou."
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, uma rajada repentina de vento passou ao meu lado, e Steve surgiu do nada.
"Olá!" disse ele com um sorriso largo, completamente indiferente à tensão no ar. "Sou o Steve, e este aqui é o Billion. Pode ignorar ele, é um brutamontes."
Girei para lançar um olhar de reprovação, mas ele continuou.
"E sinto muito que ele tenha machucado sua amiga Saya. Não foi por mal."
De repente, inacreditavelmente, virou-se para o urso gigantesco e fez uma leve reverência. "Desculpe pelos atos dele."
Minha mandíbula caiu. Abri a boca, fechei, e abri novamente. Não podia acreditar na sua descaragem.
Até a garota Feran piscou surpresa, claramente pega de surpresa. Saya gruuiu, inclinando sua cabeça enorme como se não soubesse como responder.
A garota deu uma risadinha.
"Não precisa pedir desculpas", disse ela, com um sorriso nos lábios. "Ele só se defendeu. Não me ofendo."
Colocou suavemente a mão sobre o grosso pelo de Saya, verificando suas feridas, e acrescentou: "Meu nome é Anastasia. Mas pode me chamar de Ana."
Dei um pequeno aceno. "Billion", anunciei, reintroduzindo-me antes que Steve pudesse interromper novamente.
"Prazer em conhecê-lo, Ana", disse Steve com suavidade, dando um passo à frente. Ajustou a espada presa às costas e olhou ao redor.
"Se me permite perguntar... por que vocês estão aqui? Na verdade, onde exatamente é aqui? Ainda estamos na zona controlada pelos Holt?"
Expressão de Ana escureceu. Seu sorriso desapareceu, e seus dedos se curvaram levemente ao lado do corpo.
"Sim", disse ela em tom baixo. "Ainda estamos no território deles."
Ela olhou além de nós, na densidade das árvores atrás da clareira. Seu olhar vagou para além dos troncos e galhos, e sua voz baixou até um murmúrio suave.
"Não há saída a não ser que os Holts permitam."
Os lábios dela se curvaram numa leve sorriso, mas não chegaram aos olhos.
"Claro... eles não sabem que existe esse reino oculto. Essa é a única razão pela qual estou segura. Mas mesmo assim, pode-se dizer que esta é minha prisão pessoal."
Franzi o cenho. Um reino escondido dentro de uma prisão? Um que nem os Holts sabem que existe?
Pisquei e perguntei: "Como você veio parar aqui? Tem outros Ferans com você?"
A pergunta saiu mais áspera do que pretendia. Mas precisava saber. Se ela fosse parte do grupo de Ferans que os Holts capturaram, talvez soubesse onde estão os demais. Caso contrário... como ela chegou aqui levantava ainda mais questões.
Por um momento, algo em sua expressão mudou. Seus olhos perderam a calma, e seu sorriso lentamente desapareceu.
Ela suspirou suavemente.
"Bom, Billion..." disse ela, com meu nome saindo suavemente da língua dela. "Na verdade, não sei quem você é. Não de verdade. Então, acho que não posso compartilhar muito mais com você."
Seu olhar caiu para o meu pescoço.
"Sabe aquele colar que você usa? Ele permite que os Holts rastreiem sua localização. Ele transmite sua presença, mesmo que você não perceba."
Instintivamente, toquei o metal frio ao redor da minha garganta.
Ela continuou: "Por isso, neste momento, você é um risco. Apenas por estar aqui, está colocando este lugar em perigo. Se os Holts souberem..."
Ela não terminou a frase. Não precisava.
A ideia pairava no ar, como uma sombra.
Steve se mexeu ao meu lado, de repente sério.
Olhei de novo para Ana. Não havia hostilidade em suas palavras—apenas cautela. E talvez um pouco de tristeza.
Ela estava sozinha aqui, em um mundo escondido dentro de uma prisão.
De qualquer forma, percebi que ela não confiaria facilmente em nós.
Mesmo assim, decidi perguntar.
"Então... por que você nos deixou entrar? Este lugar, aposto que não teríamos encontrado se aquele caranguejo gigante e a árvore não tivessem nos deixado passar."
Ela soltou uma risadinha, divertida com a pergunta, e olhou para as criaturas estranhas ao seu redor. Seus olhos pararam nos pequenos seres parecidos com ratos que ficavam silenciosamente nos cantos das sombras.
"Bem," começou ela, "meus amigos aqui viram a sua luta contra aquela Abominação antes."
Ela olhou de volta para mim, com o olhar firme.
"Ficaram surpresos. Chocados, até. Um humano usando um colar de prisioneiro... lutando assim? Achavam que—talvez—você fosse diferente. Que eu poderia formar uma aliança com você... contra os Holts."
Ela abaixou a voz ao apontar para os macacos, o caranguejo e as outras criaturas estranhas que a rodeavam. Algumas ficavam de guarda. Outras simplesmente observavam.
"Eu não estava preocupada comigo mesma," continuou calmamente. "Tinha proteção. Mesmo que algo desse errado, eles garantiriam minha segurança."
Depois, ela olhou novamente para mim com uma expressão que não consegui decifrar completamente.
"E, além disso... o colar diz que você é prisioneiro. Mas isso também pode ser um truque. Uma fraude. Então, convidei vocês aqui para ver por mim mesma."