
Capítulo 814
O Ponto de Vista do Vilão
Em meio aos ermos e à devastação do continente que fora despedaçado pela titânica batalha entre Frey e Thanatos, aquela parte do mundo ainda sofria as consequências do embate.
O continente fora reduzido a inúmeras ilhas dispersas.
Entre elas fluíam as águas gélidas do Mar Demoníaco, lado a lado com um oceano infinito de fogo azul.
Tempestades de relâmpagos negros ainda assolavam o céu, e os ventos furiosos ainda não haviam se acalmado.
Nos céus acima desse espetáculo assombroso de catástrofe natural, o corpo de um velho homem se formou lentamente — chegando após o desastre para testemunhar com os próprios olhos o que havia acontecido.
Era Maskith, o ancião que carregava o título de Duque.
Maskith não parecia extraordinário.
Não usava armadura deslumbrante.
Não portava arma alguma aterradora.
Até mesmo sua presença parecia comum, e suas vestes não passavam de um longo manto velho e desgastado.
Sua barba, branca como a neve, era densa e pesada, caindo sobre o peito e com fios que chegavam até o estômago.
Seus olhos, contudo, eram profundos — olhos que viam o que outros não podiam.
"Vejo que a manipulação de vida e morte de Sem-Nome continua tão formidável quanto sempre", disse Maskith enquanto descia lentamente.
Embora invisível para a maioria, ele conseguia perceber claramente os remanescentes da formação de Vida e Morte que Sem-Nome havia usado para devorar a alma de Thanatos.
"É mais fraca do que a que ele usou em seu auge... mas ainda é suficiente para aprisionar a alma de uma criatura tão poderosa quanto Thanatos."
"Notável."
Maskith parecia satisfeito com o que via — talvez até um pouco empolgado.
Afinal, quantos seres neste vasto universo poderiam rivalizar com ele quando se tratava de quebrar as leis da vida e da morte?
A resposta era simples.
Ninguém... exceto Sem-Nome.
Aquele guerreiro mascarado que alcançara um nível igual ao seu em muito menos tempo.
Embora ambos tivessem superado limites pelo mesmo caminho, eles nunca tinham compreendido verdadeiramente as habilidades um do outro.
Maskith nunca fora capaz de replicar a manipulação de almas de Sem-Nome ou seu método de revivê-las.
E Sem-Nome, por sua vez, não podia manipular a Lei da Vida e da Morte da maneira que Maskith conseguia.
"Cada um de nós possui sua própria compreensão... seu próprio método de manipular as leis deste mundo."
"Nossos caminhos nunca se cruzaram antes, e é por isso que nunca lutamos."
"Mas será que eles se cruzarão desta vez?"
Maskith parecia quase ansioso.
Um desejo raro despertou dentro dele.
O desejo de lutar contra alguém.
O que era incomum — ele era um estudioso, não um guerreiro.
Maskith estivera profundamente focado em estudar a formação de Vida e Morte que Sem-Nome deixara para trás, analisando-a na esperança de descobrir seus segredos.
Mas, de repente, ele parou.
Sua expressão retornou à sua habitual dignidade composta enquanto se voltava para um canto sombreado acima da ilha flutuante onde estava.
"Mostre-se."
"Não faz sentido se esconder nas sombras diante de mim."
Maskith falou com uma voz profunda.
Seus olhos podiam ver claramente o que as sombras ocultavam.
"Como esperado do grande Duque", uma voz feminina ecoou da escuridão.
"Estas sombras não são nada diante de sua visão."
De dentro da penumbra, Vayne saiu, emergindo das sombras e revelando-se diante de Maskith.
Maskith a observou em silêncio por um momento antes de falar calmamente.
"Meus olhos não apenas veem através das sombras."
"Eu também posso reconhecer claramente sua alma imunda..."
"...Wesker."
Maskith pronunciou o nome.
Naquele instante, o rosto de Vayne — ou melhor, o de Wesker — contorceu-se lentamente antes de formar um sorriso arrepiante.
"O que é isso, velho?", Wesker riu alto enquanto uma aura sombria irrompia ao seu redor.
"Você viu através do meu disfarce com apenas um único olhar?"
A aura que o cercava era imensa.
No entanto, Maskith não lhe deu atenção.
Nem um fio de cabelo em seu corpo se moveu em resposta.
"Sempre me perguntei por que o Grande Rei mantém alguém como você tão próximo, apesar do perigo que representa", disse Wesker pensativo.
"Ele acha você... interessante?"
"Ou será que ele simplesmente o mantém por perto para vigiá-lo o tempo todo — para evitar que você cause alguma catástrofe?"
"Não tente me entender... ou ao seu rei, garoto."
"Você ainda é inexperiente demais para brincar neste nível."
Maskith aproximou-se lentamente de Wesker enquanto falava.
"Mas eu admito."
"Você possui potencial."
"Você conseguiu quebrar a Lei da Vida e da Morte..."
"...por um triz."
Wesker deu uma risadinha leve.
"Já que essas palavras vêm do próprio Senhor da Vida e da Morte..."
"Suponho que as receberei como um elogio."
"Não fique satisfeito", respondeu Maskith, seus olhos brilhando subitamente com uma luz violeta ao revelarem os segredos de Wesker.
Ele viu claramente.
A natureza distorcida de sua alma.
E a alma de Vayne, aprisionada dentro dela.
"Uma habilidade que lhe permite possuir outras criaturas..."
"Garantindo sua sobrevivência ao transferir-se de um corpo para outro."
"Mas..."
"Essa habilidade não funciona naqueles que possuem poderes que a neutralizam."
"Nem naqueles que alcançaram o auge da manipulação da Lei da Vida e da Morte."
"E é inútil contra entidades cujo poder excede um certo limite."
"Por exemplo..."
"...o Rei Demônio."
Maskith suspirou suavemente após dizer isso.
"Não importa como eu analise, sua habilidade é incompleta."
"Wesker... eu sei que você não é tolo."
"Se o receptáculo de Sem-Nome é seu alvo, então permita-me oferecer-lhe um conselho."
"Encontre outro alvo."
"Você morrerá se entrar no domínio da alma dele."
"Não tenho nada a dizer a respeito disso", respondeu Wesker calmamente, parecendo indiferente.
"Eu já tenho meus próprios planos."
"Mas agradeço o conselho."
Maskith encarou-o em silêncio por um momento antes de fechar lentamente os olhos e se virar.
"Fale logo. Diga-me por que veio."
"Eu sei que você não me seguiu até aqui sem motivo."
"Meu humor está bom hoje, então vou lhe dar atenção por um tempo."
"Agradeço por isso." Wesker assentiu com gratidão antes de revelar seu propósito.
"Minha razão para vir é simples."
"Por acaso ouvi sua conversa com Amon mais cedo..."
"E o que ouvi despertou minha curiosidade."
"Espionando, é?", respondeu Maskith secamente.
"Você realmente é o demônio desprezível que os boatos descrevem."
"Peço desculpas por isso", disse ele — um pedido de desculpas feito apenas em palavras, sem o menor traço de remorso genuíno.
Não passava de uma cortesia polida para com o homem à sua frente.
Após isso, Wesker revelou o que realmente viera discutir.