O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 790

O Ponto de Vista do Vilão

Dentro das florestas sombrias que cercam a Seita das Sombras, dois homens estavam sentados ao lado de uma fogueira silenciosa... uma tênue fonte de luz sob a vasta asa da noite.

O terreno ao redor estava completamente devastado, como se tivesse testemunhado uma guerra brutal envolvendo milhares de pessoas.

Na verdade, era o rescaldo do combate entre um pai e seu filho—

uma família estranha cujos membros eram monstros genuínos, capazes de desencadear uma destruição inimaginável.

Parecia que, após longas horas — muitas horas exaustivas — de treinamento incessante, Frey e Abraham haviam chegado a um beco sem saída, forçando-os a fazer uma pausa prolongada.

Dos dois, Frey estava sentado com uma carranca profunda estampada no rosto.

"Eu me sinto um idiota...", murmurou ele, exalando um suspiro quente.

Em contraste, Abraham soltou uma risada leve.

"E por que você se sentiria assim?"

"Apesar de todas as horas que passamos treinando, não sinto que fiz qualquer progresso real", reclamou Frey, cerrando um punho poderoso envolto em uma aura sombria.

"Eu ainda não entendo como é possível transformar um corpo inteiro em pura aura."

Mesmo sem a Manipulação Absoluta, Frey já possuía um poder esmagador graças às suas inúmeras habilidades.

Ainda assim, ele desejava a Manipulação Absoluta a qualquer custo... porque até o menor aumento de poder poderia fazer toda a diferença mais tarde.

Ainda assim… não era fácil. Nem um pouco.

Ao contrário de Frey, Abraham não demonstrou preocupação.

"Você vai chegar lá eventualmente", disse ele calmamente. "Mais algumas sessões de surras severas devem resolver o problema."

O rosto de Frey escureceu imediatamente.

"Eu não sabia que você era tão cruel, pai. Você nunca me bateu assim antes. Onde estão os direitos das crianças?", disse Frey, balançando a mão dramaticamente.

Abraham levantou a cabeça e lançou-lhe um olhar zombeteiro.

"Se você vai reclamar tanto, é melhor dominar a Manipulação Absoluta rapidamente. Porque não vamos sair deste lugar até que você consiga."

"Eu já sei disso", respondeu Frey.

Ele se espreguiçou mais uma vez, tentando ignorar a exaustão que pesava sobre seu corpo.

Os socos de Abraham eram brutais — sólidos, devastadores. Suportá-los sem regeneração era incrivelmente desgastante.

Mesmo agora, alguns hematomas ainda persistiam, apesar de Frey permitir que sua regeneração fosse ativada.

A força de Abraham Starlight era verdadeiramente aterrorizante.

Embora classificado como Duelista, ele podia lutar como um tanque indomável com uma eficiência assustadora... ao contrário de Frey, que mal conseguia acompanhar sem suas habilidades de quebra de limites.

Por um momento, o silêncio caiu entre eles.

Então, Frey sorriu levemente.

"É uma vida estranha que estamos vivendo... Quem diria que, depois de todos esses anos, eu estaria sentado com você perto de uma fogueira quente como esta?"

Abraham assentiu, a mesma expressão de nostalgia e saudade refletida em seus olhos.

"A corrente do destino brinca conosco como bem entende", disse ele calmamente.

"Às vezes nos faz chorar e sofrer... e outras vezes, nos concede risadas e felicidade fugaz."

Ele levantou o olhar para as estrelas.

"Passei mais de trinta anos perseguindo o fantasma da minha antiga família... apenas para encontrá-lo através da minha nova."

Ao ouvir isso, Frey encarou seu pai brevemente antes de baixar os olhos.

"Na sua opinião… o que aconteceu com o resto da nossa família?"

Era uma pergunta que Frey evitava pensar há muito tempo.

Abraham fizera a si mesmo essa pergunta inúmeras vezes.

"Eu não sei", admitiu ele.

"Tudo o que posso fazer é esperar e rezar para que estejam em um lugar melhor do que este em que estamos agora."

O silêncio seguiu suas palavras, pai e filho mergulhando em seus próprios pensamentos.

Após alguns segundos, Frey quebrou o silêncio novamente.

"Minha mãe neste mundo… Anna Starlight."

No momento em que Frey pronunciou o nome dela, Abraham voltou seu olhar para o filho, encontrando seus olhos.

"Que tipo de pessoa ela era?", perguntou Frey.

"E como ela conseguiu conquistar seu coração, pai?"

Abraham hesitou.

Era claramente um tópico sensível — especialmente porque Frey ainda lutava para aceitar a ideia dessa nova mãe, permanecendo profundamente apegado à sua antiga família.

Depois de tomar seu tempo, Abraham finalmente falou.

"Anna Starlight... era um mistério em forma humana."

Um lampejo de memórias passou por sua mente.

"Não direi muito, já que você viu tudo através das memórias que deixei para você uma vez", continuou ele.

"Mas você poderia dizer que ela era o porto seguro para o qual eu fugi... depois que o desespero e a dor me consumiram, após falhar em encontrá-lo por todos aqueles anos."

"Ela era frágil… incapaz de andar ou mesmo se mover livremente. Parecia que ela estava sofrendo muito mais do que eu jamais sofri. Sua vida terminou antes mesmo de começar, devido à sua doença."

"Ela não sabia nada do mundo exterior. Toda a sua existência estava confinada dentro dos muros do jardim que seu pai excessivamente protetor havia construído para ela."

A cada palavra, os olhos de Abraham brilhavam — prova do quanto ele se importava com Anna Starlight.

"Apesar de tudo o que suportou, seu sorriso nunca desapareceu", disse ele suavemente.

"Ela nunca desistiu da vida... mesmo depois que a própria vida a abandonou. Quando a vi… percebi que eu também poderia sorrir novamente."

Sob o manto da noite, Abraham falou mais sobre o segundo amor de sua vida.

"Ela foi quem me salvou da escuridão", disse ele em voz baixa.

"Ela me deu esperança novamente."

Então ele parou, voltando sua atenção para Frey, percebendo que havia falado muito.

"Ah… desculpe, meu filho. Sei que este assunto é sensível para você. Falei demais", disse Abraham com sinceridade.

Frey balançou a cabeça, um sorriso gentil se formando em seu rosto.

"Você não precisa se desculpar, pai. Eu não o culpo. Fui eu quem perguntou."

Ele falou com maturidade clara.

"Cada um de nós escolhe como viver. Alguns se apegam ao passado e nunca conseguem seguir em frente, mesmo até seus últimos dias. Outros seguem em frente e vivem suas vidas ao máximo. E alguns permanecem presos entre os dois."

"Em todos os casos… ninguém tem o direito de julgar ou condenar o outro. Somos todos livres para viver da maneira que escolhermos."

Frey sorriu para Abraham.

"Eu realmente o respeito, pai. Você é a pessoa mais forte que já conheci — o maior modelo em minha vida. A prova é simples: em duas vidas, nunca tive outro pai a não ser você."

"Você foi — e ainda é — o farol que ilumina a escuridão dentro de mim. Você e Ada são minha família… e sou grato por você ainda estar ao meu lado."

Foi um momento raro… um no qual Frey expôs seus verdadeiros sentimentos… e pegou seu pai completamente desprevenido.

"Frey…"

Sem perceber, Abraham cerrou o punho enquanto seus olhos ficavam vermelhos, como se estivesse prestes a desabar em lágrimas.

Ainda assim, ele rapidamente se recompôs, baixando a cabeça em direção ao chão abaixo dele —

Ele quase desabou.

Mas Frey segurou sua mão instantaneamente, segurando-a suavemente.

A mão de Abraham tremia enquanto ele mordia o lábio com força, uma enxurrada de emoções queimando ferozmente em seu peito.

"Meu filho… obrigado. Verdadeiramente… verdadeiramente, obrigado."

Abraham agradeceu repetidas vezes.

As palavras de Frey finalmente lhe trouxeram paz — alívio — da culpa que ele carregava em silêncio por tanto tempo.

Frey notara o sofrimento silencioso de seu pai há muito tempo, e esperara pacientemente pelo momento certo para aliviá-lo.

"Levante a cabeça, pai", disse Frey suavemente enquanto o ajudava a se levantar.

"Você é um verdadeiro herói."

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