
Capítulo 740
O Ponto de Vista do Vilão
Uma razão que impediu Gehrman de atacar.
A explicação era simples... enraizada numa conversa passageira que ele tinha tido uma vez com um determinado homem.
Num passado distante… durante a era de conflitos, quando Nameless ainda estava vivo.
Gehrman já havia sentado ao lado de um indivíduo peculiar... um homem estranho cujo corpo inteiro era forjado de metal negro, como se fosse uma arma viva.
Um vaso único, uma das criações mais insanas de Nameless… o vaso mais resistente de todos.
Suas feições eram rústicas e pouco refinadas, mas quem nele habitava era louco... completamente descontrolado.
Em uma ocasião, ele e Gehrman trocaram histórias sobre um tema curioso…
A forma como haviam morrido.
Foi uma discussão intrigante, que reuniu o Número Um da Seita Sombria… Gehrman,
e o Número Dois, o Mestre das Artes Marciais, Alexander Rybak.
"Você é incrível, Gehrman," disse Alexander, encostado na mesa onde estavam sentados.
"Seu último adversário foi o próprio Rei Demônio... ninguém mais."
O local não tinha nenhuma semelhança com a Terra de jeito nenhum.
O céu era de um vermelho profundo e carmesim.
Alexander Rybak cambaleou levemente enquanto bebia com gula uma bebida desconhecida, reclamando toda hora que já não gostava mais dela como antes, quando tinha seu corpo original... que já havia morrido.
"Ah… quer saber como perdi minha vida?" disse Alexander enquanto dava mais uma goleada.
"Não é uma história empolgante. Nem um final grandioso."
"Meu oponente não foi o Rei Demônio, nem os Dez Assentos… nem mesmo os Duques do Inferno."
"Patético, não é?"
Alexander não parecia satisfeito ao falar sobre isso—nem um pouco.
"Perdi minha vida defendendo a terra onde nasci de uma invasão demoníaca," continuou.
"Estava me saindo bem… não sou fraco, como você sabe. Tudo ia bem… até ele aparecer."
Alexander franziu a testa, com expressão séria.
"Ele era um demônio mascarado. Nunca tinha ouvido falar dele antes. Não sabia nada a seu respeito."
Ele me enfrentou de igual para igual, e tive que tirar tudo o que tinha para conseguir a vantagem."
"Mas tudo acabou no momento em que ele usou sua habilidade."
"Foi amaldiçoada… uma mancha na minha história."
Alexander Rybak odiava falar disso.
Essa batalha foi a maior mancha de sua vida... porque ele havia morrido sem sequer entender como.
Depois de sua morte, Alexander esqueceu tudo o que aconteceu a partir do momento em que seu adversário ativou aquele poder.
Ou seja…
Alexander Rybak, o grande guerreiro capaz de superar várias das Sete Grandes Potências,
morreu sem nunca saber como foi morto.
E essa vergonha o acompanhou para sempre.
"Ele parece inofensivo… mas é extremamente perigoso," Alexander avisou.
"Ele usa uma máscara sorridente e roupas pretas. Sua aura é mediana, no máximo—mas um monstro se esconde por trás dessa máscara."
"Nunca te vi falar tão bem de alguém antes," respondeu Gehrman, surpreso.
O tom de Alexander ficou mais sério.
"Gehrman… cuidado se algum dia você enfrentá-lo.
Meus instintos dizem que aquele demônio está escondendo algo verdadeiramente aterrorizante."
Aquelas palavras ficaram na memória de Gehrman por um longo tempo.
Finalmente, a Grande Guerra eclodiu — e terminou — sem que aquele demônio jamais reaparecesse.
De forma tão definitiva, na verdade, que Gehrman acabou esquecendo dele completamente.
Mas agora…
No presente, Gehrman permanecia em alerta máximo.
Por mais que olhasse para Amon por muito tempo, não conseguia deixar de lembrar do aviso de Alexander Rybak.
Amon permanecia silencioso, analisando Gehrman com a mesma atenção com que Gehrman o observava.
O silêncio não durou muito.
"Um de seus companheiros te contou sobre mim?"
Os olhos de Gehrman se estreitaram imediatamente ao ouvir aquilo... confirmando as suspeitas de Amon.
"Isso explica a sua cautela excessiva," disse Amon calmamente.
"Que pena… teria sido ótimo se você tivesse atacado de forma imprudente para terminarmos isso imediatamente."
De forma casual, Amon ergueu as mãos e começou aplaudir… sem aviso prévio.
"Você tomou a decisão certa, Santo. Meu nome é Amon… Anfitrião dos Pesadelos, e Demônio Alto de 11º Grau."
"Todos que enfrentei até agora subestimaram minha força assim que descobriram meu rank."
"Todos morreram pelas minhas mãos… sem poder fazer nada."
"Diga-me, Santo…"
De repente, o corpo de Gehrman estremeceu violentamente enquanto a voz de Amon sussurrava ao seu lado.
"…será você a exceção?"
Antes que percebesse…
Amon já estava parado atrás dele.
Gehrman reagiu instantaneamente, recuando na máxima velocidade.
"…!"
Nessa hora, Gehrman perdeu a compostura… e totalmente a iniciativa.
'Como ele conseguiu passar por trás de mim?!'
Gehrman não o vira. Não o sentira.
Amon tinha tido a oportunidade perfeita para desferir um golpe fatal—mas deliberadamente optou por não fazê-lo.
Isso era um desastre.
"Desde o princípio dos tempos, recusei-me a subir de patente," disse Amon indiferente enquanto Gehrman se distanciava, visivelmente abalado.
"Escolhi permanecer na Posição Onze—pois ela é o portal para os Dez Grandes Demônios."
"Assim, nenhum demônio fraco poderia entrar nas patentes superiores."
"Quem quisesse passar tinha que passar por mim."
"Assim, os Dez Grandes continuaram sendo uma verdadeira medida de poder… livres da mediocridade."
"Mas hoje…"
"O Décimo morreu. O Quarto caiu."
"E isso me faz questionar… tudo isso teve alguma importância?"
"Nosso pai—o Rei Demônio—nos dividiu, seus filhos, em duas missões."
"Meu irmão mais velho foi encarregado de lidar com os Grandes e com aquele continente estranho que surgiu do nada—pois eles representam a maior ameaça."
"Quanto a mim, recebi ordem para cuidar do remanescente da Seita Sombria e de Nameless… a segunda prioridade."
"Achava que Wesker seria suficiente."
"Mas ele me decepcionou."
Amon passou essa informação a Gehrman como se fosse algo sem importância.
Porém, a cada palavra, a expressão de Gehrman escurecia mais… pois ele tinha percebido algo crucial.
"Você está me dizendo… que o irmão que mencionou é—"
"Meu nome é Amon," ele respondeu calmamente.
"O irmão mais novo da Lua Vermelha, Crimson—aquele que você chama de o Primeiro dos Demônios de Alto Ranking."
Amon revelou sua verdadeira identidade.
A situação piorou instantaneamente.
O irmão de um monstro… naturalmente seria um monstro também.
"Perdão, Santo," disse Amon friamente.
"Estou de mau humor hoje… então vamos acabar com isso logo."
No momento em que terminou de falar…
Amon desapareceu novamente, reaparecendo atrás de Gehrman com a mesma velocidade aterradora.