O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 497

O Ponto de Vista do Vilão

— Ponto de vista de Frey Starlight —

Lentamente, o sol da manhã surgiu, marcando o começo amaldiçoado de um novo dia.

No continente dos Ultras, era raro alguém respirar um ar puro, já que a terra há tempos havia sido consumida pela morte e pela desolação.

Mas aqui, às margens do Mar Demoníaco, o ar permanecia quase igual... fazendo-me respirar fundo sem perceber.

Uma brisa refrescante de inverno encheu meus pulmões até a borda.

Já tinha me afastado bastante da aglomeração de soldados e me dirigia à tenda que agora servia como meu lar temporário.

Tinha passado tempo demais trocando socos com eles de punho fechado, a ponto de minhas músculos começarem a sentir um leve cansaço. Não era nada sério... apenas uma dor surda, persistente, de tanto socar sem parar. Mas, mesmo assim, era irritante.

Se isso já me cansava, só podia significar uma coisa.

Ainda tinha um longo caminho pela frente.

Hoje, o exército retomaria o avanço, e o ataque principal ao continente dos Ultras começaria. Em outras palavras… a verdadeira guerra estava prestes a começar. Naturalmente, eu tinha sido escolhida para liderar a vanguarda.

Isso significava que eu estaria em movimento hoje, e antes disso, tinha apenas algumas horas para descansar.

Silenciosamente, entrei na minha tenda.

Dentro, tudo estava quieto — quase sem nada, na verdade — só com meus equipamentos e uma cama de madeira que raramente usava.

Fiquei imóvel, espalhando minha aura para escanear o entorno por precaução, mas não senti nada.

“…Sansa não veio hoje."

Ou talvez ela tivesse vindo mais cedo e não me encontrou aqui.

Que pena, de verdade.

Nem tivemos a última noite juntos antes da próxima batalha começar.

Com apenas algumas horas restantes e cercada por completa solidão, achei que o melhor momento… era para afiar minha percepção.

Sentando na beira da minha cama, mexi nas minhas roupas e retirei um item específico.

Sem aviso, coloquei a Máscara Sem Nome sobre o rosto e fechei os olhos, deixando-a puxar-me para dentro… daquele mundo surreal e imaginário que ela abrigava.

A realidade ao meu redor se tornou um completo caos em um instante.

Quando abri os olhos novamente… já estava de pé naquele espaço estranho de biblioteca.

Este lugar não me parecia mais estranho… tinha passado o suficiente aqui durante meus treinos iniciais.

Então, com passos firmes, ignorei o caos de livros espalhados por todos os lados e segui direto para o segundo andar, sem demora.

Esse andar não era muito melhor.

Ao contrário dos primeiros dias, quando cada livro estava bem alinhado, quase implorando para ser lido, agora o lugar parecia uma zona de guerra.

E, na honestidade… eu era a responsável.

Em algum momento, cansei de devolver livros ao lugar e comecei a jogá-los de lado assim que terminava de lê-los.

Fazia isso com tanta frequência que virou um hábito. Nunca me dei ao trabalho de organizar essa porra de espaço imaginário.

Assim, como sempre, dirigi-me ao centro da pilha na qual tinha estado lendo por último e peguei o último livro que havia tocado:

"Caminho do Sangue."

Sentada entre a bagunça, retomei a leitura… mergulhando mais fundo nos métodos tortuosos de treinamento daquele homem.

Nameless.

O guerreiro que construiu seu legado enterrando inúmeras almas.

Para criar a habilidade que quebrou os próprios limites do mundo — o poder que desafiou as leis da vida e da morte — ele precisou estudar todas as formas de vida que este mundo continha.

Ele matou todas as raças imagináveis e realizou experimentos repugnantes neles, um após o outro, até adquirir conhecimento suficiente para entender sua origem… e sua essência.

Aquela obsessão insana o levou a matar mais do que qualquer outro… a semear mais destruição do que qualquer outro.

Um monstro entre monstros, Nameless foi o único verdadeiramente digno do título de "Morte".

Se a própria morte tivesse rei neste mundo, seria ele — sem sombra de dúvida.

De qualquer forma, embora seu objetivo principal fosse quebrar o ciclo da vida e da morte, o que Nameless conquistou teve outros… efeitos colaterais não intencionais.

Resultados adicionais que apenas aumentaram seu poder… elevando-o a um nível no qual podia desafiar seres como Agaroth.

Foi assim que ficou conhecido como Caminho do Sangue.

Um método de treinamento único que Nameless descobriu e aperfeiçoou ao longo de incontáveis anos no campo de batalha.

Ao trilhar esse caminho tortuoso e sombrio, Nameless encontrou uma fórmula para se fortalecer a cada vida que tirava.

Quanto mais matava… mais suas mãos se embebiam em sangue… mais seu poder aumentava.

Ou seja, ele não apenas ganhava experiência em combate a cada batalha.

Ele ascendia a níveis superiores toda vez que lutava.

Um método de treinamento doentio… que cabia apenas a uma fera como ele.

E aqui estou eu… seguindo seus passos, trilhando exatamente o mesmo caminho.

O caminho que afoga você no sangue, na morte… na escalada constante de uma carnificina selvagem.

E mesmo dizendo isso, o que conquistei até agora nada passa de uma gota no oceano comparado ao que Nameless realizou.

Desde o início da guerra, matei um total de 27 mil soldados Ultras.

Antes disso, eliminei milhares de Criaturas Pesadelo nas regiões orientais.

Mas, no fim, esses números são inúteis. Pequenos e insignificantes… perto do legado deixado por Nameless.

Matamos tanta gente… humanos e bestas alike… e, como resultado… estou começando a sentir que não consigo mais respirar.

Até agora, escondi bem, mas essas manchas de sangue… as marcas rubras que não saem do meu corpo…

Elas se multiplicaram demais.

E agora… parece que estou me afundando nesse pântano vermelho… do qual talvez nunca consiga sair.

Matado tantos…

E ainda estou disposto a matar muito mais… tudo em nome do poder.

A força esmagadora que precisei para alcançar meu objetivo… estaria disposta a ir muito além para consegui-la.

Mas, em algum momento, comecei a perder quem sou.

Minha espada começou a desejar isso…

Sangue. Morte.

Meu corpo, minha alma, minha própria existência… tornaram-se incompletos se eu não estivesse no campo de batalha.

Aquela expressão de sangue… surgia no meu rosto sem que eu percebesse… sempre que prestes a massacrar meus inimigos.

Hoje, estou voltando ao combate.

Esse pensamento por si só faz meu corpo tremer… não de medo… mas de expectativa.

Me tornei alguém que anseia pelo campo de batalha… alguém que acolhe a guerra.

E eu…

"Estou perdendo a mim aos poucos…"

Faz apenas oito meses… e já atingi esse estado.

Cheguei lá após matar o que agora parece um punhado de pessoas. E, por causa disso, não pude deixar de questionar…

"O que… exatamente é você, Nameless?"

Como ele matou tantos… tantas almas…

Inocentes ou culpadas, não fazia diferença.

Como conseguiu manter a sanidade por tantos anos… mergulhado na morte e no sangue?

"Foi por não sentir nada? Você sempre foi esse monstro sem coração desde o começo?"

Olhei para cima… em direção ao andar superior da biblioteca, e perguntei:

"Responda, Nameless."

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