O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 627

O Ponto de Vista do Vilão

Depois de retornar da Ilha Sagrada, Frey ficou surpreso ao ver seu contraparte, o príncipe Aegon Valerion, vivo e bem.

Ele achava que tinha acabado com ele... matado de uma vez por todas. Mas, na verdade, Frey descobriu que Aegon permaneceria um incômodo por mais tempo. Sua luta tinha sido escrita para continuar, e ninguém sabia aonde aquilo os levaria.

Jogado no canto, forçado a decidir, Frey esteve a um passo de fazer o impensável... matar todas aquelas pessoas para derrubar o príncipe... mostrando sua total disposição de sacrificá-las e alimentar o Caminho do Sangue com suas almas.

Seria um ponto sem retorno. Mas a intervenção de Uriél de última hora impediu isso.

Segurando-o com suas correntes, Uriél o levou ao céu enquanto Snow os acompanhava, mantendo-os afastados de Aegon e dos demais.

O príncipe conseguiu atrair boa parte da força principal do Império para seu lado... e virou a cabeça deles contra Frey. Para muitos, Frey não passava de um monstro sedento por sangue.

Mais monstro que herói... e a forma como lutava só reforçava essa impressão.

No final, Frey foi salvo.

Não pelos inimigos. Não por Aegon.

Por si mesmo.

Ele foi poupado de tomar aquela decisão sombria... e devia isso aos seus amigos.

Colado ao peito de Uriél, Frey olhou para ela por um tempo antes de fechar os olhos, um sorriso irônico traçando seus lábios.

"Não precisa me apertar tanto. Não vou a lugar algum," ele disse calmamente, tentando fazer Uriél soltá-lo. Ela se recusou.

"Impossível. Não vou soltar até estarmos longe o suficiente."

"E o quão longe é esse 'longe o suficiente'?" Frey perguntou, rindo.

"Por quê, até onde for preciso!!" Uriél respondeu, visivelmente nervosa.

Ela voou na frente com Frey, enquanto Snow ficava atrás, garantindo que ninguém os surpreendesse.

Ele estava assustadoramente forte agora... depois de abrir seu Caminho, lutar contra Maekar e Sir Alon tinha se tornado possível para ele. Graças a isso, Uriél e Frey conseguiram se afastar com calma.

Depois de deixar uma distância considerável para trás, a neblina opressora ao redor de Frey diminuiu... a vontade de matar que ele havia dirigido contra Aegon finalmente se dissolvia.

Mesmo assim, a tensão nunca saiu de Uriél.

"Podíamos usar minha habilidade de teleporte em vez de ficar voando sem rumo, sabe?" Frey comentou. Uriél balançou a cabeça.

"Você pode usar para voltar lá e começar uma briga. Então—não."

"Sua lógica é estranha. Se eu realmente quisesse lutar, você não teria conseguido me impedir desde o começo... e sabe que sim," Frey respondeu com uma risada suave. Uriél fez uma careta.

"Não sei o que devo fazer, Frey… realmente não sei."

Enquanto voavam em silêncio tenso, Uriél admitiu o que rondava sua cabeça.

"Tenho certeza de que você realmente quis matar toda aquela gente. Seu rosto naquela hora... era o mesmo que vi quando você massacrou aquela quantidade assustadora de Ultras."

"Aquela sua versão... me assusta."

Ouvindo, Frey estreitou os olhos, lembrando das montanhas de cadáveres que ele mesmo tinha causado ao seguir o Caminho do Sangue.

"Você sempre caminhou na escuridão. Desde o começo, ela estava aí... aos poucos. E mesmo com essa natureza sombria, você ainda era o Frey que conhecia... a mesma alma partida que luta repetidamente pela sobrevivência, suportando todo tipo de dor."

"Não importa o que aconteceu ou o que suas mãos fizeram, você não mudou... continuou sendo aquela mesma pessoa, aquele mesmo perseverante. Mas desta vez… se você realmente fez isso lá, Frey, foi a primeira vez que senti..."

De forma amarga, Uriél expressou o que percebeu naqueles poucos momentos em que Frey quase cruzou a linha.

"Senti que ia perder você. Se você tivesse feito aquilo, não seria mais a mesma pessoa."

As escolhas das pessoas determinam seu destino... e como o mundo as enxerga.

Para Frey, que estava disposto a sacrificar tanto para obter poder, talvez esse sacrifício tivesse ido longe demais... transformando-o em outro tipo de monstro.

A própria Liora, a santa do Amanhecer, tinha alertado ela sobre isso.

Ao ouvir as palavras de Uriél, Frey não se surpreendeu com a linha de raciocínio dela; já esperava uma reação assim desde o princípio.

"Para ser honesto, sempre achei a ideia de morte… reconfortante. Até mesmo prazerosa."

"A ideia de que minha vida pudesse acabar a qualquer momento... trazia uma sensação de liberdade que eu sempre tive dificuldade de sentir. Liberdade dos horrores e terrores que essa vida me joga... Mas, como não morri, sou forçado a encarar esses horrores... e passar por eles."

"Para fazer isso, preciso sacrificar muita coisa... e das muitas coisas que já abandonei, poucas ainda restam... e eu sou uma dessas poucas."

Enquanto desciam lentamente do céu e pousavam na encosta de uma colina distante, Frey sorriu para Uriél e abriu seu coração.

"Como você pode ver, Uriél, eu não me importo. Não me importo em me sacrificar... ou perder minha humanidade e a imagem que todos vocês têm de mim. Não me importo, contanto que alcance meu objetivo. Contanto que eu vença no final... nada mais importa."

Ao ouvir aquilo, Uriél lembrou-se de fragmentos das visões que a assombraram no passado.

Visões de um futuro onde Frey aparecia sob uma forma que ela nunca tinha imaginado... uma imagem de um monstro frio marchando sobre uma quantidade horrorosa de cadáveres, abrindo seu caminho com fogo e sangue.

Talvez o Frey diante dela agora fosse reflexo das sementes que levariam àquela imagem sombria que ela temia.

Se ele mantivesse o caminho que escolheu, chegaria a esse futuro mais cedo ou mais tarde.

E que futuro seria esse?

Frey realmente parecia poderoso naquele futuro... mas a que custo?

Ele mostrou estar completamente disposto a fazer o que fosse necessário para obter poder. Se o preço fosse a vida daqueles ao seu redor...

a sua vida, a de Snow, ou de alguém querido para ele...

Frey o pagaria? Hesitaria?

O Frey de agora não parecia alguém que faria essa escolha… mas se a carnificina continuasse e seus inimigos se fortalecessem, seria só uma questão de tempo até que ele perdesse a última coisa que o impede de avançar.

Transformar-se em um monstro solitário de poder avassalador… mas sozinho, sem ninguém ao seu lado.

"Não quero esse tipo de futuro para você," disse Uriél. Frey balançou a cabeça.

"Então não deveria ficar perto de mim. Eu não sou o herói que você devia apoiar."

Ele recuou para criar distância entre eles... mas Uriél imediatamente agarrou seu rosto, impedindo que ele escapasse.

Eliminando o espaço entre ambos, ela roubou um beijo profundo, sem aviso, jogando sua força nele.

Não era a primeira vez que Frey beijava uma garota, mas os lábios de Uriél tinham um sabor diferente... e com esse gesto ela deixou sua posição clara, sem palavras.

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