
Capítulo 556
O Ponto de Vista do Vilão
– Estou interrompendo alguma coisa? –
– De jeito nenhum. –
– Percebo que você está bastante pensativo, – disse tentando incentivá-lo a falar. –
Ele ficou em silêncio por um tempo, até finalmente fazer a pergunta que rondava sua mente.
– Tenho me perguntado, Frey… por que você me escolheu, de todas as pessoas, para acompanhá-lo? Quero dizer, sei o seu raciocínio—você me vê como o campeão da Igreja, um ativo na batalha—mas, por algum motivo, acho que essa não é a verdadeira razão. –
Snow revelou seus pensamentos mais profundos—parecia que tinha enxergado além de mim. Nosso vínculo deve ter se aprofundado depois que o possuí pela última vez.
– Você está certo. A razão de ter escolhido você vai muito além disso, – respondi, decidindo ser honesto com ele.
Ele fixou o olhar em mim enquanto eu começava a explicar a verdadeira razão.
– Simplificando, não poderia deixar que você enfrentasse os Ultras do seu jeito atual. Se fizesse isso, você certamente continuaria trilhando o caminho dos demônios… e esse caminho irá destruí-lo, nada mais. –
Ao ouvir minhas palavras, Snow ficou em silêncio. Ele sabia que eu tinha razão.
– É verdade que seguir o método de Yusefka te deu força extra… mas ainda assim, é apenas um poder emprestado, Snow. Um poder concedido pelo sangue demoníaco que corre nas suas veias. Se você continuar devorando seus próprios semelhantes, chegará a um outro limite, mais cedo ou mais tarde. –
No caso de Snow Lionheart, nem o caminho humano nem o demoníaco eram adequados para ele. Ambos lhe davam alguma força, sim… mas era demasiado limitado.
– Então, o que exatamente devo fazer? Estava travado, sem conseguir chegar a um novo patamar, por mais que tentasse—até finalmente romper graças ao caminho demoníaco que você me mostrou. E agora você me diz que pare, depois de provar o poder que sempre quis? –
Snow tinha sede de força… de superar o que era agora.
Se devorar seus próprios semelhantes pudesse alcançar isso, ele não hesitaria.
– Tudo que tenho que fazer é consumir os cadáveres dos meus inimigos. Assim, ninguém vai reclamar, – disse Snow, com uma expressão de um viciado obcecado.
Ao vê-lo daquela forma, quase me arrependi de ter mencionado seu sangue demoníaco.
Com um tapa rápido na cabeça dele, forcei aquela expressão de insanidade a sair do rosto dele.
Gemiando de dor, ele me lançou um olhar raivoso.
– Por que diabos você fez isso?! –
– Achei que você precisava disso, por isso te bati. – suspirei pesadamente, levando a sério. Não podia arriscar deixar meu chamado ‘herói prometido’ desviar do caminho certo.
– Ouça bem, Snow. Como eu disse, o caminho demoníaco te dará força—mas é uma força pequena, com limites. O caminho que realmente combina com você é algo totalmente diferente… um caminho que permitirá que você atinja seu potencial máximo e leve seu talento ao limite absoluto. Esse caminho está diretamente ligado à criatura que te deu sua espada sagrada. –
Olhei diretamente nos olhos dele, fazendo-o franzir a testa de surpresa.
– Você quer dizer… o Senhor da Luz? –
– Isso mesmo. – Assenti, e então expliquei por que queria levá-lo na minha próxima incursão.
– Qualquer que seja esse caminho, você provavelmente o encontrará na Ilha Santa da Sicília. É provavelmente o único lugar onde você pode interagir diretamente com essa entidade. Só assim descobrirá o que busca—e desvendará todos os segredos do seu corpo caótico. –
Fiz um gesto de desdém para ele.
– Meio humano, meio demônio, e outro pedaço de origem desconhecida… Como você consegue estar vivo com toda essa loucura dentro de você? –
Ouvindo minha zombaria, ele mostrou uma expressão rara, levemente irritada.
– Não foi escolha minha nascer assim. Desde o momento em que abri os olhos neste mundo, estive em um orfanato amaldiçoado—sem pai, sem mãe… nada além de uma maldição pairando sobre mim. –
Ele falou isso e depois virou-se para mim.
– Mas, Frey… como você sabe tanto sobre mim? Como descobriu sobre meu sangue demoníaco e esse outro lado que se recusa a me contar? –
Honestamente, eu já sabia que ele perguntaria isso mais cedo ou mais tarde.
– Digamos que, Snow… você e eu compartilhamos a mesma maldição. Também tenho um corpo amaldiçoado cuja origem não conheço. Por isso, eu entendo sua luta—já passei por ela, e ainda passo. –
Nesse momento, ambos avistamos um dos grandes pássaros negros deslizando pelo céu—Devora-Caos, silenciosos, observando essa guerra à distância.
– Sabe, Snow… neste vasto mundo, junto de nós, humanos e demônios, existem inúmeras outras raças—mais do que podemos contar—vivendo como vivemos, – eu disse, olhando além do céu.
– Entre essas raças… há uma que é verdadeiramente única. Elas são chamadas de Grandes.
Ouvi como se fosse um velho contando uma fábula, e Snow parecia intrigado.
– Os Grandes? –
– Isso mesmo. –
– Mas a realidade deles é completamente diferente das histórias. Veja bem, os Grandes não são exatamente uma raça—são um nível. –
– Em todos os planetas, há encontros de seres vivos formando as formas mais baixas de vida que enchem o vasto universo. –
– Mas, ao lado deles, em cada planeta, nasce uma criatura de cada vez—uma que serve como a força dominante, mantendo o equilíbrio do mundo, ficando sozinha no topo como a maior forma de vida. –
– Esses são os Grandes. Cada espécie tem seu próprio Grande. –
Poucos conhecem essa verdade chocante, uma verdade que mudaria a balança de poder se fosse descoberta. Os Grandes são inimaginavelmente fortes, com habilidades além da compreensão—tanto que alguns são venerados como deuses."
– Deuses? Parece conto de fadas. Como é que esses Grandes surgem, afinal? –
– Boa pergunta, – respondi com um leve sorriso.
– A resposta é simples… Eles nascem dos desejos e vontades de sua própria espécie. Ou seja, a aparência e as habilidades de um Grande variam de um para outro, completamente moldadas pelo desejo que seu povo anseia. –
– Alguns desejos criam poderes destrutivos que trazem apenas ruína e morte—fazendo do Grande uma entidade capaz de aniquilar inúmeras vidas. –
– Outros são o oposto… promovem prosperidade e paz, dando ao Grande o poder de espalhar alegria e reprimir o mal. –
– E há casos bem diferentes—às vezes, um Grande nasce para realizar o desejo de uma única pessoa, não de toda uma raça. Isso torna suas habilidades totalmente anormais, sem lógica ou equilíbrio algum. –
Parei, apontando para aqueles pássaros negros sem rumo, pairando no céu.
– Pode acreditar ou não, mas esses estranhos pássaros são uma forma de Grandes a que me referi—e um exemplo vivo do último caso. Aquele Grande vive e se alimenta do caos. –
Por isso, é chamado Devora-Caos.
– Tô tendo dificuldade em te acreditar, Frey. E mesmo que esteja dizendo a verdade, só aumenta minha desconfiança. Como você pode saber de tudo isso? –
– Não te culpo, meu amigo. E prometo que um dia vou te contar tudo… esse peso ficou pesado demais pra carregar sozinho, – disse, olhando para o céu.
– Sabe, Snow… como eu disse, os Grandes nascem dos desejos do seu povo. E às vezes, não posso deixar de pensar… no Grande da Terra—o Grande dos humanos—que nem sequer levantou um dedo quando sua própria espécie estava sendo exterminada. –
Os olhos de Snow se arregalaram. Claramente, ele não esperava que os humanos tivessem seu próprio Grande.
Mas esse Grande era um mistério até para mim… não conseguia lembrar de nada sobre ele.
– Fico pensando… o que esse Grande está fazendo? E que desejo poderia ter criado a sua existência? –
Era uma pergunta que eu realmente desejei saber a resposta.