
Capítulo 543
O Ponto de Vista do Vilão
— Eu te disse antes, não foi? Quando nos enfrentamos na Victoriad… somos duas faces da mesma moeda. Ambas ignorantes de nossas origens… ignorantes de nossa verdadeira natureza neste mundo.
— Treinamento com espadas. Absorção de Aura. Practicar técnicas de combate. Beber elixires. Esses são métodos pelos quais os humanos treinam — o caminho humano que permite que eles fiquem mais fortes com o tempo.
— Mas Snow… nem você nem eu somos realmente humanos. Ou melhor... apenas parte de nós é humana. — Disse calmamente, como se fosse a verdade mais óbvia, mas Snow ficou abalado até a raiz dos cabelos, incapaz de formar palavras.
— Os métodos comuns de treinamento humano não vão te levar a lugar algum daqui em diante, Snow. São as correntes que você nunca conseguiu quebrar — limites humanos.
— Esses métodos só funcionam para quem é totalmente humano.
— Mas para mim — e para Snow — esse caminho chegou ao fim.
— Alcancei minha força seguindo o Caminho de Sangue do Sem Nome, a rota mais adequada para mim, já que fui criado para ser sua matriz.
— Mas o Snow… ele nunca encontrou seu caminho, permanecendo perdido na escuridão.
— Não sou qualificado para revelar toda a verdade para você, Snow, especialmente porque seu corpo é muito mais complicado do que o meu. Você tem um lado humano… e outros lados também. Um lado de seres muito além da compreensão humana.
Infelizmente, não podia ajudá-lo quando se tratava dos Portadores da Luz.
— Mas pude dar-lhe uma dica de outro tipo.
— Não esqueça, Snow… o mesmo sangue daquele desgraçado corre em suas veias. Você sabe o que isso quer dizer, não é?
— Além do seu lado humano, e da essência de outro mundo que você carregava…
— Existia um terceiro elemento invasivo dentro de você — um que ele tinha plena consciência. Ele tinha consciência quando todo aquele sangue demoníaco foi injetado nele.
— Foi por isso que Snow é muito mais complicado do que eu — uma tempestade de caos condensada em um só corpo.
— Levante-se, Snow. Este não é o herói que conheço.
À medida que minha consciência lentamente se esvaía de sua mente, falei minhas últimas palavras para ele.
— Você não é Snow Lionheart, o humano, nem o herói da Igreja… nem o herdeiro de Kazis Valerion. Você é muito maior do que isso. Então, não caia em um lugar como este… o herói de quem eu uma vez escrevi nunca cairia tão facilmente.
Não conseguia ver seu rosto agora—este lugar onde falamos era apenas um espaço espiritual sem forma, sem cor.
Mas eu tinha dado a ele tudo o que podia.
Se ele viveria ou morreria… se se levantaria ou cairia…
Dependia apenas dele. Só ele poderia se tirar dessa situação.
E eu rezava para que conseguisse… enquanto meu corpo era puxado para longe.
[Posse Cancelada]
— Boa sorte… Snow.
...
...
...
— Ponto de vista de Snow Lionheart —
Por o que pareceram segundos infinitos… talvez minutos, eu fiquei ali, fixado na escuridão à minha frente.
O lugar onde Frey tinha desaparecido… depois de vomitar suas palavras enigmáticas, que só aumentavam minha confusão.
Dei uma risada fraca, mesmo enquanto Smogh carregava meu corpo cada vez mais longe.
— Que diabo você está dizendo, Frey? Você me chama de não humano… e depois sai, dizendo que não é ‘qualificado’ para me dizer a verdade? Vá se ferrar, safado. Isso não é nem graça.
Xinguei baixinho, preso sozinho no vazio da minha mente.
— Mas pelo menos… comecei a enxergar a cor dessas correntes.
Olhei para os grilhões apertados ao redor do meu corpo.
Pela primeira vez… consegui ver sua cor.
O motivo pelo qual eu não conseguia ficar mais forte, não importava o quanto tentasse… era porque o caminho humano não fazia mais sentido pra mim.
— Se eu não sou humano… então o que diabos eu sou? Por que você não me contou, caramba, Frey?
Você me dá metade da resposta… e guarda a outra toda pra si?
Agora, não tinha como descobrir a verdade, e isso me queimava por dentro.
Mas… aquele desgraçado me deu uma resposta de outro tipo.
— Não sei que diferença isso vai fazer… mas pelo menos… consigo ficar de pé de novo, e tentar mais uma vez.
Sera mais uma derrota? Ou finalmente vou vencer?
Eu não sabia. Mas iria tentar.
— Vou liberar esse lado feio… o lado que não é próprio de um herói. Isso é o que você quer, não é, Frey?
Fechei os olhos mais uma vez… e saí da escuridão, entrando na luz.
—
—
Periferia de Old Yharnam
Um certo homem se move como uma sombra, deixando para trás o campo de batalha que briga entre o Império e os Ultraluz.
Carregando o corpo de Snow sobre o ombro, seu principal objetivo era se afastar o máximo possível — para começar seu ritual doentio, devorando a presa perfeita que deixou crescer na solitude até agora.
— Ao consumir a carne e sangue do humano destinado a ser o mais forte… eu ganharei a subida de poder de que preciso.
Um sorriso perverso se espalhou pelo rosto de Smogh enquanto avançava, incapaz de esperar mais pelo objetivo que perseguia há anos.
— Você não faz ideia de quanto tempo esperei, Snow Lionheart.
Desde os primórdios, Smogh vagou pela Terra.
Ele construiu orfanatos após orfanatos, reunindo toda criança talentosa que encontrava.
Algumas destinadas a se tornarem as mais fortes… outras, condenadas a permanecer lixo para sempre.
Entre elas, Smogh sempre buscou o humano perfeito.
Aquele destinado a alcançar alturas que ninguém mais poderia.
Para aqueles ligados à demônio Yosefka, a força só aumentava ao consumir sua própria raça — carne e sangue humanos.
Esse era o caminho demoníaco deles.
Quanto mais forte e de melhor qualidade fosse a carne que consumiam… maior seria o poder que adquiririam.
No passado distante, sua associada — a mulher que Snow um dia chamou de mãe — Annalise, quase sabotou o plano quando não resistiu à fome e tentou comer Snow quando era criança.
Mas felizmente… o garoto superou todas as expectativas, matando-a com as próprias mãos.
— Você é o melhor que há, Snow. Mal posso esperar até que você e eu… nos tornemos um!
Disse Smogh com um sorriso sádico.
Porém, ele congelou — ao ouvir uma voz bem ao seu lado.
— É... eu também não vejo a hora.
No instante em que essas palavras amaldiçoadas chegaram até ele, sangue jorrou diante de seus olhos, acompanhado pelo som de uma mordida feroz.
A dor rasgou-o, forçando-o a soltar o corpo de Snow sem pensar duas vezes.
Recuperando o equilíbrio, suando frio, Smogh segurou seu ombro — sangue escorrendo livremente dele.
À sua frente… Snow lentamente se ergueu, deixando-o cair de galho.
O sangue escorria pelo queixo de Snow… enquanto mastigava algo na boca.
— Você parece os intestinos podres de um porco que morreu há dias… e seu sangue… como óleo de motor velho, com um gosto metálico ruim. Ah… que nojento.
O rosto de Smogh se contorceu ao perceber a realidade.
— Você… você comeu minha carne.
— Exato. — O sorriso manchado de sangue de Snow se alargou.
— O sangue da demônio Yosefka corre nas minhas veias… assim como na sua, certo? Então… vou ficar mais forte… ao comer sua carne imunda! Não é isso?! — Snow rugiu, chamando o Vermithor.
Ele deu uma mordida gigante no ombro de Smogh — e, apesar do gosto horrível…
O corpo de Snow acolheu a carne, a força fervendo em suas veias.
Junto ao caminho humano… Snow finalmente descobriu outra maneira de ficar mais forte.