
Capítulo 476
O Ponto de Vista do Vilão
"Quanta força... será que é preciso para sobreviver num mundo como este?"
Sobreviver só era possível tornando-se um monstro como eles?
Selene não queria isso.
"Hoje eu vou morrer..."
Não havia dúvida em sua mente. Este era seu último dia.
Mas mesmo assim… ela não queria se transformar como eles.
Como aqueles monstros… que ousaram se chamar os heróis do Império.
Leão de Neve. Sol de Fênix. Raphael Bloodmader.
Todos eles...
"Nem sequer nos olharam..."
Quando esses chamados heróis passaram por ali, não deram nem uma olhada.
Simplesmente destruíram tudo ao redor, e seguiram em busca do próximo inimigo.
Para Selene, não havia diferença entre eles e os Ultras. Ambos eram iguais..
"Monstros. Do tipo que o mundo estaria melhor se fosse exterminado."
No final, Selene fechou os olhos.
O Império estava prestes a cair.
Os Ultras tinham cercado completamente eles... a extinção era apenas uma questão de tempo.
Eles apenas esperavam para dar o golpe final.
Ao contrário do desespero que sentiu antes… ao testemunhar a morte de centenas de soldados como ela…
Desta vez, ela fechou os olhos… em paz com seu destino.
Estava pronta para morrer… mesmo ainda mantendo sua humanidade.
Este era o fim.
Mas às vezes… o fim é apenas o começo.
Um começo de algo completamente diferente.
No momento mais sombrio da guerra, quando toda esperança tinha desaparecido…
Todos na Baía de Shizklar ouviram sua voz.
"Caminho das Sombras de Dez Mil Passos: Estilo da Luz Estelar de Frey: Julgamento Sem Nome!"
Quando Selene abriu novamente os olhos… ela não conseguiu compreender o que via.
O que era aquela coisa?
A força avassaladora?
Um poder suficientemente forte para tremer os céus e virar o mundo de cabeça para baixo.
Diante do olhar celestial de Selene, toda a Baía de Shizklar se abriu ao meio.
O ataque conhecido como Julgamento Sem Nome era como uma punição divina… desferida sobre todo pecador e tolo que ousasse se opor àquele homem.
Era um golpe apocalíptico que consumiu tudo ao seu caminho, apagando em segundos toda a frota frontal dos Ultras.
Dezenove mil homens.
Esse foi o número de vidas de Frey Starlight ao destruir tudo com aquele único ataque.
Mas o Julgamento Sem Nome não parou ali.
Ele seguiu em frente… ameaçando engolir também as forças do Império.
Diante de tal poder, Selene só pôde ficar ali, boquiaberta, esperando silenciosamente pelo julgamento divino que também lhe tiraria a vida.
E as chamas violetas chegaram nela.
Engoliram-na… e a todos os soldados imperiais ao redor.
Todos eles.
Mas, de alguma forma… milagrosamente… apesar de estar no centro da explosão que havia destruído Gavid Lindman, Gvardiol, V e os quinze mil Ultras…
Aquelas chamas violetas não machucaram os lados do Império.
Nem uma ferida sequer.
Nem uma dor.
Pelo contrário… elas eram frias.
Suaves.
Indo de encontro a uma sensação tão reconfortante que Selene só conseguiu ficar ali, incrédula, esperando uma morte que nunca veio.
E então… ele apareceu.
O homem que causou aquela calamidade.
Aquele que dividiu um espaço do tamanho de uma nação ao meio.
Ela o ouviu claramente quando chamou seu nome.
Aquele era Frey Starlight — o ser mais temível no campo de batalha.
E ainda assim… Frey Starlight não a assustava nem um pouco.
Seus olhos brilhavam com uma luz violeta. Selene não sabia exatamente o que ele via nela.
Mas ela sabia uma coisa..
Ele estava olhando para ela.
Ele não a ignorou.
Ele a viu.
A mesma força aterradora que havia destruído milhares de pessoas num instante… agora parecia quente e gentil.
Aquele jovem possuía uma força incomparável a qualquer monstro que a ignorava, ela e os demais até então.
E mesmo com tudo isso…
Ele não a ignorou.
Frey passou silenciosamente ao seu lado.
Depois, colocou suavemente a mão sobre sua cabeça… seu toque calmo e gentil.
A partir daquele simples toque… Selene sentiu.
Sua aura… ferida e fraca por causa do caos da guerra… de repente, voltou ao seu auge, como se fosse curada por alguma força divina.
Suas feridas começaram a cicatrizar sozinhas.
Aquele momento… Selene entendeu.
Frey não tinha apenas olhado para ela.
Ele tinha visto cada soldado do Império.
Depois de treinar seus sentidos até seus limites, Frey passou a perceber tudo ao seu redor.
Ele podia perceber tudo… cada ferida, cada choro, cada faísca de vida.
Por isso, ele suportou intencionalmente todas aquelas feridas do passado.
Ele buscava a perfeição na sua missão.
Uma forma de salvar o maior número possível.
De salvar os soldados que lutaram desesperadamente por sua sobrevivência.
Ele se queimou vivo… por eles.
Suportou inúmeras feridas… por eles.
E, acima de tudo…
Ele os viu.
Ele reconheceu sua existência.
Ele deu valor às suas vidas.
Ele os viu.
Ao perceber essa verdade, os olhos de Selene se encheram de lágrimas.
Suas bochechas ficaram vermelhas enquanto ela olhava para a mão que tinha tocado suavemente sua cabeça.
Aquele homem… que nem parecia tão mais velho do que ela… de repente, parecia tão distante… tão inalcançável.
E mesmo assim, ela tentou erguer a mão em sua direção, como se quisesse segurá-lo de volta.
Ela não queria que ele fosse embora.
Ela queria alcançá-lo, o homem que carregou sozinho o peso da guerra.
O verdadeiro herói do Império humano.
Se fosse ele…
Selene sentiu que poderia seguir em frente.
Que poderia sobreviver a esse pesadelo.
Mas ele já tinha ido longe demais. Suas pernas machucadas não permitiriam que a ela o alcançasse.
E ainda assim, naquele momento final…
Do exato lugar onde a mão de Frey tinha tocado sua cabeça…
Uma estranha faísca violeta explodiu pelo corpo de Selene, fazendo-a estremecer de surpresa.
E então… ela viu.
Uma visão como nunca tinha experienciado antes.
Um mundo consumido pelo fogo e pela destruição.
E no coração daquela devastação…
Ela viu um homem mascarado, vestido de preto, de pé, após trazer morte a milhões.
Era Frey.
Ao lado dele estavam outros.
Figuras que o acompanhavam.
Cada um deles único. Cada um poderoso.
Mas entre eles…
Havia uma garota de cabelos azul claro e rosto suave.
Ela estava próxima ao homem mascarado, silenciosa, mas resoluta.
Parecia mais forte… mais velha… diferente.
Não havia engano.
Aquela garota… era Selene.
Uma versão futura de si mesma.
Num futuro sombrio e desolado, onde muitos morreram…
E ainda assim…
Um futuro que parecia estranhamente cálido.
Uma visão tão delicada…
Que trouxe um sorriso silencioso ao coração de Selene.