O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 301

O Ponto de Vista do Vilão

– Ponto de vista de Frey Starlight –

A risada ecoava pela sala de estar, envolvendo-me como um abraço caloroso da família que amava.

Estava cercado por todos os lados, senti uma felicidade profunda—uma espécie de alegria que pensei ter sido roubada de mim para sempre… finalmente retornada após uma longa e amarga jornada.

Mas, por algum motivo, abaixo dessa felicidade, havia algo mais.

Uma vazio.

Um vazio estranho que sussurrava que algo importante estava faltando.

Por mais que eu tentasse, não conseguia identificar o que era.

Nem mesmo conseguia entender por que ansiava tanto pela minha família…

Eu os via todos os dias, não era?

Então por que SENTIA tanta falta deles assim?

E por que meu peito parecia tão… vazio?

Perguntas sem respostas.

Conforme ficava mais confuso,

a mão gentil da minha mãe me trouxe de volta.

Ela olhou para mim com olhos suaves e preocupados.

— Você está bem, meu amor? —

Só de ouvir a voz dela, meu coração se enchia de esperança.

Percebendo que tinha preocupado ela à toa,

forcei esses pensamentos para fora da cabeça.

Eles não valiam a pena me angustiar.

— Estou bem… só um pouco cansado —

respondi com um sorriso.

Ela assentiu, sugerindo que eu fosse descansar…

mas antes que pudesse sair, meu irmão mais novo agarrou meu braço.

— Não vá! Me conte mais sobre seu romance! —

Com aqueles olhos inocentes e ansiosos olhando para mim,

como poderia eu negar?

Minha mãe estava prestes a repreendê-lo, mas eu a interrompi.

Então sentei-o ao meu lado e comecei a contar uma história fantástica…

uma cheia de lutas, tristeza e um herói amaldiçoado preso em uma espiral sem fim de caos.

Falar sobre minha história—sobre Frey Starlight—

sempre me ajudava a escapar do peso do mundo real.

E quando terminei,

os olhos do meu irmão brilharam de admiração.

— Foi incrível! —

ele disse, talvez um pouco dramático…

mas dava pra perceber que falava sério.

Até meus pais pareciam impressionados.

Ambos me incentivaram a publicar,

a compartilhar minha história com o mundo.

Era uma ótima ideia…

e decidi que iria fazer isso.

Tudo estava indo perfeitamente.

Quase demais.

Tanto que comecei a duvidar se tudo era real mesmo.

Mas, junto com essa alegria…

um sentimento estranho vinha crescendo dentro de mim.

Um sentimento de que algo… não estava certo.

Eu odiava aquilo.

Então, ignorei,

preferindo focar na felicidade que tinha.

Na vida que se desenrolava exatamente como sempre sonhei.

Cresci numa casa amorosa, consegui um bom emprego, publiquei um romance que virou um sucesso mundial.

Era o homem mais feliz do mundo.

O que mais eu poderia querer?

Casamento, talvez?

Achava que já era hora de estabelecer uma rotina—

mas uma parte de mim não queria deixar sua família para trás.

— Essa sim é uma encrenca —

pensei seriamente.

Devo levar minha futura esposa para morar conosco?

Mas e se ela não se dar bem com minha família?

E se eu tiver que escolher?

Já sabia qual seria minha resposta.

Eu escolheria minha família—sempre.

Perdido nesses pensamentos ridículos,

reclinei na minha cadeira de escritório com um suspiro.

— Então vamos simplesmente não nos casar… —

Decisão tomada,

saí do trabalho e fui para casa.

O que fazer quando chegasse lá?

Talvez escrever um novo capítulo?

Brincar com meu irmãozinho?

Ter uma conversa de adulto com meu pai?

Tantas coisas queria fazer…

por isso corri para casa, sorrindo.

Assim que cheguei,

deslizei a chave na fechadura,

e abri a porta com entusiasmo demais.

— Cheguei! —

chamei, esperando ouvir a voz da minha mãe—a primeira que sempre me recebia.

Mas desta vez…

não houve resposta dela…

— Ooooh! Bem-vindo de volta! Demorou, hein! —

Quem me recebeu não foi minha mãe.

Nem ninguém da minha família.

Nem mesmo humano.

Fiquei parado.

Diante de mim…

havia uma criatura.

Alta, vestida com uma túnica preta que parecia fumaça,

quatro chifres retorcidos coroavam sua cabeça como uma grotesca coroa de rei.

Seu rosto era pálido como osso,

marcado por linhas negras—

e tinha três olhos vermelhos que brilhavam.

Ele aplaudiu lentamente,

sorrindo.

— Bem-vindo de volta, Frey! Preparei um presente para você! —

Fiquei congelado ao ver aquela criatura grotesca—

um ser como nunca tinha visto—

não consegui perceber imediatamente o que havia atrás dele.

A sala de estar…

a mesma onde me sentei várias vezes com minha família—

tinha se transformado em um calabouço espantoso,

pintado com respingos de fluidos vermelhos, pretos e amarelos manchando cada canto.

Mas o que mais me horrorizou foi…

foram os quatro corpos mutilados pendurados como enfeites.

Meus pais.

Meus irmãos.

Suspensos por cordas,

seus membros haviam sido cortados e costurados de uma forma repulsiva.

Seus braços e pernas costurados de modo a formar uma única palavra:

“SEJAM BEM VINDOS”

— Desculpe, não tive tempo de fazer algo melhor! —

disse a criatura alegremente.

— Mas espero que goste! —

Ele continuou falando com um prazer perturbador,

mas eu não conseguia ouvir uma palavra sequer.

Estava em choque…

paralisado.

E aquele sentimento terrível voltou.

Aquela sensação esmagadora de que algo estava meramente errado…

Só que desta vez—

era milhões de vezes mais forte.

Caí no chão,

gritei descontroladamente, incapaz de compreender o que estava acontecendo.

Luto. Raiva.

Terror. Náusea.

Tudo me acertou de uma só vez.

Chorei sem parar,

vomitando tudo que tinha no estômago.

— Patético… —

Ao desabar—chorando, vomitando, tremendo—

aquele demônio retorcido simplesmente riu do meu sofrimento.

E quando vi o mundo que tanto valorizei sendo despedaçado diante dos meus olhos—

a tristeza virou fúria.

Lancei-me contra ele.

Contra a besta que tinha feito tudo aquilo.

Gritando, bati uma porção desesperada e selvagem—

desajeitada e sem treino.

Nunca aprendi a lutar.

E mesmo que tivesse…

será que algo poderia parar uma criatura como essa?

Não precisava imaginar.

Com um sorriso, o demônio me segurou facilmente pelo pescoço,

levantando-me no ar, me sufocando.

Ainda rindo.

Enquanto eu… coberto de lágrimas, sujeira e vômito…

olhava para ele horrorizado.

— Que decepcionante… Frey Starlight. Você não passa de uma decepção —

disse casualmente,

como se aquilo não significasse nada.

Mas ao ouvir esse nome…

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