
Capítulo 236
O Ponto de Vista do Vilão
As folhas caídas contaram uma história...
Uma história de um jovem que lutava dentro de um mundo cruel, sem saber a verdade aterradora que o aguardava.
O mundo estava mudando. Uma guerra se aproximava no horizonte.
Uma guerra mais cruel e sombria do que qualquer outra já enfrentada.
O Império estava se preparando.
E também os Ultras.
Aquelas factions extremas... misteriosas e desconhecidas pelo resto da humanidade... ocupavam um continente cheio de enigmas. Ninguém sabia como realmente era a vida lá.
Pois aquela terra obedecia leis muito diferentes das do mundo civilizado.
O continente dos Ultras era dividido em duas partes:
Uma representava 90% da terra... árida e morta. Um deserto sem fim, conhecido como Terras Desoladas.
Os outros 10% eram chamados de Terras de Sangue.
Cidades dispersas, governadas sob a tirania do Sangue Superior.
O contraste entre as duas regiões era tão extremo que pareciam pertencer a mundos diferentes.
Em meio às areias em movimento das Terras Desoladas...
Um homem e uma figura jovem caminhavam lado a lado, envoltos em uma feroz tempestade de areia.
O primeiro vestia um terno negro imponente sob um longo sobretudo e cobria o rosto com um cachecol.
Era ninguém menos que Lorde Gavid Lindman dos Ultras, e ao seu lado caminhava seu subordinado encapuzado—conhecido apenas como V.
Pelo estado deles, parecia que estavam viajando a pé há bastante tempo.
“…Lord Gavid, será que realmente precisamos nos envolver nessa besteira?”
O impedimento de V era claro na voz dele.
Mas Gavid Lindman respondeu tranquilamente.
“É uma ordem direta do Alto Demônio Astaroth. Não temos escolha.”
Ele se lembrava da missão que Astaroth havia lhes confiado pessoalmente.
“Fomos encarregados de reunir todos os Desgarrados. São essenciais para a guerra que se aproxima. O Sangue Superior planeja acabar com o conflito com o Império de uma vez por todas.”
Enquanto escutava, V bufou baixinho.
“Os Desgarrados... Ouvi todas as histórias, mas eles são realmente tão fortes quanto dizem?”
“São,” confirmou Gavid. “Você viu de perto o que um deles fez naquele dia... Ludwig, o Maldito.”
V se lembrou daquela besta enlouquecida que ousou atacar Astaroth.
“Ludwig é o mais fraco dos cinco Desgarrados. Os outros quatro? São muito piores.”
Ao todo, havia cinco.
E todos eles eram monstros.
À medida que avançavam na tempestade, V fez uma outra pergunta que não largava sua cabeça.
“Se uma batalha estourasse entre os Senhores e os Desgarrados... quem venceria?”
Gavid não hesitou.
“Exceto pelo velho Mergo, de quem sei pouco... eles provavelmente nos destruiriam completamente.”
“É sério, isso tudo é tão ruim assim?”
“Sim.”
De repente, os dois pararam.
Algo à frente os fez gelar o sangue.
Gavid franziu a testa, disgustado, e V amaldiçoou alto.
“…Que diabos é isso?”
Antes deles, estavam dezenas de estacas de madeira, cada uma perfurada com corpos humanos... ainda vivos.
Mas não era só isso.
Era o que tinha sido feito com eles.
Seus corpos estavam retorcidos em formas grotescas... alguns tinham braços extras costurados nas costas ou membros presos em lugares bizarros. Seus membros originais haviam sido cortados.
Olhos e bocas foram fechados com pontos cuidadosamente feitos, impossibilitando que gritassem ou implorassem.
Alguns homens tinham seus genitais mutilados e costurados grotesquamente em seus rostos.
Outros estavam irreconhecíveis, costurados de novo como zombarias de vida.
E todos ficavam em silêncio.
Quem quer que os torturasse os deixara vivos... mas destruíra suas almas.
“Ela está perto. Este é um dos sinais dela.”
Gavid murmurou.
Com um movimento rápido, levantou sua espada e liberou um fluxo de poder que terminou com o sofrimento de todos eles.
Então, seguiram em frente.
“…Quem exatamente é o Desgarrado que estamos procurando?” V perguntou novamente.
A voz de Gavid ficou sombria.
“São cinco Desgarrados, como disse. Dois deles dizem ser bestas sem cérebro. O primeiro é Ludwig, aquele que você viu naquele dia... e o segundo...”
Pareceu fazer uma pausa, estreitando os olhos contra a tempestade de areia.
“…é o pior de todos.”
“Aquele conhecido como Pontífice Sulyvahn.”
“Para o Pontífice, Lorde Godfray foi enviado. Ele se ofereceu para confrontar o mais forte dos Desgarrados.”
“Há dois outros Desgarrados... mais racionais que os demais... o que os torna mais fáceis de recrutar: o Mestre Marionete, Simon Manus, e o Padre Smog. Aquele velho traquino, Mergo, disse que cuidaria deles pessoalmente, alegando que eram os alvos mais fáceis...”
Gavid Lindman rosnou de satisfação, especialmente ao falar do último Desgarrado.
“E resta o último… uma mulher.”
Enquanto os dois avançavam, encontraram mais corpos mutilados, retorcidos e deformados de maneiras grotescas. Alguns eram fundidos de forma horrenda.
A cada passo, a situação piorava... figuras desfiguradas, nuas, tropeçando na areia, incapazes de gritar, bocas costuradas.
“Não se surpreenda com o que vai ver,” murmurou Gavid. “A que buscamos é a mais doentia de todos os Desgarrados.”
Uma mulher que parecia mais perto de um demônio do que de um humano.
“Rainha do Sangue… Evelyn.”
Havia meses de buscas, vagando pelo que parecia uma eternidade.
Finalmente, Gavid Lindman e V, de máscara, chegaram a uma das cidades desertas.
Uma placa desgastada marcava seu nome:
“Vaga Negra.”
Eles caminharam por suas ruas completamente abandonadas. A maioria dos moradores se escondia dentro de tendas que mais pareciam um circo de aberrações.
De tempos em tempos, algum tolo desesperado tentava se aproximar, só para ser abatido com a espada de Gavid antes de chegar a cinco metros.
Seus olhos agora brilhavam em vermelho... ele podia sentir. A presença estava próxima.
“Ela está perto...”
Continuaram avançando, até entrarem em uma das grandes tendas.
O cheiro de sangue e de sujeira dominava seus sentidos.
Dentro, um homem sujo, de meia-idade, com um avental manchado de sangue, os encarou com desprezo.
“Que diabos vocês querem?!”
Ao fundo, espalhados, estavam corpos, um deles estendido sobre uma mesa.
Era um homem grande... morto.
O velho açougueiro gritou.
“Vim roubar?! Esses corpos são meus!”
O estado do lugar era intolerável... carne humana era tratada como comida, partes do corpo serviam a várias funções.
V gritou com fome de sangue, com a lâmina em punho.
“Devo matá-lo?”
Mas Gavid balançou a cabeça.
“Não.”
Olhou fixamente para o homem sujo.
“Não estamos aqui para roubar você. Mas escute meu conselho... saia enquanto pode. Você vai morrer se continuar assim.”
“Hah?! Agora vocês querem pregar moral?! Sai daqui antes que enfie essa lâmina bem no seu traseiro!”
O velho levantou sua faca ensanguentada ameaçadoramente.
V deu um passo à frente, mas Gavid o parou.
“Disse pra não.”
Apontou para o açougueiro.
“Por que não continua trabalhando? Não vamos te incomodar. Só estamos observando.”
“Que merda! Eu te mandei sair!”
O velho estava prestes a atacá-los, mas congelou ao perceber que Gavid Lindman começava a ficar impaciente.
Já era tarde, mas ele finalmente percebeu... esses dois homens não eram comuns.
Relutantemente, virou-se, suando frio.
“Droga! Ok! Pode ficar aí assistindo esse velho trabalhar.”
Resmungando, o açougueiro se virou para o corpo na mesa.
Com uma mão firme, treinada por anos de prática sombria, abriu o estômago do homem.
O corte foi preciso e profundo... sangue jorrou sobre a mesa.
De repente, ele gritou e recuou, apavorado.
“O que…?”
V avançou, intrigado.
“O que foi?”
O açougueiro gritou do chão.
“Dentro do estômago—!!”
De dentro do abdômen do morto, emergiram lentamente dois braços finos, ensanguentados.
Pedaço por pedaço, a mulher que se ocultava lá dentro começou a aparecer, abraçando suas pernas nuas, com o corpo todo encharcado de sangue enquanto rastejava para fora do cadáver.
No instante em que seu rosto apareceu...
Evelyn abriu seus olhos negros, grandes, e lançou um olhar sonolento àqueles que a incomodaram.
“Ah… vocês me descobriram.”
Cálida, ela saiu do corpo do morto lentamente.
“Sempre tão irritante... até o fim.”
Ela murmurou, então apontou para o velho que dissecara o cadáver.
“Morra.”
Com um movimento de dedo, o sangue que cobria as roupas do velho aterrorizado começou a ondular... e de repente explodiu, reduzindo-o a pedaços dispersos.
V ficou congelado por um momento, sentindo o aroma de sangue tocar seus sentidos.
Principalmente ao olhar nos olhos daquela mulher estranha.
Ela sorriu para ele, e uma aura estranha começou a irradiar-se pelo interior da tenda... uma aura que foi instantaneamente destruída pelo golpe rápido de Gavid Lindman no ar.
“Não olhe nela.”
“Que enjoado…”
Evelyn riu enquanto descartava o corpo de onde tinha saído e sentava nua sobre a mesa ensanguentada.
“Evelyn... a High Demon te convocou.”
“Hm. Deixe-me colocar algo primeiro... Droga, você é um incômodo. Lindman, não te avisei na última vez que, se nos encontrássemos de novo, eu te mataria? Não foi?”
Ela tocou o próprio lábio, enquanto encarava Gavid.
“Fico pensando que expressão um dos Senhores dos Ultras faria... ao ser torturado.”
Apesar da provocação evidente, Gavid não atacou. Manteve-se calmo e paciente.
“São ordens diretas de uma High Demon, Rainha do Sangue... Evelyn. Rejeitá-las agora—”
“Você está me ameaçando?”
A expressão de Evelyn escureceu, mas Gavid continuou com calma.
“Interprete como quiser.”
Sua mão foi ao punhal, esperando sua reação.
Mas Evelyn simplesmente afetou um sorriso de desprezo.
“Sai logo. Você está um verdadeiro incômodo agora.”
“O quê?”
Ela se levantou e foi embora sem olhar para trás.
“Quer ganhar a guerra que vem, não é? Realizar suas ambições patéticas.”
Ela pegou um short que mal cobria as nádegas enquanto se afastava, ainda encharcada de sangue.
“Vou voltar na hora certa... Mas se alguém me impedir agora, vou matar. Então, vai embora.”
Gavid hesitou, observando ela virar as costas completamente.
“Ah… quero um novo brinquedo. Mas eles envelhecem rápido demais. São tão horríveis.”
Evelyn continuava a murmurar consigo mesma, enlouquecida.
“Preciso de alguém belo… que escorra sangue, acostumado à dor… alguém cujo corpo já suportou todo tipo de tormento... alguém com quem eu possa criar de verdade!”
Ela se abraçou, tremendo de prazer doentio.
“Com alguém assim… eu poderia viver feliz por anos… por um tempo bem longo~”
Somente agora V começou a entender o que Lindman quis dizer mais cedo...
Sobre os Desgarrados.
Ele finalmente compreendeu o quão verdadeiramente insanos e monstruosos eles eram.
O tempo avançava. E a guerra se aproximava.
Evelyn, a Rainha do Sangue.
Simon Manus, o Mestre Marionete.
Padre Smog.
Ludwig, o Maldito.
E o mais forte de todos os Desgarrados... o Pontífice Sulyvahn.
Os Ultras se reuniam em força total para a guerra que se aproximava.
E em outro lugar, no fundo da Prisão de Alcatraz…
Frey Starlight suportava sua sentença... aguardando pelo próximo capítulo de seu sofrimento.