O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 234

O Ponto de Vista do Vilão

– Ponto de vista de Frey Starlight –

Abraham Starlight está morto.

Meu pai morreu.

Ele morreu me protegendo… até o último instante.

Fiquei lá, paralisado, sem conseguir dizer uma palavra. Minha mente simplesmente não conseguiu processar o que tinha acabado de testemunhar.

Então eu não fiz nada… Apenas observei enquanto o corpo do meu pai se transformava em poeira estelar, enquanto suas últimas palavras ecoavam em meus ouvidos:

— Desculpe, meu filho… Mesmo nos meus últimos momentos, não fui o tipo de pai que você poderia ter orgulho. Talvez… talvez você até me odiasse. Mas eu realmente… realmente te amo, meu filho.

— Quando acendi as dez estrelas da técnica Stardust, sacrificando minha própria vida, alcancei um nível de força que me permitiu realizar feitos além do que qualquer humano comum conseguiria.

Nos seus momentos finais, ele me confiou todo o poder que havia reunido… junto com um fragmento de sua vontade… selando-o em meu corpo pequeno.

Ou melhor… no meu corpo.

— Usando o último pouco de experiência que adquiri através do sistema, gravei esta mensagem para você. Eu vivi neste mundo por muito mais tempo do que você. Então, mesmo que você seja quem escreveu tudo isso… sei que você sofrerá neste mundo cruel.

Ele me deixou com muitas coisas.

Meu pai tinha a sensação de que algum dia algo poderia ameaçar sua vida. Então, antes de partir, fez preparativos… preparando-se para que eu herda-se o título de Senhor Starlight, garantindo que teria muitas vantagens.

— Deixei toda a aura que reuni dentro de você. Pode pensar nisso como um poder emprestado, mas cuidado… Só preenchi uma fração do seu potencial. O mar de aura que você possui é muito maior do que tudo que já tive.

Aura no nível SSS… Esse foi seu presente para mim.

E dentro dessa aura, ele incorporou sua vontade.

Uma vontade de proteger seu filho… de apoiar e incentivar a cada vez que eu estivesse à beira de cair.

Todo esse tempo, eu senti… algo sempre me impulsionando para frente, mantendo-me de pé.

Quando quase morri na Seita das Sombras… foi a força dele que me manteve consciente.

Quando Heisenberg tentou me matar naquele dia no trem… foi a vontade do meu pai que me protegeu.

Quando enfrentei Baylor… durante a prova na ilha…

E até na minha batalha final contra Snow Lionheart…

Meu pai estava lá. Ele estava sempre lá, cuidando de mim… a cada passo do caminho.

A visão começou a desvanecer, e fui puxado de volta à realidade.

Ainda estava ajoelhado no meu quarto… no mesmo lugar onde tudo tinha começado.

E lá… eu o vi.

Meu pai, de pé diante de mim, em forma de luz branca radiante, lentamente se dissolvendo no ar.

Respirei fundo, tentando reunir a melhor expressão que pudesse para ele.

— Pai… sabe, fiz o meu melhor.

— Quando percebi que nunca mais te veria… doeu. Doeu tanto que desejei estar morto. Desejei a morte, só para não precisar viver num mundo sem você.

– Frey Starlight (Alma Gêmea) –

— É por isso… que, quando acreditei que havia uma mínima esperança de vencer a Victoriad… lutei. Lutei e lutei.

— Peguei minha espada, treinei todos os dias, me lancei em batalhas de vida ou morte… até meu corpo se romper várias vezes.

— Derramei sangue, suor e lágrimas… só para sobreviver enquanto todos tentavam me matar. E mesmo assim… continuei lutando.

– Frey Starlight (Alma Gêmea) –

Engasguei, tomado por uma enxurrada de emoções que finalmente apareceu, tudo que havia reprimido.

— Doeu! Dói mais que tudo! Uma dor que eu nunca conheci… não na minha vida pacífica passada… mas eu aguento. Eu aguento, e luto contra o mundo inteiro… só para ter uma chance de voltar.

E naquele momento… não consegui segurar mais as lágrimas.

— Foi difícil! Cada vez que tentei seguir em frente, uma parede surgia no meu caminho. Doía demais! Doía!

Engasguei, incapaz de falar com clareza.

Dois anos de emoções reprimidas… sentimentos que nunca compartilhei com ninguém… tudo explodiu de uma vez só.

— Doeu tanto, que desejei estar morto. Desejei a morte mais de uma vez! E ainda assim… continuei. Continuei… por você. Por todos vocês.

Quando cheguei a um ponto em que pessoas comuns já teriam desabado faz tempo, ultrapassei esse limite.

Queria que meu pai soubesse. Queria que ouvisse.

Naquele instante, o espectro reluzente do meu pai sorriu.

— Eu sei.

– Frey Starlight (Alma Gêmea) –

Aquele espírito… ou o que sobrou da vontade do meu pai… começou a desaparecer.

E assim, antes que desaparecesse completamente, forcei-me a dizer as palavras que sempre quis dizer… lutando contra a queimação dolorida no meu peito, que dificultava a respiração.

— Sofri o inferno por todos vocês… Pai, por favor, não diga que eu posso te odiar. Você foi meu mundo. Vocês todos eram a razão de eu continuar.

Tentei me manter calmo enquanto forçava aquelas palavras. Mesmo na minha vida anterior, nunca as tinha dito direito ao meu pai.

— É por isso, pai… que eu quero que você saiba — eu realmente, de verdade, te amo. Você e o resto da nossa família… eu amo vocês tanto que não consigo imaginar um mundo sem vocês.

Só queria dizer isso uma vez… que eu o amava.

Para ser honesto, até agora, a ideia de viver num mundo onde eles não existem é algo que minha mente simplesmente não consegue aceitar. Ainda quero morrer… aqui, agora mesmo.

Mas…

— Eu também te amo, filho… Sou grato por ter sido abençoado com um filho como você. Tenho orgulho de você… e tenho certeza de que o resto deles sente o mesmo.

Naquele momento, vi imagens tênues se formando atrás do meu pai.

As mesmas figuras que me visitaram em sonhos tantas vezes.

— Filho… assim como nos deram uma segunda chance na vida, o resto da nossa família deve ter recebido também. Então, viva, Frey. Viva e aproveite ao máximo sua segunda oportunidade. Era tudo o que queríamos por você… viva, meu filho. Viva.

Ouvi suas últimas palavras em silêncio, incapaz de dizer uma coisa, enquanto lágrimas inundavam minha voz.

Tudo o que consegui fazer foi assentir freneticamente, engolindo minhas emoções.

— Obrigado, meu filho… E tome cuidado com o que há dentro de você. Use seu poder com sabedoria. Porque o que está dentro de você… não passa de escuridão. Uma escuridão que eu nunca consegui entender, por mais que tentasse.

Quando Abraham Starlight tentou passar sua força adiante…

O que encontrou lá dentro foi um abismo sem fim… uma escuridão inimaginável, sem fundo ou luz.

— Mas quando olhei fundo nela… essa escuridão me olhou de volta. Vi algo situado em suas profundezas.

Algo que ele não conseguiu compreender.

Algo que lhe arrepia a espinha… algo que nem o Quarto Demônio Supremo conseguiu fazer.

— Então, continue andando, filho… mas com cuidado. Pouco a pouco, você vai desvendar a verdade.

Você descobrirá a verdade dessa escuridão que habita dentro de você.

A mensagem acabou.

As últimas visões do meu clã desapareceram diante dos meus olhos.

E com elas, as palavras sumiram da minha interface de sistema.

A Alma Gêmea… finalmente se foi.

E o que restou…

Frey Starlight.

Não consegui aceitar. Não consegui aceitar que eles realmente tinham ido.

Então corri atrás deles… atrás dele… estendendo minha mão direita, tentando segurar aquele brilho que se apagava.

Mas minha mão não os alcançou.

Apertou algo completamente diferente.

Senti a textura áspera e sólida do objeto que surgiu de dentro daquele brilho radiante.

Algo escuro.

Meus olhos se arregalaram enquanto a figura se revelava completamente.

A lâmina gravada, a empunhadura negra como a noite…

Uma katana negra que liberava uma onda de poder, passando pelo meu corpo num instante.

— A Irmã das Trevas... —.

O último presente do meu pai para mim.

Caí ao chão, sentado ali, encarando aquela espada por um longo, longo tempo.

Isso… isso foi a última coisa que ele tocou antes de morrer. A espada que acompanhou tantos anos a dele.

Fiquei em silêncio, pensando.

Pensando sobre o verdadeiro significado da minha vida até aqui.

Meu peito ainda queimava. Meus olhos estavam vermelhos e doloridos de tanto chorar. Provavelmente tinha chorado mais hoje do que em toda a minha vida junta.

Mesmo agora, ainda queria morrer.

Ainda me negava a viver neste mundo cruel e implacável.

Mas… meu pai, ele viveu aqui por tanto tempo.

Ele suportou muito mais do que eu jamais suportei. Passou sua vida lutando por mim — e, no final, deu essa vida para salvar a minha.

Meu pai… que sacrificou tudo por mim.

Por quê…?

Com que direito…?

Com que direito eu posso jogar fora a vida que ele protegeu com tudo de si?

Desde o começo, essa vida nunca foi minha para jogar fora.

Não sei se mereço viver. Não sei se ainda consigo seguir em frente em um mundo sem propósito.

Aquele vazio no meu coração… ainda está tão vazio quanto no dia em que cheguei aqui.

Mas, pelo menos… por respeito ao sacrifício do meu pai, e à tragédia que ele suportou por minha causa…

Pelo menos…

— Eu não morrerei em vão.

Matar-me agora seria uma afronta a tudo pelo que aquele homem lutou.

Abraham Starlight.

— Então… vamos recomeçar.

Segurei a lâmina afiada da Irmã das Trevas contra minha cabeça, cortando os longos fios de cabelo branco.

Eles caíram no chão enquanto eu caminhava até o espelho do banheiro — o mesmo onde vi minha face pela primeira vez.

E lá, novamente… minha imagem me encarava.

Mudei bastante…

A pele pálida, as olheiras profundas…

A escuridão no olhar.

E meu cabelo branco.

Tanto mudou. Mas agora, com os cabelos curtos novamente… de um jeito, pareço com quem fui antigamente.

Quando entrei pela primeira vez neste banheiro, com medo. Quando meu mundo inteiro desabou diante dos meus olhos.

Hoje, caminharei pelas ruínas daquele mundo destruído — procurando uma razão para viver.

— Eu vou viver. —

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