
Capítulo 223
O Ponto de Vista do Vilão
– Ponto de vista de Frey Starlight –
Tanta barulheira.
Tantos rostos.
Arrancaram-me daquele buraco sombrio e silencioso e jogaram-me na luz ofuscante e no barulho insuportável.
Minha cabeça estava completamente vazia.
Será que estavam realizando um julgamento contra mim agora?
Para decidir se eu deveria viver ou morrer?
Não… pra que se preocupar?
Só quero que me matem logo.
Mas não, as coisas nunca foram tão simples assim.
Por que diabos aquele velho, Iris, defendeu-me?
Que papo furado era aquele de “meu valor” determinar se eu deveria viver ou morrer?
Valor?
Que porcaria de valor?
O valor das vidas de vocês que eu ia destruir naquele dia?
“Gostaria de ouvir a posição do réu sobre tudo o que aconteceu até agora… e o que ele tem a dizer.”
Maekar Valerion me colocou completamente sob os holofotes.
Queriam minha versão.
Queriam ouvir o que eu pensava naquele circo ao meu redor.
Não tinha sido claro o suficiente?
Não era óbvio pra esses idiotas o que eu queria?
Será que eu precisava gritar pra eles?
Então tudo bem.
— Tossir —
Tossi levemente, reunindo a pouca voz que me restava.
Todos aqueles olhares fixos em mim enquanto eu levantava a cabeça e encarava direto o Imperador e todos presentes.
“Primeiramente, gostaria de dizer uma coisa.”
Respirei fundo… e cuspiram tudo.
“Vocês são um bando de filhos da puta, bastardos e vadias que nem entendem a coisa mais simples… Ah, desculpem.”
Vi Ada na multidão.
“Todo mundo aqui é um filho da puta… exceto minha irmã Ada.”
Espera… eu não era o Frey de verdade, então, tecnicamente, a mãe dela não era minha mãe…
“Ah, dane-se, quem liga! Eu também sou um bastardo, e você, Maekar Valerion, é o maior filho da puta aqui! Rei dos bastardos, Avô das vadias!”
O choque coletivo quase podia ser sentido no tribunal…
mas ainda não tinha terminado de vomitar toda minha raiva que fervia por dentro.
“O mundo seria um lugar muito melhor se eliminássemos cada um de vocês, filhos da puta! Então que tal todo mundo morrer junto? Já que somos todos bastardos mesmo! Vai… mate-me!”
Porque se vocês não fizerem… eu vou beijar cada uma das suas mães vadias e depois matar todos vocês!”
Me salvando?
Quem foi que disse que eu queria viver, afinal?
“Matem-me! Não me arrependo do que fiz! Eu pareço alguém que se arrepende?”
Se é que posso me arrepender de algo, é por não ter varrido todos vocês da face da Terra naquele dia!”
“Matem-me! Matem-me! Matem-me! Matem-me! Matem-me!!!”
Minhahs gritos de insanidade encheram o tribunal.
Confusão, medo, horror…
estavam estampados em suas caras.
Eles não sabiam o que fazer com aquilo.
Não sabiam se deveriam chamar aquilo de coragem… ou pura insanidade desnuda.
Enquanto continuava a gritar por minha morte…
Um impacto repentino bateu forte na parte de trás do meu crânio, me silenciando instantaneamente, fazendo um tremor intenso passar pela minha cabeça.
A pessoa que me acertou… foi a última que imaginei.
Phoenix Sunlight.
O chamado talento mais brilhante da geração anterior.
Phoenix apertou minha cabeça firmemente e pediu desculpas calmo:
“Perdoe-o. Frey Starlight claramente não está em condições mentais boas neste momento.”
Com um soco devastador, fez-me cuspir sangue no chão limpo.
“Permita-me discipliná-lo por suas palavras.”
Soc!
Quebra!
Chute!
Fui brutalmente dado, quase pintando o tribunal com meu sangue.
Phoenix, agora coberto do meu sangue, virou-se calmamente para os espectadores…
A maioria deles sem saber ao certo como reagir à loucura que se desenrolava.
Phoenix Sunlight permanecia estranhamente composto enquanto continuava a me derrubar.
“Nosso talento supremo costuma entender-se muito, muito bem.”
Ele quebrou as correntes que me prendiam e agarrou meus cabelos.
“Vossa Majestade, estimados convidados… permitam-me ser egoísta por um momento.”
O talento mais brilhante entre todos,
Phoenix Sunlight, deu um passo à frente com sua proposta.
“Todo mundo teme o que Frey Starlight poderá se tornar no futuro… mas deixe-me perguntar… Isso aqui parece alguém que pode ameaçar alguém de novo?”
Mostrando meu rosto ensanguentado para todos, Phoenix prosseguiu:
“Eu poderia matá-lo com um único golpe, destruí-lo sem sequer mover um dedo.
Que tal assim?”
Seus olhos queimavam com intensidade.
“Deixem comigo. Eu pessoalmente vou cuidar de Frey Starlight, moldando-o numa espada que este império possa usar nas guerras que virão…
uma espada que rivalize com seu pai… Abraham Starlight.”
A pressão ao redor de Phoenix Sunlight… a joia mais brilhante da Família Sunlight… tornou-se intensa.
“E fiquem tranquilos,” acrescentou friamente,
“se ele fracassar… eu mesmo o matarei. E tenho mais do que capacidade para isso.”
Todos assistiam Phoenix ali, segurando-me com uma mão, oferecendo sua proposta insana.
Maekar Valerion não mudou a expressão nem um pouco…
Nem após o insulto público que eu lhe dei.
Ele apenas assentiu.
“Você está confiante de que consegue lidar com ele?”
Phoenix respondeu sem hesitar.
“Na minha honra, como um guerreiro orgulhoso da Casa Sunlight.”
“Então, está decidido.”
A mão de Maekar bateu na mesa, sua voz definitiva:
“Frey Starlight será preso na Alcatraz — a Prisão do Tempo — por três meses.
Depois disso, ele retornará ao templo sob supervisão direta de Phoenix Sunlight.
Dou-lhe autoridade plena.”
O tribunal ficou chocado.
Seja pela posição de Phoenix,
ou pela menção à Alcatraz,
ou pelo fato de que Frey Starlight realmente iria sobreviver…
Tudo tinha mudado.
Maekar tomou sua decisão.
Desde o princípio, nunca teve intenção de matá-lo.
Como poderia?
Quando outro Abraham Starlight apareceu bem na frente dele?
Assim como o pai lutou na Guerra da Luz,
o filho também lutaria na guerra que viria.
Maekar tinha visto muita história…
e a história estava prestes a se repetir.
Num desfecho surreal, o julgamento finalmente chegou ao fim.
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…
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O julgamento terminou.
Tudo havia acabado.
Por um momento, tudo quase virou desastre.
Dava pra perceber nas expressões dos aliados de Frey Starlight…
como Ada Starlight e Iris Sunlight quase desabaram de puro pânico, quando aquele jovem louco quase destruiu tudo.
Se não fosse pela intervenção desesperada de Phoenix Sunlight, teria sido uma catástrofe.
Frey foi salvo.
Salvo de todos que queriam sua morte.
Mas quem…
Quem o salvaria do maior perigo de todos?
Quem salvaria ele de si mesmo?
Depois do julgamento, Frey Starlight foi temporariamente recolhido ao castelo dos Starlight,
aguardando transferência para a Alcatraz.
A Alcatraz…
a pior prisão do império do norte.
Um lugar amaldiçoado por magia poderosa que distorce a percepção do tempo,
fazendo os dias parecerem anos intermináveis,
enquanto os presos eram submetidos a torturas infernais diárias.
Três meses naquele inferno pareceram uma eternidade.
Ada Starlight ficou devastada ao ouvirem a sentença de seu irmão.
Mas pra Frey… isso não significava nada.
O que três meses de tortura poderiam mudar em alguém como ele?
Tudo parecia ridiculamente insignificante.
Frey Starlight se recusou a interagir com alguém.
Não importa quem tentou se aproximar,
ele não deu resposta alguma.
Era apenas um vaso vazio
tropeçando silenciosamente diante de seus olhos.
Phoenix o salvou hoje.
Prometeu reabilitá-lo.
Mas o que poderia encher Frey…
quando não sobrava mais nada dentro dele?
Até a morte tinha sido retirada dele pela magia maldita de Balerion.
Agora,
Frey era apenas um jovem vazio,
sentado ali sozinho.
Na mesma cama do estádio…
onde tudo havia começado.
Ele se deitou de costas,
encarando sem expressão o teto…
o mesmo teto que vira
quando acordou naquele inferno.
Dois anos se passaram desde aquele dia.
Dois anos no inferno.
E agora, ele voltara ao ponto zero.
Mas desta vez… sem rumo, sem esperança.
Ele ficou ali, só.
Naquele momento, longe de onde estava…
Ferramentas do Autor
Nível 2 ›››› Progresso: 100%
O laptop pessoal desapareceu no ar, sumindo completamente.
Ao mesmo tempo, um pequeno ponto apareceu no ar diante dos olhos vazios de Frey.
Um ponto azul brilhante.
O jovem lentamente se levantou, fixando seu olhar na luz.
Aqueles olhos mortos… olhos que não desejavam nada além de morte.
Devagar, Frey estendeu a mão e tocou o ponto com um único dedo,
e uma interface estranha se abriu diante dele.
Era a Janela de Status que ele via tantas vezes na vida anterior…
aquele sistema clássico e clichê que aparece com tanta frequência em histórias.
O laptop havia desaparecido, deixando para trás apenas essa interface.
Ali estava escrito em letras garrafais…
Ferramentas do Autor – Nível 2
— Recursos adicionais e capacidades desbloqueados! Por favor, revise-os.
A expressão de Frey não mudou em nada enquanto encarava as novas funções.
Tudo parecia sem sentido para ele agora.
“Fui me livrando do laptop amaldiçoado só pra conseguir isso…”
O Engenheiro era teimoso.
Inacreditavelmente teimoso.
Frey Starlight estava prestes a fechar a interface pra sempre,
sem intenção de abri-la novamente.
Mas algo chamou sua atenção…
Uma seção na parte inferior da tela piscando fraca…
como se estivesse chamando por ele.
“Olhe pra mim.”
Ali, uma única linha foi registrada:
Mensagem Gravada – Abraham Starlight
Freydou um olhar de desconfiança.
Ele não conseguia compreender bem o que estava lendo e se perguntava se tinha entendido errado as palavras.
Abraham Starlight,
o homem misterioso, deixou uma mensagem dentro do sistema.
Neste momento, Frey já não entendia mais nada.
Ele apenas clicou para ver o que aquele homem…
aquele que ele não conhecia…
havia deixado para ele.
No instante em que pressionou, um som mágico ecoou por toda a sala.
Uma voz.
Uma voz que remexeu o coração morto de Frey,
forçando seus olhos a se abrirem de par em par.
“Olá, meu filho.”
Só duas palavras…
mas Frey pulou de susto,
os lábios tremendo.
“Faz tempo, faz um tempo…”
Você não imagina o quanto senti sua falta,
o quanto quis te rever novamente.”
A voz de Abraham Starlight…
um homem com quem Frey nunca deveria ter conexão alguma.
A voz era forte, calorosa, gentil e dolorosamente gentil.
Exatamente aquilo que ele buscava ouvir a vida toda.
Essa voz…
era uma que ele tinha ouvido inúmeras vezes…
“Se você está ouvindo isso agora, significa que já percorreu um longo caminho.
Você suportou sofrimentos que eu mal consigo imaginar…”
Ele fez uma pausa.
Frey murmurou entre os dentes, o corpo tremendo:
“Não… não use essa voz…”
Ele balançou violentamente.
“Não me torture mais assim…”
Porque aquela voz…
aquela voz era dele…
“Antes de te contar tudo…
preciso confessar uma coisa, meu filho…
Você não faz ideia do choque que foi abrir meus olhos neste mundo…”
Não.
“Você não faz ideia do quanto fiquei surpreso…
ao me encontrar dentro daquele romance que você costumava me contar…
meu filho.”
Frey desabou no chão ao ouvir aquelas palavras.
“Foi como se tivesse vindo de você,
como se você tivesse me dado uma segunda chance de viver.
Procurava por você em todos os lugares, acreditando de todo coração que te encontraria.
Lutei, carreguei uma espada que nunca tinha empunhado antes…”
De joelhos no chão,
Frey Starlight ouviu a voz do pai,
lágrimas explodindo de seus olhos mortos.
Parecia que seu peito ia se rasgar.
Seu coração se partia repetidas vezes.
“Desculpe, meu filho…
Sei o quanto você sofreu,
mas por favor… deixe-me te contar minha história.
Haha… realmente fui um pai horrível, não fui?”
“NÃO!!!”
Frey engasgou com as lágrimas e gritou:
“Você foi o melhor pai que eu já tive!
Melhor do que eu jamais mereci!”
Ele gritou do fundo da alma,
mas foi em vão…
a gravação não podia ouvi-lo.
Ela só podia seguir em frente.
“Sei que você sofreu mais que ninguém,
sei que está despedaçado…
Mas olhe até onde você chegou.
Meu filho, você não faz ideia do orgulho que tenho por você…”
As palavras tremeram a alma de Frey.
“Você merece isso, filho…
Merece saber a verdade.
Então deixe-me te mostrar.”
Sem aviso,
uma luz ofuscante envolveu Frey Starlight.
Uma luz que o transportou para outro lugar.
“Deixe-me mostrar…
onde tudo começou.”
A luz o engoliu inteiro…
levando-o embora…
para as memórias de Abraham Starlight.
Para o começo de tudo.