O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 196

O Ponto de Vista do Vilão

O Império não conhecia dias de paz há bastante tempo.

“Um novo Herói...”

“A espada sagrada, outrora empunhada pelo Imperador Kazis Valerion, escolheu um novo mestre…”

Finalmente surgiu o primeiro verdadeiro Herói desde Kazis.

E seu nome era Snow Lionheart.

Um ninguém, segundo todos os relatos. Não tinha sangue de Valerion, não vinha de uma das Grandes Casas—apenas um garoto sem origem conhecida. Um órfão que se perdeu no dia em que nasceu.

Mas a aparição de um novo Herói significava mais do que apenas um nome. Representava uma mudança que ecoaria por todo o Império.

Para os devotos zelosos da Igreja, era euphorico. O Herói era visto como o mensageiro do Senhor da Luz que eles veneravam de forma cega. E agora, Snow Lionheart estava acima até mesmo dos altos sacerdotes.

O que o Senhor da Luz decretava era lei absoluta. E se Ele tinha escolhido Snow, então a força mais poderosa do Império agora se ajoelhava diante de um garoto com menos de dezoito anos.

Para os fiéis, era um milagre.

Mas para as Grandes Casas e principais guildas, era um aviso.

Sim, o nascimento de um Herói era um evento divino.

Mas na história, um Herói só costuma surgir em tempos de necessidade extrema—durante guerras que destroem o mundo.

Se realmente um novo Herói apareceu… então algo pior do que tudo já visto estava surgindo no horizonte.

E assim como o Império se preparava para uma guerra total contra os Ultras, muitos ainda subestimavam a escala do que estava por vir—um conflito que poderia superar até mesmo a Guerra da Luz.

Enquanto alguns olhavam para o futuro com esperança e outros com medo…

Um jovem sentado em uma câmara grandiosa, encarava um espelho.

Cabelos brancos. Olhos dourados.

Snow Lionheart mal reconhecia seu próprio reflexo.

Vestido com uma jaqueta branca elegante, bordada em ouro, calças pretas lustrosas e uma faixa escura que se desenrolava pelos seus ombros—ele parecia mais um que um órfão comum, uma figura régia.

Logo após retornar do Teste na Ilha, a Igreja o convocou. Não por carta, nem por um sacerdote. Não—dois dos maiores Arcebispos vieram pessoalmente buscá-lo:

Michael Platini e Ramiel Callistes.

Mesmo agora, as palavras que eles disseram mal chegavam à consciência de Snow.

O Senhor da Luz tinha escolhido ele…

ele… para ser Seu Herói?

Snow não conseguia entender nada. Não tinha noção de fé, de deuses, ou de destino.

E, ainda assim, seus pensamentos retornavam a uma coisa: à espada que vira de longe.

A espada mais poderosa que existe: Vermithor.

Disseram-lhe que ela já o reconhecia como seu mestre.

Uma espada de rank SS.

Embora ainda não a tivesse tocado, Snow sentia algo ressoando bem no fundo de si—uma ligação, estranha e antiga, como se a espada sempre tivesse esperado por ele.

Ele sempre buscou força… e agora, ela tinha vindo até ele.

Uma arma que apagaria toda fraqueza.

E ainda assim… hesitou.

Perdido em um turbilhão de pensamentos, a porta rangeu ao se abrir. Uma pressão enorme o envolveu.

A mulher que entrou tinha olhos vermelhos como o fogo e cabelo platinado quase escondido sob um véu branco puro.

Radiante. Cegante até.

“Chegou a hora, Herói Escolhido,” ela disse.

Ela era a Saintess—Yurasha.

Snow virou-se, desconcertado com a reverência de alguém tão poderosa.

"Por favor… não me chame assim."

Ela não respondeu.

Simplesmente ficou atrás dele, em silêncio.

Quando saiu do aposento, ela o acompanhou sem dizer uma palavra.

Snow parou.

"Com licença, mas… por que você está andando atrás de mim?"

Esse tratamento era demais.

"O papel da Saintess é seguir o Herói," ela respondeu.

Sempre foi assim. Mesmo o Primeiro Herói tinha uma Saintess ao seu lado. Elas eram as únicas capazes de ouvir a voz do Senhor da Luz e transmitir Sua vontade.

"Apenas me chame de Snow," ele falou. "Não entendo sua fé. Não acredito no seu deus."

Ele observou sua expressão, esperando uma reação ofendida.

Mas seu rosto permaneceu calmo. Sereno.

"Então me diga," ela prosseguiu. "Por que você aceitou a espada do Senhor da Luz—Vermithor?"

Snow hesitou por um momento… antes de responder ao fim.

"Porque quero me tornar mais forte."

"Por quê?"

Por que Snow lutou durante todo esse tempo?

Quando pensava nisso—qual era, de fato, sua posse?

A resposta… era nada.

Ele já tinha perdido tudo.

Seu mundo inteiro não passava de um orfanato—apenas um abrigo desgastado onde cresceu junto com outros como ele. Crianças. Perdidas, inocentes, que não sabiam de nada… e morriam, uma após a outra.

Naquela época, como poderia ele imaginar que o orfanato nunca foi realmente um orfanato?

Era algo bem diferente.

Ele tinha perdido tudo—mas, em troca, ganhou um ódio avassalador. Tão intenso que queimava seu próprio corpo e se transformava no combustível que o impulsionava.

“Vingança… e para que mais ninguém sofra o mesmo que eu.”

As palavras saíram na ponta da língua, como uma maldição, proferida de algum lugar profundo dentro dele.

A Saintess olhou-o por um breve instante.

Ela jamais poderia imaginar o passado que moldou esse garoto.

Mas ela não hesitou. Não desviou o olhar.

"Entendo. Se esse é seu verdadeiro desejo… então está bom assim."

"…O quê?"

Ela realmente o aceitaria—depois de ele ter rejeitado o próprio deus ao qual ela dedicava a vida?

Snow Lionheart começava a perceber o quão estranha essa Saintess realmente era.

Ela era difícil de ler. Mas sua força era inegável.

Era uma das apenas duas criaturas vivas a ter atingido o rank SS+, ao lado do próprio Imperador Maekar.

Snow optou por não insistir mais.

Enquanto avançavam, chegaram a um local gigantesco—um dos lugares mais sagrados do Império.

Uma catedral magnífica, só menor em tamanho do que o Santo Santuário na Ilha de Sicília.

Aqui… há mais de 300 anos… o primeiro Herói, Kazis Valerion, fora coroado.

“Catedral de Notre-Dame…”

O evento era transmitido ao vivo por todo o Império.

Snow olhou para a multidão à sua frente.

Centenas—não, milhares—de peregrinos vestidos de branco haviam se reunido de todos os cantos do país.

Ele caminhou entre eles, com a Saintess seguindo silenciosamente atrás.

À sua frente estavam os Três Altos Sacerdotes, juntamente com os onze Candidatos a Saintess—cada um escolhido e treinado para um propósito divino.

Os liderava Uriel Platini, o maior talento da Igreja e herdeiro de Yurasha.

Quando a cerimônia começou, os candidatos liberaram seus poderes sagrados, cantando em uníssono.

Snow sentiu quem era—uma onda de energia sagrada que invadiu seu corpo, preenchendo cada fibra dele.

Foi avassalador.

Seus ossos doíam com a força da energia, a pele vibrava com o poder divino. Ele sentia que poderia explodir a qualquer momento.

Porém, seus olhos dourados permaneceram firmes.

Eles estavam fixos em uma coisa.

A espada sagrada à sua frente.

Vermithor.

O mundo prendeu a respiração.

Passo a passo, Snow se aproximou do pedestal até ficar diante dele.

Silêncio.

Ele estendeu a mão lentamente… e agarrou a empunhadura.

Então—sem aviso—a lâmina se incendiou em luz.

Uma onda brilhante de radiança irrompeu, cegando todos os presentes.

Snow congelou no lugar, paralisado, enquanto ficava dentro de uma coluna de energia ofuscante.

Seus olhos dourados se tornaram brancos como a neve.

Seu corpo tremeu quando uma torrente de força invadiu suas veias—tão poderosa que o lançou instantaneamente além de seu ranking atual.

Aquela aura… fazia-o mais forte.

Mais forte do que jamais imaginara.

Com essa espada… sentia que podia fazer qualquer coisa.

A sensação era quase intoxicante.

E naquele momento… viu algo.

Uma presença, observando-o de longe.

Não podia ver seu rosto—seus sentidos não conseguiam compreender o que era aquela entidade…

Mas sentia seu olhar.

Senti seu olhar varrendo cada canto de seu ser.

Envuelto em luz, Snow permaneceu ereto.

Dentro da catedral, pouco a pouco, todos os peregrinos se ajoelharam.

Todos perante o Herói Escolhido.

E assim, mais uma peça se encaixava—no tabuleiro gigante, sombrio, lá em cima.

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