O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 84

O Ponto de Vista do Vilão

Respirei fundo e me afastei do cadáver. Agora que a adrenalina tinha passado, meus sentidos estavam lentamente voltando.

Reprimi qualquer emoção persistente, concentrando-me apenas no livro em minhas mãos.

“Tudo isso… por você.”

Folheei suas páginas.


Ascensão – Habilidade Classe S

Uma habilidade simples com efeitos devastadores.

Coloca o usuário em um estado de consciência elevada — o que os atletas chamam de 'A Zona'.

Durante a ativação, o corpo do usuário ultrapassa 100% de sua capacidade normal, mantendo a clareza mental absoluta. Todas as emoções e pensamentos desnecessários são suprimidos, garantindo o curso de ação mais ideal.

O esforço sobre a mente é imenso, por isso o uso prolongado não é aconselhável.


A transferência foi concluída.

Minha primeira habilidade Classe S.

Eu estava mais do que emocionado por tê-la.

Não só era inestimável para combate e estratégia…

Mas me transformaria no monstro que eu precisava ser — livre de emoções que apenas me atrasariam.


—Suspiro—

Finalmente… acabou.

Verifiquei meu laptop, abrindo minha lista de tarefas.


Missão Principal: Sobreviver até o final da invasão.

Recompensa: 1.000 Pontos de Conquista (Concluída).

Missão Principal: Impedir os Ultras.

Recompensa: 3.000 Pontos de Conquista (Concluída).

Pontos de Conquista Atuais: 4.050.


Sim… estava feito.

Dei uma risadinha seca enquanto encarava meus pontos de conquista.

“Pelo menos não estou mais quebrado…”

Perder 10.000 pontos doeu, mas Anti-Magia e Ascensão valeram bem o preço.

Isso era o suficiente por agora.

Lancei um último olhar para o núcleo radiante ao meu lado.

“Desculpe, Aegon. Seus planos estão arruinados desta vez.”

Essa habilidade era para acabar nas mãos do príncipe.

E Kai Luc nunca deveria ter morrido aqui.

Aproximei-me cautelosamente do núcleo.

Se Kai Luc tivesse tocado nele, ele teria se tornado escravo de Aegon…

Injetar sua aura nessa armadilha… teria sido um destino pior que a morte.

Mesmo com meu Olho de Falcão modificado, eu não conseguia ver qual presente Aegon havia deixado dentro dessa coisa para ele…

Um lembrete gritante para nunca subestimar aquele homem.

Aegon Valerion.

Eu tinha despedaçado tudo. Eu tinha reescrito o curso da história completamente.

Agora, o conto que eu uma vez conheci estava espiralando para o desconhecido mais do que nunca.

Mas eu já tinha tomado minha decisão.

Eu não me importava com o que acontecesse com este mundo.

Eu não pertencia a este lugar.

Então eu não me incomodaria em consertar nada.

Eu estava perdido em meus pensamentos…

Eu sabia que tinha que partir em breve — se não, eles me pegariam.

Eu estava prestes a me virar e ir…

Mas, por alguma razão, eu congelei.

Uma pulsação violenta ecoou em meu peito.

Eu mal consegui levantar a mão, pressionando-a contra minhas costelas, sentindo o ritmo errático, quase explosivo, do meu coração.

Levou um momento para perceber — minha mão estava tremendo há um tempo.

“O que… está acontecendo?”

Tudo ao meu redor ficou cinza. Uma estranha cegueira de cores tomou conta da minha visão enquanto eu alcançava minha garganta.

Lentamente, virei-me em direção à fonte dessa sensação antinatural.

“Arf… arf…”

Eu lutava para respirar.

E então, eu o vi.

Ele estava sentado ali, perfeitamente imóvel.

Seu rosto estava ileso, livre de quaisquer ferimentos.

E no meio desta escuridão sufocante, a única cor que permaneceu na minha visão…

Eram seus olhos carmesins.

Kai Luc estava olhando para mim — usando um sorriso régio e perturbador.

Eu sabia o que era isso.

Medo.

Um medo diferente de tudo que eu já havia experimentado.

Eu não era estúpido…

Este não era Kai Luc.

Nem era Astaroth.

Um demônio de Rank 19 nunca poderia fazer algo assim.

Eu mal consegui entreabrir meus lábios.

“Quem… é você?”

Quem quer que — o que quer que — essa entidade fosse…

Era a própria morte.

Cada gota de suor escorrendo pela minha pele parecia uma lâmina. Meu coração se recusava a acalmar.

Os poucos segundos que ele levou para responder se estenderam pela eternidade.

E eu desejei — desesperadamente — que ele não tivesse respondido.

“Bem, bem… Frey. Finalmente nos encontramos.”

Sua voz era grave. Régia.

Não apenas ecoava na sala.

Ela se entalhou em minha alma.

Mas as palavras em si carregavam o maior peso.

“O-O que… você acabou de dizer?”

Aquele nome…

Ninguém deveria saber esse nome.

E, no entanto, eu acabava de ouvi-lo — da boca de um homem morto.

“Oh, perdoe minha grosseria, Frey. Ou devo chamá-lo de Frey Starlight agora?”

Arf.

Arf.

Minha respiração ficou mais superficial. A entidade diante de mim continuou a falar.

“Eu nunca esperei conhecer aquele que criou este mundo… que me criou.”

“Por favor…”

“Você não pode imaginar minha alegria. O próprio ser que me forjou — aqui mesmo, em um pequeno planeta frágil como a Terra.”

“Pare.”

“Eu gostaria de poder ir até você agora. Há tanto que eu gostaria de discutir… mas, infelizmente, estou preso por muitas forças.”

Meu coração ia explodir. Ele queria fugir do meu peito.

A pressão era tão sufocante que eu ativei Ascensão.

Mas não funcionou.

Foi suprimida.

Como se não fosse nada.

Eu estava começando a entender quem estava na minha frente.

E essa percepção só aprofundou a loucura que se agarrava à minha mente.

“Por que você não está dizendo nada, Frey Starlight?”

Você não deveria estar aqui…

Não, isso era meramente uma fraca manifestação dele.

Seu verdadeiro eu estava muito além deste lugar — muito além da própria Terra.

Uma tempestade de pensamentos rugiu dentro de mim, o medo se enrolando em minha mente, ameaçando me devorar por completo.

Ele me observou por um momento, como se saboreasse minha mente se desfazendo.

“Você me perguntou antes… 'Quem é você?' Não foi?”

Eu não balancei a cabeça afirmativamente. Eu não balancei a cabeça negativamente.

Eu apenas tremi onde estava.

“Então diga meu nome, Frey Starlight.”

Abri minha boca, mas nenhuma palavra saiu — apenas o bater dos meus dentes.

“Diga!”

No momento em que ele ordenou, o nome foi forçado de meus lábios.

“Agaroth.”

E com isso…

O Rei Demônio sorriu.

“Isso mesmo.”

Arf.

Arf.

“Aguardo ansiosamente nosso próximo encontro.”

Arf.

Arf.

“Frey Starlight.”

“HAAAAAAAAAAAAAH—!”

Finalmente, eu gritei.

Porque se eu não fizesse, eu ia morrer.

Morrer de medo sozinho.

Eu não conseguia mais me controlar.

Eu saquei Balerion e desencadeei um golpe devastador — um que carregava tudo que meu corpo podia reunir.

O impacto reduziu o corpo de Kai Luc a uma névoa sangrenta, enquanto a presença do Rei Demônio desapareceu completamente.

Caindo no chão em meio à névoa carmesim, lutei para suprimir os violentos tremores que sacudiam meu corpo.

“Agaroth… O Rei Demônio.”

“Senhor dos 72 Altos Demônios.”

“O ser que eu nunca descobri como derrotar — mesmo como o autor que o escreveu.”

Ele tinha me notado.

Ele sabia quem eu era.

Ele sabia onde eu estava.

Um ser que não deveria ter aparecido neste ponto da história.

Eu me forcei a ficar de pé e comecei a correr.

“Eu tenho que escapar.”

“Eu tenho que escapar.”

“EU TENHO QUE ESCAPAR!”

Deste lugar.

Deste mundo.

“EU TENHO QUE ESCAPAR!”




Nota do Autor:

Não me interpretem mal — este não é o fim. Nem perto disso.

Sim, ele apareceu.

O próprio personagem que causa dor de cabeça, tanto para mim quanto para Frey.

Eu queria que Frey entendesse verdadeiramente o que o terror significava.

Um horror tão absoluto que, mesmo com seu poder como autor, ele ainda não conseguia derrotá-lo.

Agora, ele tem mais um motivo para deixar este mundo.

Aproveitem.

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