O Ponto de Vista do Vilão

Capítulo 9

O Ponto de Vista do Vilão

Ada, percebendo o clima tenso, tomou a iniciativa de quebrar o silêncio.

— Vejo que estava nos esperando, Vulcan.

— De fato. Estive observando-os desde o momento em que chegaram, Lady Ada.

— Como esperado do Regente.

“Então eu estava sendo vigiado o tempo todo…” Suspirei internamente, fazendo o possível para ignorar o olhar fixo de Vulcan.

O Guardião juntou as mãos e inclinou-se ligeiramente para frente.

— Presumo que estejam aqui para a cerimônia de ascensão do Lorde.

Assenti.

— Conforme a tradição da família, Lorde Frey se apresentará perante os Anciões em uma reunião que a maioria dos membros da família Starlight comparecerá—para testemunhar o nascimento de seu novo Lorde.

Vulcan voltou seu olhar para mim antes de continuar.

— Você tem permissão para trazer um companheiro com você quando enfrentar o conselho. Lá, você participará de uma discussão aberta com os Anciões antes de ser oficialmente nomeado como o Lorde da família Starlight.

— Está tudo claro até agora?

Assenti novamente, incapaz de me forçar a falar na frente desse velho mordomo.

— Muito bem. O conselho se reunirá amanhã. Quanto a hoje, organizamos uma pequena celebração para comemorar sua maioridade, Lorde Frey.

— Você está livre para passar seu tempo como desejar. Seus quartos já foram preparados. Com isso, acredito que cobri sua programação para o dia.

Assenti uma terceira vez, enquanto Ada sorria educadamente.

— Sim, você cobriu. Obrigada.

Ada se virou para mim.

— Bem, suponho que terminamos aqui, não é?

Sentindo a atmosfera sufocante, ela sutilmente me incentivou a sair. Mas, assim que estávamos prestes a nos levantar, Vulcan falou novamente.

— Antes disso… Lady Ada, posso ter um momento a sós com Lorde Frey?

Ada estremeceu levemente antes de olhar para mim. Eu não estava muito melhor—não esperava por isso, nem tinha ideia do que o velho mordomo queria.

Ainda assim, me vi assentindo uma quarta vez—desta vez, para Ada.

— Tudo bem… Vamos ver o que você tem a dizer, velho.

Com clara hesitação, Ada deixou a sala, deixando-me sozinho com Vulcan.

Um silêncio pesado se estendeu entre nós.

Apesar de ser um servo, não me atrevi a falar primeiro. Mesmo que eu combinasse minhas vidas passadas e presentes, este homem viveu muito mais tempo. Sem mencionar… ele poderia me matar com um mero estalar de dedos.

Vulcan girava distraidamente sua xícara de chá.

— Lorde Frey… você sabe quem eu sou?

Mantive meu rosto impassível.

— Você é o Grande Regente desta família.

— Isso está correto. — Vulcan assentiu.

— Mas também está errado.

— Errado? — Questionei, incerto do que ele queria dizer.

— Sim… As pessoas podem me chamar do que quiserem—Guardião, Guerreiro Vulcan… mas nada disso importa.

— Eu fui, e sempre serei, o servo do Lorde.

— O servo… do Lorde? — Murmurei.

— Isso mesmo.

— O que significa… que a partir de amanhã, serei seu servo.

Um Desperto de Rank S… como meu servo?

Eu estava prestes a analisar demais as implicações dessas palavras quando Vulcan me interrompeu.

— Vamos falar sobre os Lordes antes de você, Lorde Frey.

Ele se levantou e caminhou em direção à sua mesa, com as mãos cruzadas atrás das costas.

— Eu servi ao segundo Lorde, Izan Starlight—seu avô—até os últimos dias de sua vida. Então, servi ao terceiro Lorde, Abraham Starlight—seu pai—até sua morte. E agora, vivo para servi-lo. Você sabe o que isso significa?

Permaneci em silêncio.

Eu sabia pouco sobre os homens de quem ele falava e não conseguia entender o que ele queria dizer.

Felizmente, Vulcan respondeu à sua própria pergunta.

— Significa que sou um servo fracassado… Um incompetente que sobreviveu a seus Lordes. Não uma vez, mas duas.

Vulcan se virou para me encarar novamente.

— Tanto seu avô quanto seu pai foram grandes guerreiros—homens nobres que dedicaram suas vidas a esta família… e a este mundo.

— Eles morreram no campo de batalha, salvando um servo inútil como eu—junto com dezenas, talvez centenas de milhares de outros.

Vulcan agora estava a poucos passos de mim. De alguma forma, sem que eu percebesse, ele diminuiu a distância entre nós.

Ele não prestou atenção ao meu crescente desconforto enquanto continuava.

— Mas e você, Lorde Frey?

Enrijeci.

— E eu? — Respondi com uma pergunta própria.

— Lorde Frey… diga-me, o que você vê?

— O que eu… vejo?

Meus olhos se arregalaram em choque, e meus lábios tremeram violentamente quando a ficha caiu.

A sala inteira tremeu violentamente quando uma presença esmagadora caiu sobre mim—a aura de um guerreiro de Rank S desencadeada sem restrições.

Uma força visível se espalhou pelo ar, envolvendo Vulcan. Ele desapareceu dentro dela, deixando apenas seus olhos brilhantes perfurando o véu de energia bruta e destrutiva.

Eu não conseguia me mover.

Estava congelado no lugar, olhando para o abismo à minha frente.

Pela primeira vez neste mundo… senti medo.

— Frey Starlight… Este velho servo tem apenas um desejo em sua vida.

— Desta vez… quero morrer antes que meu Lorde morra.

— Mas preste atenção às minhas palavras… se, de alguma forma…

A pressão intensificou-se a cada palavra, ameaçando esmagar meu corpo de Rank F em pó.

— Se você arruinar esta família—se você desonrar seu legado—se você manchar seu nome…

— Então, tenha certeza.

— Eu o matarei… e então tirarei minha própria vida.

Minha respiração falhou enquanto eu encarava essa existência monstruosa. Meu coração batia violentamente, meu corpo tremia incontrolavelmente.

Então…

— Ha… Ha-ha ha ha…

A porta tremeu violentamente enquanto Ada tentava forçar a entrada, mas a aura opressiva de Vulcan a impedia.

Então veio o riso—oco, descontrolado. Mas não era Vulcan. Não, o rosto do velho se contorceu ainda mais em uma carranca. Ah. Aquele riso… era meu.

Parecia que era eu quem estava rindo.

O que ele acabou de dizer? Me matar… ah, é isso mesmo.

Abri meus braços e gritei no auge dos meus pulmões:

— Vamos! Faça isso! Me mate!

— O quê…? — Vulcan não podia acreditar no que estava ouvindo.

Seu velho filho da puta… quem disse que eu queria viver em primeiro lugar?!

Eu sou apenas alguém agarrado a um frágil fio de esperança, um louco correndo atrás de um fio de luz no fim de um túnel escuro…

— Você acha que eu quero continuar vivendo neste mundo amaldiçoado? Vá em frente, faça isso!... pelo menos assim, não terei que prosseguir com a coisa insana que estou planejando fazer.

Lutei contra o tremor em meu corpo e forcei um sorriso aterrorizante em meu rosto.

— Vamos, seu bastardo… faça isso!

Que se fodam você e seus mestres.

De repente, Vulcan se conteve, e a pressão esmagadora desapareceu. Em um instante, ele se curvou em um ângulo perfeito de 90 graus e falou em voz alta:

— Minhas desculpas, Lorde Starlight! Puna-me como achar melhor!

Ele se desculpou imediatamente, seu rosto ainda congelado em choque. Ele nunca esperou essa reação—especialmente do covarde, Frey.

— Punir você? Levante-se, velho… eu não sou seu lorde.

Vulcan levantou a cabeça enquanto eu me levantava do meu assento. Ada também havia entrado correndo.

Lancei um olhar frio para Vulcan.

— Eu não preciso de um servo, nem nunca quis um… não se preocupe, eu não serei o lorde em primeiro lugar.

O velho estremeceu.

— O que você quer dizer?

— Você terá sua resposta amanhã.

Sem esperar por sua resposta, saí da sala, deixando Vulcan para trás.

— Vulcan…

Ada se dirigiu ao velho servo, sua expressão cheia de desprezo. — Você ousou ameaçar meu irmão… tenha certeza, eu não vou esquecer disso.

Sem dizer mais uma palavra, ela me seguiu, deixando Vulcan parado ali em confusão.

Ele manteve seu olhar nas minhas costas até o fim.

Apenas uma pergunta circulava em sua mente—'O que aconteceu com Lorde Frey?'


— Filhos da puta.

Eu caminhei rapidamente pelos vastos corredores deste lugar amaldiçoado, ouvindo os passos de Ada enquanto ela tentava me alcançar.

Meu coração batia implacavelmente, recusando-se a se acalmar. Isso foi aterrorizante pra caralho…

Como eu consegui responder dessa forma em primeiro lugar? Afinal, eu estava tremendo sem parar…

Talvez eu realmente estivesse louco.

Bem… não importava mais.

— Frey! Espere!

Virei-me para encarar minha irmã. — Sim? O que foi?

— Você está bem? Ele te machucou em algum lugar?

Dei uma risada amarga. — Desde quando você se importa com o meu bem-estar, Ada? Achei que você ficaria feliz em ver isso.

Ada franziu a testa.

— Eu não estou preocupada com você. Mas o que aconteceu aqui pode afetar a nossa posição. Nós somos a família principal, e eles são apenas um ramo—não se esqueça disso. É por isso que vou garantir que ele saiba o seu lugar.

Eu vi o ódio em seus olhos e senti pena de Vulcan, que logo se tornaria seu servo.

— Hah… me poupe da merda da família.

Eu havia chegado ao quarto que havia sido preparado para mim. Quando estendi a mão para girar a maçaneta, Ada me impediu.

— O que você está pensando que está fazendo? Um banquete está sendo realizado em sua homenagem, e a família inteira se reuniu… Você deveria pelo menos dar uma passada.

~Pfft~

Eu ri.

— Um banquete em minha homenagem?

— Não vamos nos enganar, Ada… Filhos da puta—quando foi que eles me mostraram algo além de desprezo? E agora, quando estou prestes a me tornar o lorde, eles de repente querem estar do meu lado?

— Isso é um absurdo… Nenhum dos anciãos sequer se preocupou em me encontrar pessoalmente. Eles apenas enviaram Vulcan.

Ada ficou em silêncio. Ela não podia negar o que eu havia dito.

— Vou descansar no meu quarto até a reunião do conselho. Até lá, deixem que celebrem minha honra ou a de outra pessoa—eu não me importo.

Entrei no meu quarto e fechei a porta atrás de mim, deixando minha irmã parada ali sozinha.

Talvez eu tenha sido muito atencioso com ela ultimamente. Mas a última ameaça de Vulcan me lembrou do que eu tinha que fazer…

Essas pessoas eram apenas personagens que eu havia criado. Na melhor das hipóteses, eram ferramentas.

O que importava era alcançar meu objetivo. Essa era a única coisa que importava.

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