
Capítulo 396
Clube de Negociação de Trafford
— Felizmente, achei umas batatas-doces — disse o Velho Feng, sorrindo. — Mas a fruta está azeda.
Tao Xiaman olhou para o Velho Feng. Ela se sentiu relaxada ao ouvir a voz dele e sorriu. — Faz tempo que não como batata-doce.
O Velho Feng tentou perguntar a ela: — Consegue ver alguma coisa agora?
Tao Xiaman balançou a cabeça com um sorriso. — Sim. Consigo ver agora, mas está tudo muito borrado.
O Velho Feng suspirou aliviado. Ele se sentou e enterrou as batatas-doces sob a fogueira. — Não é à toa que você parece mais feliz agora.
Tao Xiaman estendeu as mãos para o fogo e assentiu: — Nunca imaginei como um pouco de luz era tão importante.
O Velho Feng não respondeu.
Tao Xiaman perguntou: — Velho, pode me emprestar seu celular?
O Velho Feng balançou a cabeça e respondeu: — Quer ligar para sua família? Mas eu não tenho um.
Tao Xiaman suspirou: — Quero ligar para o meu noivo. Ele deve estar preocupado agora.
O Velho Feng lembrou: — Está tudo enevoado agora. Eu te levo de volta amanhã.
— É o único jeito — Tao Xiaman se sentiu mal. — Velho, desculpa. Você não precisaria estar aqui se não tivesse me encontrado.
O Velho Feng balançou a cabeça: — Está tudo bem. Conversar com você é melhor do que... — ele baixou a voz e olhou para Tao Xiaman — ...ficar sozinho.
Pensando nas palavras dele, Tao Xiaman se solidarizou com esse velho solitário. — Velho, sua filha te abandonou? Por que você não se encontra com ela?
— A culpa é toda minha — o Velho Feng balançou a cabeça.
— Er... — Tao Xiaman o consolou — Velho, você deveria falar com ela diretamente, vocês dois não são inimigos.
O Velho Feng quebrou a lenha e sussurrou: — Será?
Tao Xiaman suspirou: — Talvez... eu não tenha o direito de dizer isso. Eu também não vejo meu pai há muito tempo.
— Por que não? — o Velho Feng elevou a voz.
Tao Xiaman não disse nada e abraçou os joelhos. Ela estava mergulhada em pensamentos profundos enquanto olhava para o fogo.
O Velho Feng suspirou também. — Desculpa.
— Não... não é nada — Tao Xiaman balançou a cabeça.
Ela queria compartilhar seus sentimentos, mas não conseguia encontrar uma pessoa adequada. O velho não sabia nada sobre ela. Talvez ele fosse um ótimo ouvinte. — Velho, eu... — ela levantou a cabeça — Meu pai é um assassino.
O Velho Feng estremeceu. Ele largou a lenha e conseguiu respirar superficialmente.
— Você vai me desprezar? — Tao Xiaman estava nervosa.
— Claro que não — o Velho Feng balançou a cabeça — Não tenho o direito de desprezar os outros.
— Velho, você...
— Não é nada — o Velho Feng respirou fundo — Todo mundo tem sua história. Não tenho nada a comentar sobre os outros.
Tao Xiaman sorriu aliviada: — O mundo seria mais pacífico se as pessoas pudessem ser tolerantes como você.
O Velho Feng franziu a testa: — Você se importa muito com o que as pessoas pensam de você?
Tao Xiaman balançou a cabeça e continuou: — Não sei. Não me lembro de muitas coisas da minha infância. Mas algumas ainda vêm à minha mente como um relógio, me lembrando quando eu as esqueço... Tenho medo delas.
— Medo?
Tao Xiaman levantou a cabeça e tentou conter as lágrimas com um esforço: — Naquela época, quando meu pai foi preso... as famílias da vítima descontaram sua raiva em mim...
Tao Xiaman sorriu amargamente: — Você pode imaginar... eles me acusaram de ser filha de um assassino sanguinário... Todos me olhavam com frieza...
— Como puderam te tratar assim! Você era apenas uma criança. Eles! Eles! Eles! — o Velho Feng estava triste. Ele jogou a madeira no fogo com força.
Tao Xiaman ficou chocada: — Velho, por que você está... tão agitado?
— Eu... — o Velho Feng suspirou — Eu simpatizo sinceramente com você! Você não deveria arcar com as culpas de seu pai.
Tao Xiaman sorriu amargamente: — Não sei... talvez assim, eles se sintam melhor.
A caverna estava silenciosa. Um aroma tentador de batata-doce encheu o ar.
— Está pronto, né? — Tao Xiaman disse levemente — Cheira bem.
— Espere um momento — o Velho Feng assentiu. Ele segurou a comida com as mãos depois de tirá-la do fogo com um pedaço de madeira, mas a batata estava muito quente, fazendo com que o Velho Feng se queimasse e gritasse.
— Você está bem? — Tao Xiaman segurou o dedo do Velho Feng e assoprou. — Por que você não esperou esfriar?
— Eu estava impaciente — o Velho Feng sorriu amargamente.
Tao Xiaman começou a sorrir e colocou a batata nas mãos dela cuidadosamente, usando a manga. Ela acrescentou: — Meu pai sempre se queimava com batatas quentes também.
— Você... ainda se lembra disso?
— Quê? — Tao Xiaman ficou surpresa.
— Nada, vamos começar a comer.
— Aqui está — Tao Xiaman sorriu e ofereceu metade da batata ao Velho Feng.
Eles começaram a comer sem dizer uma palavra.
Esta foi a batata mais deliciosa que o Velho Feng já havia provado em anos. Uma refeição onde ele podia conversar e ver sua garota feliz. Ele esperava por esta refeição há muitos anos.
O Velho Feng não percebeu quando Tao Xiaman começou a adormecer. Ela tinha passado por muita coisa hoje. Ele estava observando o fogo enquanto ele se apagava. Ele ainda queria perguntar mais a ela. — Xiaman? Xiaman?
— Sim? — ela bocejou. — Aconteceu alguma coisa?
— Você quer ver seu pai? Talvez ele sinta sua falta.
— Não sei... — ela estava muito cansada — Eu não... sei... como encará-lo...
— Xiaman... — o Velho Feng se virou e a viu dormindo. Ele suspirou — Xiaman, eu sinto muito.
O Velho Feng quebrou a lenha uma a uma gradualmente e as jogou no fogo. Ele sentou-se sozinho à meia-noite com uma paz interior recém-descoberta. Caminhando em direção a Xiaman, ele tentou tocar seu rosto gentilmente... mas ele não ousou.
Talvez ela estivesse tendo um ótimo sonho agora, pois ele podia ver seu sorriso no rosto dela. O Velho Feng suspirou e saiu da caverna sob o luar enevoado. Ele ficou de pé por um tempo e tomou uma decisão.
— Você pode aparecer agora — o Velho Feng disse — Eu sei que você está aí... Chefe. Luo Qiu apareceu depois de sua palavra.
— Há algo para o qual você me convocou? — Luo Qiu perguntou.
O Velho Feng suspirou após um silêncio. — Obrigado por sua ajuda com este encontro... É o suficiente.
— Não é nada, essa é a minha promessa — Luo Qiu olhou para o relógio e continuou — Os olhos dela se recuperarão em breve.
O Velho Feng assentiu. Ele queria dizer algo, mas não disse. Finalmente, ele pediu: — Me mande de volta para a prisão...
— Cliente — Luo Qiu disse — De acordo com nosso contrato, o acordo começou. Você não receberá nada se parar aqui. Mas se você continuar, eu posso deixá-lo voltar para terminar aquele vestido de noiva.
— Não importa agora — o Velho Feng olhou para aquela caverna profundamente — Foi valioso ter um jantar e conversar com ela. Não me arrependo agora. Eu só me importei comigo mesmo, mas não pensei nos sentimentos dela. Eu não deveria estar na vida dela. A vida dela seria linda sem mim... — o Velho Feng caminhou até Luo Qiu — Então... me mande de volta, por favor.
— Eu entendo. Eu farei como você deseja.
Tao Xiaman acordou com o ar frio.
Ela conseguia ver claramente agora, mas não encontrou aquele velho que a acompanhou na noite passada. Ela notou que o fogo havia se apagado com apenas um casaco cobrindo-a. Mais tarde, ela ouviu alguém chamando seu nome. Parecia que muitas pessoas estavam procurando por ela. Saindo da caverna, ela encontrou um helicóptero no céu.
Estava amanhecendo. — Socorro, estou aqui! Estou aqui! — ela gritou.
Um tempo depois, alguém da equipe de resgate a encontrou. Ela olhou para trás, para a caverna, sentindo que tudo o que aconteceu parecia um sonho.