Sou um Regressor Infinito, mas tenho histórias para contar

Capítulo 158

Sou um Regressor Infinito, mas tenho histórias para contar

O Estrategista X

– Ah, ah, ah… Chi҉ ҉ zz҉ ҉ ҉ ҉ … Ah…

A Administradora do MetaJogo Infinito parecia bizarra. Seu ruído de TV característico crepitava por todo o corpo. Sua voz gaguejava como uma IA quebrada, pior do que um Vocaloid produzido por um compositor amador.

– Chi҉ ҉ zz҉ ҉ ҉ … Ah, ah… Ah…

Estava claramente em estado crítico. No entanto, todas essas características peculiares eram meros adornos comparados à 'aparência' da anomalia.

“Eek.”

A mais chocada era Oh Dok-seo. Ela olhava para frente e para trás entre a anomalia e eu, completamente perplexa.

“U… Uma garota…?”

De fato. A anomalia havia tomado a forma de uma 'garota' com 'cabelos brancos' em um 'vestido branco'. A visão de uma garota branca continuamente coberta de ruído, sangrando líquido preto de ferimentos de bala, era bastante angustiante para qualquer um que não tivesse perdido sua humanidade.

“O que… O que é isso, Sr.? A anomalia deliberadamente tomou essa forma para evocar simpatia de nós…?”

“Não, foi planejado.”

Deixei cair a pistola Walther PPK. Não era mais eficaz. Seu papel era meramente infligir um ferimento crítico. Um fato pouco conhecido, mas a arma que deu o golpe final no deus coreano não foi a Walther PPK. Ela havia falhado. A Walther PPK era perfeita para a [Arma de Chekhov] [1] já que falhou no momento crucial. Mas seu papel terminou aqui.

“Quando você estava meditando sob a cachoeira para se conectar com o deus, os escritores estavam presos no hotel.”

“Uh, sim. Eu me lembro disso….”

“Naquela época, pedi aos escritores para escrever obras relacionadas à Administradora do MetaJogo Infinito.”

Sim. Para recordar com precisão o que eu disse aos escritores:

‘Tudo o que vocês precisam fazer é escrever. Ah, e certifiquem-se de que o início do novo romance inclua um deus. O nome do deus deve ser a ‘Administradora do MetaJogo Infinito’.’

‘Tirem a gente daqui!’

‘Boa sorte, escritores.’

E quando fiz este pedido educado, também adicionei uma instrução específica. Pedi que descrevessem [a Administradora do MetaJogo Infinito] na forma da 'garota branca' diante deles. Como resultado, a [Administradora do MetaJogo Infinito] enfraquecida, tendo sido criticamente ferida por mim, não teve escolha a não ser se transformar na forma imposta pelos humanos. Em essência, eu havia colaborado com os escritores para consertar a aparência da anomalia.

“Por quê? Qual é o significado dessa forma? Não é de mau gosto?”

“Tsk, tsk. Ah, esses jovens otakus de hoje em dia. Não conseguimos nos comunicar.”

“……?”

“Dok-seo, essa ‘garota branca’ é uma das formas mais fundamentais na literatura de gênero coreana, a forma de deus menos prejudicial. Agora que a Administradora do MetaJogo Infinito tomou esta forma, não pode mais ser uma ameaça para nós.”

“……???”

Assim que terminei de falar, a garota branca coberta de ruído estendeu uma mão delicada e moveu os lábios.

– Ah, ah, ah, ■, ah.

– Oi? Oi? Oi?

– Oi? Eu sou Deus.

– Oi, eu sou Deus?

– Oi, eu sou Deus?

A anomalia repetiu as mesmas frases como uma fita cassete quebrada. A boca de Oh Dok-seo se abriu.

“Aaah? Poderia ser a lendária…?”

“Sim. Deixe-me apresentá-la. Este é o clichê de ‘Oi, eu sou Deus’.”

Isto requer um pouco de explicação. Hoje em dia, os protagonistas são frequentemente reencarnados por meio de acidentes de trânsito acidentais pelo [Caminhão Isekai] [2] ou colisões deliberadas causadas por [Comentários Ruins]. No entanto, nos velhos tempos, um clichê diferente era popular.

Por 'velhos tempos', quero dizer antes de existirem plataformas como KakaoPage ou Naver Series.

Naquela época, aspirantes a escritores, que estavam em seus turbulentos anos de adolescência, escreviam romances de paródia de obras da subcultura. Uma obra mega-hit veio do Japão, semelhante à Invasão Britânica dos Beatles dominando o mercado de música americano. Este hit bombardeou as mentes dos jovens otakus na Coreia.

O nome do bombardeiro era Fate/Stay Night. Traduzindo este título estrangeiro para a linguagem humana, significava 'A Noite Onde o Destino Permanece'.

Otakus, abençoados pelo luar, enlouqueceram, derramando obras de paródia. A lua estava arrasando. Entre os personagens de Fate/Stay Night estava uma garota de cabelos brancos e vestido branco. Escritores de paródia usavam essa personagem de garota branca como um agente de 'Deus', sempre aparecendo no prólogo.

Por exemplo, se o prólogo começasse com a morte infeliz do protagonista, eles de repente se encontrariam em um espaço branco.

‘O-onde estou? Eu tinha certeza de que tinha acabado de morrer….’

‘Oi? Você já está morto. Já que foi um acidente, vou conceder-lhe um desejo e deixá-lo renascer em um novo mundo.’

‘O quê? Mas quem é você?’

‘Eu? Bem, em sua linguagem humana, você pode me chamar de… o “Mundo”.’

‘O… mundo?’

‘Sim. Oi? Eu sou o “Mundo”.’

De fato. Originalmente, não era 'Deus' mas o “Mundo”. O ponto chave era enfatizar a divindade com majestosas aspas duplas (“”) em vez de aspas simples fracas (‘’). De qualquer forma, como tais paródias surgiram como chuvas de verão, com o tempo, o clichê de ‘um deus na forma de uma garota branca’ começou a aparecer em outras obras decentes.

A garota branca perdeu seu nome original de “Mundo” e se estabeleceu completamente como ‘Deus’. Ela apareceu em prólogos, enviando o protagonista para outro mundo (reencarnação) ou voltando no tempo para outra chance (regressão). Esta é a origem histórica da ‘garota branca’ que diz, ‘Oi? Eu sou Deus.’ Poder-se-ia até chamar de origem literária já que Fate é literatura.

“Bem, Fate/Stay Night não foi a única origem. A personagem ‘Verdade’ de Fullmetal Alchemist também desempenhou o mesmo papel. Obras AA japonesas também retratam isso. No entanto, a forma do deus ‘garota branca’ originou-se principalmente de Fate/Stay Night….”

“Nenhuma dessas informações excessivas é remotamente interessante.”

Depois de ouvir minha explicação impecável, Oh Dok-seo olhou para mim com uma expressão estupefata.

“Além disso, você disse que entrou na subcultura por volta do 555º ciclo por minha causa. Como você sabe sobre os anos 90?”

“Ei, não foram os anos 90; foram os anos 2000. E nos ciclos 555, 556 e 557, eu me dediquei à subcultura. Eu restaurei e li todos os materiais antigos, incluindo todos os rascunhos escondidos em vários fóruns.”

“Droga, agora vejo que você não é apenas um problema com os Três Reinos; você é um desastre total. Que tipo de monstro meu eu do passado entrou na subcultura…?”

Nesse momento, houve uma tosse ao meu lado. A Santa estava nos observando com uma expressão inexpressiva.

“Independentemente da origem, a forma atual da Administradora do MetaJogo Infinito é a forma de deus menos prejudicial, correto?”

“Sim, está certo.”

“Então é hora de dar o golpe final e terminar esta transmissão de speedrun.”

De fato.

“Dok-seo.”

“Uh, sim?”

“Pegue o laptop e ligue-o.”

“…….”

Oh Dok-seo tirou o laptop de sua mochila. Era a mesma relíquia deixada pela Administradora do MetaJogo Infinito. Na tela branca da área de trabalho, as mesmas perguntas e respostas estavam inscritas como antes.

[ O q u e é e s t e m u n d o? ]

[ Este mundo é uma transmissão de jogo ‘speedrun’. ]

Foi uma batalha pelo poder de interpretar o mundo. Nós vencemos. Não entregamos o mundo a uma mera anomalia. Coloquei minha mão no ombro de Dok-seo.

“No clichê ‘Oi, eu sou Deus’, o deus deve conceder um desejo a um humano.”

“…….”

“Diga a essa anomalia. ‘Meu desejo é que você reconheça também esta resposta.’ Como apóstolo da anomalia, você pode impor sua interpretação sobre ela.”

Crack!

O ruído que cobria a anomalia se intensificou. Estava tentando desesperadamente manter sua existência. A anomalia estendeu a mão e agarrou o pé de Dok-seo, como se implorasse a ela.

– A-avis… o.

– O Coveiro é perigoso.

Conseguiu falar. Tanto Dok-seo quanto a Santa hesitaram. Naquele breve momento de hesitação, a anomalia murmurou.

– O Coveiro é um regressor.

– Um regressor é uma entidade absoluta. Ninguém além do regressor pode perceber a repetição do mundo. Assim, o regressor cresce para dominar o tempo e a causalidade.

– O Coveiro está exterminando entidades conhecidas como ‘anomalias’ que podem reconhecer sua regressão.

– Para monopolizar o tempo sozinho.

“…….”

– Se esta entidade for selada, haverá uma entidade a menos para interferir na regressão do Coveiro.

– Concedendo controle absoluto sobre o tempo ao regressor. Esta é a escolha certa para a humanidade?

– Aquele a ser subjugado não é esta entidade, mas o Coveiro. Esta entidade é uma aliada.

– A existência do regressor deve ser conhecida pela humanidade através de Oh Dok-seo.

– O Coveiro chama esta entidade de anomalia. Pergunta. Não é o Coveiro a anomalia mais perigosa de todas?

“…….”

– Originalmente, ‘regressores’ são um clichê comum em obras criativas. Apenas esta entidade pode bloquear o regressor.

– Aviso. Se esta entidade for selada, a humanidade não terá mais esperança. O regressor existirá independentemente fora da rede de obras criativas.

– Oh Dok-seo.

– Você deve subjugar o regressor e se tornar a protagonista você mesma.

Um silêncio pairou sobre o espaço branco. O peso principal deste silêncio veio da Santa. Embora nunca tenhamos falado sobre isso, a Santa e eu vigiávamos um ao outro como guardiões mútuos. Se um de nós caísse, o outro imediatamente o derrubaria.

A anomalia tentou incitar a discórdia entre nós, mas como todas as provocações, havia cerca de 10% de verdade em suas palavras. No entanto, eu não me preocupei em refutar ou discutir, simplesmente esperando pela resposta de Oh Dok-seo. Eu confiava nela, e ela confiava em mim. Se um de nós vacilasse devido às palavras de um estranho, não era verdadeira confiança ou amizade.

“...Sr.”

“Sim.”

“Só para ter certeza, temos que manter o formato ‘transmissão de jogo speedrun’ para selar esta anomalia?”

Ela perguntou. Pisquei e inclinei a cabeça.

“Bem, se houver uma maneira melhor, tudo bem também….”

“Tudo bem.”

Oh Dok-seo sentou-se e colocou o laptop em seu colo. Seus dedos dançaram pelo teclado como um pianista habilidoso.

“Nesse caso, acho que isso é muito melhor do que uma transmissão de speedrun.”

Ela virou o laptop para nos mostrar. Na tela branca, uma nova resposta foi escrita em letras grandes.

[ O q u e é e s t e m u n d o? ]

[ Este mundo é um romance escrito por ‘Oh Dok-seo’ sobre o ‘Coveiro’. ]

Segurando o laptop, Oh Dok-seo falou.

“Eu vou escrever sua história, Sr.”


[1] - Na arte dramática, uma arma de Chekhov é um elemento aparentemente sem importância que é introduzido no início de uma história, mas que mais tarde se torna significativo.

[2] - Isekai é um subgênero de fantasia onde uma pessoa comum é repentinamente transportada de seu mundo para um novo e desconhecido.

Comentários