
Capítulo 64
Família Moderna: Nova Vida
Capítulo 65 - Lily, a campeã
Alguns dias antes do início das aulas, Andrew estava deitado no sofá da sala, folheando uma revista em quadrinhos e checando o celular para responder Pippa, com quem estava conversando.
Ele já tinha corrido pela manhã e agora estava aproveitando o tempo livre para descansar.
De repente, seu pai, Cam, entrou, saltitante de animação e com uma energia que às vezes surpreendia Andrew.
É verdade que ele sempre tem energia, mas quando se trata de futebol e treinos, nem sempre é como seu pai.
"Andy! Você tem que ouvir isso! Temos algo muito divertido na agenda de amanhã! A creche da Lily está organizando um evento familiar. Vai ser ótimo!", disse Cam, animado.
Andrew ergueu os olhos do gibi e se espreguiçou no sofá.
"Um evento da creche? Por quê...? Por que eles organizariam algo durante as férias de inverno? Eles não têm folga?", perguntou Andrew, sem muito entusiasmo.
"Não importa o porquê! Você vai! Você vai conhecer os amigos da Lily. É importante que estejamos lá", disse Cam, rindo.
"Duvido que ela sequer se lembre desse evento... Ela tem só onze meses", disse Andrew.
"Por que você está parecendo o Mitchell?", perguntou Cam, franzindo a testa para a falta de entusiasmo de Andrew.
Naquele momento, Mitchell entrou com uma xícara de café na mão e uma expressão calma, bem diferente da de Cam.
"É porque nosso filho é sensato como eu. Esse evento não é realmente para os bebês, é para os pais, para que doem dinheiro para a creche", disse Mitchell com um sorriso convencido, já sabendo o que os esperava quando chegassem lá.
"Ah, entendi. Em algum momento, eles vão pedir para você doar o que puder com alguma desculpa esfarrapada, certo?", perguntou Andrew.
"Exatamente. E o pior é que os bebês nem vão se lembrar desse tipo de evento, mas tudo é planejado para fazer os pais se sentirem obrigados a contribuir", disse Mitchell, assentindo.
"Tsc, ladrões desgraçados", murmurou Andrew enquanto voltava a ler sua revista em quadrinhos. Seus pais já estavam pagando uma taxa pela creche da Lily.
"Exatamente", disse Mitchell, concordando.
"Ah, vamos lá! Não é tão ruim assim! Isso é para o bem da creche e para a Lily! Vocês dois não têm coração!", exclamou Cam dramaticamente, levantando as mãos para o alto. Ele lançou um olhar ofendido para Mitchell e Andrew antes de sair da sala.
"Agora temos que ir, não é?", perguntou Andrew, olhando para Mitchell.
"É... Senão, ele não vai falar com a gente por dias. É a vida", disse Mitchell com um pequeno sorriso, balançando a cabeça.
"Ótimo", murmurou Andrew.
No dia seguinte, eles foram ao evento da creche às dez da manhã. Era uma manhã muito fria, mas, felizmente, o local tinha aquecimento.
A sala estava decorada com balões coloridos, e uma música alegre tocava em um alto-falante no canto, misturando-se com as risadas e murmúrios dos pais, todos carregando seus bebês.
Andrew observava tudo isso enquanto bocejava. A professora da creche – ou seja lá como ela se chamava – tinha muita energia, mas o mais irritante era que cada palavra que ela dizia era preenchida com um tom excessivamente infantil, quase como se ela tivesse que simplificar tudo o que saía de sua boca para que pudesse ser processado pelas mentes minúsculas na sala – os bebês –, esquecendo completamente que ela estava falando com os pais.
"Olá, mamães e papais! Vamos começar com uma atividade superdivertida para que nossos pequenos possam se divertir muito!", disse a professora em um tom agudo e alegre.
Andrew soltou um suspiro, revirando os olhos enquanto esfregava o rosto com uma das mãos. Era claro que aquele seria um longo dia.
A mulher da creche, com sua voz excessivamente aguda e entusiasmada, começou a preparar as brincadeiras para as famílias. Andrew, que não tinha nada melhor para fazer, decidiu levar as coisas a sério.
Por que não? Afinal, Lily era sua irmãzinha, e, mesmo que fosse apenas um bebê de onze meses, ele não ia deixar outra família vencer. Competição estava em sua natureza, e isso era algo que ele devia ao seu papel de irmão mais velho e disciplinado.
A primeira brincadeira envolvia os bebês empilhando pequenos blocos – uma atividade destinada a ajudar no desenvolvimento deles e algo que já vinham praticando desde que começaram na creche.
Andrew sabia que sua irmãzinha não entendia instruções convencionais. Depois de meses brincando com ela em casa, ele havia desenvolvido um sistema de sinais que, à sua maneira, Lily havia aprendido a interpretar. Basicamente, os sinais eram como se ele estivesse treinando um cachorro, mas ele fazia isso com amor e paciência.
Seguindo os sinais de seu irmão, Lily desajeitadamente empilhou três blocos em uma torre e ganhou a brincadeira.
"Conseguimos, Lily!", exclamou Andrew, enquanto os outros pais observavam em silêncio, sem entender muito bem como aquilo tinha acontecido.
"Boa, primeiro lugar!", disse Mitchell, não se importando com os métodos de Andrew. A única coisa que importava era a vitória.
Eles passaram para a próxima brincadeira, que envolvia os bebês completando um pequeno percurso de obstáculos. Como esperado, Lily foi a primeira a terminar, mais uma vez seguindo as instruções de Andrew. Um sorriso orgulhoso já se formava em seu rosto. No entanto, os outros pais estavam começando a olhá-lo de forma estranha, como se ele fosse algum tipo de especialista em "treinar" bebês.
Então chegou o ponto alto do evento: a corrida de engatinhar. Todos os bebês foram alinhados na linha de partida e, como esperado, os pais começaram a chamar seus pequenos com vozes exageradamente doces e amorosas.
"Vamos, meu amor! Força, meu anjo!", disse Cam com um sorriso exagerado, abaixando-se para incentivar Lily.
Mas Lily, como qualquer bebê, simplesmente sentou onde estava, olhando ao redor, completamente desconectada do caos ao seu redor.
Andrew, que estava se sentindo cada vez mais desconfortável, percebeu que os outros pais estavam chamando seus filhos e decidiu que era hora de assumir o controle da situação.
"Deixa comigo!", exclamou Andrew, empurrando Cam para o lado.
Ele então começou a assobiar de uma maneira estranha – um som agudo e peculiar que ele havia descoberto em seu tempo livre para chamar a atenção de Lily quando brincava com ela em casa. Era um assobio esquisito, mas funcionava, e era tudo o que importava.
De repente, como se ela entendesse completamente o que estava acontecendo, Lily levantou a cabeça, fixando os olhos em seu irmão. Após alguns segundos de hesitação, ela começou a engatinhar em toda velocidade, cruzando a "linha de chegada" antes dos outros, deixando os outros pais olhando em choque. Andrew sorriu amplamente, batendo palmas com entusiasmo enquanto a garotinha ia em direção a ele.
"Muito bem, Lily! Isso aí, campeã!", disse Andrew com uma mistura de orgulho e diversão, dando um tapinha suave em sua cabeça.
Até mesmo Cam e Mitch olharam para Andrew confusos. Era a primeira vez que eles viam esse truque em ação – se é que podia ser chamado assim.
A professora da creche, que estava observando a brincadeira de longe, aproximou-se para parabenizar Lily. "Ótimo trabalho, Lily!", ela disse com um sorriso largo, tentando recuperar a compostura após a confusão causada pelos métodos pouco ortodoxos de Andrew. "E ótimo trabalho para todos os outros também! Vocês todos foram incríveis, são todos campeões!"
"Claro que eles não são campeões", pensou Andrew.
Os pais aplaudiram levemente, alguns sorrindo para a atmosfera relaxada e alegre. Mas Andrew, ainda focado em Lily, soltou uma tosse exagerada e perguntou: "Então... onde está o prêmio?"
"Oh, não, querido. Esta não é uma brincadeira competitiva. Aqui na creche, nos concentramos em garantir que todos se divirtam e participem. Não queremos colocar a pressão da competição neles em uma idade tão jovem. Nosso objetivo é um ambiente saudável onde todos se sintam bem-vindos", disse a professora gentilmente, balançando a cabeça.
Andrew ficou em silêncio por um momento, processando as palavras dela. Ele não pôde evitar lançar um olhar para Mitchell, que encontrou seu olhar com um pequeno sorriso, como se estivessem pensando na mesma coisa.
"Nem sequer um bicho de pelúcia?", perguntou Andrew, e a professora simplesmente balançou a cabeça.
"Ok... entendi", disse Andrew com um sorriso forçado.
Depois de um tempo, o evento finalmente terminou. A família seguiu para casa no carro. Andrew acomodou-se no banco de trás ao lado de Lily, que estava presa em sua cadeirinha. Cam sentou-se no banco do passageiro, enquanto Mitchell estava ao volante. O suave zumbido do trânsito e o murmúrio do vento lá fora preencheram o momento com um ruído de fundo silencioso.
Andrew puxou sua mochila do chão do carro e começou a revistá-la. Ele havia trazido água, alguns cadernos e lápis de cor, como a creche havia solicitado. Enquanto procurava, algo estranho chamou sua atenção. No fundo da bolsa, enterrado entre alguns papéis e materiais, estava um coelhinho de pelúcia branco.
Não era da Lily.
Confuso, Andrew pegou-o, encarando o brinquedo de pelúcia com uma carranca.
"O que é isso?", perguntou ele baixinho, sem saber como aquilo tinha ido parar ali.
Cam, que estava observando pelo retrovisor, imediatamente franziu a testa ao ver o brinquedo de pelúcia nas mãos de Andrew.
"Andrew! Onde você pegou isso?", perguntou ele, com um tom cheio de preocupação. "Você roubou?!"
"Não! Eu não roubei. Deve ter ido parar na minha mochila por acidente", explicou Andrew, tentando justificar algo que claramente não fazia sentido.
"Isso não é certo, Andrew! A professora explicou por que não havia prêmio. Você não deveria ter pego um bicho de pelúcia, mesmo que Lily merecesse um", disse Cam.
"Eu não roubei...", murmurou Andrew, parecendo genuinamente confuso.
Percebendo que a situação estava escalando, Mitchell decidiu intervir. "Relaxem, pessoal. Não é grande coisa. Com o tanto que pagamos à creche e com todos os bichos de pelúcia que eles têm, pegar um não é o fim do mundo."
Cam lançou-lhe um olhar incrédulo, mas acabou desistindo. Devolver seria constrangedor.
Andrew não conseguia parar de encarar o brinquedo de pelúcia, imaginando como ele havia ido parar ali. De repente, algo fez clique em sua mente. Um nome surgiu em sua cabeça: Lily.
Seu olhar se voltou para sua irmãzinha, que, surpreendentemente, olhou de volta para ele. Seus olhos asiáticos encontraram os dele por alguns segundos antes que ela se virasse para frente novamente, completamente alheia à "conspiração" que Andrew agora contemplava.
"O quê?", pensou Andrew, confuso.
A situação se transformou em uma piada interna em sua cabeça enquanto o carro seguia, e logo, seus pensamentos se desviaram para outras coisas.
Alguns dias antes do reinício das aulas, Andrew estava na casa de seus tios.
"Todo mundo vai, mãe", disse Haley em um tom suplicante, seguindo Claire pela casa.
Andrew, que estava sentado no sofá, perdido em pensamentos, voltou à realidade e começou a prestar atenção na discussão habitual de Haley e Claire.
"Eu não me importo. Seu pai e eu não vamos deixar você ir a uma festa cheia de garotos do último ano. Principalmente não com aquele hormônio ambulante de 17 anos que você está namorando", disse Claire.
Phil, que estava sentado à mesa trabalhando em seu laptop, fez uma careta como se não quisesse se envolver, mas seus olhos se ergueram ligeiramente ao som da discussão.
"Nós vamos ser supervisionados!", disse Haley, tentando soar mais convincente, mas falhando.
"Ah, é mesmo? Por quem?", respondeu Claire, erguendo uma sobrancelha, claramente não convencida.
"Pelo tio do Spencer Patine", respondeu Haley.
"Quem diabos é Spencer Patine?", pensou Andrew, tentando se lembrar. Ele nunca ia a festas, mesmo que os populares sempre o convidassem. Ele considerava aqueles convites uma perda de tempo. Ele preferia ficar em casa jogando videogame com Leonard e Howard ou assistindo filmes e fazendo outras coisas com Pippa.
"Quem é Spencer Patine?", perguntou Claire, franzindo a testa, claramente confusa.
"Você sabe, o cara com o braço", respondeu Haley casualmente, como se isso fosse uma explicação suficiente.
"O que aconteceu com o braço dele?", perguntou Phil, deixando seu laptop de lado por um momento, agora interessado na conversa.
"O tio dele é o tio do Toby", disse Haley.
"Ah, tio Toby. Vou adicioná-lo à minha lista de esquisitos", disse Claire com um sorriso zombeteiro.
"Ai, meu Deus!", exclamou Haley indignada, frustrada por nada satisfazer sua mãe.
"Ok, parem. Eu posso ajudar", disse Phil, levantando-se e agarrando o braço de Haley para acalmá-la antes que ela começasse a gritar como uma lunática.
"Querida, sua mãe está preocupada que você tenha o coração partido quando Dylan for para a faculdade", disse Phil, com a confiança de alguém que pensava ter resolvido tudo.
"O que isso tem a ver com alguma coisa? Além disso, ele não vai para a faculdade", disse Haley, cruzando os braços.
"Isso não é—", Claire começou, mas parou rapidamente, virando-se para Haley com os olhos arregalados. "Espere, ele não vai para a faculdade?"
"Ele tem uma banda, ok? Ele vai fazer uma turnê", disse Haley como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
"Ah... isso só fica cada vez melhor", disse Claire, não conseguindo acreditar no que estava ouvindo.
"Por que nada do que eu digo é suficiente para você?! Por que você sempre tem que fazer tudo soar ridículo?!", respondeu Haley, frustrada com o que via como a constante desconfiança de sua mãe.
"Porque você tem que entender..."
"Muito bem, pessoal! Calma", disse Phil, entrando no meio delas e levantando a voz. Ambas ficaram em silêncio e olharam para ele, esperando que ele continuasse.
"Vamos voltar ao começo. O que aconteceu com o braço do Spencer?", perguntou Phil.
Haley soltou um ruído exasperado, incapaz de acreditar no que seu pai acabara de dizer, e saiu correndo para o seu quarto. Claire olhou para o marido como se estivesse tentando entender por que ele estava se concentrando nesse assunto agora.
Claire notou Andrew. "Por que você está aqui hoje, Andy?", perguntou ela curiosamente, mudando seu tom completamente ao se dirigir a ele.
"Ah... bem, eu... eu preciso falar com a Haley... embora eu não ache que agora seja um bom momento", respondeu Andrew, colocando a mão no queixo enquanto debatia se deveria ir ao quarto de sua prima, sabendo que era como entrar na cova dos leões.
"Pode ir, Andrew. Ela é diferente quando se trata de você. Ela é sempre mais aberta com você. Não se preocupe, tenho certeza que ela vai te ouvir", disse Claire com um leve sorriso.
**[Comentário de Claire]**
"Sabe, no começo eu estava preocupada com Haley e Andrew. Eu queria saber o quão apegada ela era a ele, sabe, com toda aquela coisa de ciúme, e se esse relacionamento estava cruzando alguma barreira. Mas eu percebi que não é o que eu pensava. Haley não tem ciúmes de Andrew de uma forma romântica, ela apenas o vê como um irmão mais velho. Ela tem essa atitude protetora, como uma irmã tóxica, se é que podemos chamar assim. Ela só quer garantir que quem estiver com seu primo seja alguém apropriado, ela não está tentando se envolver na vida dele. Isso, pelo menos, me deixa aliviada", disse ela com um sorriso aliviado.
"Eu devo admitir, até eu sou um pouco tóxica com ele...", admitiu Claire.
"Eu sou tia dele e, é claro, me preocupo com ele como se fosse meu próprio filho. Mas às vezes, eu posso ser um pouco... exigente. Assim como com os namorados da Haley, eu sou a mesma com as garotas com quem Andrew namora e namorará no futuro. É inevitável, sabe? Ele é um cara incrível, um prodígio do futebol, e eu me preocupo muito com o futuro dele. Eu não quero que ninguém o distraia de seus objetivos", ela suspirou.
Depois de alguns segundos de silêncio, como se procurasse as palavras certas, ela continuou: "Eu amo ver como ele se dá bem com todo mundo, mas também tenho que ter certeza de que a pessoa com quem ele está é a certa. Será que ela vai fazê-lo feliz? Será que ela vai apoiá-lo da maneira que ele merece? Ou ela vai estar lá por conveniência ou algo superficial? Eu sempre me faço essas perguntas".
Claire então sorriu mais calmamente, como se estivesse convencendo a si mesma do que estava dizendo. "Mas com Andrew, eu não preciso me preocupar tanto agora, porque ele está com Pippa. Ela é uma garota incrível: estudiosa, inteligente, linda, gentil, social, um 10 em todos os sentidos! Eu sinto que não poderia haver ninguém melhor para ele. Ela o apoia, o faz se sentir bem, e eu sei que ela o fará feliz".
Sua expressão suavizou ainda mais, mas a preocupação com sua filha retornou ao seu rosto quando ela se lembrou de que ela havia lhe dito que seu namorado não iria para a faculdade e iria sair em turnê com sua banda.
**[Fim do comentário]**
"Sério? Ela não parecia estar de muito bom humor", disse Andrew, duvidoso. Ele tinha visto Haley com raiva, e era intimidante. Embora, agora que pensava sobre isso, ele nunca a tinha visto seriamente irritada com ele.
"Sim, pode ir. Ela não vai fazer nada com você, especialmente quando se trata de você", disse Claire com um sorriso.
"Tudo bem", disse Andrew, levantando-se do sofá e caminhando em direção às escadas.