
Capítulo 725
48 horas por dia
No corredor, do lado de fora do quarto, Fabericotte vivia o momento mais bizarro e aterrorizante de sua vida, enquanto Zhang Heng, do outro lado, permanecia impassível.
Os passos do lado de fora ficaram mais altos, acompanhados por uma conversa. Zhang Heng dominava muitas línguas estrangeiras, mas ainda assim não conseguia entender o que eles estavam falando. Percebeu que a língua deles era composta de poucas sílabas, repetidas incessantemente.
Depois de um tempo, ouviu-se cada vez mais movimentação do lado de fora da porta. Parecia que eles estavam batendo na porta com um objeto pesado. E alguns deles queriam cercar Fabericotte pela porta lateral. Zhang Heng só conseguia imaginar o medo que ele estava sentindo naquele momento.
Isso ficou ainda mais evidente quando ouviu a porta do seu quarto sendo atingida por um objeto pesado. Quando quis sair pela porta lateral, ouviu alguém tentando colocar a chave na fechadura. Foi então que soube que seus inimigos o cercavam.
Em pouco tempo, ele caiu no desespero, mas a pura vontade de sobreviver o forçou a arriscar uma das portas laterais. Felizmente, esta estava destrancada e ele conseguiu abri-la sem muito esforço, exatamente antes dos inimigos abrirem a porta da frente com a chave.
Segundos depois, Fabericotte ouviu alguém arrombando a porta do quarto. Se ele ainda estivesse lá, teria 80% de chances de ser capturado. Mesmo assim, não tinha muito tempo a perder. Ao espiar pela janela, viu o beiral do telhado sob o luar. A inclinação, no entanto, parecia bastante íngreme.
Fabericotte sabia que não tinha outra escolha a não ser pular.
Ele reuniu toda a coragem e se preparou para o feito perigoso. No meio do caminho, porém, viu algo que lhe gelou a espinha.
Sombras negras apareceram repentinamente dos edifícios de alvenaria abandonados lá embaixo. Fabericotte finalmente entendeu por que havia tão poucas pessoas na cidade.
Se as duas pessoas que ele viu no restaurante eram horríveis, as criaturas abaixo dele podiam ser classificadas como monstros. Elas tinham pele cinza-esverdeada e barrigas brancas. Nem um único fio de cabelo em sua pele. Escamas semelhantes às de peixe as substituíam. E o que mais o aterrorizou foram suas cabeças. Elas possuíam olhos enormes, que nunca se fechavam, órbitas oculares salientes, e ambos os lados do pescoço inchados com brânquias.
Elas se agitavam e pulavam sob o luar, balançando suas mãos e pés com membranas interdigitais como se estivessem dançando uma melodia absurda.
Fabericotte quase caiu da janela depois de testemunhar a cena horripilante diante dele. Felizmente, alguém o segurou pelas costas antes que ele se soltasse, e ele foi puxado de volta para o quarto.
Fabericotte não estava apenas infeliz, o nível de medo em seu coração havia chegado ao limite.
Ele virou a cabeça e viu que a pessoa que o puxou de volta para o quarto era o funcionário do hostel. Ele encarou o fugitivo com olhos frios e implacáveis.
Mas no momento seguinte, Fabericotte ouviu o som da porta se abrindo ao longe.
O estrondo familiar de um rifle Winchester, de alguma forma, neutralizou a atmosfera horrível para Fabericotte. Gritos podiam ser ouvidos do lado de fora do quarto quando o rifle disparou, mas a comoção logo diminuiu.
O coração de Fabericotte afundou. Quando pensou que o cara na porta devia estar sob o controle da população da cidade, a porta se abriu.
Zhang Heng atingiu a cabeça do funcionário, avançando sobre ele com a coronha do rifle, conseguindo silenciá-lo completamente. Depois disso, caminhou em direção a Fabericotte.
Ao ver Zhang Heng se aproximando, Fabericotte inconscientemente recuou até que suas costas encostassem na parede.
“Estamos em menor número. Mesmo que eu fique aqui, não consigo te salvar”, alertou Zhang Heng.
Fabericotte voltou à realidade, levantando-se rapidamente. “Você... De onde tirou essa arma?”, perguntou, agradavelmente surpreso.
“Peguei emprestada na mercearia”, respondeu Zhang Heng. “Podemos sair daqui pela janela?”
“Não, tem monstros lá fora.” Agora, Fabericotte começou a se arrepender de não ter saqueado a mercearia com Zhang Heng mais cedo. “E a rua?”, perguntou, afastando-se um pouco da janela.
“O que você acha?”, perguntou Zhang Heng retoricamente.
Embora os moradores da pequena cidade não tivessem batido à sua porta, Zhang Heng não ficou deitado na cama, permitindo que eles levassem Fabericotte. Além do fato de que os dois eram os únicos estrangeiros na cidade, Fabericotte também era o único que podia lhe dizer o que realmente havia acontecido ali.
E Zhang Heng não era tão ingênuo a ponto de achar que eles nunca viriam procurá-lo. Afinal, o velho que ele conheceu mais cedo fez de tudo para que ele ficasse no Gilman Hostel. Ele até pagou as taxas de hospedagem de Zhang Heng. Não havia como eles permitirem que ele fosse apenas um espectador.
“O que devemos fazer, então?”, Fabericotte estava perdido.
Para começar, eles não podiam mais ficar ali. Embora Zhang Heng tivesse um rifle em mãos, eles eram apenas uma dupla. Uma dupla prestes a enfrentar uma cidade inteira. Além dos moradores deformados, os monstros que normalmente ficavam escondidos em suas casas durante o dia agora vagavam pelas ruas.
“Vamos para o sul”, disse Zhang Heng. Antes de saírem do hostel, eles rapidamente verificaram a rua. Não havia muitas pessoas, e o prédio próximo poderia ajudá-los a despistar seus perseguidores.
Enquanto conversavam, Zhang Heng já havia voltado para o corredor, seguido de perto por Fabericotte. Os dois caminharam até o final do corredor. Ao mesmo tempo, ouviram passos subindo as escadas novamente. Significava que outro grupo estava subindo para enfrentá-los.
Zhang Heng entregou o gancho improvisado para escalar paredes a Fabericotte. “Você sabe usar isso?”
“Acho que sim”, disse este nervosamente ao pegar o gancho.
“Vá para o telhado do prédio oposto. Eu me encontro com você lá depois.” Zhang Heng levantou seu rifle e mirou nas escadas. No momento em que a primeira pessoa apareceu, ele puxou o gatilho decisivamente. A bala atingiu com precisão a cabeça do alvo.
Com um estalo horrível, sangue espirrou por toda a parede.
Zhang Heng recarregou habilmente seu rifle, atingindo rapidamente o segundo indivíduo no peito. Em vez de recuar, ele continuou andando e atirando até estar a apenas três passos das escadas. Olhou para baixo e descobriu que a saraivada de tiros e os corpos acumulados não impediam que eles o atacassem. Mais sombras escuras corriam para cima. A escada velha só comportava um número limitado de pessoas, então algumas delas pularam no corrimão e escalaram em direção ao andar superior.
Uma criatura meio peixe, meio sapo pulou sobre o cadáver e investiu contra Zhang Heng. Apesar dos nervos à flor da pele, ele permaneceu calmo, sem ceder ao medo e ao pânico. Imediatamente antes do monstro o atacar, Zhang Heng acendeu um coquetel molotov e o lançou na criatura.