
Capítulo 640
48 horas por dia
Enquanto conversavam, Zhang Heng tirou o celular, abriu o WeChat e pagou o real para o sujeito na sua frente. Não recebeu nenhum agradecimento. O cara simplesmente pegou o maço de cigarros, abriu a porta da conveniência e saiu feito um foguete.
“Que tipo de pessoa é essa?”, resmungou a caixa, achando a situação injusta para Zhang Heng. “Que grosseria! Você não devia ter pago por ele.”
“Tudo bem, era só um real”, respondeu Zhang Heng. “Devemos nos ajudar uns aos outros, afinal, somos vizinhos.”
Se Zhang Heng se lembrava bem, quando o sujeito que acabara de sair ainda era estudante, a caixa era apaixonada por ele. Toda vez que ele ia à conveniência, ela queria comprar uns docinhos para ele e aproveitava para puxar assunto. Infelizmente, as vidas deles eram muito diferentes, e o romance não deu em nada.
Mas a situação atual dificultava a identificação com o rapaz alegre de antes. Zhang Heng não se demorou no assunto, passou o código de barras das suas compras e saiu da conveniência. Andou mais um pouco e voltou para casa, percebendo que já estava quase na hora do avô chegar.
Depois do jantar, Zhang Heng voltou para o quarto, fechou a porta e ligou o computador.
A primeira coisa que fez foi procurar notícias sobre as três crianças que se afogaram na internet. Duas eram meninos e uma menina, todos da mesma comunidade e se conheciam. A menina era de família monoparental; o pai havia falecido quando ela ainda era muito pequena. Quando a mãe desesperada soube que a filha tinha se afogado, gritou e desmaiou várias vezes. Os policiais tiveram que chamar uma ambulância para levá-la ao hospital. Zhang Heng assistiu à entrevista, mas não encontrou nada de errado. Se as vítimas não fossem três crianças, o caso não teria recebido tanta atenção; seria apenas mais uma notícia comum.
Infelizmente, poucas pistas úteis foram encontradas e ele só podia começar pelas investigações básicas.
Ele esperou até as 22h30, quando seu avô foi dormir. Depois de mais meia hora, imaginou que o avô já devia estar dormindo. Às 23h, pegou a mochila com o Arco do Osso da Peste, apanhou a chave do carro na mesa e saiu. Entrou no carro, jogou a mochila e o arco no banco de trás, escolheu um CD, colocou no aparelho e as melodias de Jay Chou começaram a preencher o carro.
Sua casa ficava bem longe do rio onde as três crianças se afogaram. Considerando que ele era um estudante do ensino médio, com pouco mais de dezoito anos, um desvio era necessário. Então, evitou algumas interseções com mais tráfego.
Quando chegou ao seu destino, eram 23h36.
O lugar estava deserto àquela hora, sem nenhuma luz. O único som que preenchia o ar era o barulho forte da água correndo no rio. Era escuro e sombrio, mas para alguém como Zhang Heng, que matou um Cavaleiro do Apocalipse, ele não sentia medo.
Encontrou um lugar para estacionar, desligou o motor e pegou a mochila e o arco. Ligando a lanterna recém-carregada, começou a caminhar em direção ao rio. A polícia havia encontrado os corpos rio abaixo, mas quanto ao local exato do acidente, as autoridades deduziram que devia ter acontecido onde encontraram o sapato da menina.
Eles especularam que a menina caiu acidentalmente no rio. Os dois meninos devem ter tentado salvá-la e também entraram na água. Resultado: os três foram levados pelas correntes das águas escuras e furiosas.
Zhang Heng desceu a ribanceira. Na estação chuvosa, essas trilhas e a margem do rio ficariam completamente submersas. Uma seca nos últimos dois anos, porém, havia baixado o nível da água, e muitas pessoas costumavam ir lá pescar e nadar.
Depois de andar cerca de cinco minutos, Zhang Heng chegou ao local do acidente. Como as investigações policiais estavam completas, eles removeram a fita amarela que havia isolado a área. Não muito longe de onde Zhang Heng estava, uma nova placa havia sido erguida, proibindo a natação no rio. Ao apontar a lanterna para a placa, ele percebeu que a palavra “proibido” estava faltando. A área parecia pouco amigável para investigadores, já que pedregulhos cobriam toda a margem do rio. Isso tornava quase impossível procurar pegadas. A polícia já tinha estado lá, e para eles, era inútil investigar novamente a cena. Zhang Heng só podia começar sua investigação em outro lugar.
Ele ficou parado no local onde a menina deixou seus sapatos, estendeu o pé e sentiu o chão. Aparentemente, as pedras cobertas de musgo na margem do rio eram extremamente escorregadias e, se alguém não fosse cuidadoso, certamente perderia o equilíbrio e cairia na água.
Havia muitas poças pequenas ao redor de Zhang Heng, provavelmente formadas quando o nível da água subiu até certo ponto. Pequenos cardumes e girinos estavam presos nessas poças e podiam ser facilmente capturados com uma garrafa de plástico. Agora, Zhang Heng entendia por que aquele lugar era tão atraente para as crianças. Juntando isso ao diário que a polícia encontrou depois, aquilo realmente foi só um acidente? Enquanto Zhang Heng estava pensativo, um barulho repentino veio de trás dele. Ele direcionou a lanterna e encontrou um pequeno sapo. O anfíbio permaneceu imóvel com a luz forte sobre ele. Ele imaginou que o som devia ter vindo daquele bichinho pulando e chutando as pedrinhas.
Naquele instante, uma ideia o atingiu. Quando a luz atingiu o local embaixo da ponte, ele viu algo em um segundo. No entanto, quando iluminou o local novamente, não havia nada. Zhang Heng ficou parado, pensou por meio segundo e desligou a lanterna.
Ele tirou a lente de filtro do bolso, colocou nos olhos e caminhou em direção ao pilar da ponte.
Se havia algo escondido atrás do pilar da ponte, essa coisa devia ter fugido antes dele se aproximar.
Claro, não descartava a possibilidade de a coisa continuar lá, esperando para emboscá-lo. Zhang Heng não estava muito preocupado, porém, carregando o Arco do Osso da Peste e a Flecha de Paris. Também tinha uma faca de bolso no bolso.
Assim que Zhang Heng deu dois passos à frente, viu uma figura negra correndo de trás do pilar da ponte e fugindo para o outro lado. A julgar pela silhueta, parecia uma pessoa, ou pelo menos uma criatura humanoide. O rosto estava coberto, e tudo que Zhang Heng pôde perceber é que era um homem.
Zhang Heng foi atrás rapidamente. A resistência do oponente era baixa. Nem um peso-pesado como Zhang Heng; ele era até mais lento que um homem comum. Além disso, os arredores estavam escuros como breu, e sua visão estava seriamente prejudicada. A velocidade de Zhang Heng, por outro lado, não diminuiu graças à lente de filtro.
Os dois se aproximaram cada vez mais. O homem misterioso percebeu que não conseguiria superar Zhang Heng. Com os dentes cerrados, ele pulou no rio.
Zhang Heng não foi atrás. Embora fosse um bom nadador, aquele rio era conhecido por ser perigoso, com fortes e imprevisíveis correntezas que podiam dominar um homem em segundos. Zhang Heng ficou surpreso ao ver o quanto o homem misterioso estava disposto a arriscar a vida apenas para despistá-lo.
O mais importante era que Zhang Heng já sabia quem era a pessoa. Ele poderia ir procurá-lo amanhã. Zhang Heng não quis entrar no rio simplesmente porque não queria molhar suas roupas e seus equipamentos de jogo.