
Capítulo 101
48 horas por dia
O ataque pirata ao navio mercante causou alguns danos, nada grave, mas ignorá-los seria burrice. Rapidamente, os dois carpinteiros recém-contratados foram chamados para consertar o barco.
Assim que Owen se foi, Marvin finalmente pôde respirar aliviado. Limpando o suor da testa, disse: “Foi por pouco! Que susto! Achei mesmo que me obrigariam a ir naquele barquinho. Não queria morrer ali. Que sorte a nossa, ficamos a bordo! Pelo menos, agora que fazemos parte de um navio pirata, podemos ver o sol nascer amanhã.”
“Você parecia muito nervoso no convés agora. Por quê? Com medo de que eu te substituísse?”
“Hein? Não, não, não! Eu estava preocupado que eles pudessem te machucar. Todos eles são monstros implacáveis, matam num piscar de olhos! Tenho que aplaudir sua coragem agora. Eu nem ouso olhar nos olhos deles quando falo.”
“Marvin, estou curioso. O que você teria feito se eu tivesse te substituído agora? Você contaria tudo o que aconteceu na cozinha?”
“O quê?! Como isso seria possível? Você salvou minha vida. Nunca vou te trair, custe o que custar!”
“Ótimo. É isso que eu queria ouvir, porque posso te garantir que, se você contar a eles o que realmente aconteceu lá, essa não será uma responsabilidade que você vai simplesmente abafar assim.”
Marvin forçou um sorriso, parecendo não acreditar em uma só palavra do que Zhang Heng lhe dizia.
“Você sabe por que eu esfaqueei o pirata três vezes com aquela facinha de batata depois de matá-lo?”
“Você… você!”
Marvin finalmente reagiu de forma diferente. Antes, ele não conseguia entender por que Zhang Heng continuava esfaqueando um “cavalo morto”. Agora, finalmente entendeu a intenção por trás daquele gesto “sem sentido”.
“É difícil ferir alguém por frente e por trás ao mesmo tempo. Mas essa dupla lesão fica fácil se uma segunda pessoa atacar também. Se você for me trair, pode ir em frente e contar sua versão, enquanto eu conto a minha. No final, o corpo vai decidir quem está com a razão.”
Enquanto conversavam, ouviram alguém gritando.
“Victor! Victor! Cadê você, diabo? Você não vai ver um tostão se não aparecer agora!”
Alguns piratas estavam no corredor procurando Victor. Zhang Heng se levantou rapidamente e olhou firmemente para Marvin.
“Está ficando tarde. Eu preciso pegar minha arma agora, e você deve ir cozinhar. Vamos nos livrar do corpo quando todos estiverem dormindo esta noite. Só precisamos jogar o barril no mar, e nossos problemas acabaram.”
Depois de acalmar Marvin, Zhang Heng procurou Dufresne, o encarregado do arsenal. Ao encontrá-lo, recebeu uma pistola e uma adaga trincada. Ele já tinha uma nova missão antes mesmo de examinar as armas que acabara de receber.
E essa missão crucial era…
Limpar o convés.
Em dias normais, os piratas não eram muito diferentes de marinheiros comuns. Francamente, a maioria dos piratas naquele navio eram, de fato, marinheiros antes de se tornarem o que eram. Alguns não suportavam mais seus ex-capitães, outros queriam aventura. Claro, alguns só queriam enriquecer rápido. Cada um tinha suas razões para escolher a vida pirata.
Naturalmente, ninguém em sã consciência gosta de ficar em lugares imundos. Nem mesmo os piratas desleixados e desorganizados eram exceção, e isso não tinha nada a ver com amor à limpeza. Simplesmente havia muitas coisas em alto-mar que podiam matar um homem. Um ambiente agradável e limpo certamente ajudaria a melhorar o moral a bordo. Além disso, um navio limpo reduziria o risco de contrair doenças.
Por isso, os piratas limpavam o navio a fundo de tempos em tempos. Isso era especialmente verdade após um ataque, quando sangue e corpos estavam por toda parte. Zhang Heng e os outros cinco piratas passaram boas duas horas esfregando o convés para garantir que cada gota de sangue fosse removida.
Antes do pôr do sol, Marvin conseguiu preparar uma boa refeição para todos. A comida estava surpreendentemente deliciosa. Foi então que Zhang Heng soube que Marvin tinha passado no teste. Eles o deixariam ficar e cozinhar para eles.
O valor de um cozinheiro em um navio nunca deve ser subestimado. Os dias longos e intermináveis no mar causavam um tédio insuportável que assombrava os homens. Quando entediados, eles podiam causar problemas desnecessários. Um excelente cozinheiro geralmente acalmava os piratas irritados alimentando-os com comida deliciosa. Muitas vezes, ninguém reclamava quando o cozinheiro recebia a mesma recompensa que um canhoneiro, mesmo não participando das batalhas.
Logo, a noite caiu. O capitão e o timoneiro retornaram ao Leão Marinho com dois terços dos piratas. Os restantes foram deixados no navio mercante sob o comando de Owen. Em outras palavras, Owen se tornara o capitão temporário daquele navio.
Quase todos os piratas estavam extremamente animados naquela noite. Foi uma vitória total. Em comparação, eles perderam apenas uma pequena quantidade de sangue para tomar posse de todo o navio mercante. No total, três mortos e cinco piratas com ferimentos leves.
Essa conquista pedia uma grande celebração.
O lugar estava cheio de barulho e conversas altas. As taças tilintavam, e as gaitas de fole tocavam. O nome Victor surgiu entre eles, com a maioria dizendo que ele havia secretamente retornado ao Leão Marinho durante a batalha.
Alguns até disseram que Victor ainda devia dinheiro a eles e que ele poderia ter fugido do navio de medo. Todos começaram a rir ao mencionar seu nome.
De repente, Owen entrou na cozinha, fazendo a algazarra diminuir um pouco.
“O Leão Marinho acabou de me informar que não viram Victor há algum tempo. Quem aqui o viu por último?”
Todos os piratas se olharam perplexos quando Owen fez a pergunta. Victor tinha que estar vivo ou morto em ação. Nunca tinham ouvido falar de alguém desaparecer durante uma luta.
“Será que ele caiu ao mar?”
“Impossível. Me certifiquei de verificar as águas ao redor antes de içar as velas.”
“Ele está certo. Eu o vi correndo para os conveses inferiores. Ele foi um dos primeiros a ir para lá. Depois disso, não o vi mais.”
Ninguém conseguiu dar uma resposta direta. Foi então que Owen se virou para olhar seus novos recrutas. Enquanto ainda estava na cozinha, ele viu que não havia nada de errado com eles. Eles se comportavam de forma completamente diferente dos piratas, mas era totalmente compreensível, já que eram as vítimas.
“Certo! Quem está administrando o saque esta tarde? Encontrem-me na cabine do capitão em cinco minutos”, disse Owen.