Pet King

Volume 10 - Capítulo 906

Pet King

Sihwa não conseguiu dormir direito na noite anterior – ou melhor, seria mais preciso dizer que não dormia bem há alguns dias. Primeiro, ficou perturbada com a sugestão cruel, mas tentadora, de Fina; depois, pensou no que Zhang Zian dissera sobre a matança das baleias; por fim, ao ver o arpão ensanguentado, voltou a se preocupar com o destino dos cetáceos.

Ela esfregou os olhos. Sentou-se na banheira e a água límpida escorria por sua pele delicada. Exceto pelos longos cabelos verdes escuros e molhados, quase não havia água em seu corpo.

Hah!

Soltou um longo suspiro. Ela sentia muita saudade da época em que havia acabado de nascer. Naquele tempo, era tão despreocupada, aproveitando-se do fato de que pessoas comuns não conseguiam vê-la. Brincava à beira-mar, livre e feliz. Até mesmo aproveitava a maré alta para entrar sorrateiramente na piscina de uma mansão à beira-mar. Ficava deitada ao lado da piscina e assistia a dramas coreanos com a dona da casa, que estava na sala de estar.

Aquela mansão era muito estilosa, com um design inteligente. Havia apenas uma parede entre o mar e a piscina, e a porta do jardim muitas vezes ficava aberta – provavelmente porque a dona não imaginava que alguém viesse do mar.

Para ter uma mansão à beira-mar em um local com a melhor vista, a dona devia ser muito rica. Alguém que, mesmo que Zhang Zian trabalhasse a vida toda, ainda estaria tão à frente que ele só conseguiria ver a poeira. Com certeza não era alguém que se preocupasse com dinheiro. Até mesmo o banheiro da casa provavelmente era magnificamente reformado.

Sihwa – não, naquela época ela ainda não tinha nome – brincou à beira-mar por muito tempo. Apesar da baleia branca ser muito compreensiva, depois de um tempo, ela se sentiu sozinha.

Em outra noite, enquanto nadava perto dos recifes fora da mansão, ouviu de repente o som de conversas e risadas alegres. Havia o som de pessoas brindando umas às outras, e parecia muito animado. Era muito atraente para ela.

O que as pessoas lá dentro estavam fazendo? Parecia muito interessante.

Aproveitou a maré alta e saltou da água, pulando entre as rochas dos recifes para tentar se aproximar da mansão.

As rochas frias e duras machucavam sua pele. As escamas de sua cauda de peixe se quebraram, mas isso não conseguiu deter sua paixão em descobrir o que estava acontecendo. Talvez ela estivesse apenas muito entediada.

Conseguiu chegar à porta do jardim com grande dificuldade. A porta era apenas uma cobertura falsa e não estava trancada. Empurrou levemente a porta até que houvesse uma pequena abertura e olhou para dentro.

A mansão utilizava a luz natural de forma eficaz. O lado voltado para o mar usava um grande vidro temperado transparente – tanto o designer quanto a dona da mansão provavelmente não imaginavam que alguém espiaria por ali.

O primeiro andar tinha uma sala de estar espaçosa e bem iluminada, com muitas pessoas. Parecia ser uma festa. As pessoas usavam vestidos de gala e ternos, erguiam elegantemente suas taças de champanhe para se cumprimentar e mostrar respeito. As mulheres ricas e sofisticadas estavam todas lindamente vestidas.

O que chamava especialmente a atenção era que as pessoas presentes eram em sua maioria de olhos escuros e pele amarela, bem diferente da maioria dos moradores locais, que eram brancos. Parecia uma reunião de conterrâneos.

Sihwa não se importava com a cor da pele deles – qualquer coisa estava bom, não tinha nada a ver com ela. Depois de satisfazer sua curiosidade, planejava ir embora. Ela não conseguia entender por que todos brilhavam de felicidade. Todos tinham sorrisos falsos no rosto, e tudo o que falavam era sobre negócios e investimentos – coisas que ela não conseguia entender.

Naquele momento, ela percebeu que a sala de estar no primeiro andar estava completamente escura, mas havia apenas uma televisão acesa. A luz da televisão iluminava o rosto de uma garota.

A garota parecia ter a mesma idade que ela. Parecia solitária, encolhida em um canto do sofá, abraçando os joelhos e olhando para a tela da televisão.

Sihwa achou estranho. Por que a garota não estava festejando com os outros? Por que queria se esconder sozinha na casa escura?

A menos que… O que a televisão estava mostrando que era tão interessante? Ela estava longe demais para ver claramente.

Sihwa, que estava entediada há muito tempo, não hesitou muito. Na verdade, ela não hesitou nem um pouco e abriu a porta do jardim e rolou para a piscina ao ar livre. Ela era uma pessoa de ação, e uma pessoa de ação sempre agia antes de pensar, ou simplesmente agia sem pensar. Ela não considerou o que faria se não pudesse voltar.

O som de algo entrando na água foi percebido por um garçom que carregava um prato, mas como o céu estava escuro e o jardim muito iluminado, ele não notou nada de estranho. Apenas balançou a cabeça e levou o prato para dentro de casa, colocando o incidente de lado. Afinal, ele só queria terminar seu trabalho. Ele era um garçom, não um segurança.

Sihwa se sentiu bastante satisfeita e debochou que as pessoas eram todas cegas, apesar de manterem os olhos abertos.

A piscina ao ar livre e a própria mansão ficavam muito próximas – separadas apenas por uma pequena passarela.

Naquele momento, ela ficou um pouco confusa. Embora houvesse um mar grande e espaçoso lá fora, por que a dona ainda queria desperdiçar tanto espaço com uma piscina?

No entanto, depois que ela pulou na piscina, entendeu. A piscina era de água doce; não era tão salgada quanto a água do mar. Depois de se secar, não haveria pequenos cristais de sal restantes na pele e no cabelo. Havia alegria em nadar no mar, e também havia alegria em nadar na piscina. Era uma experiência nova e interessante para ela.

Primeiro, nadou duas voltas na piscina e lavou toda a água do mar que restava em seu corpo, antes de se deitar ao lado da piscina e olhar para a sala de estar.

A garota lá dentro estava muito concentrada na televisão, como se estivesse tão imersa no programa que não conseguia se desligar.

Naquela época, Sihwa não conseguia ver, mas se voltasse agora, certamente perceberia que a garota não estava feliz. Seus olhos estavam vazios, e embora estivesse olhando para a televisão, a verdade é que não estava se concentrando nela.

Sihwa viu sua aparência e realmente acreditou que a televisão era muito interessante. As pequenas pessoas na televisão eram tão naturais para ela como se fossem seres vivos. Elas até conseguiam conversar e representavam vidas que Sihwa nunca acreditou serem possíveis.

Claro, pessoas ricas podiam pagar por uma televisão grande, e a televisão da sala era enorme. Mesmo que Sihwa estivesse olhando de lado, em um ângulo de 45 graus, ela ainda conseguia ver muito claramente. As cores eram muito reais e faziam as pessoas se sentirem como se estivessem na cena.

Ela imediatamente ficou imersa assistindo à televisão.

Daquele dia em diante, ela ficou na piscina da casa e se recusou a sair porque ainda não havia terminado de assistir ao programa. Mesmo que tivesse terminado de assistir, sempre havia o próximo programa.

Talvez fosse porque era inverno, não havia mais ninguém entrando na piscina. Era raro até mesmo as pessoas passarem pela piscina.

A jovem da casa parecia ter um relacionamento muito ruim com os membros de sua família. Seu rosto estava fechado o dia todo, e ela não queria interagir com estranhos. Toda vez que falava com os membros de sua família, gritava histéricamente, e só se acalmava quando assistia à televisão sozinha.

A dona da mansão parecia estar muito preocupada com a jovem. Eles tinham vergonha de ter uma criança assim na família e não a deixavam conhecer estranhos. Depois de um tempo, ela ficou cada vez mais sozinha.

A Sihwa daquela época não se importava com essas coisas. Ela só queria assistir televisão.

Ela assistia a um programa após o outro, e tudo o que a garota assistia, ela também assistia. Passou todos os dias com tanto prazer que esqueceu de ir para casa – até esqueceu da baleia branca.

Certo dia, ela acordou de seu sono na piscina, mas descobriu que o interior e o exterior da mansão estavam muito silenciosos. Não havia som de discussões ou gritos, e também não havia som de dramas de televisão.

A mansão estava vazia.

Comentários