Pet King

Volume 7 - Capítulo 676

Pet King

Sendo uma família de prestígio em Foshan, o casamento da filha dos Wu foi um evento extravagante. Wu Mancheng, um cavalheiro culto e sempre discreto, nesse dia abriu mão da modéstia. A festa contou com trombetas estrondosas e fogos de artifício ensurdecedores, ouvidos a quilômetros de distância.

De autoridades governamentais a mendigos, multidões se aglomeravam nas ruas, ansiosas para vislumbrar a bela filha dos Wu e, se tivessem sorte, abocanhar algumas moedas jogadas no meio da festa.

Famoso não queria se juntar à multidão; precisava ficar de olho em quem pudesse querer comê-lo. Carregando Velho Chá e Galáxia nas costas, pulou no telhado de um prédio de dois andares para observar a rua de cima.

Como o casamento de Wu Ning era em outra cidade, era um pouco diferente dos casamentos locais. Os costumes sociais haviam mudado drasticamente desde os primórdios da República. Em áreas do litoral sul, como Foshan, os casamentos não eram tão rígidos quanto antigamente.

Os trompetistas desfilavam. Duas dúzias de carregadores transportavam um dote de bens pelas ruas. Havia um vaso de porcelana de um metro de altura para guardar espanadores e um par de porta-canetas, também de porcelana. O dote incluía móveis brilhantes de alta qualidade, sedas belíssimas, antiguidades e muito mais. Nenhum dos itens era acessível para pessoas comuns.

“Que família rica! Tem tanta coisa que nem dá para ver o fim.”

“Quanta fortuna eles têm?”

“Olha aquele coral vermelho! Dizem que leva mil anos para um coral se formar e cem mil para ficar vermelho. Esse coral é tão alto e vermelho que parece estar pingando sangue. Quanto você acha que vale?”

“Isso não tem preço!”

“Olha aquilo. É um relógio de mesa importado! Ele anuncia as horas! Dizem que a Imperatriz Dowager Cixi tinha um igualzinho a esse na época.”

A população nas ruas, invejosa e cheia de curiosidade, exagerava sem parar. As histórias, contadas de pessoa para pessoa, se tornavam cada vez mais fantasiosas. O coral vermelho, que tinha apenas 30 centímetros de altura, já tinha chegado a um metro no final do percurso. O relógio de mesa era considerado até mesmo uma peça escavada do túmulo da Imperatriz Dowager Cixi.

“Que bobagem! E que povo materialista e besta, babando por essas coisas!”

Na multidão, um estudioso pedante fingia indiferença, mas morria de inveja. Odeiava Wu Ning, a dona do dote, por não tê-lo escolhido como marido. Abanava o leque de penas na mão e ria alto, como se não ligasse para os “tesouros incalculáveis”. Esperava chamar a atenção de Wu Ning para, quem sabe, acabar se casando com ela e ficando rico.

Os carregadores de trás levavam grandes caixotes cheios de livros e pinturas.

“Por que usaram livros e pinturas tão baratos? Será que acabaram os itens para o dote?”

“É para mostrar que a família Wu é culta, que não é uma família que fez fortuna de uma hora para outra”, ironizou alguém. “Ouvi dizer que a Srta. Wu é muito bem-educada. É uma verdadeira dama, que entende de música, xadrez, caligrafia e pintura. Essas pinturas ‘baratas’ que você mencionou são algumas das obras mais famosas de dinastias anteriores. Em termos de valor, elas são tão caras quanto o coral vermelho e o relógio de mesa ocidental que você viu agora mesmo.”

“Quanto dinheiro umas pinturas e caligrafias sem graça podem valer?” retrucou o primeiro.

O segundo estava preguiçoso demais para discutir. Esticou-se na ponta dos pés para ver se a cadeira de sedan da Srta. Wu havia chegado.

Famoso, em cima do telhado, observava o longo cortejo de casamento com preocupação. Mesmo que não fosse um cachorro chinês, sabia que exibir riqueza era imprudente. Ao fazer um desfile tão extravagante, a família Wu chamava a atenção de ladrões. A longa viagem até a cidade de Binhai seria perigosa.

Em um bordel próximo, algumas prostitutas se arrumavam e observavam de longe, com um lenço em uma mão e sementes de girassol na outra.

Uma prostituta mais velha cuspiu as cascas das sementes de girassol e disse, com inveja: “Irmãs, quantos casamentos vocês já viram? Eu já vi casamentos mais chiques. Vocês sabem como a noiva é?” Achava-se bonita e tentava se consolar.

A casca de semente de girassol caiu na cabeça de um rapaz. Ele ergueu a cabeça e viu o que havia sob o vestido das prostitutas. Não desviou o olhar.

“Você está certa”, concordou outra prostituta. “Acho que essa Srta. Wu é de aparência mediana, no máximo. Como ela poderia se comparar à sua beleza deslumbrante? Ela deve ser uma porca gorda. A sogra dela pode usar o dote para pagar a ração dos porcos.”

“Haha!”

Uma gargalhada ecoou no bordel, aguçando a imaginação dos presentes.

Como sinal de boa sorte, os criados na frente do cortejo distribuíam moedas. As pessoas lutavam por elas.

Talvez a família Wu soubesse que o dote gigantesco chamaria atenção indesejada. Recrutaram muitos soldados da vila para escoltar o desfile. Eles carregavam paus e bastões, com lâminas escondidas sob as roupas.

O imenso desfile do dote passou, e veio o cortejo da noiva.

A multidão observava com ainda mais atenção, pois todos queriam ver a Srta. Wu.

No cortejo da noiva, havia pessoas em carruagens, a cavalo e a pé. Wu Mancheng estava em uma liteira alta. Wu Ning, a heroína do dia, vestia um traje e uma saia vermelhos vibrantes e estava sentada em uma cadeira de sedan. Os borlas na frente da janela da cadeira balançavam ao vento, tornando o rosto de Wu Ning quase invisível.

Embora seu rosto não pudesse ser visto claramente, bastou para as meninas do bordel saberem que a Srta. Wu não era uma porca gorda. Sua figura esguia não era de forma alguma inferior à delas. Sem mencionar o fato de que ela era bem-educada e tinha um grande dote.

Afora a noite em que se encontraram pela primeira vez, Wu Ning sempre vestia roupas masculinas para facilitar suas viagens para a montanha. Quando a haviam visto vestida com roupas tão finas?

Por um instante, Famoso não percebeu que era Wu Ning, a garota que costumava ler livros e jornais para eles no vale.

Comentários