Pet King

Volume 7 - Capítulo 656

Pet King

Depois de um dia agitado, os elfinos foram dormindo um após o outro, mas Pi ainda estava sentado diante do computador.

Do lado de fora, silêncio, apenas um rojão ocasional quebrava a quietude.

Pi tirou os óculos e esfregou os olhos vermelhos. Estava com muito sono, mas não conseguia dormir; já fazia dias que não dormia direito. Assim que se deitava e fechava os olhos, o número crescente de Favoritos aparecia em sua mente. Era uma mistura de excitação e ansiedade. Os sentimentos conflitantes o impediam de pegar no sono. Era como uma fita de metal em um relógio, sendo enrola cada vez mais apertado, com o potencial de se romper a qualquer momento.

Era quase meia-noite e, segundo seu editor, o romance entraria no sistema Premium à zero hora. Pi esperava ansiosamente por esse momento.

Além de verificar o relógio, sua ação mais frequente era atualizar a Plataforma de Autores. O número de Favoritos se aproximava de 50.000, mas ele tinha medo de clicar muito o mouse, pois o barulho poderia acordar os outros elfinos.

Desde a última atualização de Pi, ele vinha digitando os números com muito menos frequência, mas naquela noite, eles voltaram.

Ele moveu o cursor sobre os números e os apagou. Em seguida, clicou no botão Salvar para não perder as alterações.

Descobriu-se que reescrever alguns milhares de palavras não era tão ruim quanto ele pensava, e não levou tanto tempo. Planejar a trama era a parte mais demorada, não a digitação.

Depois de apagar os números, Pi olhou para o documento editado e sorriu.

Estava bom.

Zhang Zian não gostava dos números, nem os leitores. Eles nunca deveriam ter existido, eram sem sentido.

Naquela noite fria e silenciosa, Pi de repente se sentiu vazio, como se tivesse acabado de perder algo importante.

Baixou a cabeça e olhou para as próprias palmas das mãos.

Por que ele não conseguia se controlar? Por que digitava esses números obsessivamente? Por que não conseguia digitar o que queria digitar, como um ser humano?

Pi tinha uma memória nebulosa de seu primeiro aparecimento neste mundo. Estava na grande casa cheia de livros, mas não estava interessado em livros naquela época, estava interessado no computador da mesa. Mais especificamente, estava intrigado com o teclado.

Esticou as mãos involuntariamente e pressionou as teclas macias. O toque parecia tão familiar, como se tivesse feito isso um milhão de vezes.

Havia apenas uma ou duas pessoas sentadas na frente do computador, digitando no teclado.

Pi acenou com as mãos na frente delas, mas elas não responderam. Elas não conseguiam vê-lo.

Ele ficou atrás delas e observou como elas entravam em salas de bate-papo e se comunicavam com outras pessoas. Então, ele encontrou um computador livre no canto e repetiu o que aprendera.

Pi aprendeu a maioria das coisas rapidamente, mas não conseguia digitar tão rápido quanto elas.

No entanto, os humanos estavam digitando de forma diferente. Eles estavam usando um teclado com teclas de letras e números, enquanto ele estava usando um teclado numérico.

O teclado alfanumérico tinha 26 teclas de letras e 21 teclas de números, mas o teclado numérico era muito mais simples, pois continha apenas 10 teclas numéricas e 1 tecla de ponto.

Agora, sua memória nebulosa começava a voltar. Havia mais como ele, muitos deles, e todos adoravam digitar. Cada um era como um humano e preferia o teclado alfanumérico. Pi era o único que gostava do teclado numérico.

Pi era um estranho, mesmo entre os seus.

Por que Pi foi o único a aparecer neste mundo? Ele não fazia ideia.

Pi olhou em volta, os livros estavam todos escritos em palavras. Nenhum deles estava escrito em números.

Embora os outros de sua espécie digitassem aleatoriamente, às vezes conseguiam formar uma palavra real e ficavam emocionados com isso, como se tivessem alcançado algo grandioso.

Pi não podia julgá-los, pois ele mesmo estava digitando aleatoriamente com o teclado numérico. No entanto, números eram números, então, não importava quantas vezes ele digitava, ele não conseguia formar uma palavra.

Se Pi imitasse os outros, poderia acabar criando uma palavra eventualmente. Então, comparado a Pi, os outros eram mais qualificados para aparecer neste mundo.

No mundo anterior, o tempo estava quase congelado, e Pi e os outros tinham um tempo de vida quase infinito. Se quisessem, poderiam continuar digitando para sempre. Eles não tinham ideia de quando apareceram naquele mundo, nem porquê. Independentemente disso, eles tinham estado digitando desde então.

Isso era significativo?

Tudo era pura coincidência. Eles não entendiam o que estavam digitando, nem sabiam o que queriam digitar.

Por que Pi, um estranho, apareceu neste mundo deslumbrante e colorido, em vez dos outros?

Pi não tinha ideia de quando apareceria em um novo mundo, mas podia sentir vagamente quando estava prestes a partir, quando finalmente conseguisse escrever um romance significativo.

Sem dúvida, era um conto de fadas. Mesmo que Pi tivesse todo o tempo do mundo, as chances de ele escrever um romance significativo por pura coincidência eram pequenas. Ele talvez nunca tivesse sucesso até o fim do mundo.

Surpreendentemente, Pi conseguiu de alguma forma, era inexplicável.

Por hábito, ele tocou aleatoriamente o teclado numérico e digitou uma longa sequência de números. O ponto decimal veio depois do primeiro dígito, seguido por outros 100 dígitos. Ele não tinha ideia do significado dos números que havia digitado.

Claramente, ninguém tinha ideia disso na biblioteca. Eles pensaram que alguém estava pregado uma peça neles.

No início, Pi estava se divertindo. Em seguida, ficou ansioso, ao descobrir que só conseguia digitar os 100 dígitos e esqueceu os números seguintes.

Algo estava errado. No outro mundo, ele podia digitar indefinidamente. Por que ele esqueceu os números depois de vir para este mundo?

Ansioso e confuso, Pi de repente se sentiu doente e fraco. Parecia sentir os outros o olhando com ciúme e perguntando: "Por que foi você?".

Um rancor avassalador havia viajado pelo tempo e pelo espaço para obscurecer Pi.

Assim como a fé humana conseguia criar e matar elfinos, um rancor de inúmeras pessoas era um buraco negro com uma força gravitacional enorme. Era capaz de puxar Pi de volta para o mundo antigo a qualquer momento.

Em uma realidade imperceptível, Pi ouviu alguém falando. Não era um humano, mas alguma existência soberana.

“Encontre o livro sobre a vida, o universo e tudo mais, ou você voltará para o espaço antigo.” A voz era como um sino ao amanhecer, forte o suficiente para sacudir todo o universo.

Ele não queria voltar. Assim que o fizesse, os outros o fariam em pedaços. Pi aprendeu uma expressão para explicar seu estado de espírito: "Ser pobre era muito mais aceitável do que ser injusto."

Pi tentou pedir ajuda aos que estavam ao seu redor, pedindo-lhes que tentassem encontrar o livro, mas ninguém conseguiu vê-lo ou ouvi-lo. Eles o ignoraram e ele não conseguia ler o que eles digitavam.

Quando estava prestes a desistir, Zhang Zian apareceu.

Pi nunca poderia esquecer o momento em que Zhang Zian apareceu diante dele com o livro sem nome em seus braços. Não importava como os outros o vissem, Pi achava que ele era tão bonito.

Pi levantou os olhos das palmas das mãos, seus olhos pousaram no livro sem nome ao lado de seu laptop.

Ele estendeu um dedo e tocou suavemente a capa.

A parte da capa vermelha, exceto pelo metal na borda, estava em branco. Não era bonito.

Pela primeira vez em muito tempo, ele teve uma ideia. Seria ótimo se a capa tivesse alguma escrita ou uma imagem nela.

Naquele momento, uma mão cobriu a sua.

Pi levantou a cabeça para olhar. Viu que Zhang Zian estava atrás dele, observando-o em silêncio.


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