Pet King

Volume 6 - Capítulo 503

Pet King

O homem de meia-idade em frente à porta era caucasiano, baixo e tinha um bigode bronzeado. Era claramente uma figura de autoridade, pelo menos para aqueles cães.

Antes que Famoso entendesse o que estava acontecendo, alguns rapazes invadiram a sala, empurrando várias gaiolas para fora. Os barulhos das rodinhas e os latidos começaram a se afastar.

Um dos homens se aproximou de Famoso. Ao se mover para trás, o corpo de Famoso bateu em barras de ferro geladas. Só então ele percebeu que estava preso em uma gaiola de ferro, sem diferença das outras.

“O que vocês estão fazendo?”, latiu Famoso. “Me soltem! Me soltem!”

Famoso era um cachorro, mas se considerava mais do que isso, e não devia ser tratado com violência daquela maneira.

No entanto, aquelas pessoas não conseguiam entendê-lo. Do ponto de vista delas, Famoso não era diferente dos outros cães latindo de medo. O rapaz que empurrava a gaiola de Famoso o repreendeu: “Cala a boca! O que você está latindo? Acha que vamos te abater? Que idiota!”

Várias fileiras de gaiolas foram empurradas para um campo aberto, um Pastor Alemão em cada uma. Com sua gaiola no meio, Famoso olhou em volta e logo descobriu algo estranho. Havia cerca de vinte Pastores Alemães machos ali, de tamanho e idade semelhantes, mas nenhuma fêmea.

Era coincidência?

O que tinha a ver aquele homem de meia-idade que gritou sobre a seleção de dublês?

“É só isso? Todos os cães estão aqui?”, perguntou o homem de meia-idade.

“Sim, chefe”, respondeu um dos subordinados, “todos estão aqui. Como o senhor pediu, esses cães foram comprados por nós localmente e nos estados vizinhos.”

“Okay.” O homem de meia-idade acenou com a cabeça satisfeito.

Os latidos dos cães o incomodavam, então ele segurou seu chicote e o estalou. Uma marca rasa apareceu no chão. O som agudo e a força do chicote silenciaram todos os cães no campo.

Ele levantou o chicote e apontou para uma árvore grande não muito distante. Ameaçou: “Vocês, desgraçados, é melhor se comportarem direitinho mais tarde. Quem ousar causar problemas, eu vou pendurar de cabeça para baixo naquela árvore, chicotear vinte vezes e depois esfolear vivo.”

Ao falar, suas expressões faciais eram ferozes e sérias; mesmo que os outros cães não o entendessem, conseguiam sentir seu tom assassino. Quando viram a cor marrom-avermelhada da terra sob aquela árvore, souberam que suas palavras eram mais que uma ameaça vazia.

Naquele instante, um cupê preto de aparência estranha chegou de longe, em baixa velocidade. As rodas do carro levantaram muita poeira, como o começo de uma pequena tempestade de areia.

Famoso pensou que o carro antigo viajando em uma estrada esburacada poderia se desmontar a qualquer momento.

O carro parou. Quando a poeira baixou, um homem vestido de terno e óculos redondos desceu. Ele tinha duas pequenas manchas de bigode no lábio superior, usava um chapéu-coco, a camisa estava limpa e branca, e tinha dedos finos. Pela aparência, Famoso percebeu que era um homem que se orgulhava de riqueza e honra.

O homem de meia-idade arrogante e dominador cuspiu rapidamente o tabaco da boca. Colocou uma cara amigável e correu em direção ao homem, estendendo a mão: “Sr. Charles! Eu sou Roger Leslie, pode me chamar de Roger. Bem-vindo à minha fazenda.”

Charles ignorou a mão de Roger. Tirou um lenço do bolso e limpou os óculos.

Roger timidamente recolheu a mão. Para disfarçar o constrangimento, esforçou-se para manter um sorriso. Notou o carro e seus olhos se iluminaram ao exclamar: “Meu Deus! Sr. Charles, me perdoe, mas seu carro é tão bonito! É o último Modelo T Cupê da Ford, certo? Vi o anúncio desse carro afixado na parede de um teatro quando fui à cidade. Qual era o slogan do anúncio? ‘O Doutor e Seu Carro!’ Então, este é o Cupê do Doutor, certo? O carro apareceu nos filmes de Chaplin. Só médicos, advogados, atores e executivos de alto escalão, como o senhor, podem possuir um carro tão excelente!”

Roger bajulava o Sr. Charles incessantemente. Cautelosamente tocou o capô do motor ainda quente. A pintura brilhante tornava o capô mais liso que a pele da mulher mais bonita do campo, embora agora estivesse coberto por uma fina camada de poeira. Ele sonhava em ter um carro como aquele, que certamente atrairia inúmeras mulheres. Quando seu sonho se realizasse, ele poderia namorar uma mulher diferente a cada dia.

Roger circulou o carro, como se estivesse olhando para uma obra de arte preciosa. “Uau! Ouvi dizer que tem uma bateria revolucionária e sistema de ignição elétrica, que o motor funciona até no pior tempo? Dirigir ele deve ser como montar a mulher mais selvagem.”

Ele babava ao falar do carro. Se pudesse ter um carro assim, sua vida inteira teria valido a pena.

Ouvindo sua admiração pelo carro, os trabalhadores de Roger se aproximaram por curiosidade. Um deles quis tocar no carro, mas Roger o socou e repreendeu: “Puta que pariu! Como ousa tocar neste carro?”

Depois de limpar os óculos, Charles olhou para as várias fileiras de gaiolas e disse impacientemente: “Para com essa conversa fiada. Não estou aqui para ouvir você falar do meu carro nesse lugar horrível! São esses os cães que pedi? Vamos terminar logo com isso. Já estou enjoado desse interior sujo.”

“Sim!”, Roger concordou rapidamente. “Sr. Charles, todos esses cães foram selecionados com base nas fotos que o senhor me enviou. Eles não são todos parecidos?”

Charles disse com a cara séria: “Parecidos? Amigo, eu preciso de mais que isso! Existem cerca de oitenta mil cães parecidos por todo o nosso país. Nossa estrela consegue saltar uma barra com 3,6 metros de altura, foi assim que se tornou uma estrela. Você entendeu?”

Roger ficou atônito: “Três metros e sessenta? Meu Deus, que altura...”

Charles resmungou. “Claro, não espero que esses cães selvagens do interior sejam tão excelentes quanto nossa grande estrela, mas a capacidade de salto deles precisa ser pelo menos próxima a isso, senão como podem ser dublês?”

“Próxima… ah, claro. Sr. Charles, tenho certeza de que um desses cães consegue saltar perto dessa altura.” A testa de Roger estava suando. Ele não fazia ideia de qual cão conseguiria pular tão alto.

Roger era um cara preguiçoso que não se importava com nada além de comer e jogar. Estava endividado até o pescoço. Quando soube que uma companhia cinematográfica de Hollywood estava procurando dublês para um cachorro famoso, achou que poderia ser uma boa oportunidade de ganhar dinheiro. Assim, convidou o Sr. Charles, o executivo sênior da companhia, para ir à sua fazenda.

Antes do encontro com Charles, Roger mandou seus funcionários e as crianças dos vizinhos procurarem Pastores Alemães parecidos com a estrela, prometendo recompensas generosas. Cerca de 20 Pastores Alemães foram encontrados, mas ele não tinha certeza se havia algum que conseguisse pular quase 3,6 metros.

“O que você está esperando? Comece!”, Charles franziu a testa, olhou para as solas de seus sapatos com nojo e rezou para não pisar em esterco de galinha ou cocô de cachorro.

Roger gritou para seus trabalhadores: “Vocês ouviram? Vamos, vamos, vamos! Trazam os cães para o Sr. Charles ver!”

Os trabalhadores rapidamente montaram uma barra simples com cerca de 3,6 metros de altura e abriram cada gaiola uma a uma. Tiraram os cães e os fizeram se alinhar para pular a barra. Se um cão não conseguisse ou não quisesse pular, era chutado com força por botas de cano alto com cravos. Os Pastores Alemães gemiam, mas não conseguiam escapar com as correntes presas aos seus pescoços. Se algum cão ousasse mostrar os dentes, Roger o chicoteava.

Até agora, nenhum cachorro havia conseguido pular a barra, e poucos restavam. Roger continuava esfregando a testa. Ele havia gastado suas últimas economias para comprar aqueles cães. Se todos fossem rejeitados, sua única opção seria vender a fazenda e virar um mendigo na cidade.

Logo, chegou a vez de Famoso.

Um rapaz abriu a gaiola de Famoso e agarrou sua coleira para puxá-lo para fora.

A gaiola era excepcionalmente pequena. Famoso pensou em se rebelar, mas quando viu os revólveres sob os braços de Roger e os calos em suas mãos de tanto segurar a arma, desistiu imediatamente da ideia. Até mesmo o Velho Chá do Tempo, que era um magnífico mestre de artes marciais, não ousaria dizer que não tinha medo de balas.

Roger parecia um atirador rápido, ou já teria sido espancado até a morte por suas más maneiras há muito tempo.

Famoso foi mantido na frente da barra. O rapaz soltou sua mão. Roger apontou para a barra e disse: “Pule! Entendeu, seu idiota? Se você não quiser ser chutado ou chicoteado, é melhor pular!”

Durante o tempo que viveu com o Velho Chá do Tempo, Famoso aprendeu um conselho: um homem sábio sabe como se retirar de uma situação ruim. Famoso não tinha alternativa a não ser pular a barra, senão sofreria.

Charles ficou atônito ao olhar para Famoso. Pensativo, acariciou o bigode e o analisou. Aquele cachorro parecia quase idêntico à estrela do filme. Tinham a mesma forma, cor do corpo e a mesma idade. No entanto, seus olhos não eram os mesmos. Os olhos daquele cachorro eram muito estranhos. Ele nunca tinha visto um cachorro com olhos assim. Como dizer? Seus olhos eram quase como os de um humano.

Hã!

Como Famoso se recusava a pular, Roger estalou o chicote e gritou: “Seu idiota! O que você está esperando? Pule! Se você não pular, eu vou te chicotear até a morte!”

Famoso olhou para a barra. Sem correr, apenas dobrou levemente os joelhos para abaixar o corpo e pulou como uma mola!

Famoso pulou a barra como se estivesse voando acima das névoas e nuvens. Na verdade, durante o salto, havia espaço entre Famoso e a barra. Portanto, Famoso poderia pular ainda mais alto do que fez.

Famoso pousou no chão com firmeza. Todos ficaram em silêncio.

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