
Volume 4 - Capítulo 322
Pet King
Como estava escuro na loja, Neve não prestou muita atenção ao redor quando entrou. Só depois que seus olhos se acostumaram à luz é que ela viu um gato de aparência estranha encolhido num canto, perto do portão.
O gato tinha um físico robusto e estava agachado ali sem se mexer. Provavelmente por causa da iluminação precária, a pele do seu corpo parecia ser totalmente preta, mas algumas partes brilhavam com uma leve cor dourada. Parecia que o gato a observava na penumbra.
“Minha jovem, está tudo bem?” O velho se aproximou por trás dela e disse com uma voz clara e alta: “Me desculpe. Vou resolver isso em alguns dias. Nunca imaginei que pudesse assustá-la.”
Neve realmente se assustou com aquele gato de aparência estranha que surgiu do nada, tanto que ficou pálida. Mas, ao olhar com mais atenção, percebeu que não era um gato de verdade, mas uma estátua, esculpida com tanto realismo que, na penumbra, a enganou.
“Bem… Posso dar uma olhada?” ela apontou para a estátua e perguntou curiosa, depois de se acalmar.
“À vontade.” O velho se aproximou e fez um gesto de convite. “Mas eu não a limpo há muito tempo, então tome cuidado para não sujar suas roupas.”
Com a permissão do dono da loja, Neve se animou e caminhou até a estátua do gato para observá-la de perto.
Ela estava sozinha, atrás do canto escuro do portão vermelho laqueado. Comparada aos outros objetos da loja, sua posição parecia insignificante, como se fosse rejeitada pelo dono. No entanto, do ponto de vista de Neve, sua expressão teimosa e orgulhosa indicava que ela não se importava com o tratamento de lado.
Ao se aproximar, mesmo com seu conhecimento limitado de arte, ela percebeu que a estátua do gato possuía características exóticas que a diferenciavam do estilo das estátuas chinesas. Embora fosse apenas uma estátua, seu tamanho era semelhante ao de um gato de verdade, e era esculpida com tanto realismo que facilmente seria confundida com um gato real em condições de pouca luz.
Além de um anel dourado no nariz e brincos dourados nas orelhas, todo o corpo da estátua do gato brilhava com a cor exclusiva do bronze — segundo seu conhecimento, qualquer estátua de bronze dataria de muito tempo atrás.
Ela olhou mais de perto. A tonalidade do bronze não era distribuída uniformemente. Algumas partes pareciam mais escuras, enquanto outras eram mais brilhantes. Sua aparência manchada era resultado da exposição aos ventos e chuvas por anos, ou do efeito da erosão após ficar enterrada por muito tempo.
O gato tinha traços faciais suaves e femininos. Tinha olhos tão encantadores e adoráveis que ninguém o confundiria com um gato macho. A parte mais chamativa do rosto era o escaravelho em relevo esculpido na testa. Em seu peito, havia outro escaravelho maior, com as asas abertas, também conhecido como besouro-rola-bosta, mas Neve não sentiu nojo ao vê-lo na estátua.
Havia um colar em relevo com padrões intrincados no pescoço da estátua do gato… Ou seria uma guirlanda? No meio do colar, havia uma placa com um nome cujo significado ela não compreendia.
Neve franziu a testa e se concentrou no rosto da estátua do gato. Ela teve a sensação de que já vira aquele rosto em algum lugar antes, mas não conseguia se lembrar onde, provavelmente porque a estátua não tinha a pelagem e a cor de um gato real. Afinal, a estátua havia sido esculpida e fundida há muito tempo. Com as técnicas primitivas da época, era difícil demonstrar esses detalhes.
Quando seus olhos encontraram novamente o escaravelho em relevo na testa, Neve não pôde deixar de exclamar surpresa.
Aquele gato não era parecido com o gato de pelo dourado da Loja de Animais de Destino Incrível? Aquele gato também tinha desenhos de escaravelhos na testa! Percebendo isso, Neve observou novamente o rosto e a postura. Quanto mais ela olhava, mais achava que a estátua do gato se parecia com o gato de pelo dourado, embora não fosse tão bonito. Mas se a pelagem do gato de pelo dourado fosse aparada bem curta, provavelmente ficaria exatamente igual à estátua. Até mesmo suas posturas orgulhosas e agachadas eram idênticas!
O velho se aproximou dela por trás. Ouvindo seu grito de surpresa, ele se espantou e perguntou: “Minha jovem, você gosta dessa estátua de gato?”
Neve assentiu. O medo que sentira momentos antes havia desaparecido. Ela apontou para o rosto da estátua e disse: “É muito bonita, com uma expressão encantadora.”
O velho acariciou sua barba e sorriu: “Você tem bom gosto, minha jovem.”
Neve ficou feliz com o elogio, mas não tinha certeza do porquê estava sendo elogiada.
O velho encostou o espanador na parede, foi atrás do portão e empurrou a estátua do gato para dentro da loja. Só então Neve percebeu que a estátua do gato estava sobre uma tábua feita sob medida com quatro rodinhas embaixo. Não admirava que o velho conseguisse empurrá-la com tanta facilidade! Deve-se ressaltar que a estátua parecia ser totalmente feita de bronze — se não fosse oca, devia ser muito pesada.
Movida do canto escuro para uma iluminação normal, a cor de bronze da estátua do gato ficou mais evidente, e todos os tipos de detalhes podiam ser observados facilmente. Acontece que a estátua só parecia ser totalmente preta em condições de pouca luz.
“Minha jovem, você conhece a história dessa estátua de gato?” O velho sacudiu a poeira das palmas das mãos e pegou o espanador para limpar a estátua.
Neve pensou um pouco e respondeu habilmente: “É de fora?”
“Sim, realmente é de fora.” O velho bateu palmas e riu alegremente, enquanto Neve se sentiu desajeitada e forçou um sorriso.
Quando parou de rir, o velho expirou e disse: “Faz muito tempo que não rio tanto. É muito bom passar um tempo com jovens.”
“Só gente burra responde assim.” Neve bateu na cabeça e disse de forma autodepreciativa: “Sou uma aluna péssima, e há muitas coisas que não consigo fazer bem.”
“Você não é burra, apenas não é experiente, o que significa que você ainda mantém sua inocência.” O velho fez uma pausa e usou as mãos para acariciar a testa da estátua. “Falando em sua história, você já ouviu falar do Gato Gayer-Anderson?”
“Não.” Neve parou suas brincadeiras e se concentrou nas palavras do velho. Seria inadequado não prestar atenção enquanto um mais velho falava sobre algo sério.
Com sua expressão calma e serena, o velho disse lentamente: “A estátua original foi escavada no Egito. Foi fundida entre 600 a.C. e 300 a.C., doada pelo Tenente Gayer-Anderson ao Museu Britânico, e recebeu o nome de seu doador, Gayer-Anderson. Além da original, havia uma réplica na coleção do Museu Gayer-Anderson no Cairo. Quanto a esta…”
Ele ponderou sua escolha de palavras: “Esta também é uma réplica, embora a condição não seja tão boa quanto a do Museu Gayer-Anderson, mas posso dizer que é muito próxima da original.”
“Uau! Impressionante!” Neve exclamou chocada. Ela sentiu que aquela estátua de gato tinha uma história única, mas não esperava que sua história fosse tão espetacular. Embora fosse apenas uma réplica, a seus olhos, poderia ser considerada uma verdadeira antiguidade quase inacessível para pessoas comuns.
O velho apontou para algo que Neve pensou ser uma placa de identificação, no peito da estátua do gato. “Você sabe o que é isso?”
“Deixe-me ver.” Neve se aproximou para observar cuidadosamente.
O velho esperou pacientemente por sua resposta.
Segundos se passaram, e Neve ainda estava sem saber. “Não sei. Não consigo dizer o que é. Parece uma cobra? Ou talvez um olho?”
O velho esperava que ela não conseguisse reconhecê-lo e explicou lentamente: “É normal que você não consiga reconhecê-lo porque é muito raro. Dizem que é um amuleto de olho de Udjat, que representa o Deus da Luz na mitologia egípcia antiga. Esse amuleto, junto com o anel no nariz e os brincos, são feitos de prata e ouro, replicando os da estátua original.”
Neve ficou realmente pasma ao ouvir isso. Aquele velho era realmente um “tubarão” discreto — até mesmo um item aleatório em sua loja era uma réplica de uma estátua do Deus dos Gatos.
O velho observou sua expressão: “Minha jovem, se você gosta dessa estátua, que tal levá-la?”
“O quê?”
Neve ficou atônita, e então olhou novamente para a estátua.
Ela realmente gostou bastante, mas não ao ponto de comprá-la. Além disso, havia dois motivos que a impediam de comprá-la. Primeiro, a estátua devia ser muito cara e ela talvez não pudesse pagar. Se gastasse muito dinheiro, seus pais ficariam sabendo. Segundo, não havia lugar para colocá-la, e se a levasse para casa, ela se perguntava se sua mãe concordaria… embora fosse bonita, nem todo mundo conseguiria apreciar sua beleza feminina, como seu pai convencional e teimoso… Que dor de cabeça!
O Tio Jin provavelmente teria interesse nessa estátua, mas considerando o medo de gatos do “Inútil”, ela não achava uma boa ideia dar de presente para ele.
Falando em presentes…
Neve se lembrou que a Loja de Animais de Destino Incrível estava prestes a reabrir. Ela já tinha ido à loja várias vezes, e Zhang Zian, que poderia ser considerado um amigo, a tinha ajudado. Seria inadequado não levar nenhum presente para a cerimônia de reinauguração da pet shop. Aquela estátua poderia ser o presente perfeito!