Pet King

Volume 1 - Capítulo 61

Pet King

Pouca gente no ônibus rumo ao centro da cidade, horário comercial. Vagas sobrando aos montes. Ele se sentou num canto, pegou o celular e tirou um cartão de visita da carteira.

Joalheria Longfeng - Atendimento

Su Min

Telefone: xxxxxxxxxxx

Desde que conseguiu o cartão, o guardara na carteira, achando inútil. Mas, que sorte, precisou dele rapidinho. Sem ele, nem lembraria o nome da vendedora, o rosto estava meio borrado na memória. Lembrava que ela dissera que, numa próxima visita, teria desconto. Qualquer desconto era lucro, cada centavo contava, até pinga-pinga é água, né? Discou o número.

“Alô?” Atenderam do outro lado.

“Oi, é a Su Min da Joalheria Longfeng?”, perguntou ele.

“Sou eu, quem fala?”, voz respeitosa.

“Meu nome é Zhang. Acontece que comprei algo com você da última vez”, disse ele.

“Ah, Sr. Zhang. Algum problema?”, o tom da outra parte ficou aflito. Devia ter pensado em algum defeito na joia.

“Nenhum problema, mas você me deu um cartão quando eu sai, dizendo que teria desconto na próxima vez…”

A outra parte se atrapalhou, gaguejou.

“Ah, sim… isso… sim, se comprar de novo, dou dois por cento de desconto”, o tom ficou rígido, como lendo um script.

“Ok, vou aí agora. Chego em breve”, respondeu ele.

“Certo. Aguardo.” Ela esperou ele desligar primeiro.

Céu nublado, vento forte. As bandeiras na entrada das repartições públicas balançavam furiosamente. Pelo calendário solar, já devia estar começando o outono.

Não estava frio de dia; uma camisa de manga comprida bastava, a não ser que fosse andar de bicicleta. As mulheres na moda usavam xales ou coletes de veludo; ainda era cedo para guardar saias e vestidos. Antes, os olhos de Zhang Zian não desgrudavam das mulheres bonitas pelas ruas. Mas agora, ele involuntariamente procurava animais de estimação em cada beco, fosse com dono ou vira-lata. Quase se deu um tapa: “Mas que droga de risco ocupacional é esse?”, pensou.

Gatos e cachorros de famílias chinesas somam milhares, milhões, talvez até mais de cem milhões. A maioria, vira-latas. A taxa de cães puros era maior, a de gatos, menor.

Claro, não havia nada de errado com animais de estimação mestiços, mas, com o aumento da renda disponível, a procura por animais puros também crescia rapidamente. Afinal, quem tem dinheiro quer status. Mesma lógica de quem compra grife e mora em mansão. Se ninguém tivesse aspirações, bastava um bicho qualquer, e Zhang Zian teria que chupar cana. [1]

O trânsito estava tranquilo, poucos carros e pessoas; o ônibus chegou ao ponto pouco tempo depois. A Pet Shop Destino Incrível ficava no distrito de Dongcheng, perto da Universidade Binghai. Dongcheng era o distrito cultural e educacional, com muitos recursos educacionais e sítios históricos, mas relativamente deserto. O centro da cidade era bem mais agitado. A população era várias vezes maior que a de Dongcheng, mas o mais importante: lotado de mulheres bonitas…

Como aquela jovem de roupa social, não muito longe. Boa figura e postura, mas maquiagem carregada, um pouco vulgar. A Zhao Qi devia ensiná-la a se maquiar. No WeChat dela, só gato, ela mesma o dia inteiro, ou roupas e maquiagens novas. Teria outras ambições? Só quando mostrava as faturas do cartão de crédito no fim do mês que a gente prestava atenção.

Hm? Essa garota me parece familiar?

Su Min esperava na entrada da joalheria, mãos inquietas, pelo telefonema.

Jóias não eram couves, joalherias não eram restaurantes, clientes fiéis eram raros. Até os ricos usavam só uma aliança. Por mais apaixonados, ninguém usava duas alianças para dobrar o amor… bigamia é crime na China.

Na loja de Su Min, só o senhor Yuan era cliente fiel. Conhecia uma ricaça que às vezes levava amigas para comprar joias.

Su Min ouvira fofocas das colegas, dizendo que o marido da ricaça tinha um caso com uma estudante universitária. A ricaça sabia, tratava o marido como estranho, mas calava-se por causa do dinheiro. O marido se sentia culpado, e não a apertava financeiramente, desde que ela não procurasse outros homens, senão, fim do casamento.

As amigas da ricaça eram parecidas. Vazias por dentro, preenchiam o vazio com compras.

Verdadeiras ou não as fofocas, quem se importava? A ricaça satisfazia o desejo de consumo, o senhor Yuan ganhava comissão, a joalheria lucrava, o país arrecadava impostos, aparentemente bom para todos, inclusive você e eu. Tudo bem, não?

Ela se surpreendeu com a ligação de Zhang Zian. Na memória, seus clientes não eram ricas ou empresários. Eram abocanhado pelas colegas antes mesmo que ela percebesse. Ao ver Zhang Zian, ele também a reconheceu. Na verdade, a impressão dele sobre ela era muito mais forte que a dela sobre ele. Afinal, fora um dia de sorte para ela.

Zhang Zian também a reconheceu, a vendedora daquela vez. Surpreso: não esperava que Su Min o esperasse na porta. Cortesia exagerada – ele só ia comprar joias, não uma casa. Comparando com ele deitado na cadeira, não havia como competir.

“Olá, você é o Sr. Zhang, certo? Entre, por favor!”, Su Min fez uma pequena reverência, gesto de “por favor, entre”. Mesmo Zhang Zian estando casual e simples, ela não o desprezou. Com tanto respeito, Zhang Zian, que se achava de cara grossa, ficou sem graça. “Estilo deslumbrante cega olhos idiotas!”, pensou.

Era cedo, pouca gente na joalheria. Zhang Zian se sentiu melhor: “Não foi culpa minha a falta de clientes na minha loja, é culpa do mundo!”

Por via das dúvidas, abriu o jogo e escanear a loja – a elfa não dissera que havia mais de um gato sortudo? Talvez encontrasse outro com sorte?

Nada. Nenhuma dica de animais raros no radar do jogo. Melhor assim; um gato ávido por ouro já quase o esgotara – imagina se viesse outro?

Su Min considerou aqueles atos como excentricidades. Ia impedi-lo de filmar, mas ele já guardara o celular. As outras vendedoras ficaram descontentes. Ouviram Su Min atender o telefone, viram recebê-lo na porta. Como uma novata de poucos meses conseguia um cliente fiel?

[1] Chupar cana: expressão popular equivalente a passar fome, ficar sem dinheiro, viver na miséria.

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