
Capítulo 223
Casamento Predatório
Assim que encontrou Morga, Haban jogou o mago por cima do ombro e saiu correndo em velocidade inacreditável, sem sequer parar para explicações. Mesmo sendo sequestrado no meio da noite, Morga não ofereceu resistência. A expressão no rosto de Haban dispensava explicações.
Na villa iluminada pela lua, no meio do pomar de pêssegos, todos ainda dormiam. Haban subiu as escadas correndo e atravessou os corredores até deixar Morga na frente da porta. E então parou, agarrando a maçaneta.
Haban estava com medo.
Lentamente, ele abriu a porta, revelando um quarto levemente iluminado pelo luar e lamparinas a óleo. Tudo estava em silêncio, e Leah jazia no centro do espaço abafado. Seu rosto estava pálido e parecia que ela nem respirava, seu corpo imóvel como o de uma boneca. Ishakan estava sentado ao lado dela, agarrando suas mãos como se temesse que ela o deixaria se ele a soltasse.
Lentamente, ele voltou os olhos para Morga. O brilho dourado havia diminuído.
“Ela… sangrou…” disse o rei, a voz quebrada.
O coração de Morga disparou. Aproximando-se da cama, ele se abaixou para examinar Leah. Ela tinha pulso, embora fraco.
Mas havia algo estranho. Morga tirou uma poção e tomou um gole, depois fez um feitiço simples para aguçar seus sentidos. Seus olhos piscaram enquanto ele continuava seu exame.
Ele não tinha certeza de como explicar. Ia ser uma conversa difícil.
“Parece que ela sangrou por causa de um abortivo”, começou ele. Os olhos de Haban, Genin e Mura se arregalaram.
“Nes- nesse caso… ela estava grávida…” começou Mura, desesperada.
Silentemente, Morga assentiu, e todos os Kurkans congelaram.
“Felizmente, Leah e o bebê estão a salvo”, acrescentou imediatamente.
Ninguém se alegrou. Apenas um silêncio pesado se seguiu até que Mura se virou, cobrindo a boca com a mão, e Haban a abraçou enquanto ela chorava, fechando os olhos. Genin apenas assentiu.
“É um milagre”, concluiu Morga. O abortivo teria sido fatal para qualquer bebê normal, mesmo um bebê Kurkan. Apenas o bebê de Ishakan poderia ter sobrevivido. “Mas não podemos esperar mais milagres. Temos que fazer algo diferente agora.”
Leah estava em estado grave. Ela não tinha dormido nem se alimentado direito, e vinha ingerindo aquele abortivo há quem sabe quanto tempo. Era inacreditável que seu corpo tivesse aguentado tanto. Ela só deve ter sobrevivido por pura força de vontade.
“Parece que ela tem lutado muito”, continuou Morga. “Ela provavelmente não percebe, mas talvez tenha tentado instintivamente proteger seu bebê. Acho…” Morga tentou falar calmamente. “Acho que seria melhor manter isso em segredo dela.”
Ela não se lembrava de nada do passado. A notícia repentina de que estava grávida seria um choque terrível, e ela já estava tão fraca. Isso arriscaria sua vida e a do bebê em seu ventre. Era até possível que Leah, que ainda estava envolvida em tantos feitiços, contasse a Cerdina sobre sua gravidez.
De qualquer forma, o casamento estava próximo. Eles poderiam guardar o segredo até lá e contar a verdade para ela quando ela voltasse para o deserto. Morga calculou as datas. Diferente da gestação de nove meses dos bebês humanos, os bebês Kurkans nasciam após oito meses.
Felizmente, parecia possível que esse bebê atingisse a fase de estabilização.
“Vou preparar um antídoto primeiro”, disse Morga. Ishakan não respondeu. Morga hesitou, com os lábios comprimidos, e então fez um gesto para Mura.
“Vou preparar outras refeições para a rainha comer quando acordar”, disse ela rapidamente. “Pratos leves.”
Delicadamente, ela puxou o braço de Haban, e ele cutucou Genin.
“Vamos embora… por enquanto”, acrescentou ela, hesitando. Ishakan ainda não havia respondido. Ele apenas ficou sentado, olhando para Leah. Mesmo depois que todos os outros Kurkans fecharam a porta e desapareceram, ele permaneceu ali, os olhos fixos em sua rainha, imóvel.