
Capítulo 185
Casamento Predatório
No instante em que viu a fumaça negra redemoinhando em torno de seus tornozelos, os pensamentos de Leah congelaram. O som fraco, alucinatório, de correntes que a assombrava havia tanto tempo, tornou-se repentinamente alto e claro, tilintando em seus ouvidos.
Cerdina estava tentando levá-la de volta para Estia.
Ela percebeu isso instintivamente, e de repente sentiu como se tudo estivesse desabando ao seu redor e ela estivesse caindo na escuridão, fria e profunda. Não conseguia respirar. Sua visão ficou negra e ela foi agarrada por um terror tão grande, que estava caindo…
“…Leah!”
O corpo de Leah tremeu inteiro. Seus lábios se moveram, mas ela não conseguia gritar. Sua voz havia sumido.
“Leah!!!”
O som da voz a chamando a trouxe de volta. Ela estava flutuando, envolvida em fumaça negra, enquanto Morga e os outros magos a cercavam, gritando em Kurkan. O tapete de veludo vermelho havia sido movido e em seu lugar havia um padrão mágico que devia ter sido desenhado antes.
O mar de flores brancas havia caído e sido pisoteado no caos, e Ishakan atravessou as flores quebradas, estendendo a mão para ela.
Sua mão atravessou ela como se ela fosse uma ilusão.
Outros tentaram. Ninguém conseguia tocá-la.
Terrorizada, Leah esticou a mão para agarrar a mão de Ishakan, agarrando-se a ele, mas de alguma forma ele não conseguia segurá-la. De alguma forma, apenas Leah conseguia segurá-lo enquanto a fumaça se enrolava mais firmemente em torno dela. De alguma forma, ela sabia que, se o soltasse, seria arrastada para Estia. Seus braços se esticaram como se pudessem ser arrancados, mas ela se agarrou a ele com todas as suas forças.
“Ishakan! O sangue…!” Morga gritou.
Desenbainhando sua adaga, Ishakan cortou o próprio braço. Seu sangue jorrava vermelho e caía, sendo absorvido pelo padrão mágico brilhante no chão.
A fumaça ao redor de Leah recuou.
Um dos magos em pé no canto do padrão desmaiou, vomitando sangue.
“Não é suficiente!” Morga gritou. Seu rosto estava branco. “Precisa de mais, muito mais do que eu disse!”
Ele parou, engasgando como se estivesse enjoado, e cobriu a boca com a mão. Sangue jorrava entre seus dedos e o mago Kurkan o limpou com o dorso da mão.
“Estamos bem. Não se preocupe. Dê-nos mais.”
Ishakan imediatamente se cortou novamente. Cada vez que sua adaga brilhava, o sangue jorrava, sendo instantaneamente absorvido pelo padrão mágico. Os magos obviamente estavam sofrendo, mas estavam firmes.
Os olhos de Leah se encheram de lágrimas enquanto ela observava. Ela assistiu enquanto seu marido sangrava. Ela assistiu enquanto ele cortava seu corpo repetidas vezes e o padrão absorvia tudo.
Mas a fumaça negra não estava enfraquecendo. Ao contrário, estava gradualmente engrossando.
Mais três cortes na pele dourada de Ishakan. Seu coração se apertava a cada nova ferida em seu corpo. Ele havia sangrado tanto, demais, o suficiente para ser perigoso. Mas mesmo que ele derramasse mais, nada mudaria. Mesmo que ele derramasse tudo. A fumaça negra rastejou sobre ela.
Ambos sabiam que isso não poderia ser parado dessa maneira. Mas Ishakan não desistiria mesmo que isso lhe custasse a vida.
Ela havia sido feliz. Sua felicidade em Kurkan tinha sido como um sonho. E agora havia chegado a hora de acordar.
Estranhamente, ela se sentia calma, como se soubesse inconscientemente que isso aconteceria. As algemas em seus tornozelos haviam ficado finas e desbotadas, quase invisíveis, mas nunca haviam realmente se quebrado. Ela sabia que um dia teria que voltar para aquele lugar escuro, onde nenhuma luz jamais a alcançaria. Não havia necessidade de fazer os outros sofrerem.
Olhando para Ishakan, ela não conseguia dizer as palavras que queria lhe dizer. Ela tinha que dizer outra coisa.
“Desculpa, Ishakan.”
Seus olhos dourados tremeram. Ele sabia o que ela estava pensando.
“Não me procure,” ela sussurrou.
Seus olhos se arregalaram.
“Leah, não,” ele disse roucamente, como se através de um bloqueio em sua garganta. Seu rosto estava desesperado enquanto ela soltava sua mão.
O último calor em sua mão desapareceu. Fumaça negra redemoinhou ao redor dela, engolfando-a enquanto Ishakan a alcançava e tentava abraçá-la, chamando-a desesperadamente.
“Leah!!!”
Nem uma facada em seu coração doeria tanto quanto ver seu marido daquele jeito. Mas ela não desviou o olhar. Ela o observou até que a fumaça negra a consumisse.
Quando a fumaça se dissipou, ela não estava no deserto. O chão de mármore estava frio sob ela e ela tremeu. Frio, tão frio.
“Quanto tempo, Leah,” disse uma voz.
Sentando-se, ela lentamente levantou a cabeça. Era um lugar familiar. Era o salão do palácio real de Estia, o mesmo salão onde ela havia recebido Ishakan como Rei de Kurkan. Colunas de mármore alinhavam o imenso salão, e acima delas flutuavam bandeiras com o emblema real de Estia.