
Capítulo 99
Casamento Predatório
Genin e Haban observavam Ishakan com calma, lembranças do passado surgindo vívidas em suas mentes. Quando ele decidiu se tornar o novo rei e pediu a ajuda deles, jurou que nunca seria como seu antecessor.
Agora, ele espalmou as mãos.
“Chegou a hora”, declarou. “Vocês ainda têm um longo caminho pela frente.”
Um a um, ele se despediu de cada um dos Kurkans. Enquanto fazia isso, o Kurkan que havia servido Leah na casa de leilões aproximou-se de Haban.
“Com licença”, começou ele. “Mas aquela mulher que nos salvou… o senhor sabe onde ela mora e se ela é solteira?”
Haban se assustou com a pergunta ousada e congelou como se tivesse levado um choque, mas o jovem continuou, ignorando sua reação.
“Se ela for solteira, posso ir sequestrá-la depois? Acho que me apaixonei à primeira vista. Claro, vou perguntar primeiro se ela aceita ser raptada para o casamento…”
Genin tapou a boca dele, silenciando-o à força. O jovem ficou surpreso e confuso, mas Ishakan, que havia notado a cena, sorriu.
“Lushan”, chamou calmamente.
O jovem afastou a mão de Genin da boca e olhou para ela e para Haban antes de responder.
“Sim, meu rei.”
Ishakan o encarou. Silenciosamente. Gradualmente, o rosto de Lushan ficou rígido, e ele desviou o olhar, evitando os olhos dourados de Ishakan. Ishakan não precisou falar. A pressão de seus olhos foi suficiente para fazer o jovem começar a tremer.
“Espero sinceramente que você não leve adiante nenhum desses planos”, disse Ishakan.
“…Me desculpe.” Lushan se curvou profundamente enquanto Haban e Genin o olhavam com pena. Mas a ignorância era considerada um pecado. Lushan teve sorte de as coisas terem terminado assim. Os Kurkans terminaram suas despedidas e partiram para o deserto, e Ishakan observou suas costas enquanto se moviam pela eulália.[1]
[1] - Eulália: planta herbácea.
Seus cabelos flutuaram na brisa fresca, fazendo-o pensar no sol quente e nas areias douradas de sua terra natal. Ele sentia muitas saudades daquele lugar. Mas ele não podia voltar ainda. Ainda havia muitas coisas para fazer. Haban e Genin o seguiram enquanto ele se afastava, conversando:
“Acho que Byun Gyeongbaek de Oberde enlouqueceu.”
“A princesa só mencionou que ele poderia suceder, e ele age como se já estivesse no trono.”
Ishakan ficaria furioso se Byun Gyeongbaek se casasse com a princesa real e obtivesse o direito ao trono. Byun só tinha o controle das fronteiras devido à sua força militar. Mas se ele ganhasse o poder da família real através do casamento, isso mudaria toda a história. A partir daí, ele só precisaria garantir recursos financeiros e o apoio dos nobres a favor da princesa, e então se tornaria uma verdadeira ameaça à posição do príncipe herdeiro.
No início, Byun Gyeongbaek queria a princesa simplesmente para ter uma esposa bela e honrosa. Mas com suas insinuações sobre o trono, Leah havia atiçado as brasas de sua ganância, e elas estavam começando a fumegar.
“Este país é uma bagunça”, resmungou Haban, “E a princesa está sempre se sacrificando por ele…”
Ishakan sorriu. “Sempre haverá problemas onde houver ciganos”, disse ele.
“E a Rainha?”, Genin interveio.
“Bem, isso me preocupa.”
“Se a Rainha é cigana, o palácio não está em perigo?”, perguntou Haban gravemente.
“É mais do que perigoso. O palácio inteiro está em suas mãos.”
Seus feitiços não eram onipotentes. Eram trabalhos árduos de manter e certas condições tinham que ser cumpridas. Mas enquanto conjurar um feitiço era difícil, quanto mais tempo ele permanecia ativo, mais poderoso ele se tornava e mais difícil era de quebrar. A rainha estava no palácio há muito tempo. O lugar estaria cheio de seus feitiços.
“Ela pode ter enfeitiçado o rei também”, disse Ishakan.
“Ela deve ter lançado um feitiço antigo. Lavagem cerebral, certo?”
“Talvez. Ele foi a primeira pessoa que ela abordou.”
Deve ter dado muito trabalho para conquistar o amor do rei e convencê-lo a banir a rainha anterior. Quando Ishakan vira o rei pela última vez no almoço de gala, ele definitivamente não estava em condições normais. A lavagem cerebral deve ter progredido ainda mais agora. A influência da rainha pode ter ido tão longe que o rei não conseguia mais distinguir seus próprios pensamentos dos comandos dela. Mas eles não tinham certeza de até onde a rainha havia chegado. Eles só sabiam que ela não teria parado com um simples feitiço.
Ishakan franziu a testa.
“Chame Morga”, ordenou.
Genin olhou para Haban, seu rosto escurecendo. Ela não gostou da ideia.
“Se chamarmos Morga”, disse Haban, fazendo um último esforço para persuadir Ishakan contra isso, “Podemos perder o rastro dos Tomaris que já estamos seguindo.”
Ishakan balançou a cabeça. “Não há como evitar. Este assunto é muito mais urgente.”
Haban e Genin se olharam severamente, mas Ishakan fixou seu olhar no horizonte, na direção do palácio de Estia, embora estivesse muito longe para ser visto. Seus lábios curvaram-se em um sorriso. Ele conseguia ouvir o pequeno e hesitante sussurro de Leah em sua mente, aquecendo as profundezas de seu coração.
—Eu quero viver.
Ishakan estava desesperado para satisfazer seus desejos.