
Capítulo 33
Casamento Predatório
Observando os servos em silêncio, estava uma mulher cujo cabelo a fazia parecer ter a cabeça maior que o resto. Ela contornou cuidadosamente a multidão de serviçais antes de oferecer um cinzeiro ao seu rei, no qual Ishakan eficientemente depositou a cinza crescente de seu cigarro.
— Genin — reconheceu ele. — Onde está o Haban?
— Ele está inspecionando o salão de conferências — respondeu ela. — Ele me disse que queria compensar a pequena escaramuça da noite passada. Seu tom era arrogante enquanto falava diretamente com ele. Poderia parecer que ela estava defendendo Haban, mas Ishakan sabia que não era bem assim enquanto sacudia mais cinzas e soltava mais uma baforada de fumaça.
Na noite anterior, a Princesa Leah testemunhara um vislumbre da verdadeira natureza de um Kurkan. Ele preferiria que ela não tivesse visto — ela não precisava ver aquilo.
Com certeza, teria sido melhor se Haban tivesse conseguido levá-la embora antes dos acontecimentos, mas Ishakan estava pensando que talvez fosse outro fator inevitável naquela situação.
— O que posso fazer então? — perguntou ele a ela. — Eu nasci assim, não poderia esconder isso pelo resto da minha vida.
— Eu sei, mas…
— E eu também não sou alguém que se assusta facilmente — continuou ele, interrompendo-a, antes de soltar um sorriso carinhoso. — Você sabe o quanto ela foi corajosa? Em vez de ficar assustada e com medo, ela está trabalhando duro, preocupada com a noite passada.
Ishakan suspirou então: — Não sei como usá-la a nosso favor na negociação — admitiu enquanto jogava fora o cigarro, colocando-o no cinzeiro e vestindo sua roupa. — Ela sempre foi assim, tão desprovida de medo.
Suas madeixas castanhas rebeldes foram então penteadas para trás, removendo qualquer obstáculo para revelar seus olhos e testa penetrantes. A roupa de gola era ricamente bordada com fios de ouro coloridos. Os servos abotoavam cuidadosamente os pequenos botões, um a um, e ajustavam o tecido para que não houvesse rugas.
— Assim que as negociações começarem, acho que a parte mais problemática será a princesa, já que ela é o centro da família real — ele se preocupou.
— Mas a negociação é só uma desculpa, certo?
— Sim… mas…
Ishakan segurou novamente o fumo de tabaco entre as mãos, aproximando-o da boca. Ela é uma das muitas razões pelas quais ele veio para Estia. Mas parece que Leah está se tornando cada vez mais prioritária do que qualquer outra coisa. Ishakan suspirou e soltou uma lufada de fumaça, perdido em seus pensamentos.
— Mas continua me incomodando — finalizou ele suavemente.
Genin não sabia a quem Ishakan se referia, mas entendia perfeitamente. Genin piscou enquanto fazia uma pergunta.
— Você não está aqui para retribuir a gentileza dela? Você tem algum interesse nela? — ela finalmente perguntou, e em vez de receber uma resposta, Ishakan apenas ofereceu um sorriso malicioso, que deu a Genin uma ideia clara do que ele estava planejando.
— Você vai fazê-la sua noiva — declarou ela, e Ishakan soltou uma gargalhada.
A ideia em si era absurda.
— Você pensa demais como um Kurkan. Você tem que lembrar que ela é estiana.
— Por que isso importa?
Ishakan suspira. — Só não veja isso pela perspectiva de um Kurkan.
Com a declaração, as sobrancelhas de Genin se franziram pensativas, e logo ela ficou em silêncio, antes de encontrar sua voz novamente.
— Será um caminho difícil — disse ela em resposta.
De fato, era difícil para Genin entender. Afinal, ela se casou com seu marido enquanto o mantinham cativa, que era o costume Kurkan. E para os Kurkans, não importava que Leah já estivesse prometida a Byun Gyongbaek.
Ishakan levou seu tempo para formular uma resposta enquanto escolhia os acessórios que usaria naquele dia, particularmente o que usaria no pescoço.
— Um passo de cada vez — disse ele a ela. — E vamos começar com o banquete de hoje. Genin assentiu em concordância antes de olhar também para as joias.
— O da direita parece combinar melhor com você — ela ofereceu ajuda, e Ishakan concordou.
Ele pegou o colar, aquele com um rubi vermelho-fogo como peça central. A porta se abriu de repente, e um servo Kurkan entrou e parou logo atrás deles.
— Majestade, ele chegou — disse o servo, e Ishakan se endireitou.
A pessoa que eles estavam esperando finalmente chegou. Ishakan recebeu o espelho de mão que outro servo lhe entregou e verificou a nuca.
— Deixe-o entrar — ordenou ele, e o servo obedeceu rapidamente, saindo da sala novamente. Na próxima vez que a porta se abriu, um homem de meia-idade entrou.
Sua roupa era apropriada para o banquete. Apesar de ser baseada em grande parte no mais recente estilo estiano, ele sem dúvida se destacaria na multidão, mesmo entre os Kurkans.
Ele tinha uma aura confiante enquanto se mantinha ereto e alto. Mas apesar de sua bravata, ele não conseguia esconder o suor frio que começava a se formar em suas têmporas. Seus olhos percorreram a sala, antes de parar em Ishakan, encontrando seus olhos dourados. Ele engoliu brevemente e ficou parado.
— Acredito que este seja nosso primeiro encontro — começou Ishakan, e o homem fez um aceno seco.
— Sim, é um prazer finalmente conhecer o Rei dos Kurkans — respondeu o homem. Ishakan sorriu para ele, apesar da saudação tardia.
— Por favor, não fique nervoso — disse ele. — Eu não mordo.
O homem apenas soltou uma leve risada antes que o silêncio voltasse a reinar. Ele não sabia como responder à leve provocação.
— De fato, Kurkans não comem humanos — acrescentou Genin com um sorriso genuíno, e embora fosse para deixar o homem à vontade, ele ainda não estava. Genin recuou enquanto Ishakan se aproximava para finalmente apertar a mão do homem, antes de apontar para a cadeira próxima.
— Por favor, sente-se — ofereceu Ishakan. — Temos muito a discutir — acrescentou ele, mas o homem não se moveu, permanecendo firmemente de pé.
— Não direi nada que prejudique Estia — ele já esclareceu enquanto Ishakan o observava.
Este não é tão facilmente enganado, vejo. Pensou Ishakan. É por isso que Leah o mantém por perto? Ela tem um bom faro para pessoas, tenho que admitir. Ele refletiu antes de soltar uma leve risada.
— E você não precisará — assegurou ele. — Mas não é por isso que você está aqui. Ele fez sinal para seus servos, e um deles se moveu para pegar uma caixa que estava no canto, antes de trazê-la para perto dos dois homens, apresentando-a entre eles.
O homem não queria ter nada a ver com o conteúdo da caixa, mas quando o servo a abriu, seus olhos se arregalaram ao ver o que havia dentro. Vendo sua reação, Ishakan se moveu para o lado dele, sussurrando bem perto do ouvido dele…
— Tudo o que eu quero — começou a dizer ele — é me aproximar de você — Ishakan se afastou enquanto o homem o olhava cautelosamente — Conde Valtein.