
Volume 8 - Capítulo 757
The Author's POV
Assim que aquelas palavras saíram da minha boca, o ar ao redor da sala esfriou completamente, e enquanto me sentava na frente de Waylan, percebi que estava piscando por mais tempo do que o habitual.
Havia algo me incomodando na mente, e por um momento, hesitei em expressar meus pensamentos, incerta se estava apenas exagerando.
Mas ao observar a expressão de Waylan, a sensação persistia dentro de mim, me instigando a falar.
Limpei a garganta, quebrando o silêncio entre nós.
"Sabe, Waylan, eu tenho pensado."
Falei devagar, minha voz carregada de incerteza.
"Não pude deixar de me perguntar se há mais na supressão da memória do Kevin do que apenas poupar a todos da dor pela sua partida."
Achava que conhecia bem o Kevin, mas, refletindo sobre tudo que aconteceu, percebi que na verdade sabia quase nada sobre ele.
O Kevin que eu conhecia era uma mentira.
...e isso me fez questionar se ele realmente apagou a memória de todos para protegê-los da dor causada por sua morte.
Talvez isso fosse verdade até certo ponto, mas eu sentia que havia mais por trás disso...
Os olhos de Waylan brilharam com uma ponta de surpresa antes que ele baixasse o olhar, sua mão descansando na mesa de madeira entre nós.
"O que você quer dizer?"
Ele perguntou, sua voz neutra.
Pisguei lentamente mais uma vez, deliberando sobre as palavras que estava prestes a dizer.
"É que... além de mim, ninguém mais deveria saber sobre o Kevin. E ainda assim, de alguma forma, você sabe."
Observei a mão de Waylan tencionar levemente com minhas palavras, mas ele permaneceu em silêncio, ouvindo atentamente.
Inclinei-me para frente, meus olhos fixos nos dele.
"Então, como você sabe?"
Perguntei, minha voz mal acima de um sussurro.
"Como é que você não sabe sobre a morte dele e as mudanças que ele fez enquanto eu sei?"
Por um momento, a mão de Waylan pairou incerta sobre a mesa, sua expressão indecifrável. Mas então, ele soltou uma risadinha suave, suas feições relaxando em um sorriso.
"Heh, então é verdade..."
ele disse, mais para si mesmo do que para mim.
Seu jeito descontraído me intrigou, e me vi estudando-o mais de perto, em busca de qualquer indício de engano ou culpa.
"O que você descobriu?"
Perguntei, sem conseguir esconder a curiosidade na minha voz.
Waylan olhou para mim, seus olhos brilhando com divertimento.
"Por que você suspeitou de mim? Achei que estava indo muito bem até agora..."
Apesar de sua tentativa de se mostrar indiferente, percebi um leve desconforto em sua voz. Claramente, ele não estava tão impassível quanto tentava aparentar.
"Você não deveria ter suspeitado de nada... Tudo estava perfeito... Não deveria haver nada que indicasse que você sabia sobre o assunto..."
Ele murmurou para si, como se tentasse se tranquilizar mais do que a mim.
"...e ainda assim, eu suspeitei."
Respondi calmamente, meus olhos nunca se afastando dos dele.
"Houve uma certa freira que conheci há algum tempo, e ela me disse algo intrigante..."
As sobrancelhas de Waylan se franziram levemente, e pude ver um lampejo de confusão passar por seu rosto.
"O que ela te disse?"
Ele perguntou, sua voz carregada de curiosidade.
"Somente um Protetor sabe o nome de outro Protetor."
Repeti suas palavras exatas, observando enquanto a expressão de Waylan mudava lentamente, seus olhos se arregalando em compreensão.
"Somente um Protetor sabe o nome de outro Protetor?"
Ele ecoou, quase para si mesmo.
Eu assenti, apertando os lábios.
"De fato..."
Murmurei silenciosamente para mim mesma antes de voltar a olhar para ele.
"Na verdade, não percebi isso a princípio, para ser honesta. Para mim, não havia nada de errado com seu nome. Eu te chamava assim, e todos te chamavam assim."
Era como deveria ser. Como eu pensava que deveria ser.
Mas talvez eu estivesse enganada.
Sentamos em silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Mas então, Waylan falou, sua voz hesitante.
"Mas as coisas mudaram recentemente, não mudaram? Você encontrou algo?"
Olhei para ele, meu olhar firme.
"Sim, mudaram."
Na minha perspectiva, aquele era seu nome, e isso era tudo.
No entanto, as coisas mudaram recentemente.
"É engraçado, a princípio pensei que era porque a história era diferente. Não seria surpreendente se algumas coisas fossem diferentes... Fazia todo sentido se você pensasse bem. Por que não haveria mudança quando a história é a mesma?"
"...Fazia sentido e eu não tinha objeções a isso. Mesmo depois de tudo que vi, ainda não sentia que havia algo errado com seu nome... o mesmo se aplicava quando voltei."
Olhei diretamente nos olhos de Waylan.
"Quando voltei, tudo era como antes. Seu nome era o que eu pensava que era, não parecia haver nenhuma mudança, e senti minhas suspeitas se dissiparem... Isso foi até eu lembrar de algo."
'Somente um Protetor sabe o nome de outro Protetor.'
Mesmo depois de sair, as palavras da freira continuavam ecoando na minha mente. Não sabia por que, mas sentia que aquelas palavras eram de extrema importância para mim.
Inclinei-me para trás na cadeira.
"Era um pensamento distante, mas... e se... e quero dizer, e se... por algum estranho motivo que não conheço... eu tivesse o poder de um Protetor?"
Era uma ideia maluca, mas pensando sobre Kevin... tive a súbita impressão de que talvez, a mudança de nome no outro mundo não fosse necessariamente uma falha histórica.
Então... se eu levasse em conta as palavras da freira, não significaria que, da minha perspectiva, apenas eu conheceria seu verdadeiro nome?
E se, minha mente traduzisse automaticamente como todos se referiam a ele, e como eu me referia a ele?
E se o tempo todo eu o estivesse chamando de Oliver sem saber?
Seria tudo uma questão de perspectiva?
"Você vê..."
Olhei para Waylan com um olhar complicado. Batendo meus dedos sobre o braço da cadeira, suspirei em silêncio.
Embora eu tenha vindo aqui esperando estar errada, já havia confirmado as coisas antes e estava apenas me agarrando à pequena esperança que nunca existiu, para começar.
"...Há uma habilidade que eu tenho. É uma habilidade muito interessante, e se chama Manipulação de Memória."
Provavelmente uma das minhas habilidades favoritas.
"É uma habilidade que me permite alterar e ver as memórias dos outros. Judgando pela sua expressão, você parece entender aonde quero chegar, certo?"
Waylan continuou me encarando com uma expressão impassível.
Continuei.
"Ela me permite ver as coisas do ponto de vista de outra pessoa, em vez de apenas do meu."
Soltei um longo suspiro.
"Era um pensamento um pouco distante, e eu esperava estar errada... Eu realmente esperava."
Minha cabeça baixou em desapontamento.
"Mas parece que eu não estava errada afinal. Parece que meu pressentimento estava correto... e você realmente é Oliver Roshfield na mente dos outros."
Eu fiquei perplexa a princípio. Talvez até chocada, mas ao passar pelas memórias dos outros, percebi que meu pressentimento era verdadeiro.
Da perspectiva de todos, ele era Oliver Roshfield.
Apenas da minha perspectiva ele era Waylan Roshfield, e isso só me ocorreu quando olhei cuidadosamente através das memórias deles e prestei atenção em cada pequeno detalhe. Foi quando percebi que estavam chamando-o de Oliver.
Se isso não fosse prova suficiente, tentei algo diferente.
Chamei o nome de Waylan na frente deles e usei a manipulação de memória logo depois para ver se havia alguma mudança.
Chocantemente, ao espiar suas memórias, meu coração afundou no momento em que percebi que a palavra que saiu da minha boca não foi Waylan, mas Oliver.
"Haaa..."
Soltei outro suspiro ao pensar sobre o que havia descoberto recentemente. A realização me afetou mentalmente, pois fez com que eu percebesse muitas coisas.
Desde o momento em que conheci Waylan, pensei que ele era alguém em quem poderia confiar. Alguém com quem poderia trabalhar... mas descobri que era apenas um desejo meu.
Waylan era apenas uma máscara.
...Uma máscara para esconder algo mais profundo.
"Estou bastante impressionado."
Ele disse de repente, sua voz adquirindo um tom monótono.
"Impressionado por você ter conseguido descobrir tudo isso. Mas mais do que tudo, estou impressionado com 'ele'. "
Seu nome não precisava ser mencionado para que eu entendesse a quem ele se referia.
"Você vê..."
Waylan continuou, sua voz se tornando mais poderosa a cada momento que passava.
"Nós, Protetores, não temos os mesmos poderes que ele. Nossos papéis são completamente diferentes. Nós somos responsáveis por manter o equilíbrio, enquanto o trabalho dele era eliminar nossa maior ameaça. É natural que seus poderes sejam diferentes dos nossos."
Enquanto ele falava, observei com seriedade enquanto a pele de Waylan começava a se deformar e seu cabelo começava a cair. Uma luz brilhante envolveu seu corpo, e pude sentir o poder irradiando dele, me sufocando com sua intensidade.
"Ele era único."
Waylan disse, sua voz se tornando mais baixa.
"Nós... não temos a habilidade de voltar no tempo e reter nossas memórias como ele. Isso é algo que só ele tem o privilégio de possuir... ele era único. Uma existência em quem depositamos nossa fé, e ainda assim..."
Waylan fez uma pausa, e a luz brilhante que envolvia seu corpo aumentou. Era tão brilhante que eu não conseguia ver sua figura.
Ele continuou.
"...ele escolheu nos trair. Aqueles que o criaram e lhe deram sua vida."
A luz desapareceu lentamente, revelando um homem de cabelo loiro, olhos estrelados e uma longa cicatriz que ia da testa até o lado do rosto. Ele exibia uma pressão que era quase sufocante, mas eu me recusei a recuar.
"Parece que você finalmente se revelou."
Eu não estava intimidada nem um pouco pela pressão. A pressão era forte, mas à medida que uma fina película branca cobria meu corpo e os contornos de letras douradas apareciam ao meu redor, a pressão ao meu redor começou a diminuir.
"Hm?"
Waylan levantou a sobrancelha no momento em que a película branca apareceu em meu corpo, e seu rosto se tornou mais frio.
"As leis... Ele realmente nos traiu."
Não sabia se ele estava bravo ou não, mas sua expressão não mostrava sinais disso. A luz que cobria seu corpo logo desapareceu, e a pressão que envolvia toda a sala também desapareceu.
De repente, a sala inteira ficou em silêncio enquanto uma calma estranha a permeava.
...Claro, eu sabia que isso era apenas a calmaria antes da tempestade.
Naquele momento, Waylan me encarou por quase um minuto antes de fechar os olhos e abri-los novamente.
"Você sabe por que fazemos o que fazemos?"