Busca pela Verdade

Volume 3 - Capítulo 426

Busca pela Verdade

— Hah, só consegui ver suas costas… — disse Nan Gong Hen, balançando a cabeça com um olhar de arrependimento. Naquele momento, o grupo já havia chegado a uma área bastante remota da Cidade dos Xamãs. À sua frente havia uma estalagem simples. 

— Chegamos. Irmão Mo, é aqui que fico sempre quando venho para cá. É um lugar bem tranquilo. Descanse um pouco. Assim que o dia amanhecer, iremos alugar um Espírito dos Nove Yin. 

Nan Gong Hen entrou na estalagem e, após uma breve conversa com o estalajadeiro, cumprimentou Su Ming com um gesto de respeito. Ainda havia no rosto dele um leve arrependimento por só ter visto as costas do lendário Su Ming de cabelos vermelhos. Em seguida, levou consigo o garoto de braço atrofiado até seus aposentos. 

— Venham comigo — disse Su Ming com voz neutra às crianças. Assim que recebeu as instruções do estalajadeiro, virou-se e foi em direção ao seu quarto. 

O rosto de Lan Lan estava pálido. Ela hesitava, mesmo sendo normalmente ousada. No entanto, Ahu — geralmente o mais tímido — segurou firme a mão dela e assentiu com um olhar determinado. Então, puxando-a pela mão, seguiu atrás de Su Ming. 

Pela primeira vez, Lan Lan deixou-se ser guiada por Ahu. Mordendo o lábio inferior, entrou lentamente no quarto com ele.

Havia poucas pessoas hospedadas naquela estalagem. A maioria dos quartos estava vazia, e cada um possuía um selo próprio. Assim que alguém entrava, o selo era ativado automaticamente.

Quando a porta se fechou, Su Ming permaneceu de pé junto à janela, observando a rua silenciosa lá fora e o céu encoberto por névoa. Já era quase meio-dia. Ele ouvia sons abafados e animados vindo de longe, mas, ao alcançarem seus ouvidos, pareciam ter atravessado várias camadas até chegarem fracos.

Era um bom lugar para se hospedar. Tranquilo, com paz e isolamento.

Su Ming espalhou seu sentido divino, envolvendo todo o quarto em silêncio absoluto, de modo que ninguém poderia perceber o que se passava ali dentro — a menos que emitissem ondas de poder maiores do que as causadas por sua percepção espiritual.

Ele também estendeu seu sentido divino até o quarto de Nan Gong Hen. Observou que, ao retornar, ele ficou por um tempo com um semblante melancólico, como se tivesse sido profundamente tocado por algo, e então sentou-se em posição de lótus para meditar. Como ele não realizou mais nenhuma ação por um bom tempo, Su Ming deixou apenas uma fração de seu sentido divino observando-o e voltou a atenção para Lan Lan e Ahu.

Os dois adolescentes já aguardavam há bastante tempo, mas não ousavam demonstrar sequer um traço de impaciência. O rosto de Lan Lan tornava-se ainda mais pálido, e Ahu apertava a mão dela com mais força.

Ao cruzar o olhar com Su Ming, Lan Lan estremeceu.

— Se… Senhor…

O comportamento de Ahu agora era totalmente diferente do que costumava exibir. Com um olhar firme, puxou Lan Lan para ajoelhar-se com ele.

— Senhor, por favor, lance um feitiço para apagar nossas memórias do que acabamos de perceber. Se, por acidente, revelarmos algo, não só colocaremos o senhor em risco, como também traremos desastre sobre nós mesmos.

Su Ming permaneceu em silêncio. Depois de encarar os dois jovens, fechou os olhos, mergulhando em profunda reflexão.

Aquilo havia sido um acidente. No entanto, Su Ming já esperava que isso pudesse acontecer desde o momento em que aceitou o pedido do Patriarca da Tribo do Touro Branco. Afinal, as ações de Hong Luo haviam sido extremamente chamativas, tornando difícil esquecer sua aparência e traços.

Contudo, ele não esperava que esse problema surgisse tão cedo. Apenas por causa de Nan Gong Hen, sua identidade como Su Ming de cabelos vermelhos havia sido quase revelada.

Mas, felizmente, Nan Gong Hen falara tudo de forma casual, e, pelo seu comportamento, não parecia suspeitar de nada. Um brilho surgiu nos olhos de Su Ming, que então voltou a encarar os dois jovens.

— Saber disso trará mais mal do que bem. Não só pode custar a vida de vocês, como também provocar o extermínio de toda a tribo…

Su Ming não estava mentindo. Bastaria um deslize daqueles jovens, e a Tribo do Touro Branco estaria em grande perigo.

— S-Senhor… — Ahu empalideceu. Lan Lan estava na mesma situação.

Su Ming então ergueu a mão direita e, com um leve gesto, os dois desmaiaram imediatamente. Seu semblante permanecia calmo. Se ele não possuísse a Alma Nascente do Imortal e não tivesse aprendido, por meio da herança de Hong Luo, o método para apagar memórias, jamais teria aceitado escoltar alguém pelo Mundo dos Nove Yin.

Ele já estava preparado para isso há muito tempo — só não imaginava que teria de usar o método tão cedo.

Duas horas depois, Lan Lan e Ahu saíram do quarto de Su Ming com expressões vazias. Retornaram aos seus aposentos e, apenas após o tempo de queimar um incenso, começaram a recobrar a consciência. Nenhuma lembrança de Su Ming com cabelos vermelhos restara.

Adolescentes jamais conseguem ficar parados por muito tempo. Assim que Lan Lan se recuperou, não conseguiu conter a vontade de sair e explorar a Cidade dos Xamãs — especialmente agora que o sol já havia passado do meio-dia. Ela saiu com Ahu e convidou o garoto de braço atrofiado para ir junto. Após obterem permissão de Su Ming e Nan Gong Hen, os três deixaram a estalagem.

O tempo passou. Quando já estava quase anoitecendo, Su Ming — sentado de pernas cruzadas — abriu os olhos e olhou para a porta. Logo ouviu batidas e, em seguida, a voz alegre de Nan Gong Hen.

— Irmão Mo, o crepúsculo no Mundo dos Nove Yin é lindo demais! Ainda mais quando as nove luas aparecem. Que tal bebermos um pouco e admirarmos o céu?

Grande parte do motivo de Nan Gong Hen ter tantos amigos era por sua maneira animada de falar e por ser do tipo que tomava iniciativa, sempre chamando os outros para beberem com ele.

Ao ouvir suas palavras, Su Ming sorriu e foi até a porta. Ao abri-la, viu Nan Gong Hen do lado de fora com duas jarras de vinho nas mãos.

Como seu sentido divino cobria toda a estalagem, Su Ming sabia de tudo o que ocorria ali. As jarras de vinho não tinham vindo de Nan Gong Hen: ele havia pedido ao estalajadeiro, que as trouxe da adega subterrânea. Su Ming também analisara o estalajadeiro e o vinho com seu poder espiritual, sem encontrar nada suspeito. Nan Gong Hen até já havia bebido uma das jarras em seu quarto antes de vir.

Sabendo disso, Su Ming pegou uma das jarras com um sorriso e deu um grande gole. Os olhos de Nan Gong Hen brilharam, e ele riu alegremente enquanto ambos subiam para o terraço da estalagem.

O andar superior era um terraço aberto com algumas mesas espalhadas. Como não havia muitas estruturas bloqueando o vento, o ar circulava livremente por ali. Sentaram-se à beira e contemplaram o céu tingido de vermelho. O ambiente era muito agradável.

— Eu gosto muito do Mundo dos Nove Yin. Venho aqui quase sempre que ele é aberto… — disse Nan Gong Hen com um suspiro profundo, bebendo enquanto encarava o céu.

O olhar de Su Ming pousou sobre o vermelho do céu e comentou com tom calmo:

— Realmente, é um bom lugar. Difícil imaginar que tudo isso era uma ruína ancestral.

— Heh heh, pense na paz que temos aqui, e compare com os perigos lá fora. Pense nos domínios a um milhão de lis de distância, onde nem mesmo nossos ancestrais chegaram… e aqui estamos nós, bebendo e observando o luar. Isso é simplesmente maravilhoso! — Nan Gong Hen riu alto, tomando outro gole generoso.

— Irmão Mo, sabe qual é o meu sonho? Quero ultrapassar esses um milhão de lis e chegar a um lugar onde ninguém jamais pisou. Quero beber lá, olhando o entardecer e o nascer da lua!

Nan Gong Hen olhava para a tênue sombra da lua que começava a aparecer no céu vermelho, com um sorriso no rosto.

— Lá, eu não teria que me preocupar com guerras, nem com os sonhos do meu pai para mim, nem com nada além dos meus próprios sonhos… E lá, eu esperaria por uma pessoa — suspirou levemente.

— Oh? — Su Ming deu um gole no vinho e olhou para Nan Gong Hen.

— Irmão Mo, deve ter se perguntado por que sempre venho aqui. Não é só porque gosto deste lugar — apesar de gostar muito mesmo — mas porque fiz uma promessa com alguém. Esse é o verdadeiro motivo…

Nan Gong Hen ficou em silêncio por um momento antes de falar com a voz entristecida:

— Eu a espero aqui. Ela foi além daqueles um milhão de lis… e nós prometemos que eu a esperaria neste lugar. Mas já se passaram tantos anos… e ela ainda não voltou.

— Promessa… — Su Ming abaixou os olhos, olhou para a jarra de vinho em sua mão, tomou um gole longo e voltou seu olhar ao céu. Em meio ao vermelho, a primeira lua começou a surgir.

— Se realmente não consegue esquecê-la, por que não vai procurá-la naquele lugar?! — Nesse momento, uma voz fria ecoou no terraço. O sentido divino de Su Ming se reuniu em alerta. Ele só havia percebido a presença da pessoa um suspiro antes de ela falar!

Instantes depois, uma mulher de semblante gélido subiu as escadas. Era, naturalmente, a irmã de Nan Gong Hen — a única pessoa que Su Ming realmente não queria ver naquele momento.

Ela sequer olhou para ele. Caminhou direto, sentou-se ao lado e tomou das mãos de Nan Gong Hen a jarra de vinho. Imediatamente, um ar branco e gelado se espalhou, congelando o vinho por completo. Ela então levou a jarra aos lábios e bebeu um grande gole.

Nan Gong Hen ergueu os olhos e a encarou. Só depois de um tempo respondeu:

— Eu vou. Eu com certeza vou!

Su Ming observava os irmãos e estava prestes a inventar uma desculpa para se retirar, quando seu semblante mudou de repente. Um brilho gelado tomou seus olhos. Ele se levantou e olhou para um ponto distante da cidade.

— Irmão Nan Gong, tenho algo urgente a tratar. Com licença.

À medida que falava, o olhar de Su Ming ficava ainda mais gélido. Num instante, transformou-se em um arco de luz e voou para longe do terraço.

Nan Gong Hen ficou atônito. Quando ergueu os olhos, viu sua irmã olhando para as costas de Su Ming pela primeira vez, com as pupilas dilatadas.

Naquele momento, numa rua movimentada da parte norte da Cidade dos Xamãs, havia uma loja onde Lan Lan se encontrava furiosa. Ahu, ao lado, parecia assustado, enquanto o garoto de braço atrofiado tinha o rosto pálido e expressão amarga.

Diante deles, um jovem ricamente vestido os encarava com desprezo. Ao seu lado, havia uma mulher elegante, cujo rosto mostrava nenhuma marca do tempo. Seus olhos eram serenos.

Atrás do jovem e da mulher estavam três homens de expressão vazia. As ondulações de energia que emanavam deles indicavam que todos eram Xamãs Intermediários.

— Qi Dong foi o primeiro a escolher essa erva e ainda por cima pagou por ela! Como você pode ser tão irracional e tomá-la à força?! — gritou Lan Lan, indignada.

— Qi Dong, não imaginei que o encontraria aqui. Pelo seu braço, deve estar pensando em usar essa erva para curá-lo. Não se preocupe… mandarei comprar todas as ervas dessa cidade. Se vier implorar a mim, talvez eu lhe dê um pouco. Se se ajoelhar e me reverenciar, darei um galho… Mas no momento, estou de péssimo humor. Expulsem-nos! — disse o jovem rindo, voltando-se para os Xamãs atrás dele.

— Bei Er, não cause problemas intencionalmente. Isso é indelicado. Já que ele comprou a erva primeiro, então… vamos entregá-la a eles depois de quebrarmos suas pernas e jogá-los para fora — disse a mulher com voz fria, voltando a observar os produtos da loja como se aquilo não fosse nada demais.

Ela havia dado a ordem. E havia quem a cumprisse.

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