Verme (Parahumanos #1)

Capítulo 164

Verme (Parahumanos #1)

O benefício de usar minha Igreja de enxames como clone para comunicar com Parian era que eu tinha uma certa privacidade para conversar com Coil. Ele atendeu no quarto toque. Nada tão imediato quanto a rapidez de Tattletale.

“Skitter.”

“Sei que você queria que eu usasse a Ms. Cranston ao invés de te ligar, mas isso é meio importante.”

“Tô ouvindo.”

“Conversei com a Parian e chegamos a um acordo provisório. Ela vai precisar falar com outras pessoas antes de decidir, mas acho que ela ia se juntar à nossa aliança.”

“Entendo.”

Houve uma longa pausa. Eu me preparava para falar algo e perguntar se ele ainda estava aí, quando ele falou de novo.

“Quais são as condições dela?”

“Ela mantém território, vai defendê-lo contra quem tentar, mas não vai fazer trabalhos ou atividades criminosas. Para os outros, ela não faz parte da nossa tomada de controle.”

“A implicação sendo que somos fracos demais para lidar com ela.”

“Não era exatamente isso que tinha em mente.”

“É a conclusão que os outros vão chegar.”

Senti um pico de frustração e raiva, potente o suficiente para que eu tivesse explodido com ele se pudesse pensar numa resposta mais rápida. Tive que me lembrar de que estava preocupado com a ameaça que Coil tinha colocado sobre minha cabeça e me sentia traída. Reconhecia que era estúpido me sentir traída pelo Coil quando planejava lutar contra ele se ele não colaborasse na questão da Dinah, mas também sabia que não costumava lidar bem com quem eu confiava me apunhalasse pelas costas.

Não que eu tivesse realmente confiado em Coil, mas…

Ok, não tinha certeza do que estava pensando nesse aspecto.

Forcei-me a me acalmar antes de dizer: “Tenho certeza de que há um meio-termo. Você vai falar com ela?”

“Não vou arriscar revelar minha identidade, não,” disse Coil.

Maldito.

“Mas,” continuou, “vou falar com ela por intermédio de um ligador.”

“Obrigada.”

“Embora isso pudesse ter sido feito de uma forma mais suave, aprecio seu esforço.”

Isso vindo do meu possível assassino.

“Não é problema. O Ballistic pode ficar chateado se perceber que furei o bloqueio dele, então, se alguém perguntar, ela se assustou e veio até você?”

“Talvez. Vou ser discreto, de qualquer modo. Não convém haver atritos entre os dois grupos.”

“Certo.”

“Falando em relação entre grupos, acho que o Trickster está preparando para partir na missão hoje à noite. Você vai querer falar com ele para marcar alguma coisa.”

Estava querendo adiar isso. Ainda parecia ontem que eu estava cuidando de mim o tempo todo, esperando um ataque de qualquer canto. Não tinha vontade de voltar a esse estado.

“Ok,” dissi.

Ele desligou sem mais palavras.

Primeiro a Parian.

“Abordei o assunto com outros. Eles vão entrar em contato. Você deve conversar com a Flechette e decidir onde fica sua posição até lá.”

“Uma pressão grande.”

Não acho que você entenda o que é pressão de verdade, pensei. Mas não falei nada em voz alta.

“Pois é,” disse minha Igreja de enxames. Os drones e zumbidos que formavam as sílabas ajudavam a disfarçar a falta de verdadeira empatia. Comecei a trabalhar usando fios de seda e insetos voadores para levantar um celular no ar. Passeei o polegar pelo teclado e enviei uma mensagem para a Ms. Cranston, informando o que eu fazia. “Estou levando um telefone até você, ele estará em suas mãos antes de você sair do meu território. Alguém vai usá-lo para te ligar antes do fim do dia.”

“Esse é você me dando um jeito sutil de dizer para eu sair?”

“Estou ocupado agora, sim. Obrigada por me ouvir.”

“Foi o mínimo que poderia fazer, depois da ajuda que você ofereceu aos meus amigos e minha família.”

“Seja qual for sua decisão, cuide-se, Parian.”

“Você também.”

Espalhei a Igreja de enxames, depois pausei para pensar.

O analgésico começava a perder o efeito, e eu podia sentir uma dor constante no ombro. Ainda tinha uma flecha atravessando o osso. Brooks só removeu as pontas de ambos os lados. Só podia esperar que a dor me mantivesse alerta.

Queria descansar um pouco e criar uma estratégia, um plano. Tinha umas ideias pequenas, mas não abrangiam tudo. E tinha muitos aspectos para cobrir com alguém tão bem equipado quanto Coil atrás de mim.

Droga.

Não dava para colocar toda a armadura que tinha removido com uma só mão, então pedi ajuda ao Atlas para colocá-la no meu ombro lesionado, usando seus apêndices para segurar tudo no lugar.

Respirei fundo. Ainda não era certeza total, mas suspeitava que a Parian tinha entrado na jogada. Não queria morrer, exatamente, estava disposta a lutar com unhas e dentes para evitar isso, mas ao mesmo tempo, eu estava pronta para morrer agora.

Na real, não tinha amigos, fora o time. Meus companheiros sentiram minha falta, mas iam se recuperar com o tempo. A morte era uma realidade no nosso mundo.

Meu pai não tinha ouvido falar de mim há algum tempo. Se eu morresse, talvez não fosse um choque tão grande quanto poderia parecer. Sabia que ele sentiria como se fosse a perda da minha mãe, que ficaria devastado… mas, de novo, iria se recuperar. Talvez fosse mais fácil, porque pelo menos aqui ele teria alguém a quem apontar o dedo, a cidade, os bandidos, quem a Lisa dissesse que era responsável pelo meu assassinato. Tinha certeza de que ela não revelaria minha identidade para ele, uma explicação mais simples e direta bastaria.

E meu povo? Meu território?

Senti a Parian receber o celular, a alguns quarteirões de distância, puxando-o para a mão com telecinese. Pelos insetos que ainda permaneciam nele, pude sentir a vibração bastante forte enquanto ele se movia pelo ar.

Se eu morresse, a Parian poderia assumir meu território. Tinha a sensação de que poderia confiar nela para cuidar da minha gente do mesmo jeito que eu, mais do que confiaria até mesmo nos meus amigos. A transição não seria difícil.

Respirei fundo de novo e suspirei. Pela Dinah. Em outras circunstâncias, eu recuaria, deixaria o Coil trabalhar para mim. Mas estava disposta a enfrentar tudo isso se significasse manter ela e sua liberdade ao meu alcance.

Disquei para o Trickster.

Atlas me levou até a parte boa da cidade, a sudoeste das Torres. A escola particular cristã não ficava longe dali. Imaculada. O New Wave também tinha base por aqui. Eu preferia que não cruzasse com eles. Se eles compartilhassem alguma opinião semelhante à da Flechette sobre eu ser, pelo menos parcialmente, responsável pelo que aconteceu com a Panacea e a Garota Gloria, eles teriam ainda menos motivos para segurar a língua.

Precisava descobrir a história toda. Tinha que perguntar à Tattletale quando tivesse um momento livre.

A região era cheia de morros e clareiras, com casas incrivelmente grandes agrupadas em pequenos bairros. Brockton Bay costumava zigzaguear bastante entre áreas pobres e os ricos. A diferença parecia ainda maior aqui, onde as áreas permaneceram relativamente intactas depois do ataque de Leviathan, ao contrário do restante da cidade, onde as ruas estavam cobertas por vários centímetros de água.

Não encontrei Trickster ou Genesis. Em vez disso, posicionei Atlas em uma das clareiras próximas ao destino, olhei meu telefone para garantir que tinha seguido as instruções até o local certo, e peguei meu laptop para me preparar. Estava um pouco adiantada, o que me dava tempo de me preparar com calma.

O alcance seria menor com as árvores e qualquer prédio entre mim e o objetivo, mas ainda era melhor usar meu clone de enxame como duplo. Revisei meus equipamentos e armas enquanto aguardava que meus ‘clones’ se reunissem.

Centopéias e insetos ligados de ponta a ponta formando os fios de cabelo. Insetos maiores compunham a maior parte das pernas, torso e núcleo da cabeça. Insetos menores preenchiam as lacunas, enquanto insetos voadores se agrupavam formando braços e partes que não suportariam ser sustentadas pelo restante, como o rosto. Quando a forma básica ficou pronta, era só refinar para que a silhueta geral estivesse correta e posicionar as câmeras e microfones de modo que tivessem olhos e ouvidos utilizáveis.

Quando tudo ficou pronto, juntei uma Igreja de enxames em cima do Atlas e a levei até o Trickster e a Genesis. Caminhei com meus enxames ao meu lado, com meu laptop aberto e segurado com meu braço bom, para poder acompanhar o vídeo. Enquanto reunia mais insetos na roupa e no cabelo para parecer com os clones, usei insetos dispersos para criar cópias de laptops similares para os outros clones. Elas não tinham telas brilhantes, mas as formas retangulares serviam para quem olhasse de longe.

Se ‘eu’ estivesse em perigo imediato, meu clone nas costas do Atlas enfrentaria o ataque. Se o inimigo ou inimigos percebessem a fraude e viessem atrás de mim, teriam que me separar dos clones. Isso significava que precisariam perder tempo para encontrar uma pista reveladora, ou que teriam uma chance de uma em quatro de acertar o verdadeiro eu, ou ainda que dividiriam os ataques entre meus clones. Além disso, tinha os bugs que varriam a área, observando superfícies e beiradas em busca de alguém disposto a me caçar ou atirar, e meu traje também servia como última linha de defesa.

Redundâncias. Ainda assim, parecia pouco.

Trickster e Genesis aguardavam enquanto Atlas descia. Eles estavam agachados de costas para uma parede de pedra que delimitava uma propriedade na beira de um morro. Trickster segurava binóculos, olhando para a vizinhança lá embaixo. Genesis tinha a forma de uma mulher fantasmagórica envolta em correntes. Seu cabelo branco era embaçado, esvoaçante, escondendo o rosto, e seus dedos eram garras. Ela não tinha corpo inferior saindo do poncho rasgado que usava, e simplesmente flutuava, como se fosse tão leve quanto o ar. Como ela fazia aquilo? Um mecanismo de voo básico? Um balão de gás no estômago?

Que poder.

“Bem-vindo. Dá uma olhada,” disse Trickster, estendendo uma mão com os binóculos. Binóculos que eu não poderia usar com minha câmera.

“Não preciso deles. Qual propriedade?”

Ele apontou. Demorou um pouco até eu relacionar a direção para onde ele apontava com o ângulo da minha câmera e colocar isso na minha posição relativa ao meu clone. Poderia ter conseguido descobrir de imediato se tivesse colocado um inseto na mão dele, mas não queria dar uma pista se pudesse evitar.

O terreno do prédio para onde ele apontava era quase do tamanho de uma quadra onde cresci e vivi até alguns meses atrás. Tinha uma cerca, mas mais para manter os cães da família dentro do que para impedir intrusos. Chão de tela de arame, sem arame farpado. Eu sabia que ele tinha cães pelos insetos que estavam aglomerados no esterco no quintal, que ainda não tinham sido recolhidos, e pelas larvas que decoravam cada tubérculo.

Não havia muitos insetos dentro da casa. Alguns nas paredes, mas parecia relativamente nova e a isolação era compactada o suficiente para não haver ninguém morando nas paredes.

Demorei um pouco, mas consegui fazer um levantamento geral.

“Tem guarda?”

“Há uma presença policial na área. Acho que estão esperando problemas,” disse Trickster. “De qualquer modo, o motivo de estarmos aqui neste horário e local é que o prefeito sempre janta com a família. A Tattletale disse que ele só perdeu três jantares em vinte anos, e isso só porque saiu da cidade por trabalho. A viagem planejada para Washington será a quarta vez que ele sai de casa, então esse é o único lugar onde temos certeza de que vamos cruzar com ele.”

Encontrei a sala de jantar e comecei a contar o número de sapatos sob a mesa. “Quatro adultos. Acho que dois homens, duas mulheres, pelo sapato. Duas meninas mais novas. Pela estatura, aposto entre oito e doze anos.”

“Ele tem um filho e duas filhas gêmeas,” disse Trickster.

Disposei insetos no chão ao redor do Trickster para traçar um esboço do layout da casa e mostrar para eles onde a família ficava em relação a nós.

“Como você quer fazer isso?” perguntou Genesis.

“Assombramos eles até ficar de cabelo em pé, aí nos apresentamos ao prefeito,” disse Trickster. “Vocês começam, eu fico de olho pra problemas e cuido no que der errado se aparecer policial ou alguém fugir.”

“Vão atacar com a família lá?” perguntei.

“Claro. Impacto maior se ameaçarmos eles também.”

“Não sei se gosto muito dessa ideia.”

“Quando conversei com o Coil sobre o que a Tattletale falou do cronograma, ele sugeriu isso. A não ser que você queira ir contra ele, é claro?”

Ele tava conversando com o Coil. Fiz uma anotação mental. Preciso mesmo ficar de olho num ataque do Trickster? Seria tão fácil quanto trocar a posição de uma granada ativa por uma pedra perto de mim.

Era possível. Ele era implacável, não parecia ter muitas restrições quanto a matar, e tinha a melhor posição para fazer isso. Não conseguia detectar soldados do Coil por enquanto.

Havia a possibilidade de estar entrando numa armadilha, que toda a turma na casa que íamos atacar era uma ameaça. Eu poderia lidar com isso.

Muitas possibilidades de ataque. Muitas ameaças potenciais. E com armas de longo alcance, o Trickster ou até um ataque surpresa da Genesis, tudo poderia acontecer a qualquer momento.

“Skitter?” perguntou Genesis.

“Hm? Ah, certo. Acho que não. Só assustar, né? Não vamos ferir ninguém fisicamente?”

“Correto,” respondeu Trickster.

Bem, dava pra fazer isso. Não era muito diferente do que fiz na minha primeira missão com os Undersiders. Naquela época, eu aterrorizava reféns por um propósito maior, e poderia fazer o mesmo com uma família pelo mesmo motivo.

“Só um segundo,” disse.

“Vou lá, então,” disse Genesis, flutuando para o topo da colina.

“Não é a primeira vez que você precisa de um tempo pra se preparar,” comentou Trickster comigo.

“Hm?”

“Só acho que é uma desvantagem.”

Ele tá me ameaçando? Me avisando que conhece uma de minhas fraquezas?

“Sou general, e leva tempo mobilizar meu exército. Melhor atacar forte com todas as forças de uma vez.”

“Nem sempre. Você poderia ter sustentado um crescendo de esforços.”

“E dar chance para eles se dispersarem? Teria que dividir a igreja de enxames pra separar cada grupo de pessoas, o que significaria menos insetos em cada um, efeito geral menor.”

Ele balançou a cabeça.

“O quê?”

“Nada.”

“Você parece um pouco mais hostil do que antes,” comentei.

“Sério?”

Meus insetos tinham se reunido nas entradas que consegui encontrar. Janelas estavam abertas, mas cada uma com compensação de madeira ou tela por conta dos estragos feitos por Shatterbird. Havia um sistema de ventilação nos banheiros, com uma estrutura que dificultava os insetos passarem ao contrário, com abas que provavelmente só abriam quando o ventilador estava ligado, o que podia ser burlado com alguma cooperação do coletivo de artrópodes.

“Sim. Alguma razão pra isso?”

“Não sou fã de você pisando no calo do Ballistic. Ele é meio que um amigo.”

Não do jeito que ele conta. “Não quis ofender.”

Mais insetos estavam entrando por uma das portas laterais da casa, que estava entreaberta. Presumi que fosse para deixar o ar quente do final da primavera/início do verão entrar. O desafio era impedir que os insetos fossem vistos antes que eu estivesse pronto.

Quando percebi o que a Genesis planejava, mudei o foco dos meus insetos para segui-la. Ela se dirigiu direto à janela da cozinha e quebrou a madeira ali. Logo depois, meu enxame entrou pelo espaço, espalhando-se pelos vidros, teto e chão, só alguns pequenos insetos atrolhados nas pessoas.

Elas se voltaram para escapar, indo em direção à porta que dava para a cozinha e o corredor. Foram interceptadas pelo resto do meu enxame, uma nuvem densa de moscas, libélulas, mariposas, baratas e besouros. Eu podia sentir elas recuando, quatro adultos e duas crianças.

“A polícia já está a caminho. Vai trocar com a gente assim que chegar na casa. Avisando para que possamos parecer confiantes.”

Droga.

“Agradeço essa estratégia, mas tem um probleminha,” avisou.

Ele olhou pra mim, depois fez uma expressão de perdidamente preocupado. “Não consigo te pegar. Você faz o que fazia quando conversava com o Legend e a Miss Militia.”

“Um pouco mais refinado, mas sim.”

“Droga,” disse ele. Depois, soltou um gemido. “E agora perdi de vista os policiais.”

“Posso enfrentá-los, se desejar.”

“Só localize eles e eu resolvo. Onde está seu corpo de verdade?”

Hesitei. Depois, fiz meu clone se virar e apontar para outro clone, só para caso ele decidisse partir pra cima.

“Entendi. E os policiais?”

“Ali, mas não teletransporte minha,” avisei. “Tenho algo mais em mente, e o efeito visual vai ficar mais forte.”

“Se eu não teletransportar você, terei que lutar contra o policial que não for levado,” comentou.

Se virar a situação. Pensei. Decidi não responder, e desfiz o clone que estava ao lado dele. Fiz uma seta apontando para onde os dois policiais tinham circundado um canto da propriedade.

Em vez de ir até a casa, juntei alguns insetos que tinha enviado para a sala e comecei a formar um clone lá. Pela experiência, parecia algo meio assustador: uma pessoa surgindo dos insetos. Carreguei a pequena câmera e microfone até o enxame, usando a transmissão de vídeo para ver o clone de longe e ajustar os detalhes, corpo e rosto. Quando acabei, adicionei os demais insetos ao enxame, com a câmera e microfone escondidos no meio, e posicionei a câmera em outro lugar.

Reconheci o nosso prefeito. Nunca foi alguém que chamasse muita atenção, porque nem eu era muito envolvida, visto que nem votava, mas reconhecia ao estilo geral. Seu rosto aparecia na mídia. Se a cidade estivesse normal, estaria em todas as TVs, na reta final das eleições municipais. Tinha entre cinquenta e sessenta anos, cabeça calva em formato de ferradura, com os ouvidos grandes que saltavam para fora.

A mulher ao lado seria sua esposa. Parecia alguém que tinha comprado sua beleza, com roupas elegantes, cabelo caro, maquiagem e cuidados com a pele de primeira. Ela agarrava o marido, que segurava as duas filhas gêmeas.

Havia também dois jovens adultos lá. Adolescentes ou jovens na casa dos vinte. O cara era fortão, a menina, imponente; a vibe era mais de um atleta e sua namorada em cheerleading do que de irmãos com bom DNA. O rapaz ficava um pouco na frente dos pais e da namorada, como se tentasse protegê-los. Genesis e eu ficamos do outro lado da mesa de jantar.

“O que você quer?” ele perguntou.

“Uma conversa,” falou Trickster. Ele tinha pulado no parapeito da janela do térreo e agora descia, com uma mão na cartola. Ajustou-a. “Olá, Sr. Prefeito.”

O prefeito olhou para cada um de nós, em especial para Trickster e para as versões falsas que Genesis e eu criamos. “A que eu devo essa visita tão questionável?”

“Sabemos que você vai a Washington amanhã.”

Vi o filho virar para olhar por cima do ombro em direção ao pai. Notei também que ele discretamente puxou um celular do bolso, escondido pelo jeito que virou o corpo. Se eu não percebesse os movimentos pelos insetos, teria passado despercebido.

Podia ter dito alguma coisa, mas fiquei quieta. Em vez disso, aproximei o Atlas perto da janela e comecei a desenrolar e estender as linhas do fio de seda já preparado para emergência.

“Sim, estou.”

“Pois acho justo que ouça de todos os seus eleitores,” disse Trickster. “Antes de tomar uma decisão.”

“Você paga impostos?” — perguntou o filho, mudando de posição para esconder a mão direita atrás da namorada. Eu sentia ele ajustando o aperto no celular. Pelo que podia perceber, ele não tinha feito nada com ele. Esperei até ele parar de mexer a mão, então passei uma série de insetos voadores entre os dedos e o aparelho, enrolando o fio ao redor.

“Rory,” falou o prefeito, com tom de aviso. Voltou sua atenção para Trickster. “E? Qual resultado você espera?”

“Acho que seria excelente se a cidade continuasse. As coisas estão melhorando.”

“E vocês querem assumir o controle,” comentou o prefeito.

“Só estamos mantendo a paz,” disse Trickster. “Fazendo um trabalho melhor que seus heróis locais.”

“Se a sua interpretação de ‘paz’ for liberal, talvez,” disse o prefeito.

Rory mexeu os dedos, tocando a tela, e eu mandei Atlas voar para longe da janela. O telefone foi arrancado da mão dele e quicou na vidraça antes de cair lá fora. Atlas puxou de volta enquanto Rory olhava ao redor, confuso e alarmado.

“Sem ligações,” falei, zumbindo pelo enxame.

“Devolva isso,” ele pediu.

“Seu telefone é prioridade pra você mesmo?” perguntou Trickster.

“Sim,” respondeu Rory. “Sim, é.”

“Então deveria saber que não devia usá-lo aqui,” disse Trickster, dando de ombros.

Devolve isso,” Rory me lançou um olhar de reprovação. Para o meu clone de enxames.

Trickster riu: “Nunca fui fã dessa febre por telefone inteligente. As pessoas ficam loucas com essas coisas.”

Não, pensei, algo está estranho.

Quanto daria para a Tattletale? Ou mesmo tê-la aqui. Como ela juntaria as peças, preencheria os buracos? Ela teria enxergado o quadro maior e sabido exatamente o que estava acontecendo, enquanto eu só podia tentar adivinhar.

A obsessão pelo telefone? Não consegui tirar conclusões. E o jantar em família com o filho e a namorada? Nada demais.

Não estavam assustados.

As pequenas encaravam tudo com raiva, segurando o pai, Rory estava tão focado no telefone que nem percebeu o perigo, e a namorada dele ficava muito quieta. Para completar, o prefeito tinha uma postura relaxada, como se falasse com todo mundo sem medo.

Ah.

“Acredito que seria melhor para todos se Brockton Bay continuasse. Não seria justo julgar o destino da cidade no momento mais baixo,” disse Trickster.

“Você está sendo irônico de propósito?” perguntou o prefeito. “Só com sua presença, você já está mostrando por que a cidade não deve seguir pelo caminho que vem trilhando.”

De novo, aquela confiança. Ninguém costuma trocar palavras com alguém que implicitamente ameaça o corpo e a família com dano corporal. A não ser que tenham alguma segurança de que seus ameaçadores não percebem isso.

Pensei nas várias possibilidades. Não era difícil reduzir as opções com o método da eliminação.

Trickster não parecia perceber. “Estou surpreso que vocês não estejam nos mostrando mais respeito. Vocês devem achar que estamos quase iguais, o atual no comando da cidade falando com os aspirantes a governantes.”

“Conquistei minha posição com trabalho duro, dedicação e convencendo o povo de que era melhor votar em mim. E era mesmo. Vocês três? São criminosos. Crápulas. Não conquistaram nada.”

Criminosos? Vocês enfrentariam a Sociedade do Matadouro Nove e ainda sairiam de lá?”

“Tudo que vocês têm de bom é violência e intimidação. Assim, só conseguem destruição.”

Ficando maior, as palavras na parede. Trickster não percebeu, ou não ligou.

“Trickster—” comecei, comunicando pelo enxame. Preciso conversar com você.

“Vamos lá,” disse ele, cortando minha fala, “Se você insiste, quem sou eu para discordar?”

Num instante, uma das gêmeas foi substituída por uma cadeira do lado de dentro da mesa, e vice-versa. Trickster puxou o cabelo dela e a aproximou, puxando uma arma e colocando na cabeça dela.

“Trickster,” disse Genesis, exatamente no instante em que avancei para detê-lo.

Ela tentava impedi-lo também, ou tinha visto as palavras?

Ela pousou uma das garras no ombro dele. Não tinha certeza do sinal que deu, mas Trickster parou.

Seja qual fosse, ele pareceu olhar para as palavras que eu tinha escrito, porque Rory notou. Ele virou a cabeça rapidamente para ver, e eu não consegui dispersar os insetos rápido o suficiente.

‘Triunfo’ escrito na parede com insetos, com um triângulo abaixo, apontando para sua cabeça. Acima da ‘namorada’ dele, as palavras ‘Prisma ou Ursa’.

O filho do prefeito era a identidade civil do Triunfo. Poder físico aprimorado e uma sonora achatadora que poderia fazer buracos na betonagem.

Ele virou a cabeça e ficou olhando para o Trickster. Antes que pudesse puxar o gatilho ou fazer qualquer coisa, Triunfo gritou. Sua irmã ficou ilesa, mas Trickster foi lançado com força contra a parede, quase enterrado na drywall.

“Dure, Kyla!”

A menina se jogou no chão enquanto Triunfo avançava, chutando a mesa de jantar. Ela escorregou até metade da sala, passou por Kyla e bateu na parede. O lado bateu de cheio no abdômen do Trickster, e o conteúdo da mesa voou na direção do vilão e na parede ao redor dele. Trickster ficou imóvel, seu corpo superior esparramado sobre a mesa.

Mobilizei o enxame, mas Triunfo já gritava de novo, empurrando Genesis contra a parede, como tinha feito com o Trickster. Uma terceira onda de gritos deu fim à minha Igreja de enxames, e ele virou para acabar com os insetos espalhados, enquanto sua família fugia pelo corredor, liderada pela heroína.

Não consegui juntar insetos suficientes de uma só vez para montar um ataque sério sem que Triunfo os destruísse, e ele parecia muito bravo ou teimoso demais para se render às ferroadas e mordidas que eu ia conseguindo infligir. A heroína tinha o telefone na mão, e eu não consegui arrancá-lo dela como fiz com o Triumph. Em breve, eles receberiam reforços. Mesmo que eu eliminasse todos, ainda teria que tirar o Trickster de lá e escapar inteiro.

“Droga,” amaldiçoei, e corri, acompanhado pelos meus clones de enxames, rumo à casa. Não podia deixá-lo lá, sem colocar tudo a perder. Ele parecia alguém que trairia por algum benefício próprio, ou para passar informações, até mesmo sobre os Undersiders. E deixá-lo para trás criaria uma divisão definitiva no nosso time e nos Viajantes. Poderia até ser uma justificativa para o Coil me desconectar do grupo.

Isso tudo sem contar que não poderia salvá-lo sozinho. Ele estava atacando forte demais, lidando com meus insetos de modo impressionante. Eu poderia ter matado ou ferido gravemente a família dele com os poucos insetos que tinha, usando os mais perigosos, mas não quis ir tão longe, com pessoas que não mereciam isso.

Atlas não era forte nem versátil o suficiente para carregar um corpo inconsciente para fora do perigo. Se fosse tirar o Trickster do lugar, teria que fazer com minhas próprias mãos.

Só podia rezar para não estar me expondo a alguma armadilha de assassinato que o Coil pudesse estar tramando, ou pior: que eu fosse exatamente o que ele queria que eu fosse.

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