Verme (Parahumanos #1)

Capítulo 152

Verme (Parahumanos #1)

“Levanta!” resmungou Sierra.

A tensão nas costas já era um lembrete suficiente de que precisava usar as pernas para se erguer de pé. Suas mãos estavam encharcadas em bolhas, e cada dobradura de dedo, cada articulação, tinha arranhões ou hematomas. Estavam carregando uma porta, arrancada das dobradiças; a tinta descascando, a madeira gasta, e o peso do fardo tornava praticamente desconfortável segurá-la.

Ela segurava uma das pontas da porta. Jay ficava na ponta oposta, de costas para o homem que se mostrava pendurado nela. Queria pedir para Jay segurar a outra ponta; duvidava que olhar para a figura enquanto carregava o salva-vidas improvisado sequer o incomodaria.

Mas não pediu. Não conseguia fazer esforço suficiente para falar. Já haviam trabalhado demais, e era mais fácil seguir em frente do que parar por qualquer motivo.

No entanto, o silêncio dela significava que ela estava encarando o cadáver daquele homem que, uma vez, vivera ali. Uma vez, ele tinha pais, seu primeiro dia na escola, feito amigos, até se apaixonado por alguém. Provavelmente tinha trabalhado. Tinha coisas que amava na vida, com certeza, e se estava MORANDO aqui, provavelmente tinha coisas que odiava na vida também. Seja quem fosse, agora era mais uma vítima de Mannequin. Nada tão perturbador quanto os mortos por Burnscar. Ele não tinha carteira com ele, então, por enquanto, era John Doe.

Quando começaram a trabalhar no dia anterior, esse tipo de pensamento quase a fez chorar. Agora ela se sentia anestesiada. Poderia pensar em outra coisa, mas uma parte de si queria prestar a devida reverência ao John Doe. Se nada mais, ele merecia ser visto como um ser humano, e não apenas como mais um corpo.

Ela se abaixou para colocar a porta no chão. Jay agarrou o homem pelos ombros, ela levantou pelas pernas da calça, e juntos moveram-no três pés para a direita. John Doe foi colocado no chão de concreto. Juntou-se a vinte e nove outros corpos, agora organizados em duas fileiras de quinze pessoas. Muitos eram apenas outros John e Jane Does.

Uma bolha estourou na mão dela enquanto carregava a porta. Doeu, mas o foco dela estava no homem. Quarenta anos, talvez, mas o amarelo de sua pele indicava problemas no fígado. Poderia ser tão jovem quanto trinta, envelhecido precocemente pelo alcoolismo; não era como se ela não tivesse visto o bastante de bêbados na cidade para não reconhecer os sinais.

Senti que deveria dizer algo, mas as palavras não vieram. Teria ele sido um cafajeste maldoso bêbado? Alguém que trabalhou duro em algum emprego qualquer para sustentar a família, e depois bebeu as preocupações com os colegas de trabalho? Um homem solitário, sem ninguém para cuidar dele?

Pensou em um simples ‘desculpe’, não necessariamente porque se sentia culpada, mas mais pelo fato de não poder fazer mais por ele, de se desculpar pelos eventos aleatórios e sem sentido que haviam tirado sua vida.

“Próximo?”, perguntou Jay.

Ela olhou para ele. Estava cansado, mas não via sinais do mesmo esgotamento emocional que sentia. Era um ex-membro da gangue ABB, tinha atacado outros, talvez até matado. Essa tarefa não o assustava em nada. Por trás do cabelo desgrenhado, seus olhos estreitos eram frios e indiferentes. Podia estar carregando mantimentos que ninguém se importasse.

Isso a deixou com calafrios.

“Não,” ela disse. “Já exausti minha cota. Você consegue achar alguém para mover os dois últimos corpos da fábrica até aqui?”

“Ok.”

Ela ficou observando os corpos. Talvez pudessem providenciar algo cedo de manhã. Talvez, se reunisse um grupo e enviasse para o centro da cidade solicitar ajuda verbalmente? Era só um dos problemas crescentes que precisava resolver. Suspirou. “Vou lá ver como as coisas estão lá dentro.”

“Ok.”

Ela viu enquanto ele saía para se juntar a Yan e Sugita, os outros dois ex-membros da ABB. Ele deve ter dito algo a eles, porque Yan virou para olhá-la. O olhar era intenso. Não era ciúmes da garota chinesa-americana. Era outra coisa. Por mais assustador que Jay fosse, a atenção da namorada dele assustava Sierra ainda mais.

Exausta e nervosa, Sierra voltou para a sede da Skitter. Conferiu duas vezes se ninguém a seguia antes de entrar na tubulação de água da tempestade. Dentro, estava completamente escuro. Húmido. Começou a caminhar, com as pontas dos dedos tocando a parede da direita. Quando essa parede acabou, ela continuou andando. Era desorientador, desconfortável, caminhar sem guia na escuridão absoluta, a ponto de não conseguir ver a própria mão na frente do rosto.

Sentiu a parede novamente e manteve a mão nela enquanto contornava a próxima curva. Havia uma mancha úmida, de onde água escorria do chão da rua acima… mais dois passos e uma curva para a esquerda. Ela tateou brevemente para achar a abertura.

Essa foi a parte mais difícil. O resto era fácil: encontrar a porta, entrar na adega, subir até o andar principal. Ficou feliz ao ver a luz, aliviada por não estar prestes a perder a noção do caminho na escuridão total. Imaginou se a Skitter também tinha sentido o mesmo medo.

Ela quase tropeçou em uma criança ao entrar na cozinha. Charlotte estava lá, ocupada esvaziando os armários. Tudo que fosse comestível estava na bancada ou no chão, organizado de forma precisa. Sierra estimou cerca de vinte crianças no andar de baixo.

“Tem mais do que antes.”

“Clã O’Daly.”

Sierra franziu a testa. “Eles precisam cuidar dos próprios filhos.”

“Estão meio ocupados. Foram atingidos mais forte que qualquer outro na ataque. Acho que só seis dos vinte que estavam conosco ainda vivem.”

“Sei. Mas eles ainda precisam cuidar dos filhos deles.”

“Quer que eles tenham mais um dia para lamentar?” perguntou Charlotte.

“Você decide. Você é quem fica de babá no momento.”

“Estou tentando,” disse Charlotte. “Mas estão alternando entre brincar e parecer crianças normais e chorar porque os pais deles… você sabe.”

Mortos.

“Sim,” confirmou Sierra.

Charlotte tirou a máscara e a usou para prender o cabelo. Endireitou-a e a amarrou novamente na testa. “A cidade não deveria cuidar disso? Devia haver algo como um sistema de acolhimento, ou um plano especial de evacuação para crianças órfãs.”

“Acho que a cidade não sabe. Não são só as crianças. Temos trinta corpos e o clima não tá nem frio, e não aparecem ambulâncias ou qualquer ajuda pra cuidar de tudo isso. Passamos a tarde toda transferindo os corpos com Jay e dois locais.

Queríamos enterrá-los em uma vala comum, mas tenho medo que seja ilegal. E, como metade deles não tem documento, podemos acabar dificultando que suas famílias os identifiquem.”

“Não é fácil.”

“Nem um pouco,” Sierra admitiu. “Como estão as racionamentos?”

“Menor do que ela foi às compras, mais como se ela quisesse estocar esse lugar como uma mercearia pequena. Um pouco de tudo. Estou tentando organizar por data de validade, pra priorizar o consumo e a distribuição dos alimentos que estão estragando agora, caso ela não volte e o estoque vá diminuindo.”

“Sei que está um pouco tarde, mas há muitos que têm trabalhado duro, limpando a bagunça das ataques…” Sierra hesitou.

“Quer jantar?”

Sierra juntou as mãos em forma de oração, implorando.

“Talvez uma sopa? Acho que precisamos comer esses vegetais, tem caldo, e se diluirmos pra dividir mais…” Charlotte parou de falar. “Nunca cozinhei de verdade em casa. Ajudei meus pais a cozinhar, mas não é a mesma coisa.”

“Funciona. Preparar um pouco de arroz dos suprimentos, já que temos mais do que o suficiente. Dar volume. Temos muitas bocas pra alimentar.”

“Ok.”

Ela queria parar, simplesmente parar. Mas entrou na sala de estar, onde camas improvisadas tinham sido arrumadas com pilhas de cobertores e sacos de dormir. Só duas crianças estavam lá, claramente irmão e irmã. Era o máximo de privacidade que ela conseguiria. Tirou o telefone satelital do bolso.

Esse cenário não era como ela esperava, de jeito nenhum. Mesmo quando a Skitter explicava as tarefas de ajudar, reconstruir, organizar, Sierra tinha dúvidas. Estava esperando por aquele único momento em que a Skitter testaria seus limites, pediria algo um pouco perigoso, ambíguo moralmente. Seria sutil, ou traria consequências que ela não perceberia de imediato, mas a colocaria no caminho de algo mais sombrio.

Mas isso ainda não tinha acontecido. Até mesmo o escopo do que ela fazia aqui a surpreendia. Existem mortos por toda parte, e ainda mais pessoas expulsas de suas casas pelos incêndios que Burnscar havia iniciado. Parecia que todos andavam na corda bisca entre se unirem como comunidade e se matarem. 

Sentia-se estranha como uma das principais que apoiava a primeira opção. Estava organizando tudo, mantendo contato com os grupos responsáveis pela limpeza e trabalhando incansavelmente nos trabalhos mais difíceis e indesejados, na esperança de inspirar os outros a continuarem. Quando o cheiro de podridão e carne que acompanhava os mortos ficava insuportável para alguém, Sierra estava lá, ajudando a acalmá-los, sempre pronta a indicar outro lugar onde precisavam dela.

Era quase demais. Uma parte grande dela queria ligar para a Skitter, pedir orientação, comandar suprimentos e deixar os problemas mais complexos, como os corpos.

Outra parte tinha medo.

Ela discou outro número.

“Sim?” a voz era profunda.

Pensou em uma criança chamando um amigo e ouvindo um adulto do outro lado. Era desconfortável. Ela se ressentia disso.

“Gostaria de falar com Bryce?” A frase saiu mais como uma pergunta do que uma afirmação.

“Um instante.”

Assistiu com o telefone colado a uma orelha enquanto Charlotte recrutava algumas crianças mais velhas para preparar o jantar. Elas começavam a guardar as coisas nos armários, organizando não pelo tipo de comida, mas pelo tempo de validade. Uma das crianças achou uma tábua de cortar e começou a picar alface.

“Sierra?”

“Sim,” respondeu.

“Então? O que quer?”

“Só passando para saber como você tá, seu idiota.”

“Tô bem,” Bryce respondeu. Conseguiu soar mal-humorado.

Ela se aproximou do balcão da cozinha, fazer um gesto que imitava a técnica correta de corte para a menina de dez anos preparando a alface. Não podia deixar a criança perder dedos. Ou talvez estivesse sensível a isso enquanto falava com Bryce.

“É só isso?” Bryce perguntou.

“Esperava mais do que duas palavras. Como sua mão?”

“Dói.”

“Vai doer mesmo. Você perdeu os quatro dedos.”

“Não. Dói como se eles ainda estivessem lá, sendo esmagados.”

Ela não sabia o que dizer a isso. Desculpe? Você mereceu o que recebeu?

“Pergunta para a Tattletale?”

“Ela já foi. Faz mais de um dia que saiu. Jaw disse que ela não deve ser perturbada por ligações ou qualquer coisa assim.”

A Skitter tinha ficado fora por quase o mesmo tempo que a Tattletale. Segundo Charlotte, a Skitter tinha convidado alguns vilões locais e saído logo depois. Devem ser os outros oito chefes de territórios que tentavam ocupar a cidade. Isso fazia mais de quarenta e oito horas.

“Jaw me deu alguns analgésicos,” Bryce disse.

“Qual tipo?” Sierra sentiu um aperto de preocupação.

Deve ter sido audível, porque Bryce respondeu: “Relaxa. É coisa de venda livre.”

“Ok. O que você andou fazendo?”

“Nada muito importante. Acompanhando alguns membros da Choosen enquanto se movem. Os caras do Hookwolf.”

“Sei quem eles são.”

“Estavam se movimentando. Pensei que íamos partir pra briga, mas Jaw mandou todo mundo recuar. Acho que foi por causa de eu estar com eles. É chato.”

“É uma boa coisa você não estar numa troca de tiros. Principalmente com capas.”

“Estão me ensinando a lutar com faca, a jogar uma, a usar uma arma—”

“Não quero que aprenda isso.”

“Tenho que aprender, se formos armadilhados ou algo assim. E não sou ruim nisso. Poderíamos ter feito um estrago nesses caras.”

“A Tattletale disse que você deveria enfrentá-los?” ela perguntou, já sabendo a resposta.

“Como eu disse, a Tattletale não aparece faz tempo.”

“Então a resposta é não, ela não autorizou.”

“Não.”

“Isso já é motivo suficiente pra você recuar então. Não sei exatamente quem ela é ou o que faz, mas ela sabe o que faz. Confie nela nisso.”

“Sempre maravilhoso falar com você, Sierra. Obrigada. Tchau.”

“Não desliga. Me coloca no telefone com o Jaw.”

Bryce desligou.

Ela deveria estar melhor, mais disciplinada. Teria ela tomado a decisão errada? Se Bryce estivesse recebendo treinamento com armas de fogo e facas, e ainda assim não estivesse melhorando, essa coisa de ele estar sendo recrutado pela Tattletale poderia ser desastrosa a longo prazo.

Esperou um minuto, depois ligou para o mesmo número.

“Sim?” novamente a voz profunda de Jaw.

“Ele desligou na minha cara. Queria saber como ele está.”

“O menino está aprendendo.”

“Prefiro que ele não aprenda a usar armas. Se ele for colocado numa situação que precise lutar, vocês não estão cumprindo o combinado.”

“Isso é com a Pritt. Ela acha ela atraente e escuta ela melhor, então ela costuma acompanhar ela. É uma ex-criança soldado, ela achava que se defender seria uma boa maneira de recuperar a confiança depois que o garoto perdeu os dedos.”

Ela conseguia imaginar Jaw dizendo isso com Bryce ouvindo, o irmão dela ficando irritado e envergonhado ao mesmo tempo. Gostou disso.

“Manda ela parar com isso? Não quero que meu irmãozinho saia por aí atirando nas pessoas.”

“Tudo bem. A Tattletale disse que podemos fazer o que for necessário em relação ao garoto. Vou falar com a Minor, e ele vai mandar os outros manterem o garoto longe de armas.”

“Obrigado.”

“Vou também decidir uma punição para o garoto por ser indelicado e desligar na nossa cara. Acho que todos nós gostaríamos que ele aprendesse a ter respeito pelos superiores.”

Ela imaginou ele olhando para Bryce enquanto dizia aquilo.

“Nada muito sério? Como punição?”

“Nada sério. Vai ajudar a formar caráter.”

“Obrigado. E alguma novidade do que a Skitter e a Tattletale estão fazendo?”

“Não. Tudo que sei é que a situação é perigosa, e todos os esquadrões estão em alerta máximo. Estamos dormindo em turnos, mantendo preparo de combate e aumentando as patrulhas. Fomos informados há três horas que a área do centro da cidade está proibida de entrar. Eu sei que o tenente Fish foi enviado para lá assim que recebeu a ordem, e ele parou de se comunicar com a gente.

Tudo no centro?

“Sim.”

Ela desligou e foi ao banheiro cuidar dos machucados nas mãos acumulados ao longo do dia. Desinfetante, pomada antibiótica, bandagens. Toda vez que achava que tinha acabado de curar uma pequena arranhadura, descobria outra.

Quando terminou, tinha tanta bandagem quanto pele exposta. Flexionou os dedos para ver se ainda conseguia movê-los, ajustou duas bandagens, e voltou para a cozinha.

“Progresso?”

“Quase lá. Ainda não cozinhou muito, e estou preocupada que vá ficar com sabor de legumes cozidos na água, mas você disse que gente tava com fome. Como quer distribuir a sopa?”

“Tem três lugares onde as pessoas estão dormindo hoje. Vamos mobilizar as crianças e levar comida pra todo mundo.”

“As crianças?”

“Todo mundo tem que ajudar. Talvez, se um garoto de sete anos estiver fazendo sua parte, o clã O’Daly entenda.”

“Sierra,” Charlotte fez uma expressão de dor ao falar, “Eles passaram por muita coisa.”

“Estão usando nossa área de dormir, estão comendo nossos suprimentos. Não podemos ficar cuidando deles, mimando. Todo mundo tá passando por dificuldades esses dias.”

“Isso é cruel.”

“Talvez, mas eu tenho trabalhado do amanhecer até bem depois do anoitecer, aqui, e eles só ficam sentados, atrapalhando, reclamando e chorando.”

“A maior parte da família deles morreu há poucos dias.”

Sierra não tinha resposta para isso. Ainda estavam comendo demais e ocupando espaço demais para quem não tinha feito nada para ajudar. “De qualquer forma, acho que posso usar as crianças?”

“Não as pressione. Algumas são bem sensíveis emocionalmente. Mas sim.”

Sierra virou-se, “Ei, criançada! Tenho uma missão pra vocês. Ajudem aí, e a gente garante os primeiros doces depois do jantar!”

Metade das crianças pequenas se aproximou dela. Entre seis e dez anos, meninos e meninas, diferentes etnias.

“Quem é o mais velho? Levanta a mão se tiver dez… ok, se tiver nove? Oito?”

Ela pensou rapidamente e os guiou: “Você, fica responsável por esses três. Você, por esses dois… E você, por essa dupla, tudo bem?”

Crianças mais velhas cuidando das mais novas. Elas se organizaram em seus grupos.

“Você vai levar a sopa até os locais de dormir. Charlotte, tem alguma embalagem que possamos usar?”

“Sim. Só me dá um minuto. Não quero que queimem as mãos.”

“Todo mundo leva o que puder. Leva a sopa lá e depois volta aqui.”

Charlotte colocou as tampas nas primeiras panelas de sopa, e as crianças saíram correndo.

Sierra não deu muita atenção até ouvir a porta batendo.

“Não a porta da frente!” gritou Sierra, mas as crianças já estavam saindo pela porta da frente. Ela suspirou.

“Têm medo do esgoto,” apontou Charlotte.

“Eu sei. Não é nada de mais. Vou sair com o próximo grupo, só pra acompanhar o transporte.”

“Ok. Vou preparar algo pra você levar,” disse Charlotte. “Procura mais tupperware ou panelas que eu possa colocar isso?”

Sierra concordou e se virou para pegar, mas as crianças já estavam ocupadas, querendo ajudar. Preferiu deixá-las. Pareciam felizes por ter algo para fazer. Talvez reconhecessem quão péssima era a situação geral e quisessem ajudar a arrumar.

Ela achava que ia achar o tupperware mais rápido que as quatro crianças juntas, mas não era uma grande preocupação.

“Pois bem, bem, bem...”

Sierra se virou rapidamente antes que o rapaz terminasse de falar. Não exatamente um homem, mas menino não encaixava. Era Jay. O garoto japonês-americano a olhava através do cabelo desgrenhado.

“Jay. Você não foi convidado pra estar aqui.”

“Sei por quê. Energia, água corrente, comida… vocês se deram bem. Queria saber pra onde estava indo, tentei segui-la, mas você sumiu. Pensei que tínhamos perdid oportunidade até ver uns moleques com potes de plástico correndo com comida na rua. Parece que vocês estão guardando as melhores coisas.”

“Não estamos guardando,” ela falou. Engoliu seco, tentando manter a voz confiante, “Este lugar é da Skitter.”

“Da Skitter, claro. Se ela ainda estiver viva. Mas não é seu espaço. Não vejo motivo de vocês terem essas coisas e a gente não.”

“A Skitter nos deu permissão.”

“A gente deve acreditar nisso?” sugeriu Sugita, com sotaque carregado.

“Sim.”

“Não,” falou Yan, puxando uma pistola de trás das costas. “Não acredita em vocês.”

Tem criança aqui, Sierra pensou.

“Idiota,” falou, sem pensar.

Yan apontou a arma para ela. “O que você disse?”

“Você sabe que a Skitter nos autorizou usar o espaço dela.”

“É? Ouvi alguém reclamando que a Skitter foi embora sem avisar nada, depois dos incêndios,” disse Yan, zombando.

“Seu idiota. O mínimo que podia fazer era deixar de besteira e admitir que só quer roubar nossas coisas.”

“Estava pensando nisso, é claro,” Jay falou, “Não parece que a Skitter vá voltar. Dois dias, situação assim? Mas está enganada se pensa que vamos sair com comida na mão. Acho que vamos expulsá-los.”

“Expulsar a gente?”

“Sai da minha frente,” ordenou Yan para Sierra, sacudindo a arma para a esquerda.

“Por quê?” Sierra perguntou.

“Porque eu vou atirar em você se não sair,” disse Yan. “Não acredito que você não esteja ouvindo. É teimosia ou burrice.”

“Estou cansada,” Sierra respondeu. “E o que vocês estão fazendo aqui não é exatamente brilhante. Pense bem. De onde veio essa comida? O equipamento?”

“A Skitter comprou,” ela respondeu.

“De quem? De onde? É evidente que esse lugar foi montado depois que Leviathan veio, mas de onde ela conseguiu? Ela mandou entregar. E as mesmas pessoas que fazem entregas assim para um supervilão ficarão muito irritadas se descobrirem que alguém mexeu com um de seus clientes.”

O argumento era fraco, ela sabia disso.

“Se essas pessoas existem, não vão aparecer hoje à noite. Vamos passar a noite aqui. Acho que já passou da hora de fazer uma festa.”

“Deixando a gente arrumar a bagunça?”

“Sierra,” Charlotte falou, com voz baixa, “não vale a pena.”

Yan gesticulou com a arma, e Sierra se afastou, ouvindo dessa vez. Saiu do caminho.

Sugita e Jay passaram pelo balcão e entraram na cozinha, enquanto Yan ficava na porta para bloquear a entrada. Sierra viu Charlotte encolher-se. Como um tubarão que detecta sangue, Sugita virou a atenção para ela. Chegou perto, invadindo seu espaço pessoal.

Não mostrar medo, rezou Sierra.

Mas Charlotte mostrou. Em um instante, parecia uma pessoa completamente diferente da que ela era minutos antes. Coitada, encolhida, e sem resistir ao agarro de Sugita pelo pulso.

Havia algo ali que Sierra ainda não tinha sido informada. “Deixe ela em paz!”

“ Cala a boca, vadia,” Yan deu um passo à frente, balançando a arma, “Quer tomar um tiro?”

“Só nos deixe ir. Faça o que quiser aqui, é com sua cabeça, mas deixe a gente partir.”

“Não acho que vá acontecer. Odeio vadias arrogantes. Se eu não fizer nada, vai acabar piorando meu humor. Sua escolha. Posso te atirar na palma da mão, no joelho, ou em uma das crianças.”

Sierra olhou para as crianças que recuaram contra os balcões, armários e paredes. Lá estavam lágrimas escorrendo pelo chão sujo de seus rostos, mas elas conseguiam, na maior parte, ficar quietas.

“E aí?” perguntou Yan, elevando a voz.

Sierra não conseguiu falar. Uma bala na mão—ela talvez nunca mais conseguisse usá-la. Mas o joelho, dizem, é uma parte do corpo que demora mais pra se recuperar de uma ferida séria.

Yan abaixou-se e puxou um dos garotos mais velhos pelo cabelo. Dez anos, cabelo loiro precisando de corte e um nariz briguento. Ele gritou e se debateu de dor na pegada de Yan, até que conseguiu se soltar, caindo de costas.

A menina enfiou a arma na boca dele antes que pudesse se recuperar, e ele congelou.

“Escolha!”

“Minha mão.”

Yan sorriu, tirando a arma da boca do garoto. “Coloca ali na parede, de jeito que fique plano.”

Sierra começou a levantar a mão, mas parou.

De trás de Yan, apareceu uma figura. Sua roupa mal dava pra reconhecer — ela usava uma capota curta de pano preto rasgado sobre uma armadura de corpo, uma roupa justa preta por baixo, e haviam dobras de pano preto ao redor das pernas, como se fosse um vestido ou uma túnica. Todo o tecido parecia mexer-se, ondular. Demorou um segundo para Sierra perceber que estava repleto de insetos.

A parte mais inquietante era o rosto da garota, ou a falta dele. Sua expressão ficava por trás de uma massa de insetos que se mexia, entrando e saindo da linha de cabelo. Sierra não conseguia distinguir onde terminava o inseto e começava o couro cabeludo, já que os pequenos corpos negros rastejavam, entrando nos cachos pretos. Havia um brilho como de vidro onde estavam os olhos da Skitter, mas os insetos se adiantavam, cobriam as pálpebras, os óculos, as lentes, tudo.

A Skitter não fez som algum ao entrar. Não falou, e seus passos foram silenciosos.

Yan apontou a arma para ela. “Então é você, né?”

A vilã não falou. Apontou para a direita ao invés disso.

Avançando em direção ao grupo, vinha um besouro do tamanho de um pônei pequeno. Não usava suas patas frontais para andar, mas as levantava, mostrando uma lâmina afiada, pronta para atacar.

“Chame isso de parar ou eu atiro!”

“Tirar e você morre,” a voz da Skitter foi distorcida, quase um som de inseto, não parecendo nada de humano. O besouro parecia emitir um zumbido profundo, como um ‘oo’. “Vai ser feio. Veneno de aranha reclusa-de-bolha necrosa seus músculos. Isso faz você apodrecer enquanto está vivo. Leva dias, mas o único remédio de verdade é usar uma faca e cortar a área ao redor da picada. Se for uma só, o meio quilo de carne, cortar, deixar o ferimento drenar e costurar de novo. Mas e se tiver três ou quatro? Ou dez?”

“Você só está querendo me enganar,” Yan cuspiu as palavras.

A Skitter ignorou. “É uma dor insuportável. Nada do que você passou na sua iniciação na ABB se compara, posso garantir. Você está apodrecendo vivo, a carne fica preta enquanto liquefaz. Então talvez você me atire. Talvez até me mate, embora duvide. De qualquer forma, seja vivo ou morto, você vai ser mordida. Já estão em cima de vocês. Os três.”

Yan olhou pra ela. Nesse mesmo instante, o besouro levantou voo. Cruza a sala em um impulso, bate contra ela e a arrasta pra baixo. As patas que lembravam lâminas prenderam Yan no chão.

Sierra virou-se para os outros dois e viu Sugita atirando-se para o lado. Ela quase se jogou entre ele e o balcão com a faca ainda sobre a tábua de cortar. Jay puxou a dela, mas deixou cair no mesmo instante. A outra mão segurando o antebraço enquanto seus olhos se arregalavam.

“Esse é um mordida, Shaggy,” disse a Skitter. “Te dou dois segundos para empurrar a faca debaixo do fogão antes de te dar outra. Um—”

Jay empurrou a faca pelo chão da cozinha, escorregando para fora de vista.

“E você, acho que era aquele com sotaque ruim? Pode se afastar da Charlotte agora.”

Sugita fez cara de feio, mas obedeceu. Recostou-se ao lado de Jay, mantendo a distância de Charlotte. Charlotte deixou escapar um soluço antes de correr para trás na cozinha e se colocar atrás da Skitter.

Ela passou por algo, pensou Sierra. Sabia que Charlotte só ficava na cidade por causa da família, que tinha sido capturada pelos Merchants e mantida por um tempo… e havia uma razão que ela não podia explicar para a família, que a impedia de deixar a cidade.

“Espero que o resto esteja bem,” perguntou a Skitter.

“Onde você tava?” Sierra devolveu a pergunta com outra.

“Lidando com os Nove. Agora eles não são mais uma preocupação, pelo menos por enquanto.”

Era surreal ouvir a garota falar em “lidar” com a Nine. Elas não eram vilões comuns. Eram como monstros de filmes de horror, o assassino que sempre se levanta no final, o monstro que nunca morre.

“Quer dizer que eles não vão atacar tão cedo, ou—”

“Estão resolvidos. Burnscar morreu. Crawler morreu. Mannequin provavelmente morreu. Cherish e Shatterbird querem estar mortas. Encontraram o ponto fraco do Siberian, e logo será notícia internacional, se já não for. Ela, Jack e Bonesaw fugiram. Tentaram perseguir, não conseguiram rastrear. Demorará um tempo até que se recuperem.”

“Você enfrentou a Nine e venceu?”

A Skitter se aproximou de Yan, usando uma das patas para segurar o braço da garota contra o chão. O besouro pressionou a mão dela, apontando a lâmina contra a palma com força suficiente pra escorrer uma gota de sangue. Skitter deu um passo ao redor da menina, criando espaço para o besouro fazer o mesmo. Quando Yan fechou a mão, ela pisou na mão dela, esmagando.

Demorou para responder. Quando falou, foi apenas: “Ainda não disse que ganhamos.”

<>Ela levantou o pé, Yan soltou a mão, e o besouro espetou uma das patas, prendendo a menina ao chão.

“O que você está fazendo?” perguntou Yan, desesperada.

Skitter não respondeu. “Sierra? Charlotte?”

Charlotte não respondeu, mas Sierra conseguiu. “Sim?”

Se não fosse pelo zumbido constante dos insetos, Sierra suspeitaria que ela não teria ouvido Skitter falar. “Você tem trabalhado duro. Obrigada. Não esperava encontrar nada quando voltasse.”

“Tudo bem,” disse Sierra. As palavras pareceram um pouco sem conexão, mas a Skitter as aceitou.

“Achava que você tinha ido embora,” disse a Skitter.

“Quem ainda está na cidade provavelmente tem algum motivo para não ir embora. Mas as coisas aqui estão ruins.”

“Podemos consertar isso,” disse a Skitter. Parecia mais que falava consigo mesma do que com alguém na sala. Seria reconfortante se ela não estivesse encarando Yan.

“O que você vai fazer?” repetiu Yan.

“Charlotte, leva as crianças para outro cômodo?”

Charlotte pareceu aliviada por ter a chance de escapar. Cada criança presente foi até ela, que correu para o quarto.

Yan elevou a voz, “Vocês nos abandonaram!”

Eram tão inseguros quanto nós, pensou Sierra. Não que isso justifique o comportamento deles.

“Mão ou joelho?” perguntou a Skitter.

“Foda-se!” gritou Yan.

Ela virou convulsionando. Se debateu, puxando as mãos contra as patas pontiagudas com tamanha violência que abriu cortes rasos nas palmas. Parou tão rápido quanto começou, com os olhos arregalados.

Ela tinha sido mordida, mais de uma vez.

“Shaggy, mão ou joelho?”

Os olhos de Jay se arregalaram, mas ele falou calmamente: “Mão.”

Os olhos dele se arregalaram ao ver um espinho descendo pelo braço até a parte de trás da mão. Saltou como se tivesse levado um choque.

“E o cara com sotaque, mão ou joelho?”

Sugita olhou ao redor e foi na direção de Sierra, tentando pegar a faca na mesa de novo. Ela bloqueou, ele tentou empurrá-la de lado, e ela aproveitou a distração para dar um chute no estômago dele. Ele grunhiu e se curvou.

“Então, ambos,” disse a Skitter.

Sugita estava ocupadíssimo, ainda se recuperando do chute, sem conseguir reagir.

“Atacar minha gente? Burro. Atacar uma criança? Mais burro ainda. Considere minha área uma zona extremamente perigosa a partir de agora. Minhas insetos podem te ver, ouvir, e vou saber se você diminuir o ritmo ao sair, te dando alguns mordidas extras.”

O besouro saiu de Yan, usando as patas para pegar a arma segurando pelo gatilho. Foi para o lado da Skitter.

Yan, Sugita e Jay aproveitaram e se levantaram rapidamente, indo em direção à porta, sem sequer olhar para ela. Pararam ao ela fechar a porta com força.

“Aqui em Brockton Bay, não há refúgio seguro para vocês. Meus aliados controlam todos os distritos, territórios. Nenhum abrigo os acolherá, e nossas forças vão procurar por toda parte onde vocês possam tentar dormir. Antes que cheguem ao médico e tratem essas mordidas, meus contatos já terão espalhado a notícia. Os médicos podem até tratar vocês, mas terão que montar uma espécie de sala de espera, ou ajudar os profissionais. Se aparecerem, vão ser atacados. Pode ser um ataque direto, pode não ser. Confie em mim: vocês não estarão em condições de se defender.”

“Então nos condena a morrer?” Qualquer arrogância que Yan tinha antes foi substituída por uma expressão de medo de olhos arregalados.

“Não. Saia da cidade o mais rápido possível, e conseguirá ajuda em outro lugar. Tanto faz, desde que esteja fora da minha cidade. Se não se apressarem, vão ficar com cicatrizes feias.”

Skitter apontou para a porta, e as três saíram rapidamente. “Sierra, a cobertura.”

Ela se apressou em obedecer, entrando no vão da porta e puxando para baixo, fechando com trava na base. Depois, fechou completamente. “Acho que ainda tem umas crianças na rua com uma missão.”

“Aviso quando abrir de novo,” disse Sierra.

“Beleza.”

A Skitter dispersou os insetos ao redor do rosto e passou os dedos de luva pelo cabelo, arrumando-o. “Desculpe.”

“Está tudo bem,” respondeu Sierra, sem entender bem o motivo da desculpa.

“Não consegui focar nesse lugar e nos Nove ao mesmo tempo, e achei que esse lugar tinha perdido o sentido de existir.”

Isto doeu, mas Sierra não comentou. “Pode ser. Ainda temos corpos pra tirar daqui—”

“Vou cuidar disso hoje à noite.”

“Os Chosen têm se movido até as bordas da sua área, aqui e em outros lados, segundo o soldado da Tattletale.”

Skitter se deixou sentar. “Algo sério? Novos ataques?”

“Só ocupando o território, acho. Talvez causando problemas para minorias próximas, mas nada tão importante que eu tenha ficado sabendo.”

“Então eu lido com eles depois de uma tarde de descanso. Talvez abrir um diálogo antes de fazer algo mais sério.” A voz dela zumbia enquanto falava. Ela tirou a máscara que cobria a metade inferior do rosto.

“Sua voz. Ainda usando o truque de deixar seus bugs conversarem com você.”

“Desculpa,” disse a Skitter, a turba de insetos de repente silenciando. “Nem penso nisso mais.”

“Seu grupo é bem menor. Muitos morreram.”

Skitter apoiou os cotovelos nos joelhos, tirou os óculos e enterrou o rosto nas mãos.

Chorando?

Sierra hesitou. O que ela deveria fazer agora?

Ela se atreveu a avançar e tocou o ombro da garota. Parou ao ver o tapete de formigas, baratas e vespas.

“Tô bem,” disse Skitter, sem olhar pra cima. Tirou as mãos do rosto e se inclinou para trás. Não tinha sinal de lágrimas—os olhos estavam secos. Só cansada. “Você se importaria de fazer uma xícara de chá pra mim? Com leite, um pingo de mel.”

Sierra assentiu: “Lembro sim.”

Silêncio enquanto enchia a chaleira e a colocava no fogão. Ainda preciso levar a sopa. Sierra tentou observar Skitter discretamente. A garota removia os insetos da superfície do uniforme, das brechas na armadura. O enxame subia as escadas como uma massa única.

“Daquelas três… elas vão morrer?”

“Não. As picadas não foram de uma aranha reclusa-de-bolha. Doerão, vão inchar, e o trio provavelmente sairá da cidade procurando um médico. Mesmo que percebam que eu os enganei, acho que assustei eles o suficiente para não voltarem ameaçar de novo.”

“Ah.”

Dizem que tememos o desconhecido, pensou Sierra consigo mesma. Então por que ela me assusta mais quanto mais a conheço?

Ela trouxe chá na maior caneca que conseguiu encontrar para a patroa.

“As coisas vão melhorar agora?” perguntou ela. “Você não está preocupada com os Chosen?”

“Não. Acho que o líder deles foi embora, e depois de encarar os Nove, de alguma forma, não estou preocupada em lidar com eles.”

Encarar os Nove. Sierra tremeu um pouco.

“Não,” pensou em voz alta. “A maior ameaça que tenho vem de dentro da nossa organização.”

Isso fez Sierra hesitar. Será que a Skitter pretendia incluir ela nessa ‘nós’, ou era só uma frase vaga?

“Um aliado? Uma das outras pessoas com seus próprios territórios?”

“Não devia ter dito isso,” afirmou Skitter.

Houve uma pausa. Sierra pensou em como se desculpar, cuidar da sopa e ver Charlotte, mas antes ela falou. “Mas não. Não é um aliado. Pelo menos metade deles pode se envolver, e isso pode ficar bem feio, rápido. Mas acho que o maior problema agora é o cara no topo.”

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