
Capítulo 153
Verme (Parahumanos #1)
“Vai levar mais um ou dois minutos. Os dados precisam ser compilados e carregados. Não é meu trabalho, então optei pelo método de compressão mais lento e pesado que consegui. Vai demorar um pouco.”
“Tudo bem. Obrigado.”
Kid Win mudou de posição desconfortavelmente, ficando em silêncio.
Você não precisa se intimidar. Sou apenas um homem.
Legend olhava fixamente pela janela. Não sentiria saudades desta cidade. Não guardava memórias felizes aqui, e pouco tinha de que se orgulhar. Na maior parte do tempo, conseguia sentir que tinha feito a diferença, que o mundo era um lugar melhor por sua presença. Mas isso não era o caso aqui.
“Há quanto tempo você está nas Warrens?” ele perguntou, para puxar papo.
“Dois anos.”
“Eu vi seus registros.”
Kid Win encolheu-se.
“Não, não pense que vou falar coisa ruim. O vice-diretor responsável pelas Warrens, não consigo lembrar exatamente o nome dele, elogiou bastante sua habilidade de se relacionar com o público.”
“Se relacionar com o público? Acho que não fiz muito isso.”
“Algo sobre discursos para outros jovens na escola?”
“Ah. Isso não foi grande coisa.”
“O avaliador do seu desempenho parece achar que foi. Não lembro bem o nome dele, os terno começam a confundir um com o outro—”
“Vice-diretor Renick,” completou Kid Win.
“Sim, obrigado. Ele parecia achar que você tinha conexão com o público, e que fez isso melhor que qualquer um de seus colegas. Você foi sincero, aberto, honesto, e se destacou justamente pela postura que teve quando os estudantes começaram a se comportar mal e a hostilizá-lo.”
“A diretora Piggot me repreendeu por ter ameaçado sacar a arma.”
“Era algo que poderia ter saído muito mal, mas você acertou o tom e desarmou a situação com humor. Acho isso uma coisa boa, e os funcionários da escola também acharam. Os professores enviaram e-mails alguns dias depois, comentando o impacto positivo que teve sobre os alunos, até mesmo sobre os que estavam hostilizando você. E, quando digo você, quero dizer você especificamente.”
Kid Win encolheu os ombros, tocando algumas teclas no laptop para alternar diversas barras de progresso e gráficos. “Ninguém me falou nada sobre isso.”
“Que pena,” disse Legend, virando o olhar para a janela para aliviar um pouco a pressão que a própria presença dele parecia exercer sobre Kid Win. “A capacidade de se relacionar com o público é fundamental se você pretende seguir uma carreira trabalhando com o Protecionato.”
“É meio estranho alguém tão importante quanto você se importar tanto com um evento que eu mal lembro.”
“Estudo os registros de todo mundo com quem planejo trabalhar, e os seus também. Tento notar pontos fortes de cada um. Aquele evento ficou na minha cabeça quando revisava seus arquivos. Foi uma imagem mental muito fácil de montar, especialmente a parte do tiro.”
Kid Win sorriu um pouco.
“Você me lembra o Herói.”
A expressão do garoto esfriou. Ele ficou surpreso. “Sério?”
“Imagino que ele era bem parecido com você quando era mais novo.”
Kid Win ficou desconfortável.
“Pode falar sobre isso,” Legend garantiu. “Fica tranquilo. Faz tempo que ele morreu.”
“Me espelhei nele, mais ou menos.”
Legend observou o rapaz. Armadura vermelha e dourada, visor tintado de vermelho. Haviam adições que pareciam ter sido feitas mais recentemente, dado o pouco desgaste, mas se olhasse além disso, se imaginasse o garoto com um capacete cobrindo aquele cabelo castanho ondulado, trocando o vermelho por uma malha de ferro azul, poderia ver a semelhança.
“Consigo ver isso.”
“Não quis copiá-lo, nem usar a fama dele, nada disso. Comecei mais novo, quis fazer de forma respeitosa—” Kid Win parou quando Legend levantou a mão.
“Tudo bem. Acho que ele ficaria honrado.”
Kid Win assentiu, um pouco rápido demais.
“Ele foi o primeiro verdadeiro tinker, sabe.”
“Antes de descobrirmos que tinkers têm especializações,” acrescentou Kid Win.
“Já pensei nisso. A arma de desintegração, o jetpack, as armas sônicas, as fontes de energia e as explosivos que funcionavam surpreendentemente bem pelo tamanho. Suspeito que a especialidade dele estivesse relacionada à manipulação e ao aprimoramento de ondas e frequências.”
Os olhos de Kid Win se arregalaram. Olhou para o laptop.
“Reconheço essa expressão em outros tinkers. Foi uma inspiração repentina?”
“Mais ou menos. Na verdade, um monte de ideias sem jeito, todas ao mesmo tempo.”
“Não quero te distrair. Se quiser fazer uma anotação rápida do que veio à cabeça, não vou ficar ofendido nem um pouco.”
“Tudo bem.”
“Tem certeza?”
“Depois de tudo, acho que prefiro continuar conversando com você do que ficar anotando ideias que provavelmente não vão dar em nada.”
“Obrigado. Acho melhor não tentar copiar o Herói, não. É encorajador, se tivesse que colocar uma palavra, que você o admire e mantenha seu legado. Mas você tem sua própria especialização e seus pontos fortes.”
Kid Win assentiu. “Estou descobrindo isso agora. Passei um tempo tentando ser como outros tinkers e só me atrapalhei. Noventa por cento dos meus projetos nem chegam ao fim. Os que consegui, finalizei porque eram simples. Pistolas, a prancha voadora… bem, eu tinha uma prancha voadora. Copiei mais ou menos a abordagem do Herói. ‘Prancha’ ao invés de jetpack, mas fiz as armas, testei alguns raios de desintegração. Talvez um motivo pelo qual finalizei essas coisas seja porque sentiria como se estivesse desrespeitando o Herói se tentasse copiar o estilo dele e acabasse fazendo tudo errado.”
“Faz sentido,” falou Legend, principalmente para demonstrar que estava ouvindo.
“Mas, ultimamente, tenho relaxado com isso. Talvez ajude o fato de estarmos trabalhando duro. Estou cansado demais para seguir as regras que achava que deveria. Ainda preciso passar pelo laboratório, acho que minha cabeça iria pirar se não fosse. Mas estou mais improvisando. Confio na minha intuição e uso menos o computador para pegar números exatos e medidas.”
“Para compensar sua disgrafia?”
“Não sabia que você sabia disso. Também não sabia que o PRT tinha conhecimento.”
“Os talentos do Dragão fazem registros bem completos, desculpe.”
Kid Win franziu a testa, mudando a expressão ligeiramente ao fixar o olhar na mesa. Pareceu aceitar a ideia, porque prosseguiu. “De qualquer forma, acho que isso funciona para mim. Tenho a impressão de que tenho uma especialização, mas ela é mais uma abordagem do que um campo específico. Equipamentos com múltiplas configurações e usos, armas modulares, equipamentos adaptáveis a diferentes situações, acho que?”
“Isso é ótimo. O fato de você ter tido dificuldades e, ao mesmo tempo, ter descoberto suas forças do jeito difícil pode se tornar uma vantagem.”
“Uma vantagem?”
“Se você acabar liderando as Warrens ou uma equipe no Protecionato, isso significa que estará melhor equipado para ajudar colegas com seus próprios problemas.”
“Eu seria péssimo em cargo de liderança.”
“O Herói disse a mesma coisa, e acho que ambos concordamos que ele estava errado.”
Isso pareceu fazer Kid Win refletir.
“Pense bem.”
“Tudo bem,” respondeu Kid Win. “Não que eu não esteja muito agradecido pelo seu papo motivacional, mas você disse que estava com pressa e acho que terminamos aqui.”
“A compilação terminou?”
“Poderia aprimorá-la mais, tentar te colocar umas funcionalidades extras, mas o código e o hardware com que estou trabalhando aqui estão tão bem estruturados que acho que faria mais mal do que bem. É como o equivalente tecnológico de tentar colocar o creme dental de volta na bisnaga depois de espremê-lo… não dá, então talvez eu tente fazer uma outra bisnaga que saia de um lado, mas fica assim um enrosco, uma bagunça que não serve nem para o propósito original, que é passar creme dental.”
“Acho que entendo o que quer dizer. Obrigado por isso. Já foi carregado?”
“Sim, e foi um prazer, de verdade.” Kid Win sorriu.
Legend levantou-se e fez uma leve reverência.
As despedidas já tinham sido feitas e tinha tido a reunião com Emily. Os assuntos aqui estavam resolvidos. Ligou para casa para avisar que não ia conseguir jantar, mas que esperava voltar antes da meia-noite.
Um sorriso tranquilo surgiu em seu rosto. Chegava até a se sentir um pouco animado com a ideia de chegar em casa, envolver Arthur em um abraço. Quando cresceu, nunca pensou que iria se sentir animado ao pensar no marido depois de seis anos de casamento.
Mas tinha uma coisa para resolver primeiro. Essa ideia apagou um pouco o humor agradável que aquele momento tinha despertado nele.
“Então, vou indo. Você e eu,” prometeu a Kid Win, “deveríamos conversar novamente algum dia. Pode me contar se descobriu sua especialização, e se está liderando uma equipe.”
“Quem sabe na próxima vez que você estiver em Brockton Bay?”
“Quem sabe.” Legend sorriu, mas pensou, será que ele sabe? Toda essa região pode estar condenada.
Talvez Kid Win estivesse sendo otimista.
Legend virou-se, abriu uma janela e deixou-se levar pela flotação. Tirou um instante para se orientar, verificar qual direção era cima, baixo, norte, leste, sul e oeste, e então partir.
Potências eram categorizadas, e a classificação ‘breaker’ era usada para marcar poderes limitados ao próprio corpo e à sua proximidade. Apesar de inicialmente abranger pessoas que podiam se tornar mais fortes, mais densas, maiores ou mudar os materiais de que eram feitos, ela lentamente passou a incluir outros. Uma teoria que ganhava força sugeria que o poder do tipo breaker era um dos mais comuns, senão o mais frequente. Milhares de pessoas com poderes também desenvolveram defesas inatas que impediam que seus próprios poderes os ferissem. Os pirometristas, por exemplo, tendiam a ser resistentes ao fogo. Existiam desligamentos automáticos, biológicos e mentais, para várias outras habilidades. E além disso, havia outras adaptações tão sutis que quase não se percebia. Os dele não.
As habilidades de voo de Legend permitiam que ele acelerasse além do som e continuasse acelerando, sem limite definido. O limite suave era que ele tinha poderes do tipo breaker que evitavam que a aceleração o despedaçasse, transformando seu corpo completamente à medida que ganhava velocidade. A desvantagem era que seu cérebro também parava de funcionar cognitivamente enquanto a transformação ocorria. Ele nunca tinha se deixado ir tão rápido que perdeu a capacidade de controlar os movimentos conscientemente.
Havia outros benefícios também. Era melhor em captar e processar ondas de luz, independentemente do estado em que estivesse. Conseguia enxergar com perfeição até o momento em que um obstáculo ou a atmosfera bloqueavam sua visão.
Se um oponente atacasse e atingisse, instintivamente ele se transformava em sua forma de energia por um breve momento. Nesse estado, absorvia energia de vários tipos, incluindo a cinética de um soco ou de uma bala. Seus inimigos tinham que diminuir o ritmo, pois cada ataque era apenas uma fração da eficácia habitual. E, mesmo assim, uma parte desse dano mínimo era curada um segundo depois, enquanto usava a energia absorvida para consertar o corpo. Por outro lado, seus inimigos poderiam tentar atingí-lo com tanta velocidade e força que até um centésimo de segundo de contato fosse suficiente para tirá-lo da luta. Leviathan e Behemoth conseguiram desferir golpes dessa magnitude.
Siberian também consegue. Ele cerrando a mandíbula, aumentou a velocidade ainda mais.
Voou sobre o Oceano Atlântico, tão rápido que a água parecia uma superfície plana. Seus pensamentos se confundiam, e ele precisava focar no destino, deixando todas as demais preocupações de lado.
De certa forma, era revigorante, como uma limpeza dos encargos e dos milhares de problemas que tinha que administrar como líder do Protecionato. Ainda assim, sempre o assustava um pouco.
Foi um instante até parar completamente. Envolveu-se da sua forma física novamente.
Já tinha se perguntado se sua capacidade de voar era destinada a viagens interplanetárias. E se ele acelerasse continuamente? Seus poderes do tipo breaker permitiriam resistir ao vazio do espaço, sua visão seria ainda mais poderosa sem atmosfera bloqueando a luz a quilômetros... até mesmo o tédio de viajar anos a fio não seria problema, se sua mente consciente entrasse num estado de repouso.
Mas ele nunca testaria isso.
Ao voar, absorvera luz, calor e radiação ambiente, sentindo-se renovado. Até o desgaste mais leve foi reparado, seu corpo restabelecido ao máximo.
Quanto à mente, suas emoções, era diferente. Era como acordar numa cama quente, ao lado do homem que amava, só para sentir um peso no peito ao pensar no dia que viria.
Ele se aproximou do rig de petróleo, pousou em uma cerca, usando um pouco de sua habilidade de voo para manter o equilíbrio. Em todas as direções, até onde a vista alcançava, só havia água.
“Em breve,” disse.
Começou como um quadrado pálido no ar, que se desdobrou rapidamente, com três dimensões. Quando se abriu mais, apareceu a silhueta de um edifício no ar, enquanto o exterior desaparecia.
Ele flutuou adiante e pisou no piso de azulejo branco do corredor. Sentiu a distorção enquanto o espaço se ajustava, a rajada de vento ao regular a pressão do ar. Foi coisa de alguns segundos. Quando olhou para trás, o rig tinha desaparecido. Ali só havia mais corredor.
Continuou andando, confiante na própria habilidade de navegar pelas salas e corredores.
Ao abrir as portas duplas e entrar na sala de conferências, estranharam algumas olhadas de surpresa.
“Legend,” falou a Doutora, “pensei que estivesse ocupado em Brockton Bay.”
“Jack escapou.”
“Isso… é bem ruim,” disse Alexandria.
“De fato,” respondeu o Doutor.
Legend olhou ao redor. Alexandria recostou-se na cadeira, o capacete na mesa à sua frente, com uma cicatriz em forma de estrela no canto de um olho. Linda, Legend tinha certeza, mas mais como a beleza de uma leoa. Com seu uniforme preto e cinza, impunha respeito, tinha uma expressão régia.
Idolon era o oposto. Com capuz abaixado e máscara luminosa retirada, revelava um homem de meia-idade, sobrancelhas espessas, cabelo ralo e bochechas pesadas. Parecia mais um pai comum, vestindo-se de Eidolon para uma festa de fantasia do que o próprio Eidolon.
Havia outros ao redor da mesa. O Doutor: pele escura, cabelo preso num coque com palitos, usando um vestido branco curto sob um jaleco branco. O Homem dos Números, com seu laptop à frente, parecendo mais um executivo do que um dos parahumanos mais influentes e menos conhecidos do planeta. E também a mulher de terno preto, que nunca se apresentou nem foi apresentada. Sempre que Legend vinha aqui com os outros, ela estava lá com o Doutor.
Segurança, pensou. O Doutor acha que ela consegue encarar a gente se atacarmos.
Será que ela venceria? Legend tinha dúvidas. Conhecera muitas pessoas poderosas em sua carreira, e aprendeu a avaliá-las. Essa mulher não relaxava um instante, enquanto alguém confiante na vitória estaria mais disposto a baixar a guarda. Provavelmente ela deve estar apenas atrasando ou impedindo a gente se houver problema, dando tempo ao Doutor fugir.
“Jack escapou. E os Outras Nove?” perguntou o Doutor.
“Suspeitamos que Bonesaw e Siberian também escaparam, com Hookwolf agora como membro do grupo deles.”
“Compreendo.”
“Não é comum você mostrar interesse pelo que acontece fora do seu negócio e pesquisa. Alguma razão para a curiosidade?”
O Doutor sorriu. “Às vezes é difícil acompanhar o que acontece além dessas paredes.”
Legend concordou. Sentou-se à direita de Alexandria. Pensou por um momento, depois falou. “Tem algumas coisas que me preocupam.”
“Está relacionado ao motivo de você ter vindo hoje?”
“Sim. Começando pelo fato de que há uma precog em Brockton Bay bastante certa de que o mundo vai acabar brevemente.”
“Precogs são notoriamente pouco confiáveis. Eu digo isso a muitos clientes quando eles querem saber do futuro. Acho que já te falei. Ou foi com a Alexandria que conversei sobre isso?”
“Foi,” respondeu Alexandria.
“Você tem razão,” disse Legend, “A maioria dos precogs é vaga. Precisa ser, porque o futuro é incerto. Mas todos os relatos indicam que essa precog é muito específica. Mencionaram Jack Slash como o catalisador de um evento que deve acontecer em dois anos. Mais precisamente, ela disse que isso só ocorreria se Jack escapasse de Brockton Bay vivo, e ele conseguiu.”
Houve vários acenos ao redor da mesa.
“O que quer dizer quando pergunta se o mundo vai acabar?” perguntou Eidolon.
“De trinta e três a noventa e seis por cento da população morre em um espaço de tempo muito curto. Presumo que as consequências desse cenário levem a mais mortes a longo prazo.”
O Homem dos Números falou. “Dependendo das circunstâncias da morte, a queda de uma em três pessoas causaria mais vítimas. Falta de pessoal nos serviços essenciais, efeitos de decomposição na saúde, no clima e no ecossistema em grande escala, infraestrutura sociais desestabilizada… No melhor caso, a população da Terra cairia bastante em vinte anos, até atingir cerca de quarenta e oito vírgula seis por cento do que é agora. Três bilhões, trezentos e noventa e um milhões, oitocentos e três mil, quinhentos e quatro. Mais ou menos.”
“Esse é o melhor cenário?” perguntou Alexandria.
O homem encolheu os ombros. “É improvável que aconteça. Pelo menos o mínimo de mortos, sem corpos ou focos de incêndio ou incidentes nucleares descontrolados. Se fosse estimar, diria que cerca de setenta e dois por cento da população mundial poderia morrer. Além de um bilhão, novecentos e cinquenta milhões vivos. Mais da metade deles morreria nos vinte anos seguintes, e mais da metade dos que sobrevivessem morreria nos dez anos posteriores. Claro que são estimativas.”
“Claro,” disse o Doutor, “Precogs são pouco confiáveis. Suponho que essa garota não saiba exatamente como tudo isso acontece?”
“Não. O empregador dela não comentou nada sobre o assunto.”
“Vamos tomar providências,” disse Eidolon. “Evacuação, também vamos exigir controles automáticos de desligamento na rede elétrica e em instalações nucleares. Com os Endbringes por aí, faz sentido fazer isso. Assim, podemos reduzir os danos potenciais.”
“A menos que,” disse Alexandria, “os números que o precog deu já levem em conta que estamos conversando agora e tomando medidas extras. Se ela consegue ver o futuro, é bem possível que ela tenha visto exatamente essa reunião e tudo o que veio depois, por assim dizer.”
Isso foi um aviso sério.
“Vamos fazer isso mesmo assim,” afirmou Eidolon.
Legend e Alexandria concordaram com a cabeça.
“Vamos lembrar,” disse o Doutor, “que os números apontavam para uma situação terminal na marca de vinte e três anos. Se os Endbringes continuarem destruindo assim, não será sustentável. Teremos que recuar de áreas danificadas e perigosas, as populações vão se condensar, eles atacarão esses bolsões... e isso sem contar a possibilidade de que consigam algo grande nesse meio-tempo. Já discutimos cenários de crise: Behemoth provocando um inverno nuclear, Leviathan destruindo ou contaminando o abastecimento de água doce do mundo.”
“Você está dizendo que estamos já diante de uma situação de fim do mundo,” disse Alexandria, “E que isso só acelera o cronômetro.”
“Sim. Qualquer ação que tomarmos ainda será vital. Vai ajudar aqui, com esse cenário, mas se não acontecer, também ajudará a enfrentar os Endbringes.”
“Estamos assumindo que os Endbringes estão no centro dessa situação de fim do mundo?” perguntou Eidolon.
“Provavelmente,” respondeu Alexandria, “Mas não vamos descartar nada.”
“Contanto que isso seja realmente o que está acontecendo,” falou o Doutor.
“Não podemos simplesmente dizer que não,” declarou Legend. “Você tem precogs na sua equipe e entre seus clientes?”
“Alguns,” respondeu o Doutor. “Posso consultá-los sobre esse cenário do fim do mundo.”
Legend concordou. “Ótimo. Eidolon, quer tentar você também?”
“Se minha habilidade deixar. Ela só me fornece o que acha que preciso, não o que eu quero.”
“Precisamos de toda ajuda disponível. Vamos tentar entender como isso acontece, assim poderemos impedir ou mitigar os danos. Tem muitos cape com classificação de thinker. Divulgue, chame favores, ofereça favores. Qualquer coisa para obter mais informações.”
Houve acenos e sons de concordância de seus colegas do Protecionato e do Doutor.
Legend baixou um pouco o olhar, olhando ao redor da mesa. “Mudando de assunto… tinha outro ponto que quero falar, que surgiu durante minha estada em Brockton Bay.”
Todos o ouviram.
“Alexandria, acho que você já deve ter lido os relatórios. Não pareceu tão surpresa quando falei sobre a precog e seu cenário de fim do mundo, provavelmente já estudou minhas anotações aqui.”
A originalmente ela mesma se denominou após a Biblioteca de Alexandria, mas deixou de mencionar isso, preferindo deixar seus inimigos na escuridão. Por mais forte que fosse fisicamente, sua mente era igualmente poderosa. Você nunca esquecia um detalhe, absorvia informações rapidamente, lendo duas páginas de um livro com um único olhar, e aprendia rápido, retendo tudo que lia. Ela dominava as principais línguas, pelo menos dez estilos de artes marciais, e se comparava aos melhores não-tinkers no mundo em informática. Ela não só era classificada bem na categoria brute, como também tinha altas pontuações nas categorias mover e thinker.
“Li o que você forneceu, embora não saiba exatamente a que você se refere.”
“Siberian.”
Ela mostrou uma expressão mudando, viu Eidolon estremecer como se tivesse sido implicitamente atingido.
“Vou explicar para quem não tem acesso aos registros do PRT ou não tem tempo de checar. Siberian NÃO é um capa da classe brute. Siberian é um ‘mestre’, e a mulher de risca é uma projeção. Eu vislumbrei o homem que cria a projeção antes de ele recuar.”
“E?”
“E ele tinha a marca do Cauldron tatuada na parte de trás da mão esquerda, um cisne na direita.”
Com exceção dele, do Homem dos Números e da mulher de terno, todos presentes reagiram com surpresa.
“Você não acha que aquilo era William Manton?” perguntou Alexandria. “Mas por que a marca na mão direita dele?”
“Não sei. Não faz sentido em muitos níveis. Um dos principais pesquisadores de parahumanos, chegando a ser um dos Nove, se tornar um deles?”
“Aconteceu com o Alan. Com o Mannequin,” disse Eidolon, com a voz baixa.
“Não há registros,” respondeu Alexandria, “Ninguém que indique que ele estivesse presente nos locais onde o protocolo de quarentena foi aplicado.”
Ela saberia. Ela lia cada registro, memorizava tudo com perfeição.
“Ele pode ter furtado a identidade de alguém.”
Alexandria assentiu. “Verdade.”
“Temos confirmação de que ele está vivo,” disse Eidolon, em tom baixo. “Suspeitávamos, mas—”
“Fizemos suposições, e erramos feio. É isso que me preocupa.” Legend olhou fixamente para o Doutor. “Vê, a gente vinha pela suposição de que William Manton, desde que saiu do Cauldron até hoje, continuou seu trabalho. A gente achava que ele viajava pelo mundo, experimentava em humanos, dando poderes com mutações físicas como efeito colateral, e depois libertava as vítimas com o símbolo do Cauldron tatuado nele. Ou pelo menos, foi isso que você nos contou.”
“Quer dizer que menti?” perguntou o Doutor. Ela parecia nem um pouco abalada.
“Olhei as linhas do tempo. Não é provável que William Manton estivesse fazendo experimentos para dar tentáculos a uma garota em Illinois ao mesmo tempo em que Siberian atacava pessoas em Miami. Além do mais, ele parecia incapaz de cuidar de si mesmo, quanto mais de fazer uma pesquisa.”
Ele olhou para os outros. A testa de Eidolon estava franzida de preocupação, enquanto Alexandria parecia pensativa.
“O padrão não bate,” disse, para reforçar. “Isso me leva a perguntar quem realmente está fazendo experimentos com humanos.”
“A gente não precisa fazer experimentos em humanos. O Homem dos Números consegue calcular as chances de sucesso de qualquer fórmula.”
“Talvez, mas quem exatamente está fazendo esses experimentos? Quem conhece Cauldron o suficiente para tatuar ou marcar alguém com o símbolo, enquanto tem acesso a esses recursos?”
“Não somos nós,” falou o Doutor.
Legend a estudou. “E você, não sabe como William Manton está ligado a tudo isso?”
“Estou tão intrigado quanto vocês. Se isso aliviar suas suspeitas, posso examinar esse complexo,” sugeriu o Doutor.
“Você e eu sabemos que esse lugar é grande demais para explorar em uma vida,” respondeu Legend.
“Verdade.”
“E, se pensarmos que você é a culpa, nada impede que seu porteiro mantenha um caminho para outra realidade onde tenha reféns escondidos. Isso explicaria por que não há muitos casos de pessoas desaparecidas ligados aos casos-fator-cinqüenta e três, se ela estiver simplesmente tirando elas de outra realidade e colocando aqui quando termina.”
Ela abriu os braços. “Não sei o que posso dizer para convencer vocês.”
“Você confia em mim, não confia?” Alexandria perguntou.
“Sim,” respondeu Legend.
“Treinei meu estudo de linguagem corporal. Consigo olhar na cara de uma pessoa, na postura, e saber se ela está mentindo. E posso dizer que a Doutora está falando a verdade.”
Legend suspirou. “Certo.”
“Estamos de acordo, então?” perguntou a Doutora.
Legend assentiu. “Desculpe acusa-la.”
“É compreensível. Essa situação não faz sentido.”
“Não posso acrescentar nada aqui, e minha habilidade não está oferecendo nada que possa ajudar a resolver esse mistério específico,” falou Eidolon. “Acho que temos mais uma questão sem resposta na cabeça.”
Legend suspirou. “Mais de uma. William Manton e sua ligação com Siberian, a tatuagem na mão direita dele, nosso cenário de fim do mundo e o papel do Jack como catalisador. São muitas coisas pra contar.”
“Nada disso precisa ser resolvido hoje,” disse Alexandria. “Vai pra casa. Vamos refletir, criar um plano e uma explicação provável.”
Legend concordou. A ideia de segurar Arthur e Keith em seus braços deu uma energia renovada nele.
A doutora voltou-se para Eidolon. “Quer mais um reforço?”
“Provavelmente mais um ataque dos Endbringes, melhor eu estar no meu melhor.”
Enquanto o grupo conversava e planejava, Legend levantou-se e saiu sem despedidas.
Uma abertura entre realidades se abriu no meio do corredor branco de alabastro, e ele entrou nela. Passou pelo portal até o rig de petróleo, e começou seu voo de volta a Nova York.
Mas ele não foi pra casa.
Ao invés disso, Legend desceu sobre o teto do prédio da Proteção de Nova York. Um scanner feito pelo tinkerer confirmou sua identidade e abriu as portas a tempo dele passar.
Ele acenou para quem passou, cumprimentando discretamente. Quando perguntaram como tinha sido, respondeu de forma educada, mas breve, deixando claro que não queria prolongar a conversa.
Chegou ao escritório, fechou a porta.
Cuidadosamente, iniciou um sistema operacional virtual, carregado com os bancos de dados e programas padrão do PRT. Nada que deixasse rastros no sistema normal dele. Desconectou os cabos de fibra ótica e desativou o Wi-Fi.
As precauções eram pouco úteis se já estivesse sendo vigiado, mas então o fazia se sentir melhor.
Depois de isolar seu computador de influências externas, retirou um cabo USB de uma gaveta, conectou uma ponta ao teclado. Levantou a mão até uma orelha e tirou um fone de ouvido. A outra ponta do USB conectou-se ao fone.
Uma arte ASCII com o rosto de Kid Win apareceu ao conectar o fone. Ao lado, a mensagem: ‘obrigado’.
Ele não conseguiu sorrir.
Problemas de autoconfiança de lado, Kid Win criou uma interface fácil de usar. Legend clicou no botão amarelo e esperou. Vozes começaram a tocar pelos alto-falantes. Ajustou o volume e escutou.
“Suspeitamos que Bonesaw e Siberian também escaparam, com Hookwolf como novo membro do grupo.”
“Entendo.”
“Alguma razão para essa curiosidade?”
“Às vezes é difícil acompanhar o que rola além dessas paredes.”
As palavras começaram a aparecer na tela, transcrevendo o que era dito. O programa pausou, o ícone do botão amarelo reapareceu. Uma palavra vermelha surgiu abaixo da última frase: MENTIRA.
Uma mentira vaga, mas não uma mentira definitiva. Seu pulso acelerava ao apertar o botão amarelo de espera para retomar a gravação.
“Não precisamos fazer experimentos em humanos. O Homem dos Números consegue calcular as chances de sucesso de uma fórmula qualquer.”
MENTIRA.
Ele clicou novamente.
“…Quem conhece Cauldron o suficiente para tatuar ou marcar alguém com o símbolo enquanto tem acesso a esses recursos?” Sua própria voz saía pelos alto-falantes.
“Não somos nós,” respondeu a voz do Doutor.
MENTIRA.
Ele ficou parado, horrorizado, encarando a tela.
Cauldron tinha dado a ele seus poderes, fornecido o que precisava para estar no topo, liderar a maior equipe de super-heróis do mundo. Não queriam muito em troca. Ele sempre ficava de olho para que ninguém fosse curioso demais com o Cauldron, desviando a atenção se fosse necessário. Facilmente, favoreceu alguns dos principais clientes do Cauldron. Estava pronto para defender o Cauldron, caso isso se tornasse público. Por uma questão do bem maior, dizia a si mesmo. Não haveria outra forma de operação — a não ser que os governos do mundo brigassem para criar exércitos de pessoas com poderes e interferissem na organização.
Ele sabia que isso funcionaria, claramente não estava em um lugar que pudesse ser invadido ou tomado por forças militares, mas não atingiria tantos quanto gostaria, e os capes passariam a ser vigiados, por conta da possibilidade de usarem seus poderes de forma ilegítima.
Ele tinha se compromissado, pois o Cauldron era essencial. Com a ascensão dos Endbringes e ameaças como as Nove Carniceiras, o mundo precisava de heróis. O Cauldron criava mais heróis do que vilões, pois não passava por traumas como os eventos de ativação. Mesmo aqueles que caíam no crime, o Cauldron conseguia manipular usando favores do contrato para direcionar seus caminhos. Mais heróis significavam melhores chances de todos ao lutar contra os Endbringes e demais ameaças maiores.
No entanto, ele teve um pensamento: talvez isso não fosse verdade. Se o Doutor mentia sobre experimentos humanos, também poderia ter mentido sobre esses detalhes.
Experimentar em larga escala, sem o conhecimento das vítimas, ou talvez sem querer fazer essa conexão, ele ajudou de certa forma a facilitar tudo isso.
Sua mão tremeu ao alcançar o mouse. Clicou na tecla mais uma vez, torcendo para que houvesse alguma coisa que pudesse convencê-lo de que tudo aquilo foi um engano, uma leitura incorreta, uma pista falsa de que o Cauldron era de fato uma força do bem. Armsmaster tinha dito que seu sistema de detecção de mentiras era imperfeito? Ou Kid Win gerou erros no código. As alterações tinham sido pequenas, mas abrangentes: Legend não queria ser informado em tempo real, para não entregar uma pista.
“E você não sabe como William Manton está ligado a tudo isso?”
“Estou tão intrigado quanto vocês.”
MENTIRA.
Ele sabia o que vinha a seguir, com a conversa ainda fresca na cabeça. Não queria apertar o botão novamente, mas não tinha muitas alternativas.
“Treinei meu estudo de linguagem corporal. Consigo olhar na cara de uma pessoa, na postura, e saber se ela está mentindo. E posso dizer que a Doutora está falando a verdade.”
A última frase apareceu em letras vermelhas, com a palavra: MENTIRA.
Alexandria sabia. Claro que sabia. Sua habilidade de ler as pessoas, seu vasto acervo de conhecimentos, sua capacidade de perceber padrões. E ela era a mais disposta a seguir o caminho difícil, feio. Desde que Siberian a hospitalizou.
Clique.
Sua própria voz. “Sinto muito por acusar você.”
MENTIRA.
Ele estava mentindo? Acreditava que sim. Não gostava da Doutora, e nunca realmente sentiu pena por suspeitar dela. Desde que viu William Manton com as Nove Carniceiras, tinha dúvidas sobre o que realmente acontecia.
Essas dúvidas se tornaram convicção quando foi ao hospital visitar Battery. Uma das aranhas mecânicas de Bonesaw cortou o traje dela. Sabia exatamente a desorientação, as alucinações e as ondas de paranoia que ela teria ao ser intoxicada pelo gás. Enquanto revirava e tentava se manter na realidade, provavelmente se deixou vulnerável a ataques adicionais. De qualquer modo, uma das aranhas injetou nela um veneno que Bonesaw havia criado.
A morte dela foi lenta, dolorosa e inevitável. Foi uma vingança que visou atingir aqueles pontos na sua vítima que milhões de anos de evolução ainda não haviam aperfeiçoado: veneno de plantas ou animais. Estirado na cama do hospital, delirando, Battery usou frases interrompidas para contar sobre o Cauldron, sobre ter comprado seus poderes e sobre sua participação na fuga de Siberian e Shatterbird. Planejava perseguir as Nove, ajudar, e depois matar um ou os dois vilões. Pediu a ele que confirmasse se tentou fazer a coisa certa, que encontrasse as respostas que ela não conseguiu. Ele tentou, o melhor que pôde.
Ela morreu pouco tempo depois.
Ele quase não conseguiu clicar no botão amarelo novamente. Alexandria tinha mentido para ele. E isso só deixou…
Clique.
Voz do Eidolon vindo dos alto-falantes. “Não posso acrescentar nada aqui, e minha habilidade não está oferecendo nada que possa ajudar a resolver esse mistério específico. Acho que temos mais uma questão sem resposta na nossa frente.”
A palavra apareceu em letras vermelhas na tela. Poderia ser seu próprio pulso pulsando atrás das pálpebras, mas as letras pareciam vibrar junto a um batimento de coração próprio. MENTIRA.
“Todas as mentiras,” sussurrou Legend para si mesmo.